Polígrafo uruguaio mais conhecido por seus contos e romances traduzidos a muitos idiomas. Autor de 80 livros: romances, contos, dramaturgia, roteiros para cinema. “Gracias por el fuego” (1960) e “La tregua” são as suas novelas mais conhecidas, esta última levada ao cinema. Mas sua obra mais exuberante é a poesia, com 33 títulos. Nasceu em 1920, viveu exilado doze anos em vários países a partir de 1973 e faleceu em 17 de maio de 2009, aos 88 anos de idade. É um dos escritores latino-americanos mais conhecidos e lidos na atualidade. É autor de um livro de haikais ou haikus, de onde selecionamos e traduzimos alguns exemplos. A estrutura do haikai comprende três versos de 5-7-5 sílabas acentuadas. O autor (se) explica:
“En mi caso particular, es obvio que no me he puesto a imitar a poetas japoneses, ni siquiera a incorporar sus imágenes y temas preferidos. Apenas he tenido la osadía de introducirme en esa pauta lírica, pero no apelando a tópicos japoneses sino a mis propios vaivenes, inquietudes, paisajes y sentimientos, que después de todo no difieren demasiado de mis restantes obras de poesía.
Encerrar en 17 sílabas (ya además, con escisiones predeterminadas), una sensación, una duda, una opinión, un sentimiento, un paisaje, y hasta una breve anédocta, empezó siendo un juego. Pero de a poco uno va captando las nuevas posibilidades de la vieja estructura. Así la dificultad formal pasa a ser un aliciente y la brevedad una provocativa forma de síntesis.” Mario Benedetti.
Todos los 224 haikais de Mário Benedetti pueden ser leídos en su libro RINCÓN DE HAIKUS. Buenos Aires: Editorial Sudamericana, 2000. 236 p. ISBN: 950-07-1835-9
EL PUENTE
Para cruzalo o para no cruzarlo
ahí está el puente
en la otra orilla alguien me espera
con un durazno y un país
traigo conmigo ofrendas desusadas
entre ellas un paraguas de ombligo de madera
un libro con los pánicos en blanco
y una guitarra que no sé abrazar
vengo con las mejillas del insomnio
los pañuelos del mar y de las paces
Ias tímidas pancartas del dolor
las liturgias del beso y de la sombra
nunca he traído tantas cosas
nunca he venido con tan poco
ahí esta el puente
para cruzarlo o para no cruzarlo
yolIo voy a cruzar
sin prevenciones
en la otra orilla alguien me espera
con un durazno y un país
(De Preguntas al azar – 1984-1985)
SOY MI HUESPED
Soy mi huésped nocturno
en dosis mínimas
y uso la noche
para despojarme
de la modestia
y otras vanidades
aspiro a ser tratado
sin los prejuicios
de la bienvenida
y con las cortesías
del silencio
no colecciono padeceres
ni los sarcasmos
que hacen mella
soy tan solo
mi huésped
y traigo una paloma
que no es prenda de paz
sino paloma
como huésped
estrictamente mío
en la pizarra de la noche
trazo una línea
blanca
(De La Vida ese Parentesis)
POR QUE CANTAMOS
Si cada hora viene con su muerte
si el tiempo es una cueva de ladrones
los aires ya no son los buenos aires
la vida es nada más que un blanco móvil
usted preguntará por qué cantamos
si nuestros bravos quedan sin abrazo
la patria se nos muere de tristeza
y el corazón del hombre se hace añicos
antes aún que explote la vergüenza
usted preguntará por qué cantamos
si estamos lejos como un horizonte
si allá quedaron árbores y cielo
si cada noche es siempre alguna ausencia
y cada despertar un desencuentro
usted preguntará por qué cantamos
cantamos porque el río está sonando
y cuando suena el río / suena el río
cantamos porque el cruel no tiene nombre
y en cambio tiene nombre su destino
(De Retratos y Canciones)
EN PIE
Sigo en pie
por latido
por costumbre
por no abrir la ventana decisiva
y mirar de una vez a la insolente
muerte
esa mansa
dueña de la espera
sigo en pie
por pereza en los adioses
cierre y demolición
de la memória
no es un mérito
otros desafían
la claridad
el caos
o la tortura
seguir en pie
quiere decir coraje
o no tener
donde caerse
muerto
(De A Ras de Sueño, 1967)
TEXTOS EM PORTUGUÊS
Versão de Antonio Miranda
e se no crepúsculo
o sol era memória
já não me lembro
as religiões
não salvam / são apenas
um contratempo
o pior do eco
é quando diz as mesmas
barbaridades
tem poucas coisas
tão ensurdecedoras
como o silêncio
durante o sono
os amantes são fiéis
como animais
passam as nuvens
e o céu fica limpo
de toda culpa
as plantas ouvem
se a gente elogia
se tingem de verde
em todo idílio
uma boca é beijada
a outra beija
De
MÁRIO BENEDETTI ANTOLOGIA POÉTICA.
Tradução de Julio Luís Gehlen.
Rio de Janeiro: Record, 1988
ISBN 85-1-033043-3
O tradutor confessa que traduziu “alguns poemas de Mario Benedetti, selecionados mais pelos olhos da sensibilidade do que pelo dedos da razâo”. Valeu o esforço. O público brasileiro pode, então, ter acesso a uma parcela significativa da obra do autor uruguaio, numa antologia que merece ser lida, da qual damos apenas uma mínima parcela:
A PONTE
Para cruzá-la ou não cruzá-la
eis a ponte
na outra margem alguém me espera
com um pêssego e um país
trago comigo oferendas desusadas
entre elas um guarda-chuva de umbigo de madeira
um livro com os pânicos em branco
e um violão que não sei abraçar
venho com as faces da insônia
os lenços do mar e das pazes
os tímidos cartazes da dor
as liturgias do beijo e da sombra
nunca trouxe tanta coisa
nunca vim com tão pouco
eis a ponte
para cruzá-la ou não cruzá-la
e eu vou cruzar
sem prevenções
na outra margem alguém me espera
com um pêssego e um país
(De Preguntas al azar – 1984-1985)
SOU MEU HÓSPEDE
Sou meu hóspede noturno
em doses mínimas
e uso a noite
para despojar-me
da modéstia
e outras vaidades
procuro ser tratado
sem os prejuízos
das boas-vindas
e com as cortesias
do silêncio
não coleciono padeceres
nem os sarcasmos
que deixam marca
sou tão-só
meu hóspede
e trago uma pomba
que não é sinal de paz
mas sim pomba
como hóspede
estritamente meu
no quadro-negro da noite
traço uma linha
branca
(De La Vida ese Parentesis)
POR QUE CANTAMOS
Se cada hora vem com sua morte
se o tempo é um covil de ladrões
os ares já não são tão bons ares
e a vida é nada mais que um alvo móvel
você perguntará por que cantamos
se nossos bravos ficam sem abraço
a pátria está morrendo de tristeza
e o coração do homem se fez cacos
antes mesmo de explodir a vergonha
você perguntará por que cantamos
se estamos longe como um horizonte
se lá ficaram árvores e céu
se cada noite é sempre alguma ausência
e cada despertar um desencontro
você perguntará por que cantamos
cantamos porque o rio está soando
e quando soa o rio / soa o rio
cantamos porque o cruel não tem nome
embora tenha nome seu destino