FINA GARCIA MARRUZ
Nasceu em La Habana, Cuba, em 1923.
Uma das mais expressivas poetisas cubanas, Fina publicou Poemas (1942) e se integrou ao grupo Origenes, sendo o único elemento feminino. Com Transfiguraciones de Jesús en el Monte (1947) e, sobretudo, Las miradas perdidas (1951) ela conquista um lugar de destaque na lírica cubana, que é reforçado por Visitaciones (1970). Os temas sobre o meio familiar e os hábitos domésticos cubanos são tratados por ela em tom de diálogo atenuado pelo forte substrato lírico de seus poemas. Em 1984 foram editadas suas Poesias escogidas e em 1987 Viaje a Nicaragua (em conjunto com seu esposo, Cintio Vitier). Um intimismo habitual e a fé cristã se integraram nos últimos anos a um vibrante canto à Revolução. Em 1990 lhe foi concedido o Prêmio Nacional de Literatura.
VIRGILIO LOPEZ LEMUS
TEXTOS EN ESPAÑOL / TEXTOS EM PORTUGUÊS
EL BELLO NIÑO
Tú sólo, bello niño, puedes entrar a un parque.
Yo entro a ciertos verdes, ciertas hojas o aves.
Tú sólo, bello niño, puedes llevar la ropa
ausente del difunto, distraída y remota.
La rapa dibujada, el sombrero del ave.
Tú sólo en ese reino indisoluble y grave
has tocado la magia de lo exterior, las cosas
indecibles. Yo llevo la rapa maliciosa
del que de muerte sabe y de amarga inocencia.
Tú no sabes que tienes toda posible ciencia.
Mas ay, cuando lo sepas, el parque se habrá ido,
conocerás la extraña lucidez del dormido,
y por qué el sol que alumbra tus álamos de oro
los dora hoy con palabras y días melancólicos.
(De: Las miradas perdidas) 1951)
HOMBRE CON NIÑO PEQUEÑO
A Octavio
"cariño de niño
agua en cestiño”
Refrán popular
El mayor que sirve al más pequeño
es a Dios a quien sirve.
Porque el pequeño olvida, el niño
queda atrás en un recinto encantado.
El niño se evapora como un perfume
y no se le puede buscar después
y ni siquiera se puede encontrar él mismo.
El mayor que sirve al más pequeño
sirve al que no lo puede acompañar.
Con las manos vacías no irá al Padre
cuando le muestre, entre sus horas,
aquellas en que sostuvo
sus manos débiles como patas de pájaro,
sus ojos que no vieron su cansancio.
Escucha: un niño, una mariposa,
alguien que va a desaparecer, no se sabe
dónde, te nombra, te ama.
La dádiva de tu tiempo en ese niño
pertenece a lo hundido, a la raíz,
a lo que no tendrá nunca recompensa.
Su sucesión no la recoge el tiempo.
De ahí la indecible belleza de ese diálogo,
como de peregrinos en una posada,
como de aves que se cruzan.
(De: Visitaciones, 1970)
DEL TIEMPO LARGO
A veces, en raros
instantes, se abre, talud
real y enorme, el tiempo
transcurrido.
Y no es entonces
breve el tiempo. Como el pájaro
al elevar se abarca con sus alas
un diminuto pueblo o costerío,
la inmensidad de lo vivido arrecia,
y se mira remoto el ayer próximo,
en que el pico ávido bajaba
en busca de alimento.
¡Qué eternidad
de soles ya vividos! ¡Y qué completa
ausencia de nostalgia! Para crecer
se vive. Para nacer de nuevo
y rehacer la mala copia original.
Para crecer, se sufre. No se quiere
volver atrás, ni tan siquiera al tiempo
rumoreante de la juventud.
Que no para que el rostro
luzca lozano y terso se ha vivido.
No para atraer por siempre con el fuego
de la mirada, no con el alma en vilo
por siempre se ha de estar.
De cierto modo
la juventud es también como una cierta
decrepitud: un ser informe,
larva, debatíase, qué peligrosamente
amenazado. Se vivió, se salió,
quién sabe cómo, del hueco,
de la trampa:
Valió el otro
del bosque de la vida, el pleno encanto
de los claros del sol entre lo umbrío
para pagar su precio: lo tanto
costó poco: poco el sufrir inmenso
para esta dádiva. Al rastro
orne la arruga como el pecho la cinta coloreada
de un guerrero
o como al niño la medalla premia
por la humilde labor.
Como el avaro
el peso de un tesoro) encorva
la espalda anciana el peso
del vivir.
Mas ya, arriba,
a la salida, ya, se mira
hacia atrás sonriendo, renacido,
como agrietada cáscara el polluelo,
ya se van desligando las amarras,
del extraño navío, y como navío trémulo
locamente lo incierto hace señales.
Costó dotar, muerte costó, la vida.
Y al tiempo) breve o largo, siempre corto,
como el relámpago del amor, se le mira
ya sin recelo ni amargura
como a las heridas de la mano, en el arduo
aprender de su oficio,
contempla el aprendiz.
Bella es toda partida.
(De: Visitaciones: «Segundas partes», 1970)
Extraídos de VINTE POETAS CUBANOS DO SÉCULO XX; seleção, prefácio e notas de Virgilio López Lemus. Trad. Alai Garcia Diniz, Luizete Guimarães Barros. Florianópolis: Editora de UFSC, 1995.
TEXTOS EM PORTUGUÊS
Trad. Alai Garcia Diniz e
Luizete Guimarães Barros
O MENINO BONITO
Só você, menino bonito, pode entrar num parque.
Eu entro em certos campos, em certas folhas ou em aves.
Só você, menino bonito, pode levar a roupa
ausente do defunto, distraída e remota.
A roupa desenhada, o chapéu da ave.
Só você nesse reino indissolúvel e grave
tocou a magia do exterior, as coisas
indizíveis. Eu levo a roupa maliciosa
de quem sabe da morte e da amarga inocência.
Você não sabe que tem toda a ciência possível.
Mas ai! quando o saiba, o parque estará destruído,
você conhecerá a estranha lucidez do adormecido,
e por que o sol que ilumina seus álamos dourados
hoje os tinge de ouro com palavras e dias melancólicos.
(De: Las miradas perdidas, 1951)
HOMEM COM MENINO PEQUENO
A Octavio
“cariño de niño
agua en cestiño”
Refrão popular
O grande que serve o pequeno
é a Deus quem serve.
Porque o pequeno esquece, o menino
fica atrás num recinto encantado.
O menino se evapora como um perfume
e não se pode buscá-la depois
e nem ele sequer pode encontrar a si mesmo.
O grande que serve o pequeno
serve a quem não o pode acompanhar.
Com as mãos vazias não irá ao Pai
quando lhe mostre, entre suas horas,
aquelas em que sustentou
suas mãos frágeis como pés de pássaro,
seus olhos que não viram seu cansaço.
Escuta: um menino, uma borboleta,
alguém que vai desaparecer, não se sabe
onde, te chama, te ama.
A dádiva de seu tempo nesse menino
pertence ao fundido, à raiz,
ao que não terá nunca recompensa.
Sua sucessão não a recolhe o tempo.
Daí a indizível beleza desse diálogo,
como de peregrinos numa pousada,
como de aves que se cruzam.
(De: Visitaciones, 1970)
DO LONGO TEMPO
Às vezes, em raros
instantes, se abre, talude
real e enorme, o tempo
transcorrido.
E então não é
breve o tempo. Como o pássaro
ao elevar-se atinge com suas asas
uma diminuta vila ou encosta,
a imensidão do vivido se fortalece,
e se vê remoto o ontem próximo,
em que o bico ávido descia
em busca de alimento.
Que eternidade
de sóis já vividos! E que completa
ausência de saudade! Para crescer
se vive. Para nascer de novo
e refazer a má cópia original.
Para crescer, se sofre. Não se quer
voltar atrás, nem sequer ao tempo
rumorejante da juventude.
Não é para que o rosto
reluza viçoso e terso que se viveu.
Não para atrair para sempre com o fogo
do olhar, nem com a alma no ar
para sempre se há de estar.
De certo modo
a juventude é também como uma certa
decrepitude: um ser informe,
larva que se debatia, quando perigosamente
ameaçada. A gente viveu, saiu,
sabe Deus como, do oco,
da trapaça:
Serviu-se o outro
do bosque da vida, o encanto pleno
dos clarões do sol entre as sombras
para pagar seu preço: o muito
custou pouco; pouco o sofrer imenso
para esta dádiva. Ao rosto
orne a ruga como ao peito a cinta rubra
de um guerreiro
ou como ao menino premia a medalha
pelo humilde labor.
Como ao avaro
o peso de um tesouro, encurva
às costas velhas o peso
do viver.
Mas já, acima,
à saída, já se olha
para trás sorrindo, renascido,
como o pintinho agride a casca,
já se vão desfazendo as amarras
do estranho navio, e como noivo trêmulo
loucamente o acaso faz sinais.
Causou dor, morte causou, a vida.
Em seu tempo, breve ou longo, sempre curto,
como o relâmpago do amor, já é olhado
sem receio nem amargura
como às feridas da mão, no árduo
aprender de seu ofício,
contempla o aprendiz.
Bela é toda partida.
(De: Visitaciones: "Segundas partes", 1970)
Extraídos de VINTE POETAS CUBANOS DO SÉCULO XX; seleção, prefácio e notas de Virgilio López Lemus. Trad. Alai Garcia Diniz, Luizete Guimarães Barros. Florianópolis: Editora de UFSC, 1995.
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