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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



SOUSÂNDRADE

(1833 - 1902)

Joaquim de Sousa Andrade, nascido na vila de Guimarães, no Maranhão, formou-se em Letras pela Sorbonne, em Paris, onde fez também o curso de engenharia de minas. Republicano convicto e militante, transfere-se, em 1870, para os Estados Unidos. Morando em Nova Iorque, funda o periódico republicano "O Novo Mundo", publicado em português. Retornando ao Maranhão, comemora com entusiasmo a Proclamação de República. Dedica-se ao ensino de Língua Grega no Liceu Maranhense e passa, no final da vida, por enormes dificuldades financeiras.

 

 Morre em São Luís, abandonado, na miséria e considerado louco. Sua obra foi esquecida durante décadas. Resgatada no início da década de 1960, pelos poetas Augusto e Haroldo de Campos, revelou-se uma das mais originais e instigantes de todo o nosso Romantismo. Em Nova Iorque, publica sua maior obra, o poema longo O Guesa Errante (1874/77), em que utiliza recursos expressivos, como a criação de neologismos e de metáforas vertiginosas, que só foram valorizados muito depois de sua morte. Em 1877, escreveu: "Ouvi dizer já por duas vezes que o Guesa Errante será lido 50 anos depois; entristeci - decepção de quem escreve 50 anos antes".

Fonte: http://www.revista.agulha.nom.br/soua.html#bio

 

 

TEXTO EM PORTUGUÊS  / TEXTO EN ESPAÑOL


Do Canto Décimo Primeiro

 

1878

 

Quando as estrelas, cintilada a esfera,

Da luz radial rabiscam todo o oceano

Que uma brisa gentil de primavera,

Qual alva duna os alvejantes panos,

Cândida assopra, — da hora adamantina

Velando, nauta do convés, o Guesa

Amava a solidão, doce bonina

Que abre e às douradas alvoradas reza.

Ora, no mar Pacífico ,renascem

Os sentimentos, qual depois de um sonho

Os olhos de um menino se comprazem

Grande-abertos aos céus de luz risonhos.

 

* * *

 

Vasta amplidão -imensidade- iludem,

Côncavos céus, profunda redondeza

Do mar em luz - quão amplos se confundem

Na paz das águas e da natureza!

Nem uma vaga, nem florão d'espuma,

Ou vela ou íris à grandiosa calma,

Onde eu navego (reino-amor de Numa)

Qual navegava dentro da minha alma!

Eis-me nos horizontes luminosos!

Eu vejo, qual eu via, os mudos Andes,

Terríveis infinitos tempestuosos,

Nuvens flutuando —os espetac'los grandes—

Eia, imaginação divina! abraso

Do pensamento eterno —ei-lo magnífico

Aos Andes, que ondam alto ao Chimborazo,

Aos raios d'Inti, à voz do mar Pacífico!

 

* * *

 

 

E andam montanhas, trovoar de crebros

Montes, abarrancando o ândeo destroço,

Desde o azul mar ao céu azul —vértebros

Sobrepostos do mundo e mundo dorso-

Cordilheira eternal! eternos, grandes

Altares! —alva transparente névoa!

Há no assombroso pélago dos Andes

Iris estranho; e um qual-poder, sem trégua

Avultando no espaço —as aniladas

Diáfanas solidões do nimbo andino,

Onde sua alma habitará, sagradas

Formas do Éter!

E sempre a algente, fino

Cortinado suspenso aos duros montes;

E o vago, a fumarento, a profundeza

Dos que são-Ihes os próprios horizontes;

E imensos dias sempre olhando o Guesa.

 

* * *

 

Assim navegou ele o mar Pacífico:

Aprendendo o silêncio, da montanha;

Das águas, esta calma; e que em véu místico

Meio oculta-se a glória ândea, tamanha!

Modéstia dos rochedos: sós a imitam

Os fortes de virtude e divindade,

Que, resplendores se lhe à fronte agitam,

Guardam no peito a dor e a virgindade.

 

* * *

 

O homem forte: adorou silencioso,

Cerrados olhos qual quem ´stá no templo

Interno, eterno; e forte e tão piedoso

e si mesmo, e a si mesmo sendo exemplo:

Sentiu-se, Inti existindo, estando em Deus.

Sentiu ser em Deus-Alma necessária

Sua existência, nuvem que precária

Era animada à limpidez dos céus,

Ao Coração - que ele ora contemplava

Com a ciência, que vê mais claramente,

Mais sonda o abismo seu, mais luz achava.

Era na infância um homem-deus vidente.

 

* * *

 

Na deusa dos mortais não creu, na esp'rança;

Creu fé, na gratidão que não esquece,

Porque é a saudade, é a lembrança

E o divo amor, que o outro é d'interesse.

Entanto, é da esperança um sentimento

De justiça futura, que o encanta;

Mas, antes que a visão do julgamento,

Creu fé, e houve resignação, a santa.

Meditando, sentia terra o cérebro

Onde a idéia, qual arvor', se lhe enfinca::

E recém-nado, do terreno verbo

Sentiu-se em Deus e ergueu a fronte d'lnca!

 

* * *

 

Nevosa-nédia espuma, o lago-oriente,

Brilhava em Titicaca o albor do dia.

Ele partiu pr'a o oeste. O Sol ponente,

Bem quando da coroa desprendia

Grandes, qual gloriosos pensamentos,

Relâmpagos nos céus cerúleos ermos,

Ali Manco, à jornada pondo termos,

Lançou da capital os fundamentos.

E os sonhos todos, todos se cumpriram —

Cumprem-se todos, todos! — do passado,

Vê-se o porvir; os astros que sorriam

Em nós, depois os vemos, encantados!

 

* * *

 

E é do Guesa a existência do futuro;

Viver nas terras do porvir, ao Guesa

Compraz, se alimentar de pão venturo,

Crenças do Além, no amor da Natureza:

Fecundas terras, onde lhe chovia

Eterno pensamento, irradioso,

Cristalino, a que ao Sol ideal o dia

Ortivo incásio abriu, doce e formoso!

 

* * *

 

´Stava ele olhando a vesperal centelha

Áurea e tão jovem se apagar no ocaso:

E de Chasca o arrancar-se a trança bela

Ou d'olhos destruidora a luz, acaso?

 

 

"E cintilou nos céus, com a saudade

E o namorado adeus, oh! quão formoso

Da açucena do campo aberta à tarde,

Da noite ao modo, ao lar misterioso

"Branda, amorosa, os olhos co'os instantes

De morte que debate-se por vida –

Ó Kusi-Kkóillur! brilhos estelantes,

Alegria, que fazes tão querida

"A terra, por ti só! tanta é, tão forte

Meiga a doçura com que a ela inclinas

A face de antenoites matutinas—

Princesa e nhusta do Inca, onde o consorte?

De Olhantai nos rochedos, invisível

Na fortaleza sua, alto, fragueiro,

Revolto, ou contra o rei s'ergue terrível

Ou geme o doce amor. Teve-a o guerreiro

Quando lnti-Súiu, na comarca oriente

Alva a luz de cegar, as alvoradas

Anunciando o Sol; vozes candentes

De túnqui a ouvir, do sangue consagradas.

—Fúlgur o manto, astral a mascapaicha,

Insígnia régia e resplendor da fronte,

Glorioso Tupac-Iupânqui baixa

Do áureo andor. Já saúda ao Sol desponte;

Já prosternado o ameno e grande povo,

Tomada a bênção paternal, eis logo

Toma do arado de ouro e em campo novo

(Lede-lhe as festas na moral do prólogo)

Vai o Inca lavrando. Rompem de hinos,

Os salmos d'huacáilhi e o que memora

Belicosas ações, e os tão divinos

Coros das virgens ao rubor da aurora.

—Aclararam-se, tronos de ouro, os Andes!

Já dentre raios de rubis em chama,

lnti-Deus assentou-se, e a eternas,

grandes Mãos, as bênçãos de amor dos céus

derrama!

Ele, o amado e senhor da terra, a veste

De primores e a cobre irradiando,

Muda em topázio o páramo celeste

E vai no firmamento atravessando.

 

* * *

 

Assim de Manco-Cápac, ao levante

'Stando o dia, formoso amanhecera:

Como espontânea a humanidade amante

Floriu, da lei moral, glórias na terra!

E é doce o império do Inca, da doçura

Que faz amar-se e mais querer divina

A realeza naqueles, porventura,

Que a fazem real, a um deus, tão só,

condigna.

No berço vês da in-hiema natureza,

Dentre Andes e o Pacífico oceano,

Erguer-se a humana planta, na pureza,

Da terra, ao Sol; do Sol, ao Todo-Arcano:

Da terra ao Sol, os Andes apontavam;

Do amor as leis, as Plêiades ditavam;

E o deserto assombroso de Atacama,

Ao Deus-Desconhecido — Pachacâmac!

 

* * *

 

Jejuava Ataualpa, silencioso,

De sua vasta corte rodeado,

         Marmóreo, calmo, andino, grandioso!

         Nem olha os cavaleiros que hão chegado,

Que, gineteando, a tímidos pavoram!

—Em taças de ouro servem régia chicha

         Belas de negros olhos, buenadichas

         Do Inca.— Profanos, só de as ver, descoram.

Vasto o horizonte, a noite cintilavam

         Índios fogos, 'como astros'; e de dia

         As tendas, como mares, alvejavam;

         E um só audaz, que um basta, não tremia.

 

                  * * *

 

Do ibério chefe e o imperador andeano

         Amigas saudações, ricos presentes

         Foram trocados. Já o soberano

         Vem dos Andes descendo, aos ocidentes

Glório descer do abismo! Inti e seu filho,

         Viu-se na mesma estrada jornadeando,

         No último dia: e povo e deus, tal brilho

         Na terra, antes ninguém vira ostentando!

Raio seu, para o ocaso o seu império

         Glorioso o Sol levava entre esplendores:

         'Cadáver de ouro', que o etereal mistério

         Deixou destes crespúsculos-albores.

 

                  * * *  

 

Luzem os pavilhões d'íris de Quito:

         Dentre o exército e o Sol no firmamento,

         Vem solene Ataualpa, os olhos fitos,

         Qual setas, no espanhol acampamento.

Nada ele teme dentre seus guerreiros

         Veteranos, que o seguem, que o rodeiam;

         E dos céus sendo enviados estrangeiros

         Que no hóspede benvindo todos creiam!

Dupla amostra, de paz e de grandeza,

         Quer ele honrar o encontro que aliança

         Firma co'o branco, que há para defesa

         Raios, trovões, corcéis, espada e lança.

O hailhi triunfal canta a vanguarda,

         Querido ao povo, e que ressoa 'inferno'

         Ao pérfido que espreita-lhe a chegada

         E projeto infernal resolve interno.

O Inca vem pernoital' em (axamarca

         Entre amigos, na Casa-da-serpente

         (Fascinação eterna!) — ai do monarca!

         —Chegou. A praça entrou.- Oh! o imprudente

Bem via-se confiar em tanto raio

         Que as esmeraldas suas rutilavam!

         O sol, ao pôr-do-sol, (triste soslaio!)

         No áureo andor, que os mais nobres

         carregavam!

—Olha ao redor: se estão em seu domínio—

          'Onde estão'?

                            Religioso eis o vigário

         Vem caminhando. Atroz, encara o Andino.

         Fala em Cristo e apresenta o breviário ...

Nuvem que zomba dos destinos do astro!

         lnti, deixando o ocaso, o abandonou.

         De Natura o gemer fundo e desastro,

         Todo Tauantinsúiu penetrou.

 

                        * * *

 

Dos Andes sobre o trono de ouro calmas

         Vejo as sombras dos Incas, êneo o aspecto:

         Manco-Cápac o gênio-deus, co'as palmas

         Benfeitoras do Sol, que são-lhe o cetro.

Sinchi-Roca, depois, o que zeloso

         Firma as leis e em províncias esquartela

         Tauantinsúiu. O canho glorioso

         Lhoque-Iupânqui, é a terceira estrela.

Depois, é Maita-Cápac o benigno

         Vencedor, que perdoa, que socorre,

         O Apurímac vence e é já divino

         Que, praticando a caridade, morre.

O filho, honra do pai, o continua

         Capac-Iupânqui. E Inca-Roca a este

         Honra e abrilhanta a longa vida sua

         Co'as reformas. Do reino tão celeste,

Não digno é Iauar-Huácac indolente.

         Porém, quão digno o filho, esse fragueiro

         Huiracocha, pastor, herói, vidente,

         Que a conquista prediz pelo estrangeiro.

Titu-Manco-Pachacutec a essa hora

         Há a mais vasta coroa e é qual um deus

         Reversor do universo. Iupânqui o honra,

         Ainda a mais glória conduzindo os seus.

Honra-o, continuador, Tupac-Iupânqui.

         Qual o Primeiro é o último, Huaina eterno.

         —E Huáscar e Ataualpa e o jovem Manco,

         Que não honraram o coração paterno—

Por quê? Como predisse-o Huiracocha;

         E Huaina-Cápac o sentia, vendo

         Já do Desconhecido a grande tocha,

         Mas, outro o modo de acendê-la crendo.

 

                            * * *

 

Oh, debalde os filósofos meditam

         Na infância altiva de um país tão belo,

         Se os apóstolos bons, que o Deus imitam,

         Viessem - o amor viesse do Evangelho!

Tinha vindo Moisés, que Manco o fora,

         Faltando vir Jesus; veio Castela

         Em nome dele: e desta vez agora,

         Quem é a Vida, foi a morte. A estrela

Do Sol, —o amor e a luz da natureza, —

         E a inocência comendo em pratos de ouro

         ­Quanta miséria! O coração de um Guesa

         Encarnação de todos os tesouros,

De alegria, pureza, adolescência, —

         Era a of'renda dos céus! meiga virtude

         Do sacrifício de candor, e ciência

 

         De religião que ensina mansuetude!

         —Sacro fogo dos templos, apagaram;

         Sacras virgens do Sol, prostituíram;

         Aos santos sacerdotes, dispersaram

         Nas serras - deles a seus cães nutriram.

 

(De O Guesa)

 

Extraído de POESÍA BRASILEÑA COLONIAL. Traducción y prólogo de Ricardo Silva-Santisteban. Lima: Centro de Estudios Brasileños, 1985.  117 p. (Tierra Brasileña. Poesía 20

 

 

 

TEXTO EN ESPAÑOL

Traducción de Javier Sologruen


DeI Canto Décimo Primero

 

1878

 

Ya irradiada la esfera, las estrellas

El mar con luz radial garabatean

Que una brisa gentil de primavera,

Cual blanca duna los albeantes panos,

Cándida sopla, de hora adamantina

Velando, nauta de cubierta, el Guesa

La soledad amaba, margarita

Que se abre y reza a rubias alboradas.

Ora, en el mar Pacífico renacen

Los sentimientos tal después de un sueño

Los ojos infantiles se complacen

Dilatados en los cielos risueños.

 

* * *

 

Vasta amplitud -inmensidad- engañan,

Cóncavos cielos, redondez profunda

Del mar en luz —¡cuán amplios se confunden

En la paz de las aguas y natural

¡Ola ninguna ni florón de espuma,

O vela o iris de grandiosa calma,

Donde navego (reino-amor de Numa)

Cual navegaba yo dentro de mi alma!

iVedme en los horizontes luminosos!

Veo, tal como vi, los mudos Andes,

Terribles infinitos tempestuosos,

Nubes flotando —magnos espectáculos—

!Ea, divinal fantasía! incendio

Del pensamiento eterno —¡helo magnífico

AI Ande que alto ondea al Chimborazo,

A rayos de Inti, y voz del mar Pacífico!

 

* * *

 

Montes serpean, tronar de seguidos

Montes abarrancando escombro andino

Desde el azul mar al cielo azul —vértebras

Sobrepuestas del mundo y mundo dorso—

¡Cordillera eternal! ¡Eternos, grandes

Altares! ¡blanca niebla transparente!

Hay en andino piélago asombroso

Extraño iris, y un cual poder, sin tregua

Creciendo en el espacio, —azuladas

Diáfanas soledades de halo andino,

Donde morará su alma, ¡sacras formas

del éter!

y la algente y siempre y fina

Cortina a duros montes suspendida;

Y lo vago, lo humeante, lo profundo

De los que les son propios horizontes;

Siempre mirando al Guesa inmensos días.

 

* * *

 

Así fue navegando el mar Pacífico:

Aprendiendo el silencio de los montes;

La calma de las aguas, y que en místico

Velo, se oculta a medias gloria andina!

Modestia de las rocas: solo imítanla

Los de divinidad y virtud fuertes,

Que si resplendores a su frente agitan,

Virginidad, dolor guardan en pecho.

 

* * *

 

EI hombre fuerte: adoró silencioso,

Ojos cerrados cual se está en el templo,