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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


ADOLFO CASAIS MONTEIRO

“Poeta profético! Sobre os escombros da Europa, almejando uma Europa (re)unida e sem fronteiras! Utópico, clarividente, vidente. Devia ser o poema “Europa”, aqui apresentado, a carta de nascimento da União Européia, sua anunciação. Que deveria ser lido e relido por europeus e por todos que tomam aquela confraria de países como exemplo internacionalista. Que o poema seja traduzido e lido pelos europeus!! Aqui apresentamos uma versão ao castelhano, mas deveria haver outras versões a todos os idiomas da região!!! Que os europeus leiam e reflitam. Já estiveram em desgraça, na miséria, em convulsões sociais e em guerras estúpidas. Nosso continente americano esteve sempre aberto para os europeus, de que fazemos parte em grande medida, e agora, ricos e unidos, os europeus fecham-nos as portas e acham que apenas as relações vantajosas são possíveis... Que sua “falsa grandeza” e a soberba que o poema de Adolfo Casais Monteiro ressalta e esconjura, se converta em fraternidade, no sonho do poeta,  para “do espírito seres pródiga”. E que a Europa não se feche em suas muralhas protecionistas. Abra a “mão avara” que o poeta denunciou... Não se trata apenas de abrir as portas para os imigrantes, mas também, e sobretudo, para relações mais justas com outros povos. É a miséria do mundo que ameaça a Europa, como ameaçou a própria Europa, e não os imigrantes que a miséria propicia...

Incrível que haja tanto dinheiro para o armamento e para a guerra, e tão pouco para tirar regiões atormentadas pela fome e a miséria, onde europeus exploraram por tantos e tantos anos!!! Esqueçamos o passado, mas pensemos no futuro, como Adolfo Casais Monteiro pregou em seu poema teleológico, redentorista, até ingênuo, mas também incômodo.

Curiosamente (ou compreensívelmente), o poema é pouco lido, pouco traduzido, e não aparece na íntegra na internet, daí porque décimos fazê-lo. “
ANTONIO MIRANDA

TEXTOS EM PORTUGUÊS  /  TEXTOS EN ESPAÑOL

EUROPA

 

Europa, sonho futuro!

Europa, manhã por vir,

fronteiras sem cães de guarda,

nações com seu riso franco

abertas de par em par!

 

Europa sem misérias arrastando seus andrajos,

virás um dia? virá o dia

em que renasças purificada?

Serás um dia o lar comum dos que nasceram

no teu solo devastado?

Saberás renascer, Fénix, das cinzas

em que arda enfim, falsa grandeza,

a glória que teus povos se sonharam

— cada um para si te querendo toda?

 

Europa, sonho futuro,

se algum dia há-se-ser!

Europa que não soubeste

ouvir do fundo dos tempos

a voz na treva clamando

que tua grandeza não era

só do espírito seres pródiga

se do pão eras avara!

Tua grandeza a fizeram

os que nunca perguntaram

a raça por quem serviam.

Tua glória a ganharam

mãos que livres modelaram

teu corpo livre de algemas

num sonho sempre a alcançar!

 

Europa, ó mundo a criar!

 

Europa, ó sonho por vir

enquanto à terra não desçam

as vozes que já moldaram

tua figura ideal,

Europa, sonho incriado,

até ao dia em que desça

teu espírito sobre as águas!

 

Europa sem misérias arrastando seus andrajos,

virás um dia? virá o dia

em que renasças purificada?

Serás um dia o lar comum dos que nasceram

no teu solo devastado?

Saberás renascer, Fénix, das cinzas

do teu corpo dividido?

 

Europa, tu virás só quando entre as nações

o ódio não tiver a última palavra,

ao ódio não guiar a mão avara,

à mão não der alento o cavo som de enterro

— e do rebanho morto, enfim, à luz do dia,

o homem que sonhaste, Europa, seja vida!

 

 

II

 

Ó morta civilização!

Teu sangre podre, nunca mais!

Cadáver hirto, ressequido,

á cova, à cova!

 

Teu canto novo, esse sim!

Purificado,

teu nome, Europa,

o mal que foste, redimido,

o bem que deste,

repartido!

 

Aí vai o cadáver enfeitado de discursos,

florindo em chaga, em pus, em nojo..

Cadáver enfeitado de guerras de fronteiras,

ficções para servir o sonho de violência,

máscara de ideal cobrindo velhas raivas...

Vai, cadáver de crimes enfeitado,

que os coveiros, sem descanso,

acham pouca toda a terra,

nenhum sangue já lhes chega!

 

Sobre o cadáver dançam

teus coveiros sua dança.

Corvos de negro augúrio

chupam teu sangue de desgraça.

Haja mais sangue, mais dançam!

E tu levada, tu dançando,

os passos do teu bailado

funerário!

 

Mas do sangue nascerás,

ou nunca mais, Europa do porvir!

 

         E a mão que te detenha

         à beira do abismo?

                   Do sangue nascerá!

 

         E braços que defendam

         teu dia de amanhã?

                   Do sangue nascerão!

 

O sangue ensinará

— ou nova escravidão

maior há-de enlutar

teus campos semeados

de forcas e tiranos.

 

         De sangue banharás

         teu corpo atormentado

         e, Fénix, viverás!

 

 

III

 

Na erma solidão glacial da treva

os que não morreram velam.

 

Em vagas sucessivas de descargas

A morte ceifou os nossos irmãos.

 

O medo ronda,

o ódio espreita.

Todos os homens estão sozinhos.

 

A madrugada ainda virá?

 

Vão caindo um a um na luta sem trincheiras,

 e a noite parece que não terá nunca madrugada,

mas cada gota de sangue é agora semente de revolta,

da revolta que varrerá da face da terra

os sacerdotes sinistros do terror.

A revolta a florir em esperança

dos braços e das bocas que ficaram...

 

A traição ronda,

A morte espreita.

 

Uma comoção de bandeiras ao vento...

Clarins de aurora, ao longe...

 

Os que não morreram velam.

 

 

IV

 

Eu falo das casas e dos homens,

dos vivos e dos mortos:

do que passa e não volta nunca mais...

Não me venham dizer que estava matematicamente previsto,

ah, não me venha com teorias!

eu vejo a desolação e a fome,

as angústias sem nome,

os pavores marcados para sempre nas faces trágicas das vítimas.

E sei que vejo , sei que imagino apenas uma ínfima,

uma insignificante parcela de tragédia.

Eu, se visse, não acreditava.

Se visse, dava em louco ou em profeta,

dava em chefe de bandidos, em salteador de estrada,

— mas não acreditava!

Olho os homens, as casas e os bichos.

Olho num pasmo sem limites,

e fico sem palavras,

na dor de serem homens que fizeram tudo isto:

esta  pasta ensangüentada a que reduziram a terra inteira,

esta lama de sangue e alma,

de coisa e ser,

e pergunto numa angústia se ainda haverá alguma esperança,

se o ódio sequer servirá para alguma coisa...

 

Deixai-me chorar — e chorai!

As lágrimas lavarão ao menos a vergonha de estarmos vivos,

de termos sancionado com o nosso silêncio o crime feito instituição,

e enquanto chorarmos talvez julguemos nosso o drama,

por momentos será nosso um pouco de sofrimento alheio,

por um segundo seremos os mortos e os torturados,

os aleijados para toda a vida, os loucos e os encarcerados,

seremos a terra podre de tanto cadáver,

seremos o sangue das árvores,

o ventre doloroso das casas saqueadas,

— sim, por um momento seremos a dor de tudo isto...

 

Eu não sei porque me caem lágrimas,

porque tremo e que arrepio corre dentro de mim,

eu que não tenho parentes nem amigos na guerra,

eu que sou estrangeiro diante de tudo isto,

eu que estou na minha casa sossegada,

eu que não guerra à porta,

— eu porque tremo e soluço?

 

Quem chora em mim, dizei — quem chora em nós?

 

Tudo aqui vai como um rio farto de conhecer os seus meandros:

As ruas são ruas com gente e automóveis,

Não há sereias a gritar  pavores irreprimíveis,

e a miséria é a mesma miséria que já havia...

E se tudo é igual aos dias antigos,

Apesara da Europa à nossa volta, exangue e mártir,

eu pergunto se não estaremos a sonhar que somos gente,

sem irmãos nem consciência, aqui enterrados vivos,

sem nada senão lágrimas que vêm tarde, e uma noite à volta,

uma noite em que nunca chega o alvor da madrugada...

 

V

 

A música era linda...

vinha do rádio, meiga, mansa,

macia como um corpo quente de mulher...

era doce, cariciosa e lânguida...

 

Mas eu tinha ainda nos ouvidos,

como um clamor de milhões de bocas:

“No campo de concentração hoje ocupado pelas nossas tropas

os alemães queimaram milhares de vivos num formo crematório...

Nas cubatas, os mortos misturavam-se com os moribundos...

O sargento S.S. não pôde recordar quantos homens tinha morto...

Os mortos apodrecem aos montes, e os vivos

                                               arrancam-lhes as roupas

para as fogueiras em que ao lado se aquecem...

EM MUITOS CADÁVERES ENCONTROU-SE UM CORTE LONGITUDINAL:

ERAM OS VIVOS QUE TINHAM TIRADO AOS MORTOS O FÍGADO

                                      E OS RINS PARA COMER,

A ÚNICA CARNE QUE AINDA RESTAVA NOS CADÁVARES...”

 

E lembro-me de repente dum filme muito antigo

Em que o criminoso perguntava:

“De quoi est fait un homme, monsieur le comissaire?”

e nos seus olhos lia-se o pavor

de quem vi u um abismo e não lhe sabe o fundo...

De quoi est fait un homme? De que são feitos os homens

que queimaram vivos outros homens? Que tinham centos de crianças

a morrer de fome e pavor, escravos como os pais?

que matavam ou deixavam morrer homens aos milhões,

que os faziam descer ao mais fundo da degradação,

torturados, esfomeados, feitos chaga e esqueleto?

Eram esses mesmos homens

que faziam pouco da liberdade,

que vinham salvar o mundo da desordem,

que vinham ensinar a ORDEM ao planeta!

Sim, que traziam a paz com as grades das prisões,

a ordem com as câmara de tortura...

 

E depois a música vem, cariciosa e lenta,

a julgar que apaga a ignomínia que lançaram sobre a terra!

A julgar que esqueceremos a abjecção dos que sonharam

apagar da terra a insubmissão do homem livre!

Não — nem cárceres, nem deportações, nem represálias, nem torturas

acabarão jamais com a insubmissão do homem livre,

do homem livre nas cadeias, cantando nas torturas,

porque vê diante de si os irmãos que estão lutando,

que hão-se-cair, para outros sempre se erguerem,

clamando em vozes sempre novas

QUE O HOMEM NÃO SE HÁ-DE SUBMETER À VIOLÊNCIA!

Homens sem partido e de todos os partidos,

que nasceram com a revolta porque não lhes vale de

                                      nada viver para serem escravos,

homens sem partido e de todos os partidos —, menos todos quantos

só sabem dizer ORDEM! e clamar VIOLÊNCIA!

os que pedem sangue porque são sanguinários, sim,

mas também todos os que nunca souberam querer nada,

os que dizem “Não é possível que se torturem os presos políticos”,

os que não podem acreditar

porque não querem ser incomodados pela pestilência

                                      dos crimes cometidos para eles

— para eles continuarem a acreditar que a ORDEM não é

                                               apenas a mordaça

sobre as bocas livres que hão-de gritar até ao fim do mundo

QUE SÓ O HOMEM LIVRE É DIGNO DE SER HOMEM!

 

                                               (Europa, 1944-45) 

 

 

ODE AL TEJO E À MEMÓRIA DE ÁLVARO DE CAMPOS

 

E aqui estou eu,

         ausente diante desta mesa -

         e ali fora o Tejo.

         Entrei sem lhe dar um só olhar.

         Passei, e não me lembrei de voltar a cabeça,

         e saudá-lo deste canto da praça:                              

"Olá, Tejo! Aqui estou eu outra vez!"

 

         Não, não olhei.

         Só depois que a sombra de Álvaro de Campos se sentou a meu lado

         me lembrei que estavas aí, Tejo.

         Passei e não te vi.

         Passei e vim fechar-me dentro das quatro paredes, Tejo!

 

         Não veio nenhum criado dizer-me se era esta a mesa em que Fernando

                                                                            Pessoa se sentava,

         contigo e os outros invisíveis à sua volta,

         inventando vidas que não queria ter.

         Eles ignoram-no como eu te ignorei agora, Tejo.

         Tudo são desconhecidos, tudo é ausência no mundo,

         tudo indiferença e falta de resposta.

         Arrastas a tua massa enorme como um cortejo de glória,

         e mesmo eu que sou poeta passo a teu lado de olhos fechados,

         Tejo que não és da minha infância,

         mas que estás dentro de mim como uma presença indispensável,

         majestade sem par nos monumentos dos homens,

         imagem muito minha do eterno,

         porque és real e tens forma, vida, ímpeto,

         porque tens vida, sobretudo,

         meu Tejo sem corvetas nem memórias do passado...

         Eu que me esqueci de te olhar!

 

         O meu mal é não ser dos que trazem beleza metida na algibeira

e não precisam de olhar as coisas para as terem.

Quando não está diante dos meus olhos, está sempre longe.

Não te reduzi a uma idéia para trazer dentro da cabeça,

e quando estás ausente, estás mesmo ausente dentro de mim.

Não tenho nada, porque só amo o que é vivo,

mas a minha pobreza é um grande abraço em que tudo é sempre virgem,

porque quando o tenho, é concreto nos braços fechados sobre a posse.

 

Não tenho lugar para nenhum cemitério dentro de mim...

E por isso é que fiquei a pensar como era grave ter passado

                                                        sem te olhar, ó Tejo.

Mau sinal, mau sinal, Tejo

Má hora, Tejo, aquela em que passei sem olhar para onde estavas.

Preciso dum grande dia a sós comigo, Tejo,

levado nos teus braços,

debruçado sobre a cor profunda das tuas águas,

embriagado do teu vento que varre como um hino de vitória

as doenças da cidade triste e dos homens acabrunhados...

Preciso dum grande dia a sós contigo, Tejo,

para me lavar do que deve andar  de impuro dentro de mim,

para os meus olhos beberem a tua força de fluxo indomável,

para me lavar do contágio que deve andar a envenenar-me

dos homens que não sabem olhar para ti e sorrir à vida,

para que nunca mais, Tejo, os meus olhos possam voltar-se para outro lado

quando tiverem diante de si a tua grandeza, Tejo,

mais bela que qualquer sonho,

porque é real, concretas, e única!

 

                   (Noite Aberta os Quatro Ventos, 1943) 

 

 

PERMANÊNCIA

 

         Não peçam aos poetas um caminho. O poeta

         não sabe nada de geografia celestial.

         Anda aos encontrões da realidade

         sem acertar o tempo com o espaço.

         Os relógios e as fronteiras não tem

         tradução na sua língua. Falta-lhe

         o amor da convenção em que nas outras

         as palavras fingem de certezas.

         O poeta lê apenas os sinais

         da terra. Seus passos cobrem

         apenas distâncias de amor e

         de presença. Sabe

         apenas inúteis palavras de consolo

         e mágoa pelo inútil. Conhece

         apenas do tempo o já perdido; do amor

         a câmara escura sem revelações; do espaço

         o silêncio de um vôo pairando

         em toda a parte.

         Cego entre as veredas obscuras é ninguém e nada sabe

         — morto redivivo.

 

 

         Tudo é simples para quem

         adia sempre o momento

         de olhar de frente a ameaça

         de quanto não tem resposta.

         Tudo é nada para quem

         descreu de si e do mundo

         e de olhos cegos vai dizendo:

         Não há o que não entendo.