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ARTE POSTAL - MEIO COMO MENSAGEM
Antonio Miranda
Presidente da Sociedade Brasileira de Cartofilia
Nota introdutória: escrevi este texto para a apresentação de uma exposição de Arte Postal que realizamos no Museu dos Correios, a convite da museóloga Lais Scuoto, no final da década de 80. Vai exatamente como era, sem retoques.
O fenômeno da arte postal -"mail art” - parece responder à necessidade de abertura da atividade artística para um movimento participativo amplo, aberto e inter-pessoal, onde os serviços postais funcionam como meio apropriado (isto e, no sentido literal do termo).
“Atividade de clara mobilização internacional, marcada pelo quantitativismo, com a dinâmica de seus gestos-signos e roais raramente com seus objetos-signos, a Arte Postal espraiou-se num espectro extremamente vasto de conteúdos, utilizando todo e qualquer veículo de comunicação disponível na sociedade de consumo. Se esse conglomerado anárquico de mensagens irreverentes transtorna , ê porque a civilização esta transtornada', observa Walter Zanini (2), Curador Geral da XVI Bienal de São Paulo (1981), organizador da grande mostra de Arte Postal durante a referida Bienal.
"A ARTE CORREIO - Mail Art -, Arte por correspondência, Arte à Domicílio ou qualquer outra denominação que receba não é mais um "ismo" e sim a saída mais viável que existia para a arte nos últimos anos e as razões são simples: anti-burguesa, anti-comercial, anti-sistema, etc." acredita Paulo Bruscky (1).
A arte postal instaura a anarquia no processo produtor de arte, à margem do mercado impositor de consumo do objeto artístico como propriedade socializada, acumulativa e especulativa. A arte postal não é vendida pelo artista, é "disseminada" de maneira desordenada, espontânea, como manifestação de protesto, de sinal de vida, de mensagem política, ideológica, individualista ou coletivista. É a arte em movimento, mais que movimento artístico, apesar de que a arte postal, como os demais movimentos artísticos, também tem os seus ideólogos, seus manifestos, suas exposições, seus teóricos e críticos e até... comercialização!
Produto artesanal, em princípio descartável, instantâneo, não-colecionâvel, esgotando-se no ato de mandar e receber uma mensagem, a arte postal aos poucos se institucionaliza, se regula por normas ditadas pela moda, pela liderança dos grupos de criadores mais ativos, responsáveis (espontâneos) pela definição de seus dogmas, suas formas e modalidades.
"A obra foi criada para ser enviada pelo correio e este fato condiciona a sua criação - dimensões, franquia, peso, natureza da mensagem, etc”, afirma Bruscky (l)
À princípio um gesto clandestino; aos poucos a "mail art" salta para as colunas dos jornais, para as galerias de arte. E nem é coisa nova. Os "dadaistas", no início do século, em sua ação demolidora da arte novecentista de cavalete e de parede, já preconizavam uma arte desmistificada, aberta e múltipla, fora dos "ismos e da cronologia dos estilos artísticos. Os "futuristas" italianos do início da década de 1910 e do pós-guerra já efetuavam correntemente a "arte postal” como expressão artística, como atesta a pesquisa de Giovanni Lista(3), em sua obra "L'art postal futuriste". Os seguidores de Marinetti, sobretudo Balla e o próprio Movimento Futurista, nos anos 20, já editavam "Cartolinas futuristas" e elaboravam cartões-postais "mail art" nos mesmos moldes dos atuais, ou seja, com "collages", a xilogravura, a serigrafia, aplicação de selos usados, "intervenções" ou "desenhação" ("cartas manipuladas") sobre cartões comerciais, transformando-os em peças únicas, geralmente circuladas pelo correio.
É atribuído a Marcel Duchamp, o genial artista francês - até que alguma descoberta revele outro pioneiro -, a criação da Arte Postal, por ter enviado, em 6 de fevereiro de 1916, um texto dalilogratado sobre quatro cartões postais pegados borda com borda (1).
Apollinaire e Mallarmé, dois poetas caligramáticos, também produziram cartões-postais enigmáticos, erráticos, para serem decifrados pelos funcionários do correio antes de serem entregues aos destinatários.
"Entre os múltiplos meios concebidos como extensões da arte e do artista, a Mail Art é uma estrutura espaço-temporal complexa que absorve e veicula qualquer tipo de informação ou objeto, que penetra e se dilui no seu fluxo comunicacional, gerando confusão sobre o que é e o que não é Mail Art", observa Júlio Plaza(2). "Entretanto, não interessa aqui definir o que é e não e Mail Art, pois nesse tipo de arte predomina o espírito de mistura de meios e de linguagens e o jogo é precisamente invadir outros espaço-tempo". E conclui: "O artista da Mail Art, então, tem a seu dispor o mundo
da informação, interagindo dentro dele, criando e recriando, tradu-
O artista "mailarista” desmaterializa a arte, despojando-a de seu aparatus, de sua intencionalidade de objeto, de sua durabilidade, bastando-se com a sua função documental, informacioïial, inter-pessoal, comunicativa. Parafraseando Vinicius de Moraes, a arte postal é eterna enquanto comunica. No entanto, por detrás desta informalidade, é possível até que ela se materialize, transcenda, se converta em objeto colecionável, em produto comercializável por terceiros... Afinal, quanto custaria hoje, em um leilão de arte, um “despretensioso" cartão-postal elaborado por Balla e enviado a Michel Seuphor, circulado pelo correio em 1926?
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"Com esses elementos, a Mail Art cria um circuito dentro do sistema da arte, ampliando-o, mas não sem contradições, uma delas é sua penetração e apropriação por outros circuitos, mesmo institucionais. É claro que não é da natureza de Mail Art entrar em ritmo de exposição para o grande publico: quando isto ocorre a Mail Art se satura na experiência do macrogrupo e a informação não e vista de uma forma fragmentária, mas em simultaneidade” (2).
O comércio da arte se apropria do objeto artístico e se instaura como parte indissociável do fenômeno da existência da própria atividade artística, como seu sucedâneo natural. O colecionismo também se impõe na medida em que a arte postal se materializa em peças de interesse artístico, cultural, informativo, documental, nos limites da historiografia da arte, da cartofilia e da própria filatelia.
Julio Plaza ê de opinião que Arte Postal "não projeta a arte para o futuro, mas para o presente, e quase sempre para o eixo da história", espécie da "arte do aqui-agora", assertiva verdadeira até o ponto em que o artista-criador visa apenas o processo comunicativo, mas falsa na medida em que a peça criada pelo artista "mailarista" acaba na parede da galeria de arte, na coleção do cartofilista ou como relíquia da história postal...
Para Ulisis Carrión, líder do Erratl Art Mail Intemational System, "a Arte Postal usa o correio como suporte, assim como as outras formas usam tela, papel, ferro e madeira" (2). Em verdade, a Mail Art usa papel e cola, tinta ou recortes, isto é, os suportes mais convencionais de qualquer artista e o correio se impõe como via de comunicação. Em vez da parede do museu, dos espaços criados para as exibições, o artista "mailarista" se comunica com o seu publico por via postal, diretamente, sem interlocutores, não raras vezes esperando (e recebendo) resposta, em cadeia, em um exercício lúdico.
Carrión se pergunta de que maneira o adjetivo postal modifica o substantivo arte e não dá uma resposta cabal, Ele acaba achando mais importante saber se e possível verdadeiramente fazer arte através da Arte Postal. Também não oferece uma resposta plausível mas deixa entender que depende mesmo da capacidade/habilidade do criador, na composição harmônica de suas peças, que serão enviadas pelo correio. Sem querer, sugere que, como toda obra de arte, o artista "mailarista", ao fim e ao cabo, deve ter talento (caso contrário, não terá resposta de suas tentativas de trocas de mensagens, nem o seu trabalho será reconhecido e guardado.
Em síntese, só é arte postal porque é, em ultima instância, uma peça artística; e só é postal porque efetivamente circulou pelo correio.*
BIBLIOGRAFIA
1. BRUSCKY, Paulo. Arte Correio- Hoje a arte ê este comunicado.
Jornal Raiz, Aracaju, fev. 87. p. 9-10.
2. CATÁLOGO DE ARTE POSTAL. XVI BIENAL DE SÃO PAULO, 16 de outubro
a 20 de dezembro de 1981. São Paulo, 1981. Vol. II. 136 p.ilus,
3. LISTA, Giovanni. L'art postal futuriste. Paris, Éditions Jean-Michel Place. 1979. 77 p. ilus.
*”Não circulou pelo correio”, em termos cartofílicos e filetélicos, significa que a peça foi carimbada e circulada pelo correio. Talvez para o artista e colecionador de arte, o fato de ter circulado, inclusive em envelope, pelo correio, justifique o epíteto “postal”.
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