MANUEL INÁCIO DA SILVA ALVARENGA
(1749-1814)
Manuel Inácio da Silva Alvarenga (Vila Rica, atual Ouro Preto MG, 1749 - Rio de Janeiro RJ, 1814). Freqüentou estudos de Matemática e de Direito Canônico na Universidade de Coimbra (Portugal) entre 1773 e 1776. Músico, mas não seguiu a carreira por proibição do pai. De volta ao Brasil, participou da Arcádia Romana em Minas, com o pseudônimo de Alcindo Palmireno, por volta de 1768, em Ouro Preto MG. Na década de 1780 foi professor de Retórica e Poética no Rio de Janeiro. Em 1786, foi fundador, elaborador dos estatutos e secretário da Sociedade Literária, o que o levou a ser preso entre 1794 e 1797, por acusação de conspiração contra o governo; foi solto por clemência de D. Maria I. Nos anos de 1813 e 1814 colaborou em O Patriota, de Manuel Ferreira de Araújo Guimarães, a primeira revista de cultura impressa no Brasil após a chegada de D. João VI.
Livros de poesisa: O Desertor (1774), O Templo de Netuno (1777), A Gruta Americana (1779), Às Artes (1778) e, o mais famoso, Glaura (1799). Silva Alvarenga é um dos principais poetas árcades brasileiros.
TEXTOS EM PORTUGUÊS / TEXTOS EN ESPAÑOL
O Beija-flor
Deixo, ó Glaura, a triste lida
Submergida em doce calma;
E a minha alma ao bem se entrega,
Que lhe nega o teu rigor.
Neste bosque alegre e rindo
Sou amante afortunado,
E desejo ser mudado
No mais lindo beija-flor.
Todo o corpo num instante
Se atenua, exala e perde;
É já de oiro, prata e verde
A brilhante e nova cor.
Deixo, ó Glaura, a triste lida
Submergi da em doce calma;
E a minha alma ao bem se entrega,
Que lhe nega o teu rigor.
Vejo as penas e a figura,
Provo as asas, dando giros;
Acompanham-me os suspiros,
E a ternura do pastor.
E num vôo feliz ave
Chego intrépido até onde
Riso e pérolas esconde
O suave e puro amor.
Deixo, ó Glaura, a triste lida
Submergida em doce calma;
E a minha alma ao bem se entrega,
Que lhe nega a teu rigor.
Toco o néctar precioso,
Que a mortais não se permite;
É o insulto sem limite,
Mas ditoso o meu ardor;
Já me chamas atrevido,
Já me prendes no regaço;
Não me assusta o terno laço
É fingido o meu temor.
Deixo, ó Glaura, a triste lida
Submergida em doce calma;
E a minha alma ao bem se entrega,
Que lhe nega o teu rigor.
Se disfarças os meus erros,
E me soltas por piedade,
Não estimo a liberdade,
Busco os ferros por favor.
Não me julgues inocente,
Nem abrandes meu castigo,
Que sou bárbaro inimigo,
Insolente e roubador.
Deixo, ó Glaura, a triste lida
Submergida em doce calma;
E a minha alma ao bem se entrega,
Que lhe nega o teu rigor.
Madrigais
Neste áspero rochedo,
A quem imitas, Glaura sempre dura,
Gravo o triste segredo
Dum amor extremoso e sem ventura.
Os faunos da espessura
Com sentimento agreste
Aqui meu nome cubram de cipreste;
Ornem o teu as ninfas amorosas
De goivos, de jasmins, lírios e rosas.
***
Suave fonte pura,
Que desces murmurando sobre a areia,
Eu sei que a linda Glaura se recreia
Vendo em ti de seus olhos a ternura:
Ela já te procura;
Ah! como vem formosa, e sem desgosto!
Não lhe pintes o rosto:
Pinta-lhe, ó clara fonte, por piedade,
Meu terno amor, minha infeliz saudade.
* * *
No ramo da mangueira venturosa
Triste emblema de amor gravei um dia,
E às dríades saudoso oferecia
Os brandos lírios e a purpúrea rosa.
Então Glaura mimosa
Chega do verde tronco ao doce abrigo ...
Encontra-se comigo ...
Perturbada suspira, e cobre o rosto.
Entre esperança e gosto,
deixo lírios e rosas ... deixo tudo;
Mas ela foge (ó céus!) e eu fico mudo.
* * *
Capada laranjeira, onde os amores
Viram passar de agosto os dias belos,
Então de brancas flores
Adornaste risonha os seus cabelos.
A fortuna propícia aos teus desvelos
Anuncia feliz novos favores:
Glaura torna; ah! conserva lisonjeira,
Copada laranjeira, por tributos,
Na rama verde-escura os áureos frutos.
* * *
Ó sono fugitivo,
De vermelhas papoulas coroado,
Torna, torna amoroso, e compassivo
A consolar um triste, e desgraçado,
Gemendo nesta gruta recostado,
Sinto mortal desgosto;
Não vejo mais que o rosto descorado
Da saudade, e da mágoa, com que vivo;
Ó sono fugitivo,
Torna, torna amoroso, e suspirado
A consolar um triste, e desgraçado.
* * *
Crescei, mimosas flores,
Adornai a verdura deste prado.
Já zéfiro aparece entre os Amores
Risonho e sossegado:
Da amável Primavera o doce agrado
Novo prazer inspira às Graças belas:
Verei brincar entre elas
A Ninfa mais cruel nos seus rigores.
Crescei, mimosas flores,
Fugiu o Inverno triste, e congelado;
Adornai a verdura deste prado:
* * *
Ó águas dos meus olhos desgraçados,
Parai que não se abranda o meu tormento:
De que serve o lamento
Se Glaura já não vive? Ai, duros Fados!
Ai, míseros cuidados!
Que vos prometem minhas mágoas? águas,
Águas! . " responde a gruta,
E a ninfa que me escuta nestes prados!
Ó águas de meus olhos desgraçados,
Correi, correi; que na saudosa lida
Bem pouco há de durar tão triste vida.
(De Glaura).
À LUA
Como vens tão vagarosa,
Oh formosa e branca lua!
Vem co'a tua luz serena
Minha pena consolar!
Geme, oh! céus, mangueira antiga,
Ao mover-se o rouco vento,
E renova o meu tormento
Que me obriga a suspirar!
Entre pálidos desmaios
Me achará teu rosto lindo
Que se eleva refletindo
Puros raios sobre o mar.
De Glaura
 |
De
Manuel Inácio da Silva Alvarenga
O DESERTOR
Poema herói-cômico.
Edição preparada por Ronald Polito
Campinas, SP: Editora da Unicampi, 2010
ISBN 852680621-1
A reedição desta obra pouco conhecida de Silva Alvarenga, originalmente publicada em 1774, em Coimbra, é o resultado de um trabalho meticuloso e erudito de Ronald Polito. Trabalho de cotejamento, transcrição e interpretação filológica e histórica a partir do microfilme do exemplar da célebre coleção de José Mindlin. Certamente que Glaura ofuscou toda a obra do poeta, com sucessivas edições disponíveis em livrarias e bibliotecas. Mas O Desertor traz para a compreensão de nossa literatura uma contribuição excepcional por retratar um momento e uma visão da cultura literária e política de seu tempo, além de constituir-se em exemplo de um gênero fundamental para o estudo da literatura luso-brasileira. A "Introdução" e as "Notas" desta edição a cargo de Polito são peças fundamentais nesta abordagem que resgata a memória de uma obra singular e emblemática, e desvenda nossa alma cultural e seus intrincados labirintos e melindres.
Que esperas tu dos livros?
Crês que ainda apareçam grandes homens
Por estas invenções, com que se apartam
Da profunda ciência dos antigos?
Morreram as postilas, e os Cadernos:
Caiu de todo a Ponte, e se acabaram
As distinções, que tudo defendiam,
E o ergo, que fará saudade a muitos!
Noutro tempo dos Sábios era a língua
Forma, e mais forma: tudo enfim se acaba,
Ou se muda em pior.
"Quando a Verdade aparece em sonhos ao preguiçoso "herói" de O desertor, começa a se esclarecer a postura de Manuel Inácio da Silva Alvarenga, ao compor seu ambicioso poema satírico. "Eu sou quem de intricados labirintos /Pôs em salvo a Razão ilesa, e pura" - diz ela, mas sem ocultar seu estreito vínculo com o poder: "Se são firmes por mim o Estado, a Igreja, / Se é no seio da paz feliz o Povo, / Dizei-o vós, ó Ninfas do Parnaso". A pretendida pureza racional aparece diretamente ligada à conservação das instituições político-religiosas, e assim enfeixa de uma vez as noções de bom senso, boa conduta e bom governo.
Isso basta para reconhecermos em O desertor um dos textos mais importantes para o estudo e o desvelamento das especificidades da ilustração luso-americana no século XVIII. Silva Alvarenga, no entanto, é o menos conhecido e divulgado dos árcades "ultramarinos". Em todo o século XX, praticamente só a sua poesia retornou aos prelos, com rondós e os madrigais amorosos e Glaura. A volta de O desertor — quase 150 anos depois da última edição integral — pode dar início à redescoberta das demais facetas do poeta.
Neste caso, trata-se de um poema herói-cômíco, que almeja provocar o riso ao dar tratamento épico a situações e personagens tidos como ridículos. Publicado em 1774, tem como ponto de partida a celebração da reforma da Universidade de Coimbra empreendida com mão de ferro pelo marquês de Pombal. O protagonista, Gonçalo, é o "desertor das letras": dissoluto e mal-acostumado com os "intricados labirintos" da velha escolástica, agora banida, o rapaz não tem outra escolha senão fugir das salas de aula. Assim se iniciam as peripécias do poema, entre as
quais não será das menos curiosas o fazer a sátira dos costumes se confundir com o elogio do poder."
Sérgio Alcides
DOS FRAGMENTOS DE "O DESERTOR - Poema herói-cômico"
Os que aprendem o nome dos autores,
Os que lêem só o prólogo dos livros,
41 E aqueles, cujo sono não perturba
O côncavo metal, que as horas conta,
Seguiram as bandeiras da ignorância
Nos incríveis trabalhos desta empresa.
(...)
Heróis, a quem uma alma livre anima,
Que desprezando as Artes, e as Ciências,
Ides buscar da Pátria no regaço,
190 Longe da sujeição, e da fadiga
Doce descanso, amável liberdade:
Se algum de vós (o que eu não creio) ainda
Tem na alma o vão desejo dos estudos,
Levante o dedo ao alto. Uns para os outros
195 olharam de repente, e de repente
Rouco, e brando sussurro ao ar se espalha:
Qual nos bosques de Tempe*, ou nas frondosas
Margens, que banha o plácido Mondego,
Costuma ouvir-se o Zéfiro suave,
200 Quando meneia os álamos sombrios.
Nenhum alçou a mão, e a Ignorância
Pareceu consolar-se, imaginando
Sonhadas glórias de futuro império.
* Qual nos bosques de Tempe. Lugar da Tessália célebre pela amenidade de seus bosques.
TEXTOS EN ESPAÑOL
Traducción de Ricardo Silva-Santisteban.
El picaflor
Dejo, oh Glaura, el triste afán
sumergido en dulce calma;
luego mi alma lI bien se entrega
que le niega tu rigor.
En esta alegre floresta
soy amante afortunado,
y deseo ser mudado
en un lindo picaflor.
Todo el cuerpo en un instante
se extenúa, exhala y pierde;
es ya de oro, plata y verde
brillante y nuevo el color.
Dejo, oh Glaura, el triste afán
sumergido en dulce calma;
luego mi alma al bien se entrega
que le niega tu rigor.
Veo plumas y figura,
alas pruebo, dando giros;
me acompañan los suspiros,
la ternura del pastor.
Y feliz ave en un vuelo,
con audacia llego donde
risas y perlas esconde
el muy suave y tierno amor.
Dejo, oh Glaura, el triste afán
sumergido en dulce calma;
luego mi alma al bien se entrega
que le niega tu rigor.
Toco el néctar tan precioso
que no fue para mortales;
los insultos son mis males
pero dichoso mi ardor;
ya me llamas atrevido,
ya me prendes al regazo;
no me asusta el tierno lazo,
es fingido mi temor.
Dejo, oh Glaura, el triste afán
sumergido en dulce calma;
luego mi alma al bien se entrega
que le niega tu rigor.
Si disfrazas mis errores,
y me sueltas por piedad
no estimo la libertad,
hierros busco por favor.
No me juzgues inocente,
no me ablandes el castigo,
que soy bárbaro enemigo
insolente y robador.
Dejo, oh Glaura, el triste afán
sumergido en dulce calma;
luego mi alma al bien se entrega
que le niega tu rigor.
Madrigales
En áspero roquedo,
a quien imitas, Glaura, siempre dura,
grabo el triste secreto
de un amor extremoso y sin ventura.
Faunos de la espesura,
con sentimiento agreste,
cubran aquí mi nombre con cipreses;
y a ti te adornen las ninfas amorosas
de alhelíes, jazmines, lirios, rosas.
* * *
Fontana suave y pura,
que murmurando caes en la arena,
sé que la linda Glaura se recrea
viendo en ti de sus ojos la ternura:
ya ella te procura;
¡ah! ¡cómo viene hermosa y sin enojo!
No le pintes el rostro:
píntale, oh clara fuente, por piedade,
mi tierno amor, mi mísera saudade.
* * *
En las ramas del mango venturoso
triste emblema de amores grabé un día,
y a las ninfas saudoso yo ofrecía
el blando lirio y Ia encendida rosa.
Luego Glaura mimosa
llega del verde tronco al dulce abrigo ...
y se encuentra conmigo ...
perturbada suspira, y cubre el rostro.
Entre esperanzas y gusto,
dejo lirios y rosas ... dejo todo;
mas ella huye (¡oh cielos!), quedo mudo.
* * *
Oh, coposo naranjo, en que de amores
vieron de agosto pasar días bellos,
entonces de albas flores
adornaste risueño sus cabellos.
La fortuna propicia tus desvelos
nos anuncia feliz nuevos favores:
vuelve Glaura; ¡ah! conserva lisonjero,
oh, coposo naranjo, por tributos,
en rama oscura los dorados frutos.
* * *
Oh sueño fugitivo,
de rojas amapolas coronado,
vuelve, vuelve amoroso y compasivo
a consolar un triste y desdichado,
gimiendo en esta gruta recostado,
siento letal congoja;
no veo sino el rostro demudado
de nostalgia y de pena, con que vivo;
oh sueño fugitivo,
vuelve, vuelve amoroso y anhelado
a consolar un triste y desdichado.
* * *
Creced, mimosas flores,
adornad la verdura deste prado.
Aparece ya el céfiro entre Amores
risueño y sosegado:
da amable Primavera el dulce agrado
nuevo placer inspira a Gracias beIlas:
veré jugar con ellas
la Ninfa más tirana en sus rigores.
Creced, mimosas flores,
huyó el invierno triste y congelado;
adornad la verdura deste prado.
* * *
Oh aguas de mis ojos desgraciados,
parad, que no se ablanda mi tormento:
¿de qué sirve el lamento
si ya no vive Glaura?
¡Ay, duros Hados! iAy, míseros cuidados!
¿Qué os dan mis duelos a tus fraguas? aguas,
aguas! .. , responde el eco,
y la ninfa que me oye en estos prados.
Oh aguas de mis ojos desgraciados,
corred, pues, que en la triste acometida
bien poco ha de durar la amarga vida!
Extraído de POESÍA BRASILEÑA COLONIAL. Traducción y prólogo de Ricardo Silva-Santisteban. Lima: Centro de Estudios Brasileños, 1985. 117 p. (Tierra Brasileña. Poesía 23)
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