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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

LINDOLFO BELL

(1938—1998)

 

 

Nasceu em Timbó, município de Santa Catarina, em 2 de novembro de 1938. Formado pela Escola de Arte Dramática de São Paulo, seu gosto pela poesia veio dos pais, Theodoro e Amália Bell, uma fonte improvável, uma vez que ambos eram lavradores. Essa influência foi definitiva na carreira de Bell, encontrando-se enraizada na vida e nas obras do poeta. Lindolf foi líder do Movimento Catequese Poética, uma iniciativa que levava a poesia às ruas por meio de recitais, permitindo que milhares de pessoas conhecessem essa forma de arte. Esse trabalho deu à Bell um grande reconhecimento, no Brasil e também no estrangeiro. Lindolf Bell é atualmente o maior, o mais constante e importante nome da poesia catarinense.

 

Obras: 1962 - Os Póstumos e as Profecias; 1964 - Os Ciclos; 1965 – Convocação;

1966 - Curta Primavera; 1966 - A Tarefa; 1967 - Antologia Poética de Lindolf Bell;

1971/1979 - As Annamárias; 1974 – Incorporação; 1980 - As Vivências Elementares; 1984 - O Código das Águas; 1985 – Setenário; 1987 - Texto e Imagem; 1993 – Iconographia; 1994 - Pré-textos para um fio de esperança; 1994 - Requiem.   Fonte: Wikipedia. 

Página oficial do poeta, visita obrigatória!  http://www.lindolfbell.com.br/

 

 

TEXTOS EM PORTUGUÊS   /    TEXTOS EN ESPAÑOL / EN FRANÇAIS

 

 

 

PROCURO A PALAVRA PALAVRA

 

Não é a palavra fácil

que procuro.

Nem a difícil sentença,

aquela da morte,,

a da fértil e definitiva solitude.

A que antecede este caminho sempre de repente.

Onde me esgueiro, me soletro,

em fantasias de pássaro, homem, serpente.

 

Procuro a palavra fóssil.

A palavra antes da palavra.

 

Procuro a palavra palavra.

Esta que me antecede

E se antecede na aurora

De na origem do homem

 

Procuro desenhos

dentro da palavra.

Sonoros desenhos, tácteis,

Cheiros, desencantos e sombras.

Esquecidos traços. Laços.

Escritos, encantos re-escritos.

Na área dos atritos.

        

         Dos detritos.

Em ritos ardidos da carne

e ritmos do verbo.

Em becos metafísicos sem saída.

 

Sinais, vendavais, silêncios.

Na palavra enigmam restos, rastos de animais,

Minerais da insensatez.

Distâncias, circunstâncias, soluços,

Desterro.

 

Palavras são seda, aço.

Cinza onde faço poemas, me refaço.

 

Uso raciocínio.

Procuro na razão.

Mas o que se revela, arcaico, pungente,

eterno e para sempre, vivo,

vem do buril do coração.

 

 

RECÔNDITO IMPULSO

 

Amadureço

na palavra

que amadurece.

Entre fibras, sangue, desejo

que intumesce.

No amor

onde cresço, me acresço:

eis a messe.

 

Nivelar

é navalhar a liberdade.

E viver é longa estrada,

É recôndita vontade

dita e não dita:

                   vocábulo,

                   coágulo.

 

Amadurecer.

                   Lúcido,

                   lúdico.

 

Na maravilha,

na armadilha.

 

Amadurecer no âmago.

         O âmago amado.

         O amargo âmago, amado.

Amadurecer o âmago armado

do tempo esplêndido da alegria.

Mas também de tempo da amargura

que estraçalha

                   e desconfia.

 

Amadurecer.

A áspera saliência e rubra.

A macia maçã

do recôndito impulso.

 

 

A PALAVRA DESTINO

 

Deixai vir a mim

a palavra destino.

 

Manhã de surpresas, lascívia e gema.

Acasos felizes, deslizes.

Ovo dentro da ave dentro do ovo.

Palavra folha e flor.

 

Deixai vir a mim palavra

e seus versos, reversos:

         metamorfose,

         metaformosa.

 

Deixai vir a mim

a palavra pão-de-consolo.

Livre de ataduras, esparadrapos,

choques elétricos

e sutis guardanapos em seco engolidos socos.

 

Deixai vir a mim

a palavra intumescida pelo desejo .

a palavra em alvoroço sutil, ardil

e ave na folhagem da memória.

A palavra estremecida entre a palavra.

A palavra entre o som

mas entre o silêncio do som.

 

Deixai vir a mim

a palavra entre homem e homem.

E a palavra entre o homem

e seu coração posto à prova

na liberdade da palavra coração.

 

Deixai vir a mim

a palavra destino.

 

 

DA PALAVRA FINAL NADA SEI

 

Da palavra final

nada sei.

Nunca me foi concedida.

Embora escravo,

embora rei.

Embora levantasse o dedo na hora dos apartes.

Embora levantasse o dedo timidamente

Do último banco da classe contraditória de viver.

 

Embora sôfrego, trôpego,

embora sofrido levantasse o dedo,

meu Deus, que esquivo andar sem graça

quando atravesso a sala cheia de gente.

A sala dos correios secretos

que os olhos conhecem, reconhecem,

 

sempre burlesco arlequim

por fora

e massacrado por dentro

e tristurado

no mais triste cavaleiro da figura da palavra.

 

Chegar sem preconceitos,

cotidianos simulacros:

                            sonho menino.

Não mero esboço de um desenho inacabado de homem,

inadequado, por certo, na forma de chegar e falar

das coisas do mundo e de mim.

 

Mas chegar, achegar,

e saber que entre o tempo

o ser aflora.

E amanhece.

Debaixo do sonho

aninhado.

 

Dentro de um cesto

desfiado.

 

Deixai-me participar da mesa da verdade.

E aceitai minhas dúvidas e minha fragilidade

como dádiva dos deuses. 

 

 

 

 

LINDOLFO BELL

(1938—1998)

 

TEXTOS EN ESPAÑOL

 

 

BUSCO LA PALABRA PALABRA

 

No es la palabra fácil

la que busco.

Ni la difícil sentencia,

aquella de la muerte,

la de la fértil y definitiva soledad.

La que antecede a este camino siempre rápido.

Donde me deslizo, me deletreo

en fantasías de pájaro, hombre, serpiente.

 

Busco la palabra fósil.

La palabra antes de la palabra.

 

Busco la palabra palabra.

Esta que me antecede

Y se antecede en la aurora

Y en el origen del hombre.

 

Busco dibujos

dentro de la palabra.

Sonoros dibujos, táctiles,

olores, desencantos y sombras.

Olvidados trazos. Lazos.

Escritos, encantos re-escritos.

En el área de los atritos.

 

         De los detritos.

En ritos ardientes de la carne

Y ritmos del verbo.

En callejones metafísicos sin salida.

 

Señales, vendavales, silencios.

En la palabra fermentan restos, rastros de animales,

Minerales de la insensatez.

Distancias, circunstancias, sollozos,

destierro.

 

Palabras son de seda, acero.

Ceniza donde hago poemas, me rehago.

 

Utilizo  raciocinio.

Busco en la razón.

Pero lo que se revela, arcaico, pungente,

eterno y para siempre, vivo,

viene del buril del corazón

 

 

RECÓNDITO IMPULSO

 

Voy madurando

en la palabra

que madura.

Entre fibras, sangre, deseo

que entumece.

En el amor

donde crezco, me acreciento:

he aquí la mies.

 

Nivelar

es tajar la libertad.

Y vivir es un largo camino,

es recóndita voluntad

dicha y no dicha:

                   vocablo,

                   coágulo.

 

Madurar.

         Lúcido,

         lúdico.

 

En la maravilla,

En la maravilla.

 

Madurar en la médula

         la médula amada.

         La amarga médula, amada.

Madurar la médula armada

del tiempo espléndido de la alegría.

Pero también del tiempo de la amargura

que destroza

                   y desconfía.

 

Madurar.

La áspera y roja protuberancia.

La tierna manzana

de recóndito impulso.

 

 

LA PALABRA DESTINO

 

Dejad venir a mí

la palabra destino.

 

Mañana de sorpresas, lascivia y yema.

Acaso felices, deslices.

Huevo dentro del ave dentro del huevo

Palabra hoja y flor.

 

Dejad venir a mí la palabra

y sus versos, reversos:

         metamorfosis,

         metaformosa.

 

Dejad venir a mí

la palabra pan-de-consuelo.

Libre de ataduras, vendajes,

choques eléctricos

y sutiles servilletas de la muerte

después de gorjeos en seco engullidos a golpes.

 

Dejad venir a mí

la palabra entumecida por el deseo.

La palabra en alborozo sutil, ardid

y ave en el follaje de la memoria.

La palabra estremecida entre la palabra.

La palabra dentro del sonido

pero dentro del silencio del sonido.

 

Dejad venir a mí

la palabra de hombre y hombre.

Y la palabra entre el hombre

y su corazón puesto a prueba

en la libertad de la palabra corazón.

 

Dejad venir a mí

la palabra destino.

 

 

DE LA PALABRA FINAL NADA SÉ

 

De la palabra final

nada sé.

Nunca me fue dada.

Ya esclavo,

ya rey.

Ya levantase el dedo en la hora de las objeciones.

Ya levantase el dedo tímidamente

desde el último banco de la clase contradictoria del vivir.

 

Ya anhelante, ya torpe,

ya sufrido levantase el dedo,

Dios mío, que displicente andar sin gracia

cuando atravieso la sala llena de gente.

La sala de ambiguos sentimientos llena de gente,

la sala de los correos secretos

que los ojos conocen, reconocen,

 

siempre arlequín burlesco

por fuera

y masacrado por dentro

y triturado

en el más triste caballero de la figura de la palabra.

 

Legar sin prejuicios,

cotidianos simulacros:

                            sueño de niño.

No apenas el esbozo de un dibujo inacabado de hombre,

inadecuado, por cierto, en el modo de llegar a hablar

de las cosas del mundo y de mí

 

Sino llegar, allegar,

y saber que entre el tiempo y el tiempo

aflora el ser.

Y amanece.

Debajo del sueño

anidado.

 

Dentro de un cesto

deshilachado.

 

Dejadme participar de la mesa de la verdad.

Y aceptad mis dudas y mi fragilidad

como una dádiva de los dioses.

 

 

Página publicada em novembro de 2007

 




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