Da igualdade entre os homens
Pedro Sevylla de Juana
Nos remotos tempos, o Deus das Colheitas,
quando ainda não existia a espécie humana,
de cada região desabitada da Terra
recolheu o grão cereal que cultivava.
Somou arroz, trigo e aveia,
milho e sorgo uniu ao centeio,
sementes de todas procedências,
levou ao moinho mais de cento;
farinha tamisada em uniforme mescla,
amassada e submetida a vivo fogo,
até torrar bem a camada externa.
Do resultante pão recém cozido,
um pedaço retornou a cada comarca,
do qual provém o homem primitivo:
igual composição, distinta estampa.
Seja face o homem ou seja costas,
rígida crosta ou suave miga,
a cor é o único que troca,
a substância humana não varia.
*
O homem e a fome
Fome,
fome,
fome;
duas sílabas apenas
e rompem o fluir do homem.
Agente ou paciente
aprofundam a cisão do homem
apagam os caminhos do homem
dessangram o coração do homem
afogam o respiro do homem.
Tão só duas sílabas e desdizem
diminuem
invalidam
desautorizam, rejeitam
anulam
negam ao homem.