VERA LÚCIA DE OLIVEIRA
São Paulo, 1958. Obra poética: A porta range no fim do corredor (1983), Geografia d'ombra (1989), Pedaços/Pezzi (1992), Tempo de doer/Tempo di soffrire (1998), La guarigíone (2000), Uccellí convulsí (2000), No coração da boca/Nel cuore delia parola (2003), A chuva nos ruídos (2004).
TEXTOS EM PORTUGUÊS - TEXTOS EN ESPAÑOL
Extraídos de
ANTOLOGÍA DE POESÍA BRASILEÑA
Org. de Floriano Martins y José Geraldo Neres
Selección de Jaime B. Rosa
Valencia, España: Huerga & Fierro Editores, 2006
Traducción de Gladys Basagoitia Dazza
ROSTO INVERSO
adoecia para ver o pai despetalar-se os
caibros
refazer sobre nós suas mãos de paina
não se envergonhava de amar
nosso olho de febre
nossa essência quebradiça
podava espigões
sua lei de sombra
os gestos de cimento e cal
nossa alma parafusava, como durar
o breve
retecer os corpos de fragilidade e
dor
ângulo onde possível
tatear o pai
alisar seu rosto inverso
de pássaro coxo
ROSTRO INVERSO
me enfermaba para ver a mi padre quitarse
las vigas
reconstruir sobre nosotros sus manos de algodón
no se avergonzaba de amar
nuestros ojos con fíebre
nuestra esencia quebradiza
podaba aristas
su ley de sombra
sus gestos de cemento y cal
nuestra alma meditaba como hacer durar
el breve
retejer los cuerpos con fragilidad y
dolor
rincón donde füera posible
acariciar ai padre
tocar su rostro inverso
de pájaro cojo
MOENDA
moendo e remoendo grãos
graves como dentro
os vórtices
o sol a tarde
o osso mole dos panos
o barulhinho do sangue
raspando-se nos ângulos
aragens de vozes
viragens de tempo
sem troco dores
dores
e a pele e a carne
e a roupa
na trituração
MOLIENDA
molía y remolía semillas
graves como dentro
los molinos
la tarde el sol
los huesos blandos de los panos
el rumor de la sangre
que raspa los rincones
brisas de voces
recodos dei tiempo
dolores sin vuelto
dolores
y la pieL y la carne
y la ropa
de la trituración
ERGARÇAR-SE
quando começa a morte?
que surdo ranger
põe-se a quebrar
por dentro
seu tijolo?
quem acorda
esse esgarçar?
quem acode
as partes
brutas
que tombam
em cada mão de pai
em cada ruga de mãe
em cada tepor de cão
de casa
a ninar
nossa inação?
DESGARRARSE
acuando comienza la muerte?
iqué sordo estridor
se pone a quebrar
por dentro
su ladrillo?
¿quién despierta
este desgarramiento?
¿quién socorre
las partes
inertes
que caen
en cada mano de padre
en cada arruga de madre
en cada tibieza de perro
de casa
para acunar
nuestra inanición?
TERCEIRO MUNDO DO CÉU
no terceiro mundo
do céu
vão alminhas
pisoteadas
vão crianças
cuja dor come a infância
e bêbados do nada
trabalhadores do próprio luto
famintos de poesia
e pão
sombras
ali se debruçam
à espera das tubas
do juízo
TERCER MUNDO DEL CIELO
en el tercer mundo
dei cielo
van pequenas almas
pisoteadas
van niños
cuyo dolor devora la infancia
y los borrachos de la nada
constructores del propio luto
hambrientos de poesia
y de pan
allí se acuestan
sombras
en espera de Ias trompetas
del juicio
Página publicada em setembro de 2010 |