JOSÉ KOZER
nasceu em Havana (Cuba), em 1940, filho de imigrantes judeus — seu pai era polonês, e a mãe, tcheca. Entre 1960 e 1997 viveu em Nova York, onde lecionou língua e literatura espanholas no Queens College. Atualmente vive em Miami, EUA, com sua esposa Guadalupe (após uma curta estadia em Málaga, na Espanha).
Autor de vasta obra, na qual se incluem ensaios, obras de ficção, diários e traduções de poesia japonesa, Entre suas principais coletâneas poéticas estão Y así tomaron posesión en Ias ciudades (1979), Jarrón de Ias abreviaturas (1980), La rueca de los semblantes (198 o), Bajo este cien (1983), La garza sin sombras (1985), Prójimos. lntimitates (1990), edição bilíngüe traduzida para o inglês por Ammiel Alcalay, et mutahile (1996), Farándula (1999) e Rosa cúbica (2002), entre outros títulos. A obra poética de José Kozer, sobre a qual há teses de mestrado e doutorado em universidades dos Estados Unidos e da Itália, foi traduzida parcialmente para sete idiomas (inglês, francês, português, alemão, grego, italiano e hebraico) e está representada em numerosas antologias na Europa, EUA e América Latina. José Kozer foi co-diretor da revista Enlace (1984-85) e é membro do conselho editorial de outras publicações periódicas européias e americanas.
“A arte verbal de José Kozer é dinâmica, inquieta, uma dança descontínua que explora as possibilidades do movimento. Sua escritura não é tecida no espanhol clássico, casto, mas em um idioma mesclado, “impuro”, somatória de outros códigos lingüísticos, esperanto do exílio: ouvimos em contraponto com o falar cubano, o hebraico da sinagoga, o iídiche familiar, o inevitável inglês de nova York e a herança literária de Quevedp e Cervantes.” CLAUDIO DANIEL
TEXTOS EN ESPAÑOL / TEXTOS EM PORTUGUÊS
ÍBIS
AMARELO
SOBRE
FUNDONEGRO
Organização, seleção e notas
De CLAUDIO DANIEL
CENTRO DE GRAVEDAD
Mi Patria es la irrealidad.
Un cuervo se deshace y tiene cuatro albergues: nido, hamadríade, sustento del espantapájaros y espantapájaros.
5oy ese cuervo, natural.
Me llamo Cuervo, por entero, puede hacerse todo un catálogo con ese nombre.
Doy un ejemplo, la guía de teléfonos (¿habrá mayor desolación?).
Aves y cernícalos de la guía. El disparo del ballestero, la caída arremolinada, plomo,
desplumadura, eso que crascita es un recorrido del
índice cadavérico por páginas amarillas, doy
fe, doy fe de muertos, de sus letras borra las letras, del
número avariento no es posible alterar nada, se
nutre de la muerte, y en la guía, Gran Guía (¿de
teléfonos?) el número sigue instalado, cambian
apellidos para el 544-9097.
Mi Patria era ese número.
Diapasón del cinco al cuatro, tropezón del nueve, perfección del siete y ahí en medio El Sadday, EI Eterno, perfección de! cera, Alabado
Alabado (no hay nada que hacer) oiga, Cero,
quién crece, así cualquiera es inmaculado.
Es el cero mi Patria.
Parece nueva, y es la más vieja acera de todas, y es la más vieja calle de adoquines. Con el carro del mantecadero tirado por un caballo.
Con el barquillo. Con la petición, tres bolas de
helado, por favor; del niño. Un níckel. ¿Y de qué
las quiere? Chino, ponme una de mamey, dos de
mango. Chino, todo cambia, cambió la cosa,
cámbiame la de mamey por la maceta de vicarias,
las dos bolas de mango por las dos sillas vacías de
enea en la terraza. Esa materia no se derrite.
¿Y qué va a ser de la Patria de mi materia?
MADAME CHU
Madame Chu (Al amanecer) servilletas de lino, té verde (o té
de Ceilán) y unos panecillos a base de yema (ligerísimos) mermelada de arándanos.
Y como una naturaleza muerta un huevo duro en su cáliz
pequeño de porcelana (mantel ribeteado con una franja
de crucecitas rojo amarillo rojo) tajada, dos limones.
Modorra, aún: anoche brotaron de su sueno unos escarabajos
difusos, pasó un portavoz del Emperador delante de su
ventana (cubriéndose de gloria con un monólogo) y un
abanico
se deshizo.
NIETZSCHE
Fugaz.
Lúes.
Intestinos
revueltos.
Sils-Maria.
Demente
monasterio
la
cabezota
con
bigote
incorporado.
Rabietas.
Furor
ígneo.
Llamas.
150
bizcochos
pidió
a
una
repostería
de
Wiesen.
Leche.
Higos.
Poco
dinero.
¿Un
poco
de
calostro
para
recordar
lo
inmemorial?
Látigo
Lo
apodaban
cuando
increpaba.
Máxima
elucubración
sus
Máximas.
Considerable
astucia
la
locura:
recurso
para
borrar
todo
rastro
de
ternura.
TEXTOS EM PORTUGUÊS
CENTRO DE GRAVIDADE
Tradução de Claudio Daniel
Minha Pátria é a irrealidade.
Um corvo se desfaz e tem quatro albergues: ninho, hamadríade, sustento do espantalho e espantalho.
Sou esse corvo, natural.
Chamo-me Corvo, por inteiro, pode-se fazer todo um catálogo com
esse nome.
Dou um exemplo, a lista telefônica (haverá maior desolação?).
Aves e peneireiros da lista.O disparo do besteiro a queda desordenada, chumbo, depenagem, isso que crocita é um percurso do
índice cadavérico por páginas amarelas, dou fé, dou
fé de morros, de suas letras borra as letras, do
número avarento não é possível alterar nada,
nutre-se da morre, e na lista, Grande Lista
(telefônica?) o número segue instalado, mudam
as letras: outro é o nome, são outros os
sobrenomes para o 544-9097.
Minha Pátria era esse número.
Diapasão do cinco ao quatro, tropeção do nove, perfeição do sete e aí no meio El Sadday, O Eterno,
perfeição do zero, Louvado
Louvado (não há nada a fazer) ouça, Zero,
quem cresce, assim qualquer um é imaculado.
O zero é minha Pátria.
Parece nova, e é a mais velha calçada de todas, e é a mais velha rua de paralelepípedos.
Com o carrinho do mantegueiro puxado por um cavalo.
Com a casquinha. Com o pedido, três bolas de
sorvete, por favor, do menino. Um níquel. E de que
sabor? Chinês, põe uma de mamey, duas de
manga. Chinês, tudo muda, mudou a coisa,
muda para mim a de mamey pelo vaso de pervincas,
as duas bolas de manga pelas duas cadeiras vazias de
vime no terraço. Essa matéria não derrete.
E que será da Pátria de minha matéria?
MADAME CHU
Tradução de Claudio Daniel
Madame Chu (ao amanhecer) guardanapos de linho, chá verde (ou chá
do Ceilão) e uns pãezinhos à base de gema (levíssimos)
marmelada de vacínios.
E como uma natureza-morta um ovo duro em seu cálice
pequeno de porcelana (toalha orlada com uma franja
de cruzinhas vermelho amarelo vermelho) gravada, dois limões.
Modorra, ainda: ontem à noite brotaram de seu sonho uns escaravelhos difusos, passou um porta-voz do Imperador diante de sua
janela (cobrindo-se de glória com um monólogo) e um
leque
se desfez.
NIETZSCHE
Tradução de Claudio Daniel
Fugaz.
Lues.
Intestinos
revolvidos.
Sils-Maria.
Demente
Monastério
a
cabeçorra
com
bigode
incorporado.
Birras.
Furor
ígneo.
Chamas.
150
biscoitos
pediu
a
uma
confeitaria
de
Wiesen.
Leite.
Figos.
Pouco
dinheiro.
Um
pouco
de
colostro
para
recordar
o
imemorial?
Látego
o
chamavam
quando
increpava.
Máxima
Elucubração
Suas
Máximas.
Considerável
astúcia
a
loucura:
recurso
para
apagar
todo
rastro
de
ternura.
Poemas extraídos da obra: KOZER, José. ÍBIS AMARELO SOBRE FUNDO NEGRO. Organização, seleção e notas de Cláudio Daniel. Tradução de Cláudio Daniel, Luiz Roberto Guedes, Virna Teixeira. Curitiba: Travessa dos Editores, 2006. 176 p.
ISBN 85-89485-61-7
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