MÁRCIA THEÓPHILO
Nasceu em Fortaleza, Ceará, Brasíl, em 1940. Antropóloga, estudou música na Europa. Toda a sua obra se inspira à floresta amazônica, seus povos, seus animais, suas árvores, seus mitos, e à denuncia da sua destruição e ao empenho de salvar o patrimônio natural de cultural da floresta.
Sua poesia vem sendo traduzida para vários idiomas e já foi indicada sua candidatura para o prêmio Nobel. Vive na Itália.
Página da autora: http://www.theophilo-amazonia-e-poesia.info
TEXTOS EM PORTUGUÊS / TEXTOS EN ESPAÑOL
A NOITE
No princípio havia noite
não se sabia o que era noite
havia somente luz e era tão intensa, nos trópicos
que se tinha a sensação de passar períodos de azul
de vermelho, de verde
era tão forte a luz que as pessoas tinham
a sensação de flutuar
dentro das cores
dentro das plantas
tudo o que hoje não fala, falava
intercomunicava-se entre si
as árvores falavam
e estimulavam o pensamento com suas flores
não se sabia o que era negro
existiam somente as cores que emanavam da luz
e distribuíam energia-pensamento
mas não se dormia
porque a música nasceu com o silêncio e com a noite
a música nasceu com a consciência dos primeiros ritmos
e com a noite nasceu o primeiro canto.
1979
OS COQUEIROS
O rosto daquela mulher
impressionou-me muito
éramos cinco
um morreu pelo caminho
e os outros
será que estão vivos?:
—olha o puxa-puxa criançada olha o puxa-puxa!—
outro dia viajei
por terras desconhecidas
nos contornos das praias
os coqueiros
—água de coco gela água de coco gelada!—
as porções de açúcar estão crescendo
o fôlego
estou perdendo fôlego
está havendo aumento de terra
não existe mais água.
Eu Canto Amazonas, 1972
OS MENINOS JAGUAR
I
É imóvel a terra, quando a deusa Jaguar
de noite entra na aldeia
e com ela Urucu, Pajurá
Japicahy, Tauari
Arari, Mangalô
os rostos iluminados, um facho de luz
baila um guerreiro dentro de cada um
II
é ela a divindade Jaguar.
abre o universo fechado escuro
a concha, ninho de todos os seres
Murucu Maracá
III
os meninos guerreiros
—cada um encarna um mito—
ornados com trançados de penas de arara
brincos de penas de arara
cinturas de penas de arara
colares de unhas de jaguar
braçadeiras de caramujos do rio
CXLII
entram na cidade os meninos
Mucura se muda em jaguar
as pessoas se fecham dentro das casas:
os frutos amadurecem, as árvores germinam
o grito dos animais infunde medo
CXLIII
a deusa Jaguar
se transforma em todas as coisas
que vivem n´água
se transforma em todas as coisas
que vivem na terra
plantas e animais
rios e chuvas
XXLIV
na noite um perto do outro
dormem os meninos
enrolados em jornais, em casas de cartões
um olho fechado um outro aberto
olhos em forma de lua nascente
por boca um triângulo
e o braço em ângulo reto.
Os Meninos Jaguar, 1995
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Extraídos de
ANTOLOGÍA DE LA POESÍA BRASILEÑA
Org. y Trad. Xosé Lois García
Edicións Laiovento
Santiago de Compostela, 2001
LA NOCHE
Al principio no existia la noche
no se sabía qué era la noche
solamente había luz y era tan intensa, en los trópicos
que se tênia la sensación de psar períodos de azul
de rojo, de verde
era tan fuerte la luz que las personas tenían
la sensación de flotar
dentro de los colores
dentro de las plantas
todo lo que hoy no habla, hablaba
se intercomunicaba entre si
los árboles se hablaban
y estimulaban el pensamiento con sus flores
no se sabía qué era lo negro
existían solo los colores que emanaban de la luz
y distribuían energia-pensamiento
peero no se dormia
el hombre no conocía el cansancio
pero tampoco conocía la ternura del descanso
el silencio y la música
porque la música nació con el silencio y con la noche
la música nació con la conciencia de los primeros ritmos
y con la noche nació el primer canto.
1979
LOS COQUEROS
El rostro de aquella mujer
me impresionó mucho
éramos cinco
uno murió en el camino
y los otros
¿estarán vivos?
—ίmirad el chupa chupa criaturas el chupa chupa!—
Otro día viaje
por tierras desconocidas
por los contornos de las playas
em los cocoteros
—ίagua de coco helada água de coco!—
Las parcelas de azúcar están creciendo
el aliento
estoy perdiendo aliento
está aumentando la tierra
ya no existe más água.
Eu Canto Amazonas, 1972
LOS NIÑOS JAGUAR
I
Inmóvil es la tierra, cuando la diosa Jaguar
de noche entra en la aldeã
y con ella Urucu, Pajurá
Jupichay, Tauari
Arari, Mangalô
los rostros iluminados, una antorcha de luz
baila un guerrero dentro de cada uno
II
es ella la divindad Jaguar.
Abre el universo cerrado oscuro
la concha, nido de todos los seres
Murucu Maracá
III
los niños guerreros
—cada uno encarna a un mito—
ornados con trenzados de plumas de papagayo
pendientes de pluma de papagayo
collares de uñas de jaguar
brazaletes de cangrejos de río.
CXLII
entran en la ciudad los niños
Mucura se transforma en jaguar
la gente se encierra dentro de las casas:
los frutos maduran, los árboles germinan
el grito de los animales infunde miedo
CXLIII
la diosa Jaguar
se transforma en todas las cosas
que viven en el agua
se transforman en todas las cosas
que viven en la tierra
plantas y animales
rios y lluvias
CXLIV
por la noche uno cerca del outro
duermen los niños
envueltos em periódicos, en casas de cartones
un ojo cerrado el outro abierto
ojos en forma de luna naciente
y el brazo em ángulo reto.
Os Meninos Jaguar, 1995
Página publicada em dezembro de 2007 |