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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CESÁRIO VERDE 

 

José Joaquim Cesário Verde (Lisboa, 25 de Fevereiro de 1855 — Lumiar, 19 de Julho de 1886) foi um poeta português, sendo considerado um dos precursores da poesia que seria feita em Portugal no século XX.

Filho do lavrador e comerciante José Anastácio Azul e de Maria da Piedade dos Santos Amarelo, Cesário matriculou-se no Curso Superior de Letras em 1873, mas apenas o frequentou alguns meses. Ali conheceu Silva Pinto, que ficou seu amigo para o resto da vida. Dividia-se entre a produção de poesias (publicadas em jornais, destacando-se a revista Branco e Negro 1896-1898) e as atividades de comerciante herdadas do pai.

Em 1877 começou a ter sintomas de tuberculose, doença que já lhe tirara o irmão e a irmã. Estas mortes inspiraram contudo um de seus principais poemas, Nós (1884).

Tenta curar-se da tuberculose, mas sem sucesso, vem a falecer no dia 19 de Julho de 1886. No ano seguinte Silva Pinto organiza O Livro de Cesário Verde, compilação da sua poesia publicada em 1901.

No seu estilo delicado, Cesário empregou técnicas impressionistas, com extrema sensibilidade ao retratar a Cidade e o Campo, que são os seus cenários prediletos. Evitou o lirismo tradicional, expressando-se de uma forma mais natural.  Fonte: Wikipedia

 

Vaidosa

 

Dizem que tu és pura como um lírio

E mais fria e insensível que o granito,

E que eu que passo aí por favorito

Vivo louco de dor e de martírio.

 

Contam que tens um modo altivo e sério,

Que és muito desdenhosa e presumida,

E que o maior prazer da tua vida,

Seria acompanhar-me ao cemitério.

 

Chamam-te a bela imperatriz das fátuas,

A déspota, a fatal, o figurino,

E afirmam que és um molde alabastrino,

E não tens coração, como as estátuas.

 

E narram o cruel martirológio

Dos que são teus, ó corpo sem defeito,

E julgam que é monótono o teu peito

Como o bater cadente dum relógio.

 

Porém eu sei que tu, que como um ópio

Me matas, me desvairas e adormeces,

És tão loura e dourada como as messes

 

E possuis muito amor... muito amor-próprio.

 

 

DESLUMBRAMENTOS

 

Milady, é perigoso contemplá-la,

Quando passa aromática e normal,

Com seu tipo tão nobre e tão de sala,

Com seus gestos de neve e de metal.

 

Sem que nisso a desgoste ou desenfade,

Quantas vezes, seguindo-lhe as passadas,

Eu vejo-a, com real solenidade,

Ir impondo toilettes complicadas!...

 

Em si tudo me atrai como um tesouro:

O seu ar pensativo e senhoril,

A sua voz que tem um timbre de ouro

E o seu nevado e lúcido perfil!

 

Ah! Como me estonteia e me fascina...

E é, na graça distinta do seu porte,

Como a Moda supérflua e feminina,

E tão alta e serena como a Morte!...

 

Eu ontem encontrei-a, quando vinha,

Britânica, e fazendo-me assombrar;

Grande dama fatal, sempre sozinha,

E com firmeza e música no andar!

 

O seu olhar possui, num jogo ardente,

Um arcanjo e um demônio a iluminá-lo;

Como um florete, fere agudamente,

E afaga como o pêlo dum regalo!

 

Pois bem. Conserve o gelo por esposo,

E mostre, se eu beijar-lhe as brancas mãos,

O modo diplomático e orgulhoso

Que Ana de Áustria mostrava aos cortesãos.

 

E enfim prossiga altiva como a Fama,

Sem sorrisos, dramática, cortante;

Que eu procuro fundir na minha chama

Seu ermo coração, como um brilhante.

 

Mas cuidado, milady, não se afoite,

Que hão de acabar os bárbaros reais;

E os povos humilhados, pela noite,

Para a vingança aguçam os punhais.

 

E um dia, ó flor do Luxo, nas estradas,

Sob o cetim do Azul e as andorinhas,

Eu hei-de ver errar, alucinadas,

E arrastando farrapos - as rainhas!

 

 

 

MANHÃS BRUMOSAS

 

Aquela, cujo amor me causa alguma pena,

Põe o chapéu ao lado, abre o cabelo à banda,

E com a forte voz cantada com que ordena,

Lembra-me, de manha, quando nas praias anda,

Por entre o campo e o mar, bucólica, morena,

Uma pastora audaz da religiosa Irlanda.

 

Que línguas fala? A ouvir-lhe as inflexões inglesas,

— Na névoa azul, a caça, as pescas, os rebanhos! -

Sigo-lhe os altos pés por estas asperezas;

E o meu desejo nada em época de banhos.

E, ave de arribação, ele enche de surpresas

Seus olhos de perdiz, redondos e castanhos.

 

As irlandesas têm soberbos desmazeles!

Ela descobre assim, com lentidões ufanas,

Alta, escorrida, abstracta, os grossos tornozelos;

E como aquelas são marítimas, serranas,

Sugere-me o naufrágio, as músicas, os gelos

E as redes, a manteiga, os queijos, as choupanas.

 

Parece um «rural boy»! Sem brincos nas orelhas,

Traz um vestido claro a comprimir-lhe os flancos,

Botões a tiracolo e aplicações vermelhas;
E à roda, num país de prados e barrancos,

Se as minhas mágoas vão, mansíssimas ovelhas,

Correm os seus desdéns, como vitelos brancos.

 

E aquela, cujo amor me causa alguma pena,

Põe o chapéu ao lado, abre o cabelo à banda,

E com a forte voz cantada com que ordena,

Lembra-me, de manhã, quando nas praias anda,

Por entre o campo e o mar, bucólica, morena,

Uma pastora audaz da religiosa Irlanda.

 

 

NÓS

 

                    a A. de S. V.

I

 

Foi quando em dois verões, seguidamente, a Febre

E o Cólera também andaram na cidade,

Que esta população, com um terror de lebre,

Fugiu da capital como da tempestade.

 

Ora, meu pai, depois das nossas vidas salvas,

(Até então nós só tivéramos sarampo)

Tanto nos viu crescer entre uns montões de malvas

Que ele ganhou por isso um grande amor ao campo!

 

Se acaso o conta, ainda a fronte se lhe enruga:

O que se ouvia sempre era o dobrar dos sinos;

Mesmo no nosso prédio, os outros inquilinos

Morreram todos. Nós salvámo-nos na fuga.

 

Na parte mercantil, foco da epidemia,

Um pânico! Nem um navio entrava a barra,

A alfândega parou, nenhuma loja abria,

E os turbulentos cais cessaram a algazarra.

 

Pela manhã, em vez dos trens dos baptizados,

Rodavam sem cessar as seges dos enterros.

Que triste a sucessão dos armazéns fechados!

Como um domingo inglês na «city», que desterros!

 

Sem canalização, em muitos burgos ermos,

Secavam dejecções cobertas de mosqueiros.

E os médicos, ao pé dos padres e coveiros,

Os últimos fiéis, tremiam dos enfermos!

 

Uma iluminação a azeite de purgueira,

De noite, amarelava os prédios macilentos.

Barricas d'alcatrão ardiam; de maneira

Que tinham tons d'inferno outros arruamentos.

 

Porém, lá fora, à solta, exageradamente,

Enquanto acontecia essa calamidade,

Toda a vegetação, pletórica, potente,

Ganhava imenso com a enorme mortandade!

 

Num ímpeto de seiva os arvoredos fartos,

Numa opulenta fúria as novidades todas,

Como uma universal celebração de bodas,

Amaram-se! E depois houve soberbos partos.

 

Por isso, o chefe antigo e bom da nossa casa,

Triste d'ouvir falar em órfãos e em viúvas,

E em permanência olhando o horizonte em brasa,

Não quis voltar senão depois das grandes chuvas.

 

Ele, dum lado, via os filhos achacados,

Um lívido flagelo e uma moléstia horrenda!

E via, do outro lado, eiras, lezírias, prados,

E um salutar refúgio e um lucro na vivenda!

 

E o campo, desde então, segundo o que me lembro,

É todo o meu amor de todos estes anos!

Nós vamos para lá; somos provincianos,

Desde o calor de maio aos frios de novembro!

 

 


CONTRARIEDADES

 

Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;

Nem posso tolerar os livros mais bizarros.

Incrível! Já fumei três maços de cigarros

Consecutivamente.

 

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:

Tanta depravação nos usos, nos costumes!

Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes

E os ângulos agudos.

 

Sentei-me à secretária. Ali defronte mora

Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes;

Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes

E engoma para fora.

 

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!

Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica.

Lidando sempre! E deve a conta na botica!

Mal ganha para sopas...

 

O obstáculo estimula, torna-nos perversos;

Agora sinto-me eu cheio de raivas frias,

Por causa dum jornal me rejeitar, há dias,

Um folhetim de versos.

 

Que mau humor! Rasguei uma epopéia morta

No fundo da gaveta. O que produz o estudo?

Mais duma redação, das que elogiam tudo,

Me tem fechado a porta.

 

A crítica segundo o método de Taine

Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa

Muitíssimos papéis inéditos. A imprensa

Vale um desdém solene.

 

Com raras exceções merece-me o epigrama.

Deu meia-noite; e em paz pela calçada abaixo,

Soluça um sol-e-dó. Chuvisca. O populacho

Diverte-se na lama.

 

Eu nunca dediquei poemas às fortunas,

Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas.

Independente! Só por isso os jornalistas

Me negam as colunas.

 

Receiam que o assinante ingênuo os abandone,

Se forem publicar tais coisas, tais autores.

Arte? Não lhes convêm, visto que os seus leitores

Deliram por Zaccone.

 

Um prosador qualquer desfruta fama honrosa,

Obtém dinheiro, arranja a sua coterie;

E a mim, não há questão que mais me contrarie

Do que escrever em prosa.

 

A adulação repugna aos sentimentos finos;

Eu raramente falo aos nossos literatos,

E apuro-me em lançar originais e exatos,

Os meus alexandrinos...

 

E a tísica? Fechada, e com o ferro aceso!

Ignora que a asfixia a combustão das brasas,

Não foge do estendal que lhe umedece as casas,

E fina-se ao desprezo!

 

Mantém-se a chá e pão! Antes entrar na cova.

Esvai-se; e todavia, à tarde, fracamente,

Oiço-a cantarolar uma canção plangente

Duma opereta nova!

 

Perfeitamente. Vou findar sem azedume.

Quem sabe se depois, eu rico e noutros climas,

Conseguirei reler essas antigas rimas,

Impressas em volume?

 

Nas letras eu conheço um campo de manobras;

Emprega-se a réclame, a intriga, o anúncio, a blague,

E esta poesia pede um editor que pague

Todas as minhas obras

 

E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha?

A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia?

Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabalha. É feia...

Que mundo! Coitadinha!

 

 

 

 

Página publicada em janeiro de 2014.

 

                       


 

 

 
 
 
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