Amigo,
despierta, que los montes todavía no respiran
Y las hierbas de mi corazón están en otro sitio.
No importa que estés lleno de agua de mar.
Yo amé mucho tiempo a un niño
que tenía cien años dentro de un cuchillo.
Despierta. Calla. Escucha. Incorpórate un poco.
El aullido
es una larga lengua morada que deja
hormigas de espanto y licor de lirios.
Ya viene hacia la roca. ¡No alargues tus raíces!
Se acerca. Gime. No solloces en sueños, amigo.
!Amigo!
Levántate para que oigas aullar
al perro asirio.
De Poeta en Nueva York, 1940.
DE OTRO MODO
La hoguera pone al campo de la tarde
unas astas de ciervo enfurecido.
Todo el valle se tiende. Por sus lomos,
caracolea el vientecillo.
El aire cristaliza bajo el humo.
- ojo de gato triste y amarillo-.
Yo, en mis ojos, paso por las ramas.
Las ramas se pasean por el río.
Llegan mis cosas esenciales.
Son estribillos de estribillos.
Entre los juncos y la baja tarde,
¡qué raro que me llame Federico!
De Canciones, 1927.
ALMA AUSENTE
No te conoce el toro ni la higuera,
ni caballos ni hormigas de tu casa.
No te conoce el niño ni la tarde
porque te has muerto para siempre.
No te conoce el lomo de la piedra,
ni el raso negro donde te destrozas.
No te conoce tu recuerdo mudo
porque te has muerto para siempre.
El otoño vendrá con caracolas,
uva de niebla y montes agrupados,
pero nadie querrá mirar tus ojos
porque te has muerto para siempre.
Porque te has muerto para siempre,
como todos los muertos de la Tierra,
como todos los muertos que se olvidan
en un montón de perros apagados.
No te conoce nadie. No. Pero yo te canto.
Yo canto para luego tu perfil y tu gracia.
La madurez insigne de tu conocimiento.
Tu apetencia de muerte y el gusto de su boca.
La tristeza que tuvo tu valiente alegría.
Tardará mucho tiempo en nacer, si es que nace,
un andaluz tan claro, tan rico de ventura.
Yo canto su elegancia con palabras que gimen
y recuerdo una brisa triste por los olivos.
1935
ROMANCE SONÁMBULO
A Gloria Giner
y a Fernando de los Ríos
Verde que te quiero verde.
Verde viento. Verdes ramas.
El barco sobre la mar
y el caballo en la montaña.
Con la sombra en la cintura
ella sueña en su baranda,
verde carne, pelo verde,
con ojos de fría plata.
Verde que te quiero verde.
Bajo la luna gitana,
las cosas le están mirando
y ella no puede mirarlas.
*
Verde que te quiero verde.
Grandes estrellas de escarcha,
vienen con el pez de sombra
que abre el camino del alba.
La higuera frota su viento
con la lija de sus ramas,
y el monte, gato garduño,
eriza sus pitas agrias.
¿Pero quién vendrá? ¿Y por dónde...?
Ella sigue en su baranda,
verde carne, pelo verde,
soñando en la mar amarga.
*
Compadre, quiero cambiar
mi caballo por su casa,
mi montura por su espejo,
mi cuchillo por su manta.
Compadre, vengo sangrando,
desde los montes de Cabra.
Si yo pudiera, mocito,
ese trato se cerraba.
Pero yo ya no soy yo,
ni mi casa es ya mi casa.
Compadre, quiero morir
decentemente en mi cama.
De acero, si puede ser,
con las sábanas de holanda.
¿No ves la herida que tengo
desde el pecho a la garganta?
Trescientas rosas morenas
lleva tu pechera blanca.
Tu sangre rezuma y huele
alrededor de tu faja.
Pero yo ya no soy yo,
ni mi casa es ya mi casa.
Dejadme subir al menos
hasta las altas barandas,
dejadme subir, dejadme,
hasta las verdes barandas.
Barandales de la luna
por donde retumba el agua.
*
Ya suben los dos compadres
hacia las altas barandas.
Dejando un rastro de sangre.
Dejando un rastro de lágrimas.
Temblaban en los tejados
farolillos de hojalata.
Mil panderos de cristal,
herían la madrugada.
*
Verde que te quiero verde,
verde viento, verdes ramas.
Los dos compadres subieron.
El largo viento, dejaba
en la boca un raro gusto
de hiel, de menta y de albahaca.
¡Compadre! ¿Dónde está, dime?
¿Dónde está mi niña amarga?
¡Cuántas veces te esperó!
¡Cuántas veces te esperara,
cara fresca, negro pelo,
en esta verde baranda!
*
Sobre el rostro del aljibe
se mecía la gitana.
Verde carne, pelo verde,
con ojos de fría plata.
Un carámbano de luna
la sostiene sobre el agua.
La noche su puso íntima
como una pequeña plaza.
Guardias civiles borrachos,
en la puerta golpeaban.
Verde que te quiero verde.
Verde viento. Verdes ramas.
El barco sobre la mar.
Y el caballo en la montaña.
Amigo,
desperta, que os montes ainda não espiram
e as ervas de meu coração estão em outro lugar.
Não importa que estejas repleto de água do mar.
Eu amei muito tempo um menino
que tinha cem anos dentro de um punhal.
Desperta. Cala. Escuta. Incorpora-te um pouco.
O uivo
é uma longa língua arroxeada de deixa
formigas de espanto e licor de lírios.
Já vem até a rocha. Não alongues tuas raízes!
Aproxima-te. Geme. Não soluces em sonhos, amigo.
Amigo!
Levanta para que ouças uivar
o cão assírio.
De Poeta en Nueva York, 1940.
DE OTRA MANEIRA
Tradução de Antonio Miranda
A fogueira expõe no campo da tarde
umas lanças de cervo enfurecido.
Todo o vale se estende. Por seus lombos,
caracoleia o vento suave.
O ar cristaliza sob a névoa.
- olho de gato triste e amarelo-.
Eu, em meus olhos, passo pelos ramos.
Os amos passeiam pelo rio.
Chegam minhas coisas essenciais.
São estribilhos de estribilhos.
Entre os juncos e a baixa tarde,
que estranho que me chame Federico!
De Canciones, 1927.
ALMA AUSENTE
Tradução de Antonio Miranda
Não te conhece o touro nem a figueira,
nem cavalos nem formigas de tua casa.
Não te conhece o menino nem a tarde
porque já morreste para sempre.
Não te conhece o lombo da pedra,
Nem o raso negro onde te destroças.
Não te conhece a lembrança muda
Porque já morreste para sempre.
O outono virá com suas conchas,
uva de névoa e montes agrupados,
mas ninguém virá olhar teus olhos
porque já morreste para sempre.
Porque já morreste para sempre,
como todos os mortos da Terra,
como todos os mortos esquecidos
em um monte de cães apagados.
Ninguém te reconhece. Não. Mas eu te louvo.
Eu canto desde já teu perfil e tua graça.
A madurez insigne de teu conhecimento.
Tua apetência de morte e o gosto de sua boca.
A tristeza que teve tua valente alegria.
Tardará muito tempo em nascer, se é que nasce,
um andaluz tão claro, tão pleno de ventura.
Eu canto sua elegância com palavras que gemem
e relembro uma brisa triste pelas oliveiras.
1935
--------------------------------------------------------------------------------
ROMANCE SONÂMBULO
Tradução de Salomão Sousa
Verde que te quero verde.
Verde vento. Verdes ramos.
O barco sobre o mar
e o cavalo na montanha.
Com a sombra na cintura,
ela sonha na varanda
verde carne, cabelo verde,
com olhos de fria prata.
Verde que te quero verde.
Debaixo da lua cigana,
as coisas a estão olhando
e ela não pode olhá-las.
***
Verde que te quero verde.
Grandes estrelas de escarcha
vêm com o peixe de sombra
que abre o caminho da alba.
A figueira arranha o vento
com a lixa de seus ramos
e o monte, gato matreiro,
eriça suas fibras acres.
Mas quem virá? e por onde?¼
Ela continua na varanda,
verde carne, cabelo verde,
sonhando no mar amargo.
***
Compadre, quero trocar
meu cavalo por sua casa,
meu arreio pelo espelho,
minha faca por sua manta.
Compadre, venho sangrando
desde os portos de Cabra.
Se eu pudesse, seu moço,
este trato se fechava.
Mas eu já não sou eu
nem já é minha a minha casa.
Compadre, quero morrer
decentemente em minha cama.
De arma branca, pode ser,
com os lençóis de holanda.
Não vês a ferida que tenho
do peito até a garganta?
Trezentas rosas morenas
leva teu peitilho branco.
Teu sangue respinga e cheira
ao redor de tua faixa.
Mas eu já não sou eu.
Nem já é minha a minha casa.
Deixai-me subir ao menos
até as altas varandas:
deixai-me subir!, deixai-me
até as verdes varandas!
Avarandados da lua
por onde estronda a água¼
***
Já sobem os dois compadres
até as altas varandas.
Deixando um rastro de sangue.
Deixando um rastro de lágrimas.
Tremulavam nos telhados
pequenos faróis de lata.
Mil pandeiros de cristal
feriam a madrugada.
***
Verde que de quero verde.
Vento verde. Verdes ramos.
Os dois compadres subiram.
O longo vento deixava
na boca um gosto raro
de fel, de menta e alfavaca.
Compadre! Onde está, dize-me?
Onde está tua menina amarga?
Quantas vezes te esperou!
Quantas vezes te esperara,
de cara alegre, cabelo alegre,
nesta verde varanda!
***
Sobre a boca da cisterna
a cigana tremia.
Verde carne, cabelo verde,
com olhos de fria prata.
O gelo da lua, em pedaços,
ampara-a sobre a água.
A noite se tornou íntima
como uma pequena praça.
Guardas-civis bêbados
na porta golpeavam.
Verde que te quero verde.
Verde vento. Verdes ramos.
O barco sobre o mar.
E o cavalo na montanha.
============================================
De
Federico García Lorca
O Passeio de Buster Keaton e outros textos.
Trad. de Aníbal Fernandes.
Lisboa: Série K, 1984. 48 p
PAISAGEM DA MULTIDÃO QUE URINA
(NOCTURNO DE BATTERY PLACE)
Poema de Federico García Lorca
Tradução de Anibal Fernandes
Eles ficaram sós:
esperavam a velocidade das últimas bicicletas.
Elas ficaram sós:
aguardavam a morte de uma criança no veleiro japonês.
Eles, elas, ficaram sós,
a sonhar com os bicos que os pássaros abrem na agonia,
com o guarda-sol agudo que fura
o sapo esmagado ainda há pouco,
sob um silêncio de mil orelhas,
e bocas de água diminutas
nos desfiladeiros que resistem
ao feroz ataque da lua.
Chorava, a criança do veleiro, e os corações partiram-se
angustiados pelo testemunho e a vigília de todas as coisas
e porque assim mesmo nomes escuros gritavam
no chão celeste de negras pegadas,
gritavam salivas e rádios de níquel.
Não importa se a criança deixa de chorar quando lhe espetam o
nem a derrota da brisa na corola do algodão, [último alfinete,
pois há um mundo da morte com definitivos marinheiros
que hâo-de subir aos arcos e congelá-los por detrás das árvores.
É inútil procurar o cotovelo
onde a noite se esquece da viagem
e espreitar um silêncio que não tenha
fatos rotos e cascas e pranto,
pois basta o banquete da aranha, minúsculo,
para desfazer o equilíbrio de todo o céu.
Para o gemido do veleiro Japonês não há remédio,
nem para esta gente oculta que tropeça nas esquinas.
Para unir as raízes num só ponto o campo morde o seu próprio rabo
e o novelo vai procurar na erva a sua ânsia insatisfeita de longitude.
A lua! Os polícias! As sereias dos transatlânticos!
Semblante de crina, de fumo; anémonas e luvas de borracha.
Tudo está roto nesta noite
aberta de pernas em cima dos terraços.
Tudo está roto por esses canos mornos
de uma terrível e silenciosa fonte.
Ó gente! Ó mulherzinhas! ó soldados!
Temos de viajar nos olhos dos idiotas,
campos livres onde silvam mansas cobras deslumbradas,
paisagens cheias de sepulcros que produzem maçãs fresquíssimas,
para nos chegar a exorbitante luz
que os ricos temem por detrás das suas lupas,
o cheiro de um só corpo com vertente dupla de lírio e rata,
e queimar-se então esta gente que pode urinar à volta de um gemido
ou nos cristais que explicam as ondas nunca repetidas.
============================================================
SONETO DE LA CARTA
Amor de mis entrañas, viva muerte,
en vano espero tu palabra escrita
y pienso, con Ia flor que se marchita,
que si vivo sin mí quiero perderte.
El aire es inmortal. La piedra inerte
ni conoce Ia sombra ni Ia evita.
Corazón interior no necesita
Ia miel helada que Ia luna vierte.
Pero yo te sufrí. Rasgué mis venas,
tigre y paloma, sobre tu cintura
en duelo de mordiscos y azucenas.
Llena, pues, de palabra mi locura
o déjame vivir en mi serena
noche dei alma para siempre oscura.
SONETO DA CARTA
Tradução de Afonso Félix de Sousa
Amor, que a vida em morte em mim convertes,
espero em vão tua palavra escrita
e, flor a se murchar, meu ser medita
que se vivo sem mim quero perder-te.
É infinito o ar. A pedra inerte
nada sabe da sombra e não a evita.
Íntimo, o coração não necessita
do congelado mel que a lua verte.
Por ti rasguei as veias às dezenas,
tigre e pomba, cobrindo-te a cintura
com luta de mordiscos e açucenas.
Tuas palavras encham-me a loucura
ou deixa-me viver minha serena
e infinda noite da alma, escura, escura.