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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

BERNARDIM RIBEIRO
(Torrão, 1482? — 1552?)

 

 

Fonte: Éclogas. Seleção, prefácio e notas de Rodrigues Lapa. ed. acrescentada. Lisboa: Gráfica Lisbonense, 1942. 

 

Pesquisa feita por Catarina Helena Knychala, cedida para nosso Portal de Poesia Ibero-americana. 

PREFÁCIO

 

A VIDA– E reconstituição da biografia de Bernardim Ribeiro tem sido das tarefas mais duras e acidentadas da literatura portuguesa. Não se pode considerar obra segura, por razões que adiante exporemos. Contudo, damos, com toda a reserva, o que tem sido mais universalmente aceite sobre o curso da sua existência.

Bernardim Ribeiro nasceu na vila alentejana do Torrão, por 1482. Seus pais eram Damião Ribeiro, empregado na casa do duque de Viseu, D. Diogo e D Joana Dias Zagalo, duma família conceituada de Estremoz. A sua infância foi logo de começo assinalada por uma grande tragédia política. D. João II tomara a peito liquidar de vez a soberba dos grandes. 1483 fizera degolar em Évora o poderosíssimo duque de Bragança, D. Fernando, No ano seguinte, em 23 de Agosto, ele próprio matou a estocadas o duque de Viseu. É de calcular o doloroso alvoroço  que estes dois factos suscitaram na casa de Damião Ribeiro. A sanha do rei não se limitava aos poderosos senhores abatidos; golpeava sem piedade os seus próprios amigos e familiares. Foi o que sucedeu ao pai de Bernardim: fugido para Castela, lá o foi procurar e assassinar a ira poderosa do monarca – assim contam as histórias. Antes porém de se refugiar em Castela, [p.V] Damião Ribeiro teve o bom senso de confiar a mulher e o filho a uns primos, o desembargador António Zagalo e a irmã deste, Inês Dias Zagalo, que viviam perto do Sabugo, na quinta chamada “dos Lobos”.

Foi neste sítio agreste, metido entre serra, que se passou a meninice do futuro poeta das tristezas. Escondido do mundo, vivendo numa atmosfera de receios, aí se desenvolveria aquela sensibilidade melindrosa, que seria mais tarde a sua desgraça. Entretanto, as lições do austero desembargador iam-lhe formando o espírito, orientando-o porventura para a carreira do direito, como mais propícia, pela sua secura, para lhe sofrear os ímpetos da imaginação.

A certa altura, sua prima Inês Dias Zagalo ajustou casamento com Sancho Tavares, de Estremoz. Para lá foi viver com o marido.  Algum tempo depois falecia o desembargador, seu mestre e protector. Caiu a casa dos Lobos em poder de um seu parente de Allcácer do Sal, Álvaro Pires Zagalo; este trouxe consigo do Alentejo dois filhos, que passaram a ser os companheiros de Bernardim. A amizade com um desses primos, Sebastião Dias Zagalo, parece ter sido mais íntima, porque o introduziu mais tarde, com o nome de Tasbião, no romance da Menina e moça. Datam dessa época uns amores de mocidade, que teem também o seu reflexo na novela: Sebastião cortejava Ambrósia Gonçalves, filha dum proprietário de Sintra, com quem depois veio a se casar: Bernardim tomou-se de amores por uma irmã dela, Lucrécia Gonçalves – a Cruélcia do romance, – que sentiu pelo namorado uma paixão muito viva, segundo diza novela. Coisas de rapazes. O grande amor, que o havia de abrasar e enlouquecer, estava ainda por vir.

A morte de D. João II, em 1495, devia ter sido um alívio para a família de Bernardim. O novo rei ia desfazer o que fizera o outro, perdoar e recompensar as vítimas de D. João II. É possível que o moço desse então algumas escapadas ao Alentejo, a casa dos seus parentes. [p.VI] Já podia aparecer em público. Em 1503 estaria no Torrão. Nessa altura foi Inês Tavares Zagalo, Sua prima e protectora, nomeada para ama da infanta D. Beatriz, filha de D. Manuel. Aproveitando-se dessa ciscunstância, Inês Tavares chamou Bernardim para o Paço e conseguiu do rei uma doação para o rapaz seguir os estudos na Universidade de Lisboa: em 1505 recebeu em mercê as terras e azenha de Ferrreiros.

Devia ter sido uma revelação para ele aquela nova vida de fausto e convivência. Foi aí que conheceu a sua prima Joana Tavares Zagalo, filha de Inês Tavares, a quem amou apaixonadamente. Nos estudos da Universidade e nos serões do Paço encontrava-se amiúde com Sá de Miranda. Os dois moços, quase da mesma idade, ambos prendados, entraram a simpatizar um com o outro. Nesses encontros afinaram as respectivas liras, ao modo antigo, é claro, compondo esparsas, vilancetes e cantigas. A poesia de Bernardim era já uma poesia chorosa, como se usava então. Salvam-se dela alguns bonitos versos, entre os quais estes quatro, que parecem dedicados ao seu grande amor:

Fui e sam grande amador, / a vai-me bem mal d’amores / e muitos vi de grão dor... / mas este – suma das dores.

Como era então freqüente, mais ainda do que hoje, Bernardim Ribeiro cortejava uma rapariga, que os pais, mais positivos e tendo em menos conta as razões do coração, destinavam a outro. Pero Gato, filho de Nuno Gato, o opulento contador de Safim, era um bom partido. Arranjaram-se as coisas, e, por volta de 1517, Joana Tavares Zagalo era arrancada à adoração do primo, casando com Pero Gato. O romance de amor teve o desfecho de tantos outros.

Bernardim Ribeiro não se conformou com a brutalidade [p.VII] da solução, que espezinhava seus sentimentos, e desafogou na poesia os seus queixumes. A convivência de Joana Zagalo com Pero Gato foi de pouca dura. O marido faleceu, passado pouco mais de um ano; mas Bernardim nunca mais se pôde unir à bem amada, com amor regular. Joana fora abrigar-se para casa do seu tio, Álvaro Zagalo, que morava agora em Alcácer do Sal. Surgiu qualquer crise temerosa, um facto grave entre ambos. Das relações entre os dois amantes parece ter resultado um filho. O certo é que a viúva recolheu por 1519 ou 1520 ao mosteiro de Santa Clara de Estremoz. Só restava um recurso da Bernardim Ribeiro: ausentar-se para longe, aturdir-se com o espetáculo de outros costumes e outra gente. Nesse seu drama deveria ter intervindo o fiel amigo Sá de Miranda. Como o seu propósito era viajar pela Itália, é possível que partissem ambos para aquele país, em 1521, no próprio ano em que a infanta D. Beatriz, filha de D. Manuel, partia do reino, a esposar-se com o duque de Sabóia. Ia no séquito da princesa a sua dedicada ama, Inês Tavares Zagalo, e uma filha desta, Francisca Tavares, que havia de casar com um homem da corte saboiana.

Andou o nosso poeta por terras de Itália cerca de dois anos. Sá de Miranda demorou-se mais longamente; e assim se justifica que a influência italiana fosse nele mais profunda. Bernardim Ribeiro regressaria a Portugal por volta de 1524. D. João III, que sempre se mostrou seu amigo, nomeou-o em 23 de Setembro desse ano seu escrivão da câmara, lugar acertado para o antigo estudante em leis. Então instalado na vida e com emprego certo, o poeta dedicar-se-ia a compor e retocar as suas éclogas e a escrever o seu romance da Menina e Môça em que, sob a forma de ficção e com o mistério que o caso requeria, contava a triste história dos seus amores.

Esta ocupação literária tinha como efeito reabrir e tornar em carnes viva chagas de antes mal curadas. O excessivo dispêndio de sensibilidade provocaria graves [p.VIII] crises nervosas. É provável que, nessas alturas, Bernardim Ribeiro se refugiasse em terras de Basto, junto do seu amigo Sá de Miranda, e a visão das coisas da natureza lhe retemperasse um pouco os nervos estafados. Tudo foi debalde. A luz da razão apagou-se-lhe, e por 1552 viria a falecer, enlouquecido, numa cela do Hospital de Todos os Santos.

É esta a linha geral da sua biografia, reconstituída pelos historiadores da literatura, tendo em vista as particularidades da obra. Deve porém dizer-se que esse esquema é mais uma obra de imaginação, que não assenta em bases sólidas. Os únicos documentos fidedignos, por serem peças existentes de chancelaria são: a doação das terras de Fereiros (1505), a matrícula na Universidade (1507-1512), a nomeação de escrivão da câmara (1524) e AA doação duma tença de 12$000 réis (1552). Mais nada se sabe de positivo; a data e a circunstância da sua morte são-nos fornecidas por um documento judicial de 11642, em que um desembargador da Casa de Bragança defende a fazenda dos seus amos das pretensões dum hipotético herdeiro e bisneto do escritor, o tenente de infantaria Francisco Ribeiro. Esse documento foi ultimamente tachado de falso, com boas razões. Note-se que até dos documentos de chancelaria não podemos tirar elementos de absoluta segurança, porque aquele nome de Bernardim Ribeiro tanto pode dizer respeito ao escritor como a outro: os Ribeiros pulularam na primeira metade do século XVI. Os mais dados sobre a biografia do poeta são tirados de relações genealógicas sempre duvidosas. Em conclusão: os elementos biográficos que hoje possuímos deverão ser severamente confrontados com instrumentos autênticos, pesquisados em arquivos públicos e familiares. Enquanto isso se não fizer, podemos e devemos considerar a biografia de Bernardim Ribeiro como uma construção provisória, que cumpre conhecer... à falta de melhor.

Esta incerteza nas notícias que nos restam do artista tem dado origem às hipóteses mais desencontradas, mais [p.IX] poéticas e absurdas. Uma delas, a mais antiga, tem certa importância literária, porque produziu mais tarde uma das obras-primas do nosso teatro romântico – Um auto de Gil Vicente, de Garret. Corria no século XVII que a amada de Bernardim era nem mais nem menos que a infanta D. Beatriz, e que o pobre amador tinha ido no seu séquito para Sabóia. A formosa lenda não tem consistência, entre outros motivos pela diferença de idade entre ambos: a princesinha tinha dezassete anos, Bernardim andava pelos quarenta. Podia ser pai dela... A lenda, em todo o caso, surgiria da coincidênciaa da partida dos dois e da presença na comitiva de alguém que desempenhou papel importante na vida do infeliz namorado: Inês Tavares Zagalo e talvez sua filha Lourença Tavares.

A última hipótese e sem dúvida a mais extravagante, formulada em nossos dias pelo falecido professor portuense Teixeira Rêgo, considera Bernardim Ribeiro um nome suposto, sob o qual se escondia o famoso Leão Hebreu, ou Judá Abravanel, filófoso neo platônico, que exerceu profundíssima influência no Renascimento com o seu celebrado livro -  Diálogo sobre o Amor. O pastor do Torrão, o sentimental e melindroso amador de Aónia foi arvorado às culminâncias dum gênio filosófico da Renascença. como se vê, tudo é possível, ao tratar-se da vida de Bernardim Ribeiro.

 

A obra – Em 1554, dois anos após o falecimento de Bernardim Ribeiro, publicavam-se em Ferrara as suas obras: a História da Menina e Moça, as cinco éclogas e algumas poesias pequenas, em que não vinham incluídas as que circulavam já no Cancioneiro de Rèsende. (...)  

 

1

 

Écloga de Pérsio e Fauno

 

Nas selvas, junto do mar,

Pérsio pastor costumava

seu gado apascentar;

de nada se arreceava,

nem tinha que arrecear

(na mesma selva nasceu

quem lhe depois dava dor);

tanto que veo do Céu

fazer-lhe guerra o Amor:

era mais forte, e venceu.

 

Sendo livre, mui isento,

viu dos olhos a Maria,

e cegou o entendimento;

e Maria merecia

de lhe dar pena e tormento.

Logo então começou o seu gado emmagrecer;

nunca mais dêle curou,

foi-se-lhe todo o perder

com o cuidado que cobrou.

 

Dias e noites velava,

nenhum espaço dormia.

Maria bem o oulhava;

com que cuidado que valia

não valia o que cuidava:

confiou no merecer,

cuidou que a tinha de seu,

veo aí outro pastor ter,

com o que lhe prometeu ou deu,

se deixou dele vencer.

 

Levada pera outra terra,

vendo-se Pérsio sem ela,

vencido de nova guerra,

mandou a alma trás ela,

e o corpo ficou na serra.

Veo Fauno, outro pastor,

que vinha ali a buscá-lo,

seu criado e servidor;

começou a consolá-lo,

o consôlo  lh’ era pior.

 

FAUNO

? Como descansas’ assi,

Pérsio, longe do teu gado?

Vejo-te fazer aqui,

sem cuidado do cuidado,

menos cuidado de ti:

pelos matos, sem pastor,

vam os cordeiros bramando

sem pascer, porque o temor

de ver os lobos em bando

lhes tira da erva o sabor.

 

Perdidas, entresilhadas,

as tuas ovelhas vejo;

delas morrem de cansadas,

e tu tens morto o dessejo

d’acudires às coitadas.

Andam fracos, desmaiados,

os mastins que as guardavam;

desfeitos e mal tratados,

não ladram como ladravam,

nem podem, de mal curados.

 

? Qu’ é do teu rabil prezado,

teu cajado e teu çurrão?

Tudo te vejo mudado;

tinhas um cuidado então,

tens agora outro cuidado.

Mal não temias, creo

que te vejo; isto temo,

tomou-te sem ter receo,

então pôs-te em tal estrêmo,

que te fez de ti alheo.

 

À sombra dos arvoredos

o teu gado apascentavas;

e se os ventos eram quedos

mil vilancetes cantavas

conformes os teus segredos.

Então teu gado engordava,

tinhas pasto todo o ano.

Todo pastor confessava

sêres tu o mais ufano

que então nas serras andava.

 

Acorda, acorda, coitado,

dá-me conta de teu dano,

porque a um desconsolado

um consôlo, ou um engano

tira às vezes de cuidado.

Poderás julgar então,

se quiseres razão ter,

o teu cuidado por vão;

mas no grande bem querer

poucas vezes há razão.

 

PÉRSIO

Os males que são sem cura,

mal os pode outrem curar;

nem na gram desaventura

não há mais que aventurar

que deixar tudo à ventura.

Não me digas que há hi bem,

que é maior mal para mi,

nem que ouviste a ninguém,

que me vai lembrar daí

que perdi o que outrem tem.

 

Vi-me já preso; contente,

a meu mal queria bem;

agora fujo da gente,

não vejo, triste, ninguém

que viva mais descontente.

Té no pasto dos meus gados

Tinha a condição ufana;

mas aos mal-aventurados

crê que tudo lhes dana

com a mudança dos cuidados.

 

Sentava-me em um penedo

que no meo d’água estava;

então dali, só e quêdo,

a minha frauta tocava,

bem fora de nenhum mêdo:

muito livre de cautelas,

com os olhos nas mesmas águas,

c’o cuidado longe delas,

chorava ali muitas mágoas,

folgando muito com elas.

 

Um pastor, que eu não temia,

de muito mais gado que eu,

que longe dali pascia,

creo que, pelo mal meu,

veo ter ali um dia.

Vendo ela um pastor tal,

sem razão, ou com razão,

fê-lo logo maioral:

senti em meu mal então,

mas despois senti mor mal.

 

FAUNO

Quem pena por cousa leve,

deve sempre ser penado;

quem com a vida não se atreve,

deve ser dela privado,

se a morte faz o que deve.

Mulher que a outrem se entrega,

querer –lhe bem em estrêmo

vem de andar a rezão cega,

ou do espírito ser pequeno;

de ũa destas não se nega.

 

PÉRSIO

A gram dor, quem na tiver,

se com dor há-de passá-la,

em quanto lhe ela doer,

pode mal dissimulá-la,

pior a pode esconder.

Se não lanço esta de mi,

(não posso tanto comigo)

leixar-me-ei morrer assi,

que a morte é menos perigo,

que outros perigos a mi.

 

FAUNO

Os fracos de coração

obedecem à vontade;

e muito mais sem razão

se perde a liberdade

por algum cuidado vão.

Se desejas descansar

dêste, que te traz cansado,

lança-se, Pérsio, a cuidar

que às vezes o dessejado,

alcançado, dá pesar.

 

PÉRSIO

Conselho quero de ti,

mas não já para ter vida;

se o pode haver aí

para a poder ter perdida,

êsse me dá tu a mi:

que está mais certo o perigo

onde a vida é triste, e tal.

Deixa-me acabar, te digo,

que pode ser que êste mal

se acabe também comigo.

 

FAUNO

Nas cousas que dão pesar,

tristeza, pena e tormento,

nestas hás tu d’amostrar

temperança e sofrimento,

que no al não és de louvar.

Se agora padeces dor,

ela se te irá minguando,

cada vez será menor;

ir-se-á o tempo gastando,

levá-la-á por onde fôr.

 

PÉRSIO

Bem vejo que peno em vão;

mas quem será arrazoado

em males tão sem razão?

pois não há modo temperado

no amor e na afeição.

Se dizes que é vaïdade

Ter lembrança do perdido,

vou sentindo que é verdade;

mas quem viste tu esquecido

daquilo que dá soidade?

 

FAUNO

Nos estremos sinalados

se conhece tôda a gente;

no perigo, os esforçados:

que em bonança ser valente

não é de ânimos ousados.

Por isto, quero de ti

que te não deixes morrer.

Crê-me tu, Pérsio, a mi,

que não há maior vencer

que vencer-se homem a si.

 

PÉRSIO

Mal pode ser esquecida

a cousa mui dessejada;

lembrança n’alma empremida

não pode ser apartada,

se se não aparta a vida.

Em quanto me vires vivo,

não me verás descansar.

Pergunto-te, Fauno amigo:

? como pode repousar

Quem traz a morte consigo?

 

 

FAUNO

Passa teus males com tento,

se lhes queres achar cura;

põe em al o sofrimento,

que o que parece sem cura

às vezes o cura o tempo.

Resistir graves paixões,

vem de esfôrço e valentia,

porque aos fracos corações

falta-lhes a ousadia

nas maiores aflições.

 

PÉRSIO

Falas, Fauno, como quem

vive livre e descansado;

crê-me, amigo, que ninguém

pode mudar o cuidado,

se não quer pequeno bem.

Nunca lho eu mereci:

desamar-me, e eu amá-la!

Ela me leixou assi,

e eu não posso deixá-la,

que o amor pega de mi.

 

FAUNO

Parece que o seu amor

era muito mais pequeno:

Pérsio, não há maior dor

Que querer bem em estrêmo,

A quem to a ti quer menor:

que os que em tal estrêmo vêm

sua vida aventurada,

tu, Pérsio, sentes mui bem

quam cansada ou descansada

a terá quem na assi tem.

 

PÉRSIO

Não me aconselhes, te digo,

nem julgues a mim por ti:

chora meus males comigo,

que isto me convém a mi;

fa-lo-ás, se és meu amigo;

nisto só está meu bem,

em outro me não confio.

Ó Fauno, que fará quem

tem a alma posta no fio,

e não sabe em que se tem?

 

FAUNO

Bem vejo que teu tormento

é grande: por isso ouso

falar-te claro e isento,

que no ânimo sem repouso

não há claro entendimento.

Entregaste-te ao amor,

cegaste a vida e razão,

queres bem à tua dor;

buscas-lhe a salvação

onde o remédio é pior.

 

PÉRSIO

No tempo que eu mais penava,

dormia a noite ao serêno;

sustinha-me o que esperava;

sôbre uma cama de feno

muitas vezes repousava;

agora, em nenhum lugar

acho descanso, nem vida,

para poder descansar.

Tenho a esperança perdida,

não me fica que esperar.

 

FAUNO

Não tenhas o perigo em nada,

e passá-lo-ás melhor;

que a vertude esforçada,

no grande mêdo e temor,

se estima, e é estimada.

Não te espante esta mudança

que o tempo traz consigo;

trás o mal está a bonança,

folga de viver, te digo,

que quem vive tudo alcança.

 

PÉRSIO

No campo sempre dormia,

fugia do povoado;

se algũa pressa sentia,

praticava com meu gado,

e a ninguém a dezia.

Dês que me êste mal chegou,

tamanho me pareceu,

que o campo me enfastiou,

e o gado me aborreceu;

aqui verás qual estou.

 

FAUNO

Nenhum trabalho tam forte

nesta vida é de sofrer,

que um coração não suporte;

nem há mais certo morrer

que temer homem a morte.

Isto, por que tu padeces,

bem vejo que é vaïdade;

julga-o tu, se te conheces,

pois sabes que à vontade

e não a outrem obedeces.

 

PÉERSIO