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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



ERNESTO CARDENAL

Foto extraida do site:
http://www.fib.se/cardenal.html

ERNESTO CARDENAL
(Granada, Nicarágua, 1925- )

Estudou filosofia e letras no México e freqüentou cursos de pós-graduação na Columbia University de Nova York, em Roma e em Madri. Foi discípulo do poeta e monge Thomas Merton, de 1957 a 1959, em Kentucky, USA, depois fez estudos de teologia na Colômbia e foi ordenado sacerdote em Manágua, em 1965.

 

Esteve preso e exilado pela resistência à ditadura feroz de Somoza mas a sua celebridade deriva de sua ligação com o regime socialista da Nicarágua e com a reprovação pública que recebeu do Papa João Paulo II. Vida e obra são inseparáveis neste grande poeta. Partindo do místico para o poético, do coloquial para o histórico, do trivial para o revolucionário, em uma linguagem dessacralizada e quase narrativa, vivaz e perspicaz, não raras vezes é desconcertante e sempre emocionante. Muitas vezes é comparado a Pablo Neruda por seu caráter americanista e libertário e por sua prolixidade nos versos livres. Vive na comunidade de Solentiname, que ele criou no arquipélado do lago principal da Nicarágua.

 

Descobri a poesia de Ernesto Cardenal logo que ele lançou seus (agora) célebres Salmos (1968), numa época em se que falava muito da aproximação da Igreja católica com o marxismo. Cardenal tornou-se herói e mártir na luta contra o despotismo e um exemplo de luta contra o imperialismo. Meu entusiasmo pelo poeta consolidou-se com a publicação de Oración por Marilyn Monroe y otros poemas (1971), que só consegui obter em 1972, quando estive em Lima (Peru) para assistir a uma apresentação de Tu país está feliz , meu poemário dirigido por Mário Delgado, que estava em cartaz desde o ano anterior. As datas são importantes para esclarecer possíveis influências de Cardenal em minha obra (os versos de Tu país está feliz foram escritos de 1958 a 1970, muitos deles originalmente em português). De fato, parafraseei o poeta na minha “Oração por Emilinha Borba”, em versos assinados pelo personagem Mércio Silveira, em meu primeiro romance – A Quadratura do Ó -, escrito quase todo na Inglaterra, em 1975.Prefiro assumir a negar a influência de Cardenal, que muito me honra, e gostaria que ela tivesse sido mais ampla e mais profunda. Infelizmente, porém, nunca tive a fé religiosa do poeta dos Salmos nem as convicções políticas que balizaram a sua produção literária, e menos ainda o seu desbordante talento criador.

 

 

Inicio a homenagem ao poeta Ernesto Cardenal com duas traduções, com o desejo de voltar a traduzi-lo para futuras entregas. Quem desejar ler outros poemas de Cardenal, em nosso idioma, deve recorrer à antologia As riquezas injustas (São Paulo: Círculo do Livro, 1977), com traduções de Paulo de Carvalho Neto, infelizmente disponível apenas em algumas poucas bibliotecas e mais raramente em sebos e livrarias de alfarrabistas.

TEXTO EN ESPAÑOL y/e TEXTO EM PORTUGUÊS

POEMA

Traduzido por Paulo Sant’ana.

Tu e eu, ao perdermos
um ao outro,
ambos perdemos.
Eu, porque tu eras o que
eu mais amava,
tu, porque eu era quem
te amava mais.
Mas, entre nós dois,
tu perdes mais do que eu.
Porque eu poderei amar
a outras
como amei a ti.
Mas a ti nunca ninguém
jamais amará
como eu te amei.


ORAÇÃO POR MARILYN MONROE

 

         Trad. de Antonio Miranda

 

 

Senhor

recebe a esta moça conhecida em toda parte pelo nome de Marilyn Monroe

mesmo que esse não fosse seu verdadeiro nome

(mas Tu conheces seu verdadeiro nome, o da pequena órfã violada aos 9 anos

e da empregadinha de loja que aos 16 anos já queria se matar)

e que agora se apresenta diante de Ti sem maquiagem

sem um Agente de Imprensa

sem fotógrafos e sem dar autógrafos

solitária como um astronauta diante da noite espacial.

 

Ela sonhou quando menina que estava nua numa Igreja (pela versão do Time )

ante uma multidão prostrada, com as cabeças no chão

e tinha de caminhar pé ante pé para não pisar nas cabeças.

Tu conheces nossos sonhos melhor que os psiquiatras –Igreja, casa, cova são a segurança do seio materno

mas também algo mais que isso...

As cabeças são os admiradores, é claro

(a massa de cabeças na escuridão debaixo do facho de luz).

Mas o templo não são os estúdios da 20th Century Fox.

O templo – de mármore e ouro – é o templo de seu corpoem que está o Filho do Homem com látego na mão

expulsando os mercadores da 20th Century Fox

que fizeram de Tua casa de oração um covil de ladrões.

 

Senhor

neste mundo contaminado de pecados e radioatividade

Tu não culparás tão-somente a empregadinha da loja.

Que como toda empregada de loja sonhou ser estrela de cinema.

E seu sonho tornou-se realidade (mas com a realidade do technicolor).

Ela não fez senão atuar conforme o script que lhe demos

- O de nossas próprias vidas – E era um script absurdo.

Perdoa Senhor e perdoa-nos a todos pela nossa 20th Century Fox

por esta Colossal Superprodução em que todos nós trabalhamos.

 

Ela tinha fome de amor e lhe demos tranqüilizantes,

para a tristeza de não ser santos, recomendamos-lhe a Psicanálise.

Lembra-te Senhor de seu crescente pavor à câmera

e o ódio à maquiagem – insistindo em maquiar-se em cada cena –e como foi se tornando maior o horror

e maior a impontualidade nos estúdios.

 

Como toda empregada de loja

sonhou tornar-se estrela de cinema.

E sua vida foi irreal como um sonho que um psiquiatra interpreta e arquiva.

 

Seus romances foram um beijo com os olhos fechados

que quando se abrem

descobre-se que foi sob os refletores

e apagam os refletores!

e desmontam as paredes do aposento (era um set cinematográfico)

enquanto o Diretor se afasta com sua caderneta porque a cena já foi filmada.

Ou uma viagem de iate, um beijo em Cingapura, um baile e no Rio

uma recepção na mansão do Duque e da Duquesa de Windsor

vistos na TV de um apartamento miserável.

 

O filme terminou sem o beijo final.

Foi achada morta em sua cama com a mão no telefone.

E os detetives não souberam a quem ela ia chamar.

 

Foi como alguém que discou o número da única voz amiga

e ouviu apenas a voz de uma gravação que diz: WRONG NUMBER.

Ou como alguém que ferido pelos gangsters

estende a mão a um telefone desligado.

 

Senhor

quem quer que tenha sido quem ela queria chamar

e não chamou (e talvez fosse ninguém

ou era Alguém cujo número não está na Lista de Los Angeles)

atende Tu ao telefone!

 



ORACIÓN POR MARILYN MONROE

 

Señor

recibe a esta muchacha conocida en toda la tierra con el nombre de Marilyn Monroe

aunque ese no era su verdadero nombre

(pero Tu conoces su verdadero nombre, el de la huerfanita violada a los 9 años

y la empleadita de tienda que a los 16 se había querido matar)

y que ahora se presenta ante Ti sin ningún maquillaje

sin su Agente de Prensa

sin fotógrafos y sin firmar autógrafos

sola como un astronauta frente a la noche espacial.

 

Ella soñó cuando niña que estaba desnuda en una Iglesia (según cuenta El Time )

ante una multitud postrada, con las cabezas en el suelo

y tenía que caminar en puntillas para no pisar las cabezas.

Tu conoces nuestros sueños mejor que los psiquiatras.

Iglesia, casa, cueva, son la seguridad del seno materno

pero también algo más que eso...

Las cabezas son los admiradores, es claro

(la masa de cabezas en la oscuridad bajo el chorro de luz).

Pero el templo no son los estudios de la 20th Century Fox.

El templo — de mármol y oro — es el templo de su cuerpoen el que está el Hijo del Hombre con un látigo en la mano

expulsando a los mercaderes de la 20th Century Fox

que hicieron de Tu casa de oración una cueva de ladrones.

 

Señor

en este mundo contaminado de pecados y radioactividad

Tu no culparás tan sólo a una empleadita de tienda.

que como toda empleadita soñó ser estrella de cine.

Y su sueño fue realidad (pero como la realidad del technicolor).

Ella no hizo sino actur según el script que le dimos

— El de nuestras propias vidas — Y era un script absurdo.Perdónala Señor y perdónanos a nosotros

por nuestra 20th Century

por esta Colosal Super-Producción en la que todos hemos trabajado.

 

Ella tenía hambre de amor y le ofrecimos tranqüilizantes.

Para la tristeza de no ser santos se le recomendó el Psicoanálisis.

Recuerda Señor su creciente pavor a la cámara

y el odio al maquillaje — insistiendo en maquillarse en cada escena —y como se fue haciendo mayor el horrory mayor la impontualidad a los estudios.

 

Como toda empleadita de tienda

soñó ser estrella de cine.

Y su vida fue irreal como un sueño que psiquiatra interpreta y archiva.

 

Sus romances fueron un beso con los ojos cerrados

que cuando se abren los ojos

se descubre que fue bajo los reflectores y apagan los reflectores!

y desmontan las dos paredes del aposento (era un set cinematrográfico)

mientras el Director se aleja con su libreta porque la escena ya fue tomada.

O como un viaje en yate, un beso en Singapur, un baile en Rio

la recepción en la mansión del Duque y la Duquesa de Windson

vistos en la salita del apartamento miserable.

La película terminó sin el beso final.

La hallaron muerta en su cama con la mano en el teléfono.

Y los detectives no supieron a quién iba a llamar.

Fue

como alguien que ha marcado el núnero de la única voz amiga

y oye tan solo la voz de un disco que le dice: WRONG NUMBER

O como alguien que herido por los gangsters

alarga la mano a un teléfono desconectado.

 

Señor

quienquiera que haya sido el que ella iba a llamar

y no llamó (y tal vez no era nadie

o era Alguien cuyo número no está en el Directorio de Los Angeles)

contesta Tú el telefono!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ESTRELAS

 

O céu estrelado é como uma cidade à noite

vista de um avião: as estrelas são como ruas

como supermercados iluminados/anúncios de néon

como motéis night-clubs cinemas e luzes

— brancas e vermelhas — dos carros — que vão e vêm —por estradas escuras...

e se queimam para nada

um desperdício de energia na perpétua noite

como a energia aqui embaixo perdida no vazio

em avenidas lojas cafés night-clubs motéis

cinemas uma superprodução com Clark Gable!

 


ESTRELLAS

 

Y el cielo estrellado es como una ciudad de noche

vista desde un avión: las estrellas son como calles

como supermercados iluminados/ anúncios de néon

como moteles night-clubs cines y luces

— blancas y rojas — de los carros — que van y vienen —por carreteras oscuras...y se queman para nada:

un derroche de energía en la perpetua noche

como la energia aquí — abajo perdida en el vacío en avenidas tiendas cafés night-clubes moteles

cines son una superproducción de Clark Gable!

 

 

 

 

 

 

 

O CÂNTICO DOS CANTOS

         Tradução de Antonio Miranda

— Amada, teu ventre tem cheiro de terra recém aberta e a terra recém molhada.
— A sulco recém molhado por meu amado.
Toda matéria está construída com duas partículas:
                   prótons e elétrons;
os prótons são positivos e os elétrons negativos,
                   macho e fêmea.
          Um nascimento não é por acidente
mas por união.
         E prótons e elétrons no gás estelar estão sexuados.
                            Daí a evolução do universo.
Uma atração irresistível
entre partícula subatômica positiva e negativa.
Daí os átomos, as estrelas, nós.
         Esta é a coesão do universo.
Amor essencial! Essencial
         que estás no coração do universo!
Atração que gerou todas as coisas.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
         O universo inteiro é uma boda.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
         Pedaço de matéria estelar,
    um átomo teu é como um sistema solar, e teu corpo
como um sistema de galáxias com milhões de sóis.
                   A atração. A atração.
Os elétrons giram dentro dos átomos,
os satélites giram arredor dos planetas,
os planetas arredor da galáxia arredor
de um centro de gravidade comum.
A gravidade que move o sol e todas as estrelas.


   (Ernesto Cardenal.  Cántico cósmico.  Managua: Nueva Nicaraguas, 1989).
                          

 

ERNESTO CARDENAL

De

ERNESTO CARDENAL

ANTOLOGIA POÉTICA

Seleção e tradução de
Paulo de Carvalho Neto

Rio de Janeiro: Salamandra, 1979

 

 

SOMOZA INAUGURA A ESTÁTUA DE SOMOZA NO

ESTÁDIO SOMOZA

 

EPIGRAMA 2

 

Não é que eu pense que o povo me erigiu esta estátua

porque eu sei melhor que vós que eu mesmo a ordenei.

Nem tampouco pretenda passar com ela à posteridade

porque eu sei que o povo a derrubará um dia. •

Nem que tenha querido erigir-me a mim mesmo em vida

o monumento que morto não me erigireis vós.

Erigi esta estátua porque sei que a odiais.

 

 

EPIGRAMA 3

 

A Guarda Nacional anda caçando um homem.

Um homem espera esta noite chegar à fronteira.

O nome desse homem não se sabe.

Há muitos outros homens enterrados numa cova.

A quantidade e o nome desses homens não se sabe.

Nem se sabe o lugar nem a quantidade de covas.

A Guarda Nacional anda caçando um homem.

Um homem espera esta noite sair de Nicarágua.

 

 

EPIGRAMA 4

 

Desperta-se com tiros de canhão

na manhã cheia de aviões.

Parece revolução

mas é o aniversário do tirano.

 

 

POR QUE ME ABANDONASTE?

Salmo 21

 

Meu Deus meu Deus por que me abandonaste?

Sou uma caricatura de homem

          o desprezo do povo

Riem de mim em todos os jornais

 

Rodeiam-me os tanques blindados

estou sendo apontado pelas metralhadoras

e encerrado em cercas de arame farpado

as cercas eletrificadas

Todo dia me fazem chamada

Tatuaram-me um número

Fotografaram-me dentro da cerca

e é possível contar meus ossos

          como numa radiografia

Levaram-me todos os documentos de identidade

Conduziram-me nu ante a câmara de gás

e se compartiram minhas roupas e meus sapatos

Grito pedindo morfina e ninguém me ouve

grito sob a camisa de força

grito a noite inteira no asilo de doidos

na sala dos doentes incuráveis

no corredor dos enfermos contagiosos

no asilo de velhos

agonizo banhado de suor na clínica do psiquiatra

afogo-me na câmara de oxigênio

choro na delegacia

no pátio da prisão

          no quarto de torturas

                   no orfanato
estou contaminado de radioatividade

e ninguém se aproxima para não se contagiar

 

Mas eu poderei falar de Ti aos meus irmãos

Eu Te elevarei na reunião de nosso povo

Ecoarão os meus hinos no meio de um grande povo

Os pobres terão um banquete

O nosso povo celebrará uma grande festa

O povo novo que vai nascer

 

Ernesto CardenaL

De
Ernesto CardenaL
SALMOS
Trad. de Thiago de Mello
Ilustr. de Poty
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979.

 

LIBERTA-NOS TU
Salmo 11

Liberta-nos tu
         porque não nos libertarão s seus partidos
Enganam-se uns aos outros
         E exploram-se uns aos outros
Suas mentiras são repetidas por mil rádios
 suas calúnias estão em todos os jornais
         Têm escritórios especiais para fabricar Mentiras

Esses que dizem:
         "Dominaremos com a Propaganda
A propaganda está conosco"
Pela opressão dos pobres
pelos gemidos dos explorados
agora mesmo eu me levantarei
         diz o Senhor
e lhes darei a libertade pela qual tanto clamam

Mas as palavras do Senhor são palavras limpas
e não propaganda

Em todas as partes estão as suas armas
As suas metralhadoras e os seus tanques nos rodeiam
Somos insultados pelos assassinos cheios de condecorações
E os que brindam em seus clubes
enquanto nós choramos nos tugúrios
Os que passam a vida em coquetéis

 

NÃO SE ENSOBERBECE, SENHOR, MEU CORAÇÃO
Salmo 130

Não se ensoberbece, Senhor, meu coração

Não quero ser milionário
nem quero ser o Líder
         nem ser Primeiro-Ministro

Não aspiro a postos públicos
nem corro atrás de condecorações

não tenho propriedade nem talão de chequem
                            e sem Seguro de Vida
         estou seguro
Como um menino dormindo nos braços de sua mãe...

Confie, Israel, no Senhor
         (e não nos líderes)

 

 


Antonio Miranda e Ernesto Cardenal no X festival interncaional de poesia de Granada, Nicaragua, fevereiro 2014

 

SALMO 1

 

Bienaventurado el hombre que no sigue las

          consignas del Partido

ni asiste a sus mítines

ni se sienta en la mesa con los gangsters

ni con los Generales en el Consejo de Guerra

Bienaventurado el hombre que no espía a su

hermano

ni delata a su compañero de colegio

Bienaventurado el hombre que no lee los anúncios

          comerciales

ni escucha sus radios

ni cree en sus slogans.

 

Será como un árbol plantado junto a una fuente.

 

 

SALMO I

Bem-aventurado o homem que não segue as
          consiganas do Partido
não frequenta seus comícios
não se senta à mesa com gangster
nem com os Generais no Conselho de Guerra
Bem-aventurado o homem que não espiona se
          irmão
nem delata seu colega de colégio
Bem-aventurado o homem que não lê
          anúncios comerciais
nem escuta suas estações de rádio
nem acredita em seus slogans.

 

          (Tradução: Antonio Miranda)

 

 

 

CARDENAL, ErnestoQuetzalcóatl.  Managua: Editorial Nueva Nicaragua, 1985.  72 p.  ilus.     (Ediciones Monimbó) 30,5x20,7 cm. Papel kraft.  Tiragem: 10.000 ejemplares. Ex. bibl. Antonio Miranda  


 

Vea el texto completo del poema em pdf:

http://dept.sfcollege.edu/hfl/hum2461/primarytexts/CardenalQuetzalcoatl.pdf

 

A seguir, uma seleção de versos do livro com tradução de Antonio Miranda.

 

 

Ernesto Cardenal

QUETZALCOATL
 

Segundo Sahagún
os toltecas tinham um único Deus que se dizia Quetzalcóatl
e o sacerdote desse Deus se dizia Quetzalcóatl
quem lhes dizia que havia que havia um único Deus que se dizia
                                                                            Quetzalcóatl
que não queria mais sacrifícios além de cabras, borboletas…

(…)

É o Deus Dialético Ometéotl
         Vida-Morte
                            Mulher-Homem.
Transforma a morte em vida.
No Código Borbônico está com uma tíbia na mão
         e da tíbia saindo uma flor:
                   a ressurreição.
Vê-se que arde na tarde e na alvorada.
E saem mais e mais imagens da bibliografia.
Como vão saindo de um túmulo, jades, turquesas,
                                                         borboletas de ouro.

(…)

Ensinou a cantar.
         A ter bondade no coração e a cantar.
 Cuali in iyolo: bondade no coração.
         Uma ética social.
Ensinou-lhes para ensinarem a tornas os rostos sábios.
         Uma grande tradição humanista.
“Apenas um deus tinham.
         Seu nome era Quetzalcóatl”.

(…)
Os toltecas, povo do culto a Quetzalcóatl.
         Com um herói cultural mas também Quetzalcóatl,
consagrado ao culto e à meditação,
o da doutrina teológica do Princípio Dual
         masculino e feminino
                   que engendra e concebe
                            tudo o que existe.
         O Casal Criador.
(…)

Os arqueólogos mexicanos ainda buscam Tula.
A Tula dos toltecas.
Que é como escavar a Nova Jerusalém.

(…)

A harmonia do céu e da terra.
Em um único ritmo os ciclos do céu e da vida humana.
Uma estrutura social conforme os astros.
A reprodução do céu aqui na terra:
         “o regime de Tolan.
Uma cópia do cosmos na escala humana.

(…)

         Um reino mítico tropical.
                   A Tolan dos toltecas
            com os brancos juncos junto à água azul
                   e junto à areia branca dos salgueiros brancos.

(…)

Tolan centro do mundo e centro do céu,
         em especial do céu noturno.
   Sobre ela brilhando as estrelas como modelo celeste.
         A cidade da ordem cósmica.

(…)

A sociedade da Mesoamérica como uma cópia do céu.
As pedras esculpidas contra o caos.
         Organizadas as ruas como as estrelas.

(…)

Teotihuacán, a primeira Tolan.

(…)

Teotihuacán: “A cidade dos deuses.”

(…)

E diziam: quando morremos
         em verdade não morremos,
                            despertamos.

(…)

Fez-se ali deus, quer dizer que morreu.

(…)

Na aridez eriçada de cactos
         ali onde quase no horizonte
    a pirâmide como o êxtase de pedra.

(…)

Cidade sagrada para observar o céu.
         Templos para implorar o ouro do milho
         e o jade e as esmeraldas da chuva.
Enormes escalinatas para o céu,
         exatamente até o sol no zênite.
   E no centro de tudo
         a Pirâmide de Quetzalcóatl.

(…)

O acre-rosado para a pele humana.
O branco para os olhos, colmilhos, ossos, algodão.
A procissão sacerdotal ainda se move
                                                imóvel no mural.
         Os edifícios como livros de pedra.

(…)

         E logo depois,
                               a cidade fantasma.
         A cidade perdeu sua historicidade.
 Os astecas já nada mais sabem de Teotihuacan.

(…)

A cidade resplandecente afundou na noite.
         … nesta terra que agora se chama Nova Espanha
    há mil anos que foi destruída
aquela famosa cidade chamada Tolan
                   que teve o adverso destino de Troia.
Agora o guia turístico se despede
onde estão as vendas de falsas antiguidades
e o vento move plásticos de um piquenique.

Começou a era das guerras e dos sacrifícios humanos.
         O regime de terror de Huémac.

(…)

Ao vale do México começou a chegar uma nova cerâmica.
Polícroma como os códigos
         vasilhas com três pés cônicos
                   ou em forma de cabeça de águia:
         Cholula.
Cholula, outra Tolan.

(…)

         A Grande Pirâmide de Cholula, a maior do mundo,
                                                         e no fundo
                            os vulcões piramidais
                                      o Iztaceihuatl e o Popocatgepetl.

(…)

Todo o subsolo pleno de cerâmica de cores,
         esplendor debaixo da pobreza.

(…)

A que tribo corresponde a triste primazia?
         Queimados por Itzcóatl
os livros de história, os chamados “livros de pinturas”
onde apareciam os bárbaros no passado sem glória.

(…)

Quetzalcóatl agora
         apenas um deus mais da classe dominante.
Manipulação do mito para seu imperialismo.
         Uma ideologia que a realidade desmentia.

(…)

         Traída a herança espiritual
                   pelo despotismo.
         Um plano diabólico de controle mitológico.

(…)

Ao homem deve honrar-se com pedra
         preciosa e rica plumagem.

(…)

O canto são volutas.
O canto de suas bocas pintadas como uma flor.

E no povo viva a doutrina.
         Até a chegada das caravelas
                   como pirâmides sobre a água…

… Duvidaram se talvez com o capitão Hernán Cortés
         regressasse Quetzalcóatl.

          (…)

         “Nós no transcurso do tempo
         esquecemos a doutrina de nosso Senhor Quetzalcóatl.
                                               (Montezuma a Cortés)

                   Então veio com os espanhóis da cor de cal.
         Um vento cortante como a obsidiana soprou com a conquista.

 

(*)Mineral vulcânico vítreo de cor negra ou verde bem escuro.

 

 

Foto extraída de:

MORDZINSKI, Daniel. A literatura na lente de Daniel Mordzinski. Textos de Adriana Lisboa e Victor Andresco. São Paulo: SESI-SP editora, 2015. 412 p. ilus. col. ISBN 978-82075-604-2 Textos em português e castelhano.  Ex. bibl. Antonio Miranda

*

Extraído de

 

POESIA SEMPRE. Número  31 – Ano 15 / 2009.  Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional, Ministério da Cultura. 2009.  217 p.    ilus. col. Editor Marco Lucchesi.  Ex. bibl. Antonio Miranda

 

POESIA MÍSTICA

Tradação de Thiago de Mello

 

 

Cantiga 42 (excerto)

 

 

Somos como essas duas pombinhas de San Nicolás

que quando uma corre

a outra vai atrás
e quando esta é a que foge
aquela a segue

mas uma nunca se afasta da outra
sempre estão em parelha.
Quando Tu de mim te vais
eu sigo atrás de ti
E quando sou eu quem me vou
Tu vais atrás.

      Somos como essas duas pombinhas
        De San Nicolás.

 

 

*

 

 

        Nele estão concentrados

a beleza de todas as mulheres

e o sabor de todas as frutas

e a embriaguez de todos os vinhos

e a doçura e a amargura de todos

os amores da terra,

e provar uma gota de Deus

é ficar louco para sempre.

 

 

Página ampliada e republicada em fevereiro de 2009, ampliada em maio de 2010. Ampliada e republicada em dez. 2014. Ampliada em setembro de 2016. Ampliada em novembro de 2017

 

 

 

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