CÉSAR VALLEJO
(1892-1938)
César Vallejo é o grande poeta da hispanidade, talvez o mais contido entre os mais produtivos — sem a excessividade magnífica de Neruda, sem o radicalismo experimentalista de Huidobro. Genial em todas as suas frases, desde Los Heraldos Negros (1919 e Trilce (1922), quando exercita um modernismo com ressábios simbolistas e um certo hermetismo sensual e auto-flagelador. Mas é na temporada européia, confrontando as correntes revolucionárias desde o dadaísmo e o surrealismo que ele conjuga um certo automatismo verbal com sua veia telúrica e social, executando um praxismo frasístico com os paradoxos da reflexão crítica, às vezes prosaica e irônica: “¿Y la forense diéresis, la mano,/ mi patata y mi carne y mi contradicción bajo la sábana?”. Contrapondo (dialeticamente) “las individualidades colectivas” e as “colectividades individuales”, e ao “paso inmóvil en el borde del mundo”. Em seguida confessa: “Algo te identifica con el que se aleja de ti”. Eu diria, em contrapartida, que também com o que se identifica o poeta: “Algo te identifica con lo que se aleja de ti”... Sem dúvida. Talvez um resquício maniqueísta na constatação de sua formação católica:
“¿Qué hay más desesperante en la tierra, que la imposibilidad en que se halla el hombre feliz de ser infortunado y el hombre bueno de ser malvado?”
E responde, paradoxalmente:
“!Alejarse! ¡Quedarse! ¡Volver! ¡Partir! Toda la mecánica social cabe en estas palabras”.
Quem duvida? Justamente em suas duas última obras – Poemas Humanos (1939) e España, aparta de mi este cáliz (1939), em seu distanciamento da pátria, é que ele assume aquela universalidade/atemporalidade tão circunstanciada de seus versos mais engajados em que revela: “quiebro contra tu rigidez de doble filo/ mi pequeñez en traje de grandeza!”.
É sempre um atrevimento descabido traduzir poesia, mais ainda de um poeta como César Vallejo, desafio a que me entreguei com certa timidez. Durante o exercício, ocorreu-me o poema com que inicio esta entrega:
INTERTEXTUALIZANDO CÉSAR VALLEJO
Poema de Antonio Miranda
“vagarían acéfalos los clavos” CÉSAR VALLEJO
Inventei o verbo aindar
quando ainda havia verbos e havia caminhar.
Havia idas e regressos
e havia versos a desafiar
o tempo e seus retrocessos.
!Tengo el alma clavada por cien clavos…!
vocifera Vallejo com ou sem pregos
cravados na garganta e nas asas seqüestradas.
Ainda havia flores tranqüilas nas madrugadas
e a certeza de arrebóis transcendentes
despertando um morto de sua tumba,
havia dentes, impureza, sóis e um horto havia.
Um morto que voltava às trevas da existência
com as luzes infinitas de seu desprendimento,
substância em clara mutação. Ainda:
apodreciam “sueños que no tienen cuando”.
Aindando o inútil reverso
do Não-ser e sua essência.
(Chácara Irecê, Goiás, 2/7/2006)
* * *
TEXTOS EM PORTUGUÊS/ TEXTOS EN ESPAÑOL
Traduções de Antonio Miranda e Fernando Mendes Vianna
LOS HERALDOS NEGROS
César Vallejo
Hay golpes en la vida tan fuertes... Yo no sé!
Golpes como del odio de Dios; como si ante ellos,
la resaca de todo lo sufrido
se empozara en el alma... Yo no sé!
Son pocos, pero son... Abren zanjas oscuras
en el rostro más fiero y en el lomo más fuerte.
Serán tal vez los potros de bárbaros atilas;
o los heraldos negros que nos manda la Muerte.
Son las caídas hondas de los Cristos del alma,
de alguna fe adorable que el Destino blasfema.
Esos golpes sangrientos son las crepitaciones
de algún pan que en la puerta del horno se nos quema.
Y el hombre... Pobre... pobre! Vuelve los ojos, como
cuando por sobre el hombro nos Ilama una palmada;
vuelve los ojos locos, y todo lo vivido
se empoza, como charco de culpa, en la mirada.
Hay golpes en la vida, tan fuertes... Yo no sé!
A primeira etapa de sua produção poética é representada por Los Heraldos Negros. Nessas poesias ressalta a angústia do homem insatisfeito com a vida. Vive sua dor e a dos outros. Na sua produção poética, destacam-se: Trilce; Poemas Humanos; España, Aparta de Mí Este Cáliz. Entre suas novelas: El Tungsteno. A obra de Vallejo constitui não só o ponto mais alto de toda a literatura peruana, senão uma das aventuras estéticas mais profundas e geniais do século XX. Narrador, dramaturgo e ensaísta de talento, Vallejo foi sobretudo um imenso poeta, um dos maiores do idioma, deixando uma considerável marca na poesia contemporânea de âmbito hispânico. Morreu em Paris.
OS ARAUTOS NEGROS
César Vallejo
Tradução de Fernando Mendes Vianna
Há golpes na vida tão fortes... Eu nem sei!
Golpes como do ódio de Deus; como se ante eles
a ressaca de quanto foi sofrido
se empoçara na alma... Eu nem sei!
São poucos, porém são... Abrem sulcos escuros
no rosto mais fero e no lombo mais forte.
Serão talvez os potros de bárbaros átilas;
ou os arautos negros que nos manda a Morte.
São as caídas fundas dos Cristos da alma,
de alguma fé adorável que o Destino blasfema.
Esses golpes sangrentos são as crepitações
de algum pão que na porta do forno se queima.
E o homem... Pobre... pobre! Volve os olhos, como
quando por sobre os ombros nos chama uma palmada;
volve os olhos loucos, e todo o vivido
se empoça, como charco de culpa, na mirada.
Há golpes na vida tão fortes... Eu nem sei!
A VIOLÊNCIA DAS HORAS
Tradução de Antonio Miranda
Todos estão mortos.
Morreu dona Antônia, a rouca, que fazia pão barato no burgo.
Morreu o padre Santiago, a quem prazia que o saudassem os jovens e as moças, respondendo-lhes indistintamente: “Bom dia, José! Bom dia, Maria!”
Morreu aquela jovem loura, Carlota, deixando um filhinho de poucos meses, que logo também morreu, oito dias depois da mãe.
Morreu minha tia Albina, que costumava cantar tempos e modos de herança, enquanto cosia pelos corredores, para Isidora, a criada de ofício, a honradíssima mulher.
Morreu um velho torto, seu nome nem lembro, mas dormia ao sol da manhã, sentado à porta do amolador da esquina.
Morreu Rayo, o cão de minha altura, ferido de uma bala perdida.
Morreu Lucas, meu cunhado na paz das cinturas, de quem me lembro quando chove e não resta ninguém em minha experiência.
Morreu em meu revólver minha mãe, em meu punho minha irmã e meu irmão em minha víscera sangrenta, os três ligados por um gênero triste de tristeza, no mês de Agosto de anos sucessivos.
Morreu o músico Méndez, alto e sempre bêbedo, que solfejava em seu clarinete toadas melancólicas, a cujo modulado adormeciam as galinhas de meu bairro, muito antes que o sol se fosse.
Morreu minha eternidade e a estou velando.
LA VIOLENCIA DE LAS HORAS
Todos han muerto.
Murió doña Antonia, la ronca, que hacía pan barato en el burgo.
Murió el cura Santiago, a quien placía le saludasen los jóvenes y la mozas, respondiéndoles: “Buenos días, José! Buenos días, María!”
Murió aquella joven rubia, Carlota, dejando un hijito de meses, que luego también murió, a los ochos días de la madre.
Murió mí tía Albina, que solía cantar tiempos y modos de heredad, en tanto cosía en los corredores, para Isidoro, la criada de oficio, la honrosísima mujer.
Murió un viejo tuerto, su nombre no recuerdo, pero dormía al sol de la mañana, sentado ante la puerta del hojalatero de la esquina.
Murió Rayo, el perro de mi altura, herido de un balazo de no se sabe quién.
Murió Lucas, mi cuñado en la paz de las cinturas, de quien me acuerdo cuando llueve y no hay nadie en mi experiencia.
Murió en mi revólver mi madre, en mi puño mi hermana y mi hermano en mi víscera sangrienta, los tres ligados por género triste de tristeza, en el mes de Agosto de años sucesivos.
Murió el músico Méndez, alto y muy borracho, que solfeaba en su clarinete tocatas melancólicas, a cuyo articulado se dormían las gallinas de mi barrio, mucho antes de que el sol se fuese.
Murió mi eternidad y estoy velándola.
NÔMINA DE OSSOS
Tradução de Antonio Miranda
Se pedia em alta voz:
—Que mostre as duas mãos de uma vez.
Isso não era possível.
—Que, enquanto chora, tomem a medida de seus passos.
Isso não era possível.
—Que pense um pensamento idêntico,
ao tempo em que um zero permanece inútil.
Isso não era possível.
—Que cometa uma loucura.
Isso não foi possível.
—Que entre ele e outro homem semelhante a ele,
se interponha uma multidão de homens como ele.
—Que o comparem consigo mesmo.
Isso não era possível.
—Que o chamem, enfim, por seu nome.
Isso não era possível.
NÓMINA DE HUESOS
Se pedía a grandes voces:
—Que muestre las dos manos a la vez.
Y esto no fue posible.
—Que, mientras llora, le tomen la medida de sus pasos.
Y esto no fue posible.
—Que piense un pensamiento idéntico, en el tiempo en que un cero permanece inútil.
Y esto no fue posible.
—Que haga una locura.
Y esto no fue posible.
—Que entre él y otro hombre semejante a él, se interponga una muchedumbre de hombres como él.
Y esto no fue posible.
—Que le comparen consigo mismo.
Y esto no fue posible.
—Que le llamen, en fin, por su nombre.
Y esto no fue posible.
EPÍSTOLA AOS TRANSEUNTES
Tradução de Antonio Miranda
Renovo meu dia de coelho
minha noite de elefante em descanso.
E, para mim, digo:
esta é minha imensidade em bruto, a cântaros,
éste é meu grato peso, que me buscara debaixo para pássaro;
este é meu braço
que por conta própria recusou ser asa,
estas são minhas sagradas escrituras,
estes meus alarmados testículos.
Lúgubre ilha me iluminará continental,
enquanto o capitólio se apóie em meu íntimo deslize
e a assembléia de lanças clausure meu desfile.
Mas quando eu morrer
de vida e não de tempo,
quando cheguem a duas minhas duas maletas
este há de ser meu estômago em que coube minha lâmpada em pedaços,
esta aquela cabeça que expiou os tormentos do círculo em meus passos,
estes esses vermes que o coração contou em unidades,
este há de meu corpo solidário
pelo qual vela a alma individual; este há de ser
meu umbigo em que matei piolhos natos,
esta minha coisa coisa, minha coisa tremebunda.
Entanto, convulsiva, asperamente
convalesce meu freio,
sofrendo como sofro da linguagem direta do leão;
e, posto que eu existi entre duas potestades de ladrilho,
convalesço eu mesmo, sorrindo de meus lábios.
EPÍSTOLA A LOS TRANSEÚNTES
Reanudo mi día de conejo
mi noche de elefante en descanso.
Y, entre mí, digo:
ésta es mi inmensidad en bruto, a cántaros,
éste es mi grato peso, que me buscara abajo para pájaro;
éste es mi brazo
que por su cuenta rehusó ser ala,
éstas son mis sagradas escrituras,
éstos mis alarmados compañones.
Lúgubre isla me alumbrará continental,
mientras el capitolio se apoye en mi íntimo derrumbe
y la asamblea en lanzas clausure mi desfile.
Pero cuando yo muera
de vida y no de tiempo,
cuando lleguen a dos mis dos maletas,
éste ha de ser mi estómago en que cupo mi lámpara en pedazos,
ésta aquella cabeza que expió los tormentos del círculo en mis pasos,
éstos esos gusanos que el corazón contó por unidades,
éste ha de ser mi cuerpo solidario
por el que vela el alma individual; éste ha de ser
mi ombligo en que maté mis piojos natos,
ésta mi cosa cosa, mi cosa tremebunda.
En tanto, convulsiva, ásperamente
convalece mi freno,
sufriendo como sufro del lenguaje directo del león;
y, puesto que he existido entre dos potestades de ladrillo,
convalezco yo mismo, sonriendo de mis labios.
SEM TÍTULO
Tradução de Antonio Miranda
E não me digam nada,
que se pode matar perfeitamente
posto que, suando tinta,
faz-se o que se pode, não me digam...
Voltaremos, senhores, a ver-nos com maçãs,
tarde a criatura passará,
a expressão de Aristóteles armada
com enorme coração de madeira,
a de Heráclito enxertada na de Marx,
a do suave soando rudemente...
É o que bem narrava minha garganta:
a gente pode matar perfeitamente.
Senhores,
cavalheiros, voltaremos a ver-nos sem pacotes;
até então exijo, exigirei de minha fraqueza
o acerto do dia, que,
conforme vejo, esteve já me esperando no leito.
E exijo do chapéu a infausta analogia da lembrança,
posto que, às vezes, assumo com sucesso minha imensidade chorada,
posto que, às vezes me afogo na voz de meu vizinho e padeço
contando em milhos os anos,
escovando minha roupa ao som de um morto
ou sentado bêbedo em meu ataúde.
SIN TÍTULO
Y no me digan nada,
que uno puede matar perfectamente,
ya que, sudando tinta,
uno hace cuanto puede, no me digan…
Volveremos, señores, a vernos con manzanas;
tarde la criatura pasará,
la expresión de Aristóteles armada
de grandes corazones de madera,
la de Heráclito injerta en la de Marx,
la del suave sonando rudamente…
Es lo que bien narraba mi garganta:
uno puede matar perfectamente.
Señores,
Caballeros, volveremos a vernos sin paquetes;
hasta entonces exijo, exigiré de mi flaqueza
el acento del día, que,
según veo, estuvo ya esperándome en mi lecho.
Y exijo del sombrero la infausta analogía del recuerdo,
ya que, a veces, asumo con éxito mi inmensidad llorada,
ya que, a veces, me ahogo en la voz de mi vecino
y padezco
contando en maíces los años,
cepillando mi ropa al son de un muerto
o sentado borracho en mi ataúd…
SEM TÍTULO
Tradução de Antonio Miranda
Fiquei a esquentar a tinta em que me afogo
e a escutar minha caverna alternativa,
noites de tato, dias de abstração.
Estremeceu-se a incógnita em minha amídala
e padeci de uma anual melancolia,
noites de sol, dias de lua, ocasos de Paris.
E todavia, hoje mesmo, ao entardecer,
digiro sacratíssimas constâncias,
noites de mãe, dias de bisneta
bicolor, voluptuosa, urgente, linda.
E ainda
alcanço, aproximo de mim no avião de dois assentos,
na manhã doméstica e a bruma
que emergiu eternamente de um instante.
E todavia,
ainda agora,
na cauda do cometa em que ganhei
meu bacilo feliz e doutoral,
eis aqui que quente, ouvinte, tierro, sol e luado
incógnito atravesso o cemitério,
viro à esquerda, fendo
a erva com um par de endecassílabos,
anos de tumba, litros de infinito,
tinta, pluma, ladrilhos e perdões.
SIN TÍTULO
Quedéme a calentar la tinta en que me ahogo
y a escuchar mi caverna alternativa,
noches de tacto, días de abstracción.
Se estremeció la incógnita en mi amígdala
y crují de una anual melancolía,
noches de sol, días de luna, ocasos de París.
Y todavía, hoy mismo, al atardecer,
digiero sacratísimas constancias,
noches de madre, días de biznieta
bicolor, voluptuosa, urgente, linda.
Y aún
alcanzo, llego hasta mí en avión de dos asientos,
bajo la mañana doméstica y la bruma
que emergió eternamente de un instante.
Y todavía,
aún ahora,
al cabo del cometa en que he ganado
mi bacilo feliz y doctoral,
he aquí que caliente, oyente, tierro, sol y luno,
incógnito atravieso el cementerio,
tomo a la izquierda, hiendo
la yerba con un par de endecasílabos,
años de tumba, litros de infinito,
tinta, pluma, ladrillos y perdones.
NOTA DO TRADUTOR: existem muitas versões dos poemas de César Vallejo em diferentes edições. O autor corrigiu muitos de seus versos, além de erros tipográficos ou de transcrição que acontecem de uma edição para outra. Tenho duas “obras completas” do autor mas a de Raúl Hernández Novás (Poesia completa. La Habana: Editorial Arte y Literatura; Casa de las Américas, 1988) é a que registra todas as variações de textos de Vallejo e optei pelas versões que o erudito compilador e revisor preferiu em sua edição.
ESPAÑA, APARTA DE MÍ ESTE CÁLIZ
Niños del mundo,
si cae España —digo, es un decir—
si cae
del cielo abajo su antebrazo que asen,
en cabestro, dos láminas terrestres;
niños, ¡qué edad la de las sienes cóncavas!
¡qué temprano en el sol lo que os decía!
¡qué pronto en vuestro pecho el ruido anciano!
¡qué viejo vuestro 2 en el cuaderno!
¡Niños del mundo, está
la madre España con su vientr |