LUÍS FILIPE CASTRO MENDES
Nasceu em 1950, em Idanha-a-Nova. Formado em Direito pela Universidade de Lisboa (1974), seguiu a carreira diplomática, facto que o tem feito viver um pouco por todo o mundo.
Poeta e ficcionista, fez a sua estreia em 1983 com a colectânea de poemas Recados. Revelam-se, nesta obra, duas características que marcarão a sua poesia: a intertextualidade (com referências a escritores como Emily Dickinson, Rilke, Nietszche, Jorge Luís Borges, Rimbaud, entre outros) e o tratamento de formas poéticas tradicionais, como o soneto. Fonte da biografia e foto: http://cvc.instituto-camoes.pt/
Os poetas esquecidos
Ficaram pelo caminho.
Não lhes foi sua a idade.
São nota de rodapé
para a posteridade.
Ficarem pelo caminho
na agonia esquecida
de que o escuro temor
lhes devorasse a vida.
Ficaram pelo caminho.
Fizeram o seu tempo.
Na morte sem abrigo
e que tem assento.
Ilesos da glória
que a fama não deu,
sem cruz nem vitória,
bem longe do céu
da história literária,
gazeta ou Parnaso,
têm morte diária
ou leitores de acaso.
Anoitecer de Ouro Preto
Nas gelosias se quebra
toda a luz; e toda a graça
que em raios de sol se dispersa
faz-se cinza nesta praça.
Nos altos sobrados velhos
das casas com seus fantasmas
um vulto vem de joelhos
trazer-me a pena das almas.
Anoiteceu; mas aqui
nesta praça de Ouro Preto
tantos rostos que entrevi
foram sombras de um só medo.
Porque os mortos me procuram?
Quantos crimes cometi?
Cai tão cedo a noite escura
que nem sei o que vivi.
Nas gelosias se perde
o desenho de uma vida:
sou eu o vulto que acede
à janela escurecida.
Fui eu que traí a senha,
sou confidente e algoz:
ninguém há que me detenha!
nenhum cavalo veloz
pode alcançar-me, prender
meu corpo em dura prisão:
que os traidores hão-de vencer,
pois a história é só traição.
Escondo-me no sobrado:
oiço passos que perseguem
o riso dos conjurados,
torturando até que neguem.
Escondo-me pelo confins
da História que já não lembro,
de que não sei mais os fins
nem os vãos ardis retenho.
Sou eco do que falou,
o escondido delator,
o que em tratos revelou
até segredos de amor.
Oiço a dor dos torturados,
fui eu que traí a senha:
não há cavalos alados
nem tropa que me detenha!
Anoiteceu. Gelosias
fecham no sobrado as almas.
E as palavras são tão frias
como negras aves calmas.
Poemas extraídos da revista POESIA SEMPRE, Num. 26, Ano 14, 2007. Edição da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro.
Música Calada
Dizias que nos sobram as palavras:
e era o lugar perfeito para as coisas
esse escuro vazio no teu olhar.
E demorava a dura paciência,
fruto do frio nas nossas mãos vazias
que mais coisas não tinham para dar.
Dizia então a dor o nosso gesto
e durava nas coisas mais antigas
a solidão sem rasto que há no mar.
Página publicada em novembro de 2009
|