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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



 

 

PABLO NERUDA

PABLO NERUDA (1904–1973) — Nome literário de Neftalí Ricardo Reyes. Chileno. Prêmio Nobel de Literatura em 1971. Obras: Veinte Poemas de Amor y una Canción Desesperada (traduzido por Domingos Carvalho da Silva), Residencia en la Tierra, Oda a Stalingrado, Tercera Residencia, Canto General, Odas Elementales, etc

Leia texto de Elga Pérez-Laborde sobre o centenário do poeta:
UM SÉCULO COM NERUDA: 1904-2004



ALTURAS DE MACHU PICCHU (POEMA XII)

Tradução de José Jeronymo Rivera

Sobe a nascer comigo, irmão

E tua mão estende-me da funda
zona de tua dor disseminada.
Não voltarás do fundo dos rochedos.
Não voltarás do tempo subterrâneo.
Não voltará tua voz endurecida.


Não voltarão teus olhos perfurados.
Vem me fitar da profundez da terra,
lavrador, tecedor, pastor calado:
domador de guanacos tutelares:
pedreiro por andaimes desafiado:
aguadeiro de lágrimas andinas:
joalheiro dos dedos machucados:
agricultor tremendo na semente:
oleiro em tua argila derramado:
trazei ao cálix desta nova vida
as vossas velhas dores enterradas.
Mostrai-me vosso sangue e vosso corte,
dizei-me: aqui fui castigado,
porque a jóia não rebrilhou, ou a terra
não entregou a tempo a pedra ou o grão:
assinalai-me a terra em que caístes
e o madeiro em que vos crucificaram,
acendei-me as antigas pederneiras,
as velhas lâmpadas, os látegos gravados
por séculos e séculos nas chagas
e os machados de brilho ensangüentado.
Venho falar por vossa boca morta.
Na vastidão da terra juntai todos
os silenciosos lábios derramados
e do fundo falai-me toda esta longa noite
como se eu estivesse ancorado convosco,
contai-me tudo, cadeia a cadeia,
contai elo por  elo, e passo a passo,
afiai os facões que conservastes,
ponde-os em meu peito e em minha mão,
como um rio de raios amarelos,
como um rio de tigres enterrados,
e deixai-me chorar, horas, dias, anos,
idades cegas, séc'los estelares.

Dai-me o silêncio, e a água, e a esperança. 
Dai-me o combate, dai-me o aço e os vulcões. 
Trazei a mim os corpos como ímãs. 
Acudi minha boca e minhas veias. 
Falai pelo meu verbo e por meu sangue.

ALTURAS DE MACHU PICCHU (POEMA XII)


Sube a nacer comigo, hermano.

Dame la mano desde la profunda
 zona de tu dolor diseminado.
 No volverás del fondo de las rocas.
 No volverás del tiempo subterráneo.
 No volverá tu voz endurecida.
 No volverán tus ojos taladrados.
 Mírame desde el fondo de la tierra,
 labrador, tejedor, pastor callado:
 domador de guanacos tutelares:
albañil del andamio desafiado:
 aguador de lágrimas andinas:
 joyero de los dedos machacados:
 agricultor temblando en la semilla:
 alfarero en tu greda derramado:
 traed a la copa de esta nueva vida
 vuestros viejos dolores enterrados.
 Mostrádme vuestra sangre y vuestro surco,
 decidme: aquí fui castigado,
 porque la joya no brilló o la tierra
 no entregó a tiempo la piedra o el grano:
 señaladme la tierra en que caísteis
 y la madera en que os crucificaron,
 encendedme los viejos pedernales,
 las viejas lámparas, los látigos pegados
a través de los siglos en las llagas
 y las hachas de brillo ensangrentado.
 Yo vengo a hablar por vuestra boca muerta.
 A través de la tierra juntad todos
 los silenciosos labios derramados
 y desde el fondo habladme toda esta larga noche
 como si yo estuviera con vosotros anclado,
 contadme todo, cadena a cadena,
 eslabón a eslabón, y paso a paso,
 afilad los cuchillos que guardásteis
 ponedlos en mi pecho y en mi mano,
 como un río de rayos amarillos,
 como un río de tigres enterrados,
 y dejadme llorar, horas, días, años,
 edades ciegas, siglos estelares.

Dadme el silencio, el agua, la esperanza.
Dadme la lucha, el hierro, los volcanes.
Apegadme los cuerpos como imanes.
Acudid a mis venas y a mi boca.
Hablad por mis palabras y mi sangre.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 


 



CADA DÍA MATILDE

 

Hoy a ti: larga eres
como el cuerpo de Chile, y delicada

como una flor de anís,

y en cada rama guardas testimonio

de nuestras indelebles primaveras:

Qué día es hoy? Tu día.

Y mañana es ayer, no ha sucedido,

no se fue ningún día de tus manos:

guardas el sol, la tierra, las violetas

en tu pequeña sombra cuando duermes.

Y así cada mañana

me regalas la vida.

 

CADA DIA MATILDE
Tradução de Anderson Braga Horta 
   
               
Hoje a ti: és esbelta
como o corpo do Chile, e delicada
como uma flor de anis,
e em cada ramo guardas testemunho
de nossas indeléveis primaveras:
Que dia é hoje? O teu.
E é o ontem amanhã, não sucedeu,
nenhum dia se foi de tuas mãos:
guardas o sol, a terra, as violetas
em tua breve sombra quando dormes.
E assim cada manhã
presenteias-me a vida.

 

 

 

FINAL
 

Matilde, años o días
dormidos, afiebrados,

aquí o allá,

clavando

rompiendo el espinazo,

sangrando sangre verdadera,

despertando tal vez

o perdido, dormido:

camas clínicas, ventanas extranjeras,

vestidos blancos de las sigilosas,

la torpeza en los pies.

 

Luego estos viajes
y el mío mar de nuevo:

tu cabeza en la cabecera,

 

tus manos voladoras
en la luz, en mi luz,

sobre mi tierra.

 

Fue tan bello vivir
cuando vivías!

 

El mundo es más azul y más terrestre
de noche, cuando duermo

enorme, adentro de tus breves manos.
FINAL
Tradução de Anderson Braga Horta

 

Matilde, anos ou dias
febris, adormecidos,
aqui e ali,
cravando,
rompendo o espinhaço,
sangrando sangue verdadeiro,
despertando talvez,
ou perdido, dormido:
camas clínicas, janelas estrangeiras,
vestidos brancos das irmãs caladas,
torpitude nos pés.

Depois essas viagens
e de novo o meu mar:
tua cabeça à cabeceira,

tuas mãos voadoras
na luz, em minha luz,
e sobre a minha terra.

Foi tão belo viver
quando vivias!

O mundo é mais azul e mais terrestre
de noite, quando eu durmo,
enorme, em tuas pequeninas mãos.

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Cien Sonetos de Amor

(una muestra)

 

Soneto I

 

Matilde, nombre de planta o piedra o vino,

de lo que nace de la tierra y dura,

palabra en cuyo crecimiento amanece,

en cuyo estío estalla la luz de los limones.

En ese nombre corren navíos de madera

rodeados por enjambres de fuego azul marino,

y esas letras son el agua de un río

que desemboca en mi corazón calcinado.

Oh nombre descubierto bajo una enredadera

como la puerta de un túnel desconocido

que comunica con la fragancia del mundo!

Oh invádeme con tu boca abrasadora,

indágame, si quieres, con tus ojos nocturnos,

pero en tu nombre déjame navegar y dormir.

 

 

Soneto II

 

Amor, cuántos caminos hasta llegar a un beso,

qué soledad errante hasta tu compañía!

Siguen los trenes solos rodando con la lluvia.

En Taltal no amanece aún la primavera.

Pero tú y yo, amor mío, estamos juntos,

juntos desde la ropa a las raíces,

juntos de otoño, de agua, de caderas,

hasta ser sólo tú, sólo yo juntos.

Pensar que costó tantas piedras que lleva el río,

la desembocadura del agua de Boroa,

pensar que separados por trenes y naciones

tú y yo teníamos que simplemente amarnos,

con todos confundidos, con hombres y mujeres,

con la tierra que implanta y educa los claveles.

 

 

 

Casa de Neruda em Isla Negra, Valparaiso, Chile.


De     
MEMORIAL DE ISLA NEGRA
Traduções de José Eduardo Degrazia 

Porto Alegre: LP&M, 2007. 248 p.
(Col. LPM&M Pocket,644)ISBN 978-85-254-1663-6

 

 

OS ABANONADOS

 

Não somente o mar, não só costa, espuma,

pássaros de insubmisso poderio,

não só aqueles e estes grandes olhos,

não só a noite em luto com os seus planetas,

não só as árvores com sua alto mansidão,

mas sim a dor, a dor que é o pão do homem.

Mas, por quê? Então naquele tempo eu era

fino feito um fio e bem mais escuro

do que um peixe de águas noturnas, e não pude,

não pude mais, de um golpe quis mudar o mundo.

Pareceu-me estar mordendo a erva mais amarga,

compartir um silêncio manchado de crime.

Mas é na solidão que nascem e morrem coisas,

a razão cresce e cresce até ser desvario,

a pétala se estende sem chegar à rosa,

a solidão é o pó inútil do mundo,

a roda que dá voltas sem terra, nem água, nem homem.

E eu, assim foi como gritei perdido

e que se fez grito sem freio na infância?

Quem ouviu? Que boca respondeu? Que caminhos tomei?

Que responderam

os muros quando batidos por minha cabeça?

Levanta e volta a voz do débil solitário,

gira e gira a roda atroz das desditas,

subiu e voltou aquele grito, e não soube ninguém,

não o souberam nem mesmo os abandonados.

 

RELIGIÃO NO ORIENTE

 

Ali em Rangoon eu compreendia que os deuses

eram tão inimigos como Deus

do pobre ser humano.

                            Deuses

de alabastro estendidos

como baleias brancas,

deuses dourados semelhantes a espigas,

deuses serpentes enroscados

ao crime de nascer,

budas desnudos e elegantes

sorrindo no coquetel

da eternidade

como Cristo na sua cruz horrível,

todos dispostos para tudo,

impondo-nos um céu,

todos com chagas ou pistola

para comprar piedade ou queimar-nos o sangue,

deuses ferozes do homem

para esconder a covardia,

assim era tudo ali,

toda a terra cheirava a céu,

como mercadoria celeste.

 

 

A NOITE NA ISLA NEGRA

 

Antiga noite e sal desordenado

golpeiam as paredes da minha casa:

só é a sombra, o céu

e agora como um bater de oceano,

o céu e sombra estalam

com fragor de combate desmedido:

e toda a noite lutam,

ninguém conhece o peso

da cruel claridade que se irá abrindo

como uma tarda fruta:

assim nasce na costa,

de uma furiosa sombra, a manhã dura,

mordida pelo sal em movimento,

varrida pelo peso desta noite,

em sangue na sua cratera  marinha.

 

 

O QUE NASCE COMIGO

 

Eu canto esta erva que nasce comigo

neste instante libero, e aos fermentos

do queijo, do vinagre, na secreta

floração do primeiro sêmen, canto

ao canto do leite que agora cai

de brancura em brancura aos mamilos,

eu canto os crescimentos do estábulo,

o fresco esterco destas grandes vacas

de cujo aroma voam as multidões

de asas azuis, eu falo

sem transição do que agora acontece

ao besouro com o seu mel, ao líquen

com suas germinações tão silenciosas:

como um tambor eterno

as sucessões soam, como no transcurso

do ser ao ser, e nasço, nasço, nasço

com o que está nascendo, eu estou unido

ao crescimento, ao surdo envolvimento

de quanto me rodeia, e que pulula,

propagando-se em densas umidades,

nos estames, nos tigres, e nas geléias.

 

Eu sou pertencente à fecundidade

e crescerei enquanto crescem as vidas:

sou jovem com a juventude da água,

sou lento com a lentidão do tempo,

e sou puro com a pureza do ar,

escuro com o vinho mais noturno

e só estarei imóvel quando seja

tão mineral que não veja nem ouça,

nem participe do que nasce e cresce.

 

Quando escolhi a floresta

para aprender a ser,

folha por folha,

escrevi as lições

e aprendi a ser raiz, barro profundo,

terra calada, noite cristalina,

e pouco a pouco mais, toda a floresta.

 

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As traduções de José Eduardo Degrazia são primorosas e a edição do Memorial de Isla Negra é integral, completa, vale a pena conferir. Poeta essencial, vai aqui apenas uma pequena mostra da copiosa e envolvente obra do grande poeta chileno, Prêmio Nobel 1971.

 

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Cem Sonetos de Amor

 

Tradução de Carlos Nejar

(apenas uma pequena mostra do

notável trabalho de tradução feita por nosso poeta)

 

 

Soneto - I

 

 MATILDE, nome de planta ou pedra ou vinho,

do que nasce da terra e dura,

palavra em cujo crescimento amanhece,

 em cujo estio rebenta a luz dos limões.

 

Nesse nome correm navios de madeira

rodeados por enxames de fogo azul-marinho,

e essas letras são a água de um rio

que em meu coração calcinado desemboca.

 

Oh nome descoberto sob uma trepadeira

como a porta de um túnel desconhecido

que comunica com a fragrância do mundo!

 

Oh invade-me com tua boca abrasadora,

indaga-me, se queres, com teus olhos noturnos,

mas em teu nome deixa-me navegar e dormir.

 

 

Soneto - II

 

AMOR, quantos caminhos até chegar  a um beijo,

que solidão errante até tua companhia!

Seguem os trens sozinhos rodando com a chuva.

Em Taltal não amanhece ainda a primavera.

 

Mas tu e eu, amor meu, estamos juntos,

juntos desde a roupa às raízes,

juntos de outono, de água, de quadris,

até ser só tu, só eu juntos.

 

Pensar que custou tantas pedras que leva o rio,

a desembocadura da água de Boroa,

pensar que separados por trens e nações

 

tu e eu tínhamos que simplesmente amar-nos,

com todos confundidos, com homens e mulheres,

com a terra que implanta e educa os cravos.

 

 

 

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