Do Canto Décimo Primeiro
1878
Quando as estrelas, cintilada a esfera,
Da luz radial rabiscam todo o oceano
Que uma brisa gentil de primavera,
Qual alva duna os alvejantes panos,
Cândida assopra, — da hora adamantina
Velando, nauta do convés, o Guesa
Amava a solidão, doce bonina
Que abre e às douradas alvoradas reza.
Ora, no mar Pacífico ,renascem
Os sentimentos, qual depois de um sonho
Os olhos de um menino se comprazem
Grande-abertos aos céus de luz risonhos.
* * *
Vasta amplidão -imensidade- iludem,
Côncavos céus, profunda redondeza
Do mar em luz - quão amplos se confundem
Na paz das águas e da natureza!
Nem uma vaga, nem florão d'espuma,
Ou vela ou íris à grandiosa calma,
Onde eu navego (reino-amor de Numa)
Qual navegava dentro da minha alma!
Eis-me nos horizontes luminosos!
Eu vejo, qual eu via, os mudos Andes,
Terríveis infinitos tempestuosos,
Nuvens flutuando —os espetac'los grandes—
Eia, imaginação divina! abraso
Do pensamento eterno —ei-lo magnífico
Aos Andes, que ondam alto ao Chimborazo,
Aos raios d'Inti, à voz do mar Pacífico!
* * *
E andam montanhas, trovoar de crebros
Montes, abarrancando o ândeo destroço,
Desde o azul mar ao céu azul —vértebros
Sobrepostos do mundo e mundo dorso-
Cordilheira eternal! eternos, grandes
Altares! —alva transparente névoa!
Há no assombroso pélago dos Andes
Iris estranho; e um qual-poder, sem trégua
Avultando no espaço —as aniladas
Diáfanas solidões do nimbo andino,
Onde sua alma habitará, sagradas
Formas do Éter!
E sempre a algente, fino
Cortinado suspenso aos duros montes;
E o vago, a fumarento, a profundeza
Dos que são-Ihes os próprios horizontes;
E imensos dias sempre olhando o Guesa.
* * *
Assim navegou ele o mar Pacífico:
Aprendendo o silêncio, da montanha;
Das águas, esta calma; e que em véu místico
Meio oculta-se a glória ândea, tamanha!
Modéstia dos rochedos: sós a imitam
Os fortes de virtude e divindade,
Que, resplendores se lhe à fronte agitam,
Guardam no peito a dor e a virgindade.
* * *
O homem forte: adorou silencioso,
Cerrados olhos qual quem ´stá no templo
Interno, eterno; e forte e tão piedoso
e si mesmo, e a si mesmo sendo exemplo:
Sentiu-se, Inti existindo, estando em Deus.
Sentiu ser em Deus-Alma necessária
Sua existência, nuvem que precária
Era animada à limpidez dos céus,
Ao Coração - que ele ora contemplava
Com a ciência, que vê mais claramente,
Mais sonda o abismo seu, mais luz achava.
Era na infância um homem-deus vidente.
* * *
Na deusa dos mortais não creu, na esp'rança;
Creu fé, na gratidão que não esquece,
Porque é a saudade, é a lembrança
E o divo amor, que o outro é d'interesse.
Entanto, é da esperança um sentimento
De justiça futura, que o encanta;
Mas, antes que a visão do julgamento,
Creu fé, e houve resignação, a santa.
Meditando, sentia terra o cérebro
Onde a idéia, qual arvor', se lhe enfinca::
E recém-nado, do terreno verbo
Sentiu-se em Deus e ergueu a fronte d'lnca!
* * *
Nevosa-nédia espuma, o lago-oriente,
Brilhava em Titicaca o albor do dia.
Ele partiu pr'a o oeste. O Sol ponente,
Bem quando da coroa desprendia
Grandes, qual gloriosos pensamentos,
Relâmpagos nos céus cerúleos ermos,
Ali Manco, à jornada pondo termos,
Lançou da capital os fundamentos.
E os sonhos todos, todos se cumpriram —
Cumprem-se todos, todos! — do passado,
Vê-se o porvir; os astros que sorriam
Em nós, depois os vemos, encantados!
* * *
E é do Guesa a existência do futuro;
Viver nas terras do porvir, ao Guesa
Compraz, se alimentar de pão venturo,
Crenças do Além, no amor da Natureza:
Fecundas terras, onde lhe chovia
Eterno pensamento, irradioso,
Cristalino, a que ao Sol ideal o dia
Ortivo incásio abriu, doce e formoso!
* * *
´Stava ele olhando a vesperal centelha
Áurea e tão jovem se apagar no ocaso:
E de Chasca o arrancar-se a trança bela
Ou d'olhos destruidora a luz, acaso?
"E cintilou nos céus, com a saudade
E o namorado adeus, oh! quão formoso
Da açucena do campo aberta à tarde,
Da noite ao modo, ao lar misterioso
"Branda, amorosa, os olhos co'os instantes
De morte que debate-se por vida –
Ó Kusi-Kkóillur! brilhos estelantes,
Alegria, que fazes tão querida
"A terra, por ti só! tanta é, tão forte
Meiga a doçura com que a ela inclinas
A face de antenoites matutinas—
Princesa e nhusta do Inca, onde o consorte?
De Olhantai nos rochedos, invisível
Na fortaleza sua, alto, fragueiro,
Revolto, ou contra o rei s'ergue terrível
Ou geme o doce amor. Teve-a o guerreiro
Quando lnti-Súiu, na comarca oriente
Alva a luz de cegar, as alvoradas
Anunciando o Sol; vozes candentes
De túnqui a ouvir, do sangue consagradas.
—Fúlgur o manto, astral a mascapaicha,
Insígnia régia e resplendor da fronte,
Glorioso Tupac-Iupânqui baixa
Do áureo andor. Já saúda ao Sol desponte;
Já prosternado o ameno e grande povo,
Tomada a bênção paternal, eis logo
Toma do arado de ouro e em campo novo
(Lede-lhe as festas na moral do prólogo)
Vai o Inca lavrando. Rompem de hinos,
Os salmos d'huacáilhi e o que memora
Belicosas ações, e os tão divinos
Coros das virgens ao rubor da aurora.
—Aclararam-se, tronos de ouro, os Andes!
Já dentre raios de rubis em chama,
lnti-Deus assentou-se, e a eternas,
grandes Mãos, as bênçãos de amor dos céus
derrama!
Ele, o amado e senhor da terra, a veste
De primores e a cobre irradiando,
Muda em topázio o páramo celeste
E vai no firmamento atravessando.
* * *
Assim de Manco-Cápac, ao levante
'Stando o dia, formoso amanhecera:
Como espontânea a humanidade amante
Floriu, da lei moral, glórias na terra!
E é doce o império do Inca, da doçura
Que faz amar-se e mais querer divina
A realeza naqueles, porventura,
Que a fazem real, a um deus, tão só,
condigna.
No berço vês da in-hiema natureza,
Dentre Andes e o Pacífico oceano,
Erguer-se a humana planta, na pureza,
Da terra, ao Sol; do Sol, ao Todo-Arcano:
Da terra ao Sol, os Andes apontavam;
Do amor as leis, as Plêiades ditavam;
E o deserto assombroso de Atacama,
Ao Deus-Desconhecido — Pachacâmac!
* * *
Jejuava Ataualpa, silencioso,
De sua vasta corte rodeado,
Marmóreo, calmo, andino, grandioso!
Nem olha os cavaleiros que hão chegado,
Que, gineteando, a tímidos pavoram!
—Em taças de ouro servem régia chicha
Belas de negros olhos, buenadichas
Do Inca.— Profanos, só de as ver, descoram.
Vasto o horizonte, a noite cintilavam
Índios fogos, 'como astros'; e de dia
As tendas, como mares, alvejavam;
E um só audaz, que um basta, não tremia.
* * *
Do ibério chefe e o imperador andeano
Amigas saudações, ricos presentes
Foram trocados. Já o soberano
Vem dos Andes descendo, aos ocidentes
Glório descer do abismo! Inti e seu filho,
Viu-se na mesma estrada jornadeando,
No último dia: e povo e deus, tal brilho
Na terra, antes ninguém vira ostentando!
Raio seu, para o ocaso o seu império
Glorioso o Sol levava entre esplendores:
'Cadáver de ouro', que o etereal mistério
Deixou destes crespúsculos-albores.
* * *
Luzem os pavilhões d'íris de Quito:
Dentre o exército e o Sol no firmamento,
Vem solene Ataualpa, os olhos fitos,
Qual setas, no espanhol acampamento.
Nada ele teme dentre seus guerreiros
Veteranos, que o seguem, que o rodeiam;
E dos céus sendo enviados estrangeiros
Que no hóspede benvindo todos creiam!
Dupla amostra, de paz e de grandeza,
Quer ele honrar o encontro que aliança
Firma co'o branco, que há para defesa
Raios, trovões, corcéis, espada e lança.
O hailhi triunfal canta a vanguarda,
Querido ao povo, e que ressoa 'inferno'
Ao pérfido que espreita-lhe a chegada
E projeto infernal resolve interno.
O Inca vem pernoital' em (axamarca
Entre amigos, na Casa-da-serpente
(Fascinação eterna!) — ai do monarca!
—Chegou. A praça entrou.- Oh! o imprudente
Bem via-se confiar em tanto raio
Que as esmeraldas suas rutilavam!
O sol, ao pôr-do-sol, (triste soslaio!)
No áureo andor, que os mais nobres
carregavam!
—Olha ao redor: se estão em seu domínio—
'Onde estão'?
Religioso eis o vigário
Vem caminhando. Atroz, encara o Andino.
Fala em Cristo e apresenta o breviário ...
Nuvem que zomba dos destinos do astro!
lnti, deixando o ocaso, o abandonou.
De Natura o gemer fundo e desastro,
Todo Tauantinsúiu penetrou.
* * *
Dos Andes sobre o trono de ouro calmas
Vejo as sombras dos Incas, êneo o aspecto:
Manco-Cápac o gênio-deus, co'as palmas
Benfeitoras do Sol, que são-lhe o cetro.
Sinchi-Roca, depois, o que zeloso
Firma as leis e em províncias esquartela
Tauantinsúiu. O canho glorioso
Lhoque-Iupânqui, é a terceira estrela.
Depois, é Maita-Cápac o benigno
Vencedor, que perdoa, que socorre,
O Apurímac vence e é já divino
Que, praticando a caridade, morre.
O filho, honra do pai, o continua
Capac-Iupânqui. E Inca-Roca a este
Honra e abrilhanta a longa vida sua
Co'as reformas. Do reino tão celeste,
Não digno é Iauar-Huácac indolente.
Porém, quão digno o filho, esse fragueiro
Huiracocha, pastor, herói, vidente,
Que a conquista prediz pelo estrangeiro.
Titu-Manco-Pachacutec a essa hora
Há a mais vasta coroa e é qual um deus
Reversor do universo. Iupânqui o honra,
Ainda a mais glória conduzindo os seus.
Honra-o, continuador, Tupac-Iupânqui.
Qual o Primeiro é o último, Huaina eterno.
—E Huáscar e Ataualpa e o jovem Manco,
Que não honraram o coração paterno—
Por quê? Como predisse-o Huiracocha;
E Huaina-Cápac o sentia, vendo
Já do Desconhecido a grande tocha,
Mas, outro o modo de acendê-la crendo.
* * *
Oh, debalde os filósofos meditam
Na infância altiva de um país tão belo,
Se os apóstolos bons, que o Deus imitam,
Viessem - o amor viesse do Evangelho!
Tinha vindo Moisés, que Manco o fora,
Faltando vir Jesus; veio Castela
Em nome dele: e desta vez agora,
Quem é a Vida, foi a morte. A estrela
Do Sol, —o amor e a luz da natureza, —
E a inocência comendo em pratos de ouro
Quanta miséria! O coração de um Guesa
Encarnação de todos os tesouros,
De alegria, pureza, adolescência, —
Era a of'renda dos céus! meiga virtude
Do sacrifício de candor, e ciência
De religião que ensina mansuetude!
—Sacro fogo dos templos, apagaram;
Sacras virgens do Sol, prostituíram;
Aos santos sacerdotes, dispersaram
Nas serras - deles a seus cães nutriram.
(De O Guesa)