Tradução de Antonio Miranda
Quien pueda, seer suyo, non sea enajenado.
Juan Ruiz, Arcipreste de Hita (siglo XVI)
La esencia del hombre no es una abstración
inherente al individuo. En su realidad, ella
es el conjunto de lãs relaciones sociales.
Carlos Marx (siglo XIX)
Entrarme en el secreto de mi pecho
y platicar em él mi interior hombre,
do va, do está, si vive ó qué se há hecho.
Francisco de Aldana, el Divino (siglo XVI)
Eu, o homem, perdido
fabricando os estranhos objetos,
tão longe do meu ser,
que vão em mãos que nunca saberei
e enriquecem
homens qu’eu não vejo,
homens que me não falam,
que distante estão
e não obstante
se apoderam da vida minha,
desta vida
mais pura que a sua,
ligada à terra,
à nuvem e ao pássaro,
próxima dos homens,
vida de carne e osso verdadeiros
- e não de metal frio –
e que move as máquinas,
o trator, o arado,
multiplica-se
em cimento e em torre,
em pão e trigo,
em tudo quanto o homem
levanta e edifica.
E que somente,
no fundo mais profundo,
desierto estoy de mí.(1)
Deserto de mim estou.
Despojado
Do eu mais verdadeiro,
o que minha mãe
entregou-me quando menino
e que cresceu
entre adversidades.
Ah, como é triste
a solidão de mim, este deserto
do próprio ser! Ah, como dói
esse estar longe e disperso
enfim entre as coisas!
Porém buscando
de mim mesmo perdida companhia,
em outro ser me encontro, somente
no fundo do amor continuei vivo,
que apenas
abrindo com a chave da entrega
um outro humano mundo despojado
como eu do próprio ser, também deserto,
é coisa estranha mas talvez dessa maneira
en dulce olvido de mi mismo quedo. (2)
Você tem, amor, a chave da alegria
para o homem que vive no deserto
do próprio ser, dele mesmo desamparado,
entre máquinas frias e tormentos,
o sangue frio pelo gelo ameaçado,
em metal frio tornando-se seu corpo,
sua vida despojada em outras vidas
que não têm sua luz, seu humano acento?
Tem que buscar a solidão alheia
que irrompe e vem da mesma fonte
que a nossa solidão: um mundo torpe
transforma homens solitários em feras,
mas o homem é mais forte — quando quer —
para buscar os demais homens. No entanto
até consigo mesmo ele briga:
híceme guerra contra mí. (3)
Eu fiz a guerra contra mim,
guerra pelo sim, pelo não, contra tudo e nada,
em turbilhão, em sombra e em abismo,
guerra voraz, talvez desgrenhada.
Quando começou, por que foi declarada,
como chegou tamanho cataclismo?
Como cresceu a gigantesca onda
Em que quase eu mesmo me afogo?
Quero a paz, quero a paz comigo,
não estar mais metido na contenda
de um eu com outro eu em que se dilaceram.
Ser sozinho, ser meu bom amigo,
ou bem ser outro que cabal me entenda,
mas nunca que airados se desgarram.
Busca o homem sua paz e não a encontra.
quer ser o seu próprio amigo
mas há quem o lance contra si, deserto
o obrigam a viver de sua presença;
longe, o próprio coração, a mente;
em ausência de si quando só vive:
nem a lembrança de si que o console!
Mas não achará sua própria companhia
Aquele que nos demais não se ampara.
A solidão é fortaleza que nos cerca,
mas agora juntos estaremos
todos unidos contra a solidão. (4)
Todos unidos
na conquista desse ser de todos
que a todos nos arrancam e que vive
longe de cada peito em que vivera,
disperso entre as coisas, os parafusos
e rodas e engrenagens e outras vezes
refém de uma palavra, idéia alheia,
refinado espelhismo. Somente
todos os homens juntos venceremos
a própria solidão de cada um.
O mundo não será mais de homens sós,
desertos de seu ser, se habitados
cada um por todos, da vida
dona de si que cada um carrega.
- (1) Francisco de Quevedo (século XVI)
- (2) Francisco de Figueroa (século XVI)
- (3) Francisco de Torre (século XVI)
- (4) “Nous serons tous unis contre la solitude”.
Paul Éluard (século XX), em dedicatória ao poeta Carlos Augusto Léon.
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