ODYLO COSTA, filho
(1914-1979)
Poeta maranhense. Autor de muitos livros de poesia e prosa, destacando-se Boca da Noite, obra póstuma. Outros títulos: Tempo de Lisboa e outros poemas, Cantiga incompleta e Notícias de Amor. Chegou a ser membro da Academia Brasileira de Letras.
TEXTOS EM PORTUGUÊS / TEXTOS EN ESPAÑOL
Traducciones de Homero Icaza Sánchez y Estela dos Santos
REZA
Meu Deus, tende pena
do que resta em mim:
nem o mundo é feio,
nem a vida, ruim.
Meu Deus, dai-me força
de amar minha sorte:
fazer luz de vida
das trevas da morte.
ORACIÓN
Dios mio, ten pena
de lo que sobra en mí:
ni es feo el mundo,
ni la vida ruín.
Dios mío, dame fuerzas
para amar mi suerte:
tornar luz de vida
las sombras de muerte.
GLOSA DE LOPE DE VEGA
“… nos olhos me levais alma e sentidos…”
Luís de Camões
“Dos libros, três pinturas, cuatro flores”,
pedia Lope para ser feliz:
Não falou de riquezas nem de amores.
Esse pouco de pobre —não mais—quis.
Castos delírios de espanhol asceta...
Passaram quatro séculos, e um dia
Gabriel Celaya, também grande poeta,
jurou por Deus que nada mais queria.
Temos, porém, pai, mestre e capitão,
no soldado fortíssimo, que disse
a uns olhos entregar alma e sentidos.
De coisa alguma havemos precisão.
Livros, quadros e flores, que doidice!
Basta-nos ser de um só Amor providos.
GLOSA A LOPE DE VEJA
“… nos olhos me levais alma e sentidos…”
Luís de Camões
“Dos libros, três pinturas, cuatro flores”,
pedia Lope para ser feliz.
No habló de riquezas ni de amores.
Eso poco de pobre —no más—quiso.
Castos delirios de español asceta…
Pasaron cuatro siglos y un día
Gabriel Celaya, también gran poeta,
juró por Dios que nada más quería.
Mas tenemos padre, maestro y capitán,
en el soldado valiente que dijo
a unos ojos entregar alma y sentidos.
De nada tenemos necesidad.
¡Libros, cuadros y flores, qué locura!
Bástanos ser de un solo Amor provistos.
ANTIGAMENTE
Antigamente não acreditava no outro mundo.
Pelo menos tinha minhas dúvidas.
Pensava nele como categoria abstrata
presença (ou ausência) de amor
inominado
etéreo
talvez terrível.
Hoje creio simplesmente num outro mundo
parecido com este:
cadeiras, mesa, copo d´água,
e de novo tuas mãos, tuas cartas:
“Meus queridos...”
ANTIGUAMENTE
Antiguamente no creía en el otro mundo.
Por lo menos tenía mis dudas.
Pensaba en él como categoría abstracta
presencia (o ausencia) de amor
innominado
etéreo
tal vez terrible.
Hoy creo simplemente en otro mundo
parecido a éste:
sillas, mesa, vaso de agua,
y de nuevo tus manos, tus cartas:
“Mis queridos…”
SONETO DO SÓ
Só, neste chão ocidental da Europa,
sou apenas lembrança, e só lembrança.
A fé, se na perdi, é que me agarro
ao padre-nosso que escutei menino.
A saudade me tira o gosto às coisas
e me resseca os olhos enevoados.
Campos e barcos, trajes, casas, rios
atravessam-me o corpo sem ficar.
Mas espero no espírito e no sangue.
As rezas que aprendi e que ensinei
hão de chegar a tempo de salvar-me.
Traspassado do límpido segredo,
hei de com os dedos arrancar à terra
alegria de amor que não se acabe.
SONETO DEL SOLITARIO
Solo, en este suelo occidental de Europa,
apenas soy memoria, solamente.
Si no perdí la fe, es que me agarro
al padrenuestro que escuché de niño.
La saudade me quita el gusto a cosas
y reseca mis ojos nublados.
Campos y barcos, trajes, casas, ríos
atraviesan mi cuerpo sin quedarse.
En el espíritu y la sangre espero.
La oración que aprendí y que enseñé
ha de llegar a tiempo de salvarme.
Traspasado de límpido secreto,
arrancaré a la tierra con los dedos
alegría de amor que no se acabe.
Publicados originalmente numa antologia bilíngüe do Centro de Estudios Brasileños de Buenos Aires e reproduzidos na REVISTA DE CULTURA BRASILEÑA, N. 51, diciembre de 198º. Publicación de la Embajada del Brasil en Madrid, España. |