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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Foto: Pedro Stephan, 2006

 

HORÁCIO COSTA

 

Nascido em São Paulo em 1954. Formado em Arquitetura e Urbanismo pela USP (1978). M.A. pela New York University (83); PhD pela Yale University (94). Professor Titular da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM) até 2001. Desde então, Professor-Doutor na FFLCH-USP.

 

Seus livros de poesia são: 28 poemas 6 Contos (1981); Satori (1989); O Livro dos Fracta (90); O Menino e o Travesseiro (1993 e 2003) The Very Short Stories (1991); Quadragésimo (1996); Fracta - Antologia Poética (2004); 28 Poemas 6 Contos 25 anos (2006). Seu próximo livro, Ciclópico Olho, será publicado proximamente. Quase todos eles foram ou estão sendo publicados em espanhol. Também foi traduzido ao inglês, francês, catalão, búlgaro, romeno e macedônio. Tem mais de 60 artigos publicados em revistas acadêmicas e suas principais obras críticas são José Saramago, o período formativo e Mar Abierto: ensayos de literatura brasileña, portuguesa e hispanoamericana. Traduziu ao português a poesia de Elizabeth Bishop, Octavio Paz, José Gorostiza, Xavier Villaurrutia e Blanca Varela.

 

Organizou dois eventos internacionais de poesia em São Paulo e foi parte do júri de prêmio internacionais no México e na Venezuela. Atualmente, preside a ABEh (Associação Brasileira de Estudos da Homocultura).

TEXTOS EM PORTUGUÊS  /  TEXTOS EM ESPAÑOL 

See also: TEXTS IN ENGLISH

 

De
COSTA, Horácio. Ciclópico olho. São Paulo: Annablume, 2011. 120 p. (Selo Demônio Negro) Desenho gráfico e capa dura, revestida de tecido: Vanderley Mendonça. formato 16x23,5 cm. ISBN 978-85-63198-19-8 autografado Reúne poemas escritos (com uma única exceção) de 1996 a 2004); período de restabelecimento no Brasil. O livro Ravenalas (2008) é posterior. Col. A.M. (EE)

 

 

A FRONTEIRA DO DIZER

 

            a Haroldo de Campos, in memoríam

 

- Conecta com isso.

E é uma pedra.

- Conecta com isso.

É terra.

- Conecta com isso.

É nuvem. Tem forma de dragão.

- Conecta com isso.

É onda. Tem forma de onda.

- Conecta com isso.

É chip. Parece Shangri-lah.

 

Não é sílica. Nem silêncio. Nem palavra.

Conecta com isso.

 

                    STRUGA, MACEDÔNIA, 27 VIII 03

 

 

 

TIRE TUDO DA PAISAGEM

 

a Milos Sovak, in memoriam

 

Tire tudo da paisagem,

o serpenteante rio de águas cristalinas,

a neve ocasional, os rebanhos

de branquíssimas ovelhas

que se escondem detrás

das bétulas e das coníferas,

tire as porteiras que dividem

os campos de aveia e de centeio,

tire as velhas casas de pedra

da paisagem,

tire os bulbos de narciso,

os bulbos de lírio, de íris,

os telhados, as chaminés, os pedregulhos,

pouco a pouco tire tudo da paisagem:

a irritante torre medieval,

a capela tardo-gótica,

os retábulos de têmpera sobre madeira,

as rimas, as baladas líricas,

a cozinha típica, os sapatos:

descalce a paisagem,

veja-a sem subterfúgios,

nua, reduzida, descalça.

Ainda assim, nota bem,

algo permanece

entre aquela paisagem

e a de agora:

o pio dos corvos,

o agouro dos corvos,

aquele martelar de gritos negros,

sobrevive, voa entre

a paisagem de ontem

e a que lês, queridíssimo

leitor. Não há como

tirar os corvos

deste poema.

 

SAN DIEGO, LA CRECENTA:  7 VII 98

 

 

 

 

Horácio Costa 

De
Horácio Costa 
Ravenalas: poemas 2004-2008.   2a. ed.  
São Paulo: Selo Demônio Negro, 2009.  
145 p.  capa dura    ISBN  978-85-9039339-9


 

ORFISMO

 

Não sei se não é melhor

Ficar assim

Tudo tão imaginário

Com um único CD tocando

E depois o silêncio

 

Não sei não é assim

O melhor

 

A palmeira respondeu à

Voz

Tornou-se ereta

Quando debulhei a ária

 

 

                                                        SP 25 VII 05

 

 

SOL

 

É como se eu tivesse laborado

A vida inteira para ter direito

A esta manhã; nenhuma igual

A ela, ninguém igual a mim.

 

 

                                                        SP  6  VIII  05

 



HORÁCIO COSTA

 

ANIVERSÁRIOS

 

Vinte Anos Depois é um romance de Alexandre Dumas

duas décadas não são nada

é a média de vida do homem primitivo  do escravo romano

é a idade de um cão muito muito velho

é a média de glória de um artista maior

o tempo sem celulite de uma cortesã

o lapso de procriação depois do casamento

quatro ou cinco mandatos políticos   o auge de um Império

vinte anos levou a Constantino reformar Bizâncio

vinte anos fizeram a fortuna de Frick Morgan e Du Pont

vinte anos entre a apresentação no Templo e a crucificação

vinte anos é a matéria dos memorialistas

vinte anos e o povo se cansa da Revolução

vinte anos depois Odette está casada e Mareei morto

a roda o computador pessoal a moda das perucas brancas se

popularizam em não mais de vinte anos

Quéfren e Miquerinos construíram suas pirâmides em vinte

curtos anos

vinte anos depois o cadáver está frio olvidadíssimo

vinte anos de exercício e o êxtase desce ao asceta

nada nada são duas décadas vinte vezes nada

a ponte nova entre aqui e ali está congestionada hoje

a então chamada ponte do futuro já não serve mais

agora quando estás nela também estás aqui

tinhas o cabelo solto tinhas a rédea solta

soltas tinhas as palavras

há vinte anos

entre aqui e ali

 

 

            (Poema introdutório de QUADRAGÉSIMO. São Paulo: Ateliê Editorial, 1999.  A primeira edição do livro saiu no México, em 1996, pela Editorial Aldus).

 =============================================================

CAIXA DE ÁGUA AZUL

 

Entre a ramagem da árvore desconhecida,

Caducifólia, nem de Jessé ou genealógica,

Um volume azul sobre uma laje, caixa de água

De polietileno ou poliuretano.

Notação distante na paisagem urbana,

Obsedante recordação no agora-agora,

Calle Río Poo 108, Colonia Cuauhtémoc,

Suites Parioli, México, Capital.

 

O mar, não. O mar, não. O mar, não. O mar, não.

Um exagero de zéfiros, então: o expresso

Descia a serra em Simcas-Chambord tangerina,

Rumo à baía divisada entre montanhas:

Ao longe, o porto e as torres, guindastes e praias;

Ao pé a pantanosa terra, como espaguete, úmida.

O talento da oitava real quereríamos,

O seu sempre imarcessível horizonte.

 

Nele seguia a senhora duas vezes por ano,

Qual a ordem das vogais, dos ritos identitários,

às vilegiaturas; se lhe encolhera

o mundo à mínima possível transumância.

Para lá da paisagem, a sós uiva o engenho,

Aquilo que em linguagem transforma a língua.

A árvore que se agita em eterno lenho

Enraíza no presente o espectro que mingua.

 

Ia a senhora, olhos de pomba, um único anel

De coral; cruzou-se a morte entre ela e o poema.

O mar, não. Caixa de água azul entre prédios alheios.

Este o horizonte, marchetado em fragmentos,

Reduzido a um puzzle no qual o montador

A si se vê como uma das peças faltantes.

O agora não sabe o que diz: memoria vincitrix.

Desce uma vez mais o expresso a estrada de Santos. 

                                                                  MexCy9/10IX00 

NA MESA DE CABECEIRA

                  

Para Maria Aparecida Santilli

 

Na mesa de cabeceira,

Um exemplar da edição d’Os  Lusíadas

Daquele velho professor secundário do Porto,

Remember, abundantemente comentada,

E um guia do Estado de Chiapas

Elaborado depois do EZLN, portanto

Tão preocupado em descrever as fachadas barrocas

De San Cristóbal de Las Casas como

Em falar das tribos coloridas &

Perseguidas.

Que mundos se juntam em quarenta centímetros quadrados,

O velho Camões  sofrendo talvez pela vizinhança

Insuspeitada –mais distante hoje Chiapas de Calecute

Que há quinhentos anos.

Mas quem junta os objetos  sou eu,

Quem lê estes livros simultaneamente

É este nômade dado

À teatralização do mínimo.

Talvez deste encontro fora do acaso

Não possa originar-se boa poesia.

Nas estantes convivem em ordem alfabética

O Mein Kampf e o Manifesto,

Um tratado sobre botânica com um sobre os  amigos,

A loucura de Aliosha e as práticas de Santa Teresinha de Lisieux:

A contigüidade bibliográfica

Prevê terremotos para quem pára e reflete

Ao ler a lombada dos livros.

 

Mas neste hotel não há estantes:

Há uma espécie de mesa de cabeceira

Que testemunha como se babelizam e se lambuzam –

Haverá bacanal mais surpreendente a esta hora da noite?-

 

Os protegidos de Las Casas e o bardo lusitano

2x1 (“n˜ua mão a pena e noutra a lança”).

No caracol do ouvido distingo

O ritmo que executam

Em sua vital promiscuidade –

Dançando não sobre a cabeça de um alfinete de prata

Mas sobre um criado mudo.

                                               MexCy 17IX00

 

 

AUTO-RETRATO NUM ESPELHO DE HOTEL

 

Nu, toalha nenhuma amarrada estrategicamente

Na cintura, a barba enrolada em cachinhos não

Mas desenhada como a de Prince, primeiro

Role-model,

Incide a luz como tem que ser: da direita inferior

E difunde-se para quem me vê como uma aparição

Poderosa, um Andrea Doria overweighted

Pintado por Bronzino não

Mas visto através da lente

De uma Diane Arbus

Compassiva.

“Ventripotent”, aprendi quando não tinha pança,

Na Aliança Francesa; logo depois os burgueses

De Hals me ensinaram que pode-se parecer bêbado

E próspero. Mas a minha cor

Raramente transparece a rosácea

Que floresce na derme holandesa:

Sou da tez, da consistência

Do Bacchino malato de Caravaggio,

Da dúbia cor dos romanos

Do Sodoma.

Um corpo que fora bem torneado

Pensa-se Tritão, ostras e mariscos

Pendurando-se pelo torso, por ti

Surpreendido face ao espelho.

Pensa-se Tritão, vê-se Netuno:

Nada melhor do que a tênue

Asa da mitologia

Para encobrir

A cor, o tempo, a pança.

 

                                   (escrito no Sanborn’s Del Ángel, MexCy 19IX00)

 

A RÃ

 

Sim, naquele volet gauche

Da visão terrível do El Bosco

Lá nas Janelas Verdes,

Bem sobre o Mar da Palha

Sim, em Lisboa,

Ulissipona, Lixbona,

Lá vive extirpada do Paraíso

(No volet droit)

E num delírio de deslugar

Sem topografia nem imaginário

Mas com epistemé epistemé,

Lá, enfim, vestida de batráquio,

De meio ostra também

Ou pró-dinossáuria

Só que com as asas arrancadas

E inda por cima com pelezinha

Cor-de-rosa e clorofila,

As penas rasuradas

Por um profissional da imagem,

Com a boca que vc conhece,

Baconiana sim,

Bem baconiana,

Sem cérebro,

Estricnina,

A-que-volta-sempre,

A-mais-presente-que-aspirina,

A-pós-impoluta,

A-da-abadia,

A-do-puteiro,

A-que-diz-que-disse,

A linguaruda,

Densa de glossolalia,

Deusa da glossolalia,

A Rão.

Também vive na equação comum,

Fractal.

 

Às vezes me visita.

De tamancos. Sempre de tamancos.

Depois de comer muito alho,

Muito alho sempre.

E bafeja:

Às vezes retenho caligrama,

Se não os esqueço

Ou sublimo.

 

A Rão não me quer

E nem a ti

                   Nem a si

Nem ninguém.

                   Quando visita

Esqueço o linóleo abacate,

Os pés da menininha,

O formulário.

                   E desisto

Da água.

                   Creio que

Isto lhe faz gosto:

 

Mantém-me com a boca seca

E sem beber

E quando lhe lambo

Os flancos orvalhados

A Rão retorce-se de gozo.

(no Hospital Universitário; SP 6 VIII 02)

 

 

MANJAR BRANCO

 

Escrevo um poema depois

De ter escrito um poema sobre

Uma paisagem. Isto é mais manjado

Do que manjar branco, ou que o era

Nos idos não de março, nenhum

Júlio César que não o toxicômano

Semi-suicida filho do marceneiro,

Nenhum cônsul procônsul princeps

De Roma nenhuma, nos idos não de março

Mas de março de 1964, ano da morte de meu pai

E da Redentora.

 

Auto-ungida, veio redimir-nos de nós mesmos,

Os ingovernáveis de memória curta

Ou de longa memória, os ingovernáveis

Que sempre nos paralisamos diante

De uma sobremesa tremulantemente

Branca, com ameixas em conservas

Como calda, ou diante de conclaves

Que tais, que pizza imitam

Fi-gu-ra-ti-va-men-te.

Conto as sílabas, os anos que se passaram

Daquele revolucionário manjar, e eis-me

En-ve-lhe-cen-do diante de tais culinárias

Grandezas.

Oferecem-me “dobrada à moda”,

À moda tripeira, como ao Álvaro de Campos:

Numa civilização na qual tem tal predominância

O trato intestinal, que há-de

Esperar-se?

Ouvi o teu fado, José Dirceu,

Bem ouvi-o.

E houve na oitiva a memória de um

Jovem explorado (eu)

De boa índole (eu)

Quase “desaparecido” (eu)

Devido às tuas veleidades e de Ana Corbisier,

De terroristas que com identidades falsas

Abusaram da nossa hospitalidade,

Minha e da Sônia, lá por 1975:

De salva-pátrias glutão

E grande consumidor:

Indicam-no as tuas gordas bochechas

Cevadas por manjares brancos

E muitas, muitas caldas de ameixas.

 

Não havia os que te saciassem, certo?

Nenhum açúcar mais potente

Do que o poder que experimentaste.

E que, previsivelmente para mim, feriste de morte.

Deixa-nos com gosto amargo na boca

E azia no trato.

 

E lambo os meus beiços no poema.

                                                                   Rio de Janeiro, 24 VI 05

HORÁCIO COSTA

De
SATORI
(Poemas)

São Paulo: Iluminuras, 1989

 


DA LEITURA

O luxo do esquecimento e a necessidade da memória lutam,
se anulam, amam-se gerações afora. Vem o teu corpo,
penetra-me, logo me abandona. Vejo tornar-me
alternadamente eu e outro, apenas eu, apenas outro, o outro e
eu. Neste trânsito nos igualamos os dois, sempre famintos e
súbito satisfeitos a cada minuto, ou cada movimento. Não há
memória que não preveja esquecimento. Nele, sólidos,
carregam-se os fatos que medram no Tempo.  Teus olhos
percorrem-me e me interrompem.  Parte, inconcluso,
permeado deste meu moto, significando moinhos de vento.
Pois que a leitura não se completa nunca, deixo agora de
estar aqui.  Assobia-me meu começo, que já reside em ti.

                                      Nova Iorque, 1981

 

ESCRITO ÀS SEIS DA MANHÃ

entre vegetação e céu
às seis da manhã em ponto
dão voltas sobre si mesmos
os quatro vasos de avenca
suspensos sobre um abismo

planetas desconhecidos
flutuam no além-momento
herdeiros de Assurbanipal
herdeiros do Führer louco
um fio os ata à árvore

amantes da gravidade
são como a História inteira
são vida em estado puro
dão voltas, cai um império
dão voltas, o mundo é pouco

às seis da manhã em ponto
suspensos sobre um abismo
(um fio os ata à árvore)
dão voltas sobre si mesmos
os quatro vasos de avenca

 


EXCRITO NA AULA DE JACQUES DERRIDA


Vamos.
Conversemos com a eternidade
deste espaço em branco.
Nenhum Mallarmé rompe a linha
da língua da página
que flui como uma norma.
Deixemos pro futuro um ambiente
no papel fechado:
janelas neogóticas, alunos novoingleses,
um “mot” neolatino que habita
novas traduções em expansão.
O filósofo disserta infindavelmente
proliferando intenções.  O som da voz
bate e reverbera nos cristais
e encontra seu limite nos bordes deste
plano.  Coscruza o branco.
Lá fora uma cidade quase dorme depois
da chuva.  A alteridade é percebê-la
em stillness, enquanto avança a noite
e se corrompem as palavras.

 

 

 

                               POEMA

 

                                         para Eduardo Milán

 

meus olhos estão secos como o verão

minha sede água nenhuma amortece

 

um caminho sem retorno ou horizontes

dá sobre si voltas

                            e desaparece

 

a terra fabrica sombras sem ar

mineraliza o ar desertos sem pressa

 

a areia que o vento subtrai da rocha

multiplica o tempo de essência leve

 

rodamoinho

                    forma da eternidade

moldeia meu corpo entre as escarpas

 

sou como o vaso atravessado pelo sol

em mãos do ceramista

                                      se me sustentas

 

sou pedra em suspensão

                                      se me desejas

de instante prenhe entre céu e gravidade

 

pedra me torno lavada desde adentro

iluminada em torno ao eixo em rotação

 

eu sou planeta explodido em si mesmo

cal e zero    vida e nada                  ser total

 

se me revelas

                      forma expandida

mesmeriza minha voz em movimento

 

pó de escritura

                             dança helicoidal

tenho presente a imagen da imagem

                                               [breve

 

um caminho sem retorno ou horizontes

dá sobre si voltas

                          e desaparece

 

 

 

                                       

 

 

 

HORÁCIO COSTA


 

José Horácio de Almeida Nascimento Costa nació en São Paulo en 1954. Estudió arquitectura y urbanismo. Vivió muchos años en Estados Unidos y México, desempeñándose como profesor universitário. Publicó 28 poemas/6 contos (1981), o livro dos fracta (1990; también editado en castellano en México, 1990), El niño y la almohada  (bilíngüe, 1994) y Quadragésimo (México, 1996; Brasil, 1999). [Traducciones de R.J., revisadas por H.C.J]

 

 

TEXTOS EM ESPAÑOL

 

CAJA DE AGUA AZUL 

Entre el ramaje del árbol desconocido,

Caducifolio, ni de Jessé ni genealógico,

Un volumen azul sobre una losa, caja de água

De polietileno o poliuretano.

Notación distante en el paisaje urbano,

Obsedante recordación en el ahora-ahora,

Calle Río Poo 108, Colonia Cuauhtémoc,

Suites Parioli, México, Capital.

 

El mar, no. El mar, no. El mar, no. El mar, no.

Un exagero de zéfiros, entonces: el expreso

Bajaba la Sierra en Simcas-Chambord tangerina,

Rumbo a la bahía divisada entre montañas:

A lo lejos, el puerto y las torres, grúas y playas;

Al pie la pantanosa tierra, como espaguete húmeda.

El talento de la octava real quisiéramos,

Su siempre inmarcesible horizonte.

 

En el seguía la señora dos veces por año,

Cual el orden de las vocales, de los ritos identitarios,

A las vilegiaturas; se le había encogido

El mundo a la mínima posible trashumación.

Más allá del paisaje, a solas aúlla el ingenio,

Aquello que en lenguaje transforma la lengua.

El árbol que se agita en eterno leño

Arraiga en el presente el espectro que mengua.

 

Iba la señora, ojos de paloma, un único anillo

De coral: se cruzó la muerte entre ella y el poema.

El mar, no. Caja de agua azul entre predios ajenos.

Este el horizonte, marchetado en fragmentos,

Reducido a un puzzle en el que el montador

A si se ve como una de las piezas que faltan.

El ahora no sabe qué dice: memoria vincitrix.

Baja una vez más el expreso la carretera de Santos. 

 

EN LA MESILLA DE NOCHE

                   A Maria Aparecida Santilli

 

En la mesilla de noche,

Un ejemplar de la edición de Os Lusíadas

De aquel viejo profesor secundario de Oporto,

Remember, abundantemente comentada

Y un guía del estado de Chiapas

Elaborado después del EZLN, por tanto

Tan preocupado en describir las fachadas barrocas

De San Cristóbal de Las Casas como

En hablar de las tribus coloridas &

Perseguidas.

Que mundos se juntan en cuarenta centímetros cuadrados,

El viejo Camões sufriendo quizá por la vecindad

Insospechada (Chiapas

No es Melinde ni Calecut).

Pero quien junta a los objetos soy yo,

Quien lee estos libros simultáneamente

Es este nómada dado

A la teatralización de lo mínimo.

Tal vez de este encuentro fuera del azar

No pueda surgir buena poesía.

En las estanterías conviven en orden alfabético

El Mein Kampf  y el Manifiesto,

Un tratado sobre botánica y uno sobre la amistad,

La locura de Aliosha y el êxtasis de Santa Teresa de Lisieux:

La contigüedad bibliográfica

Prevee terremotos para quien se detiene y reflexiona

Mirando el lomo de los libros.

 

Pero en este hotel no hay estantes:

Hay una especie de mesilla de noche

Que atestigua cómo se babelizan y se relamen –

¿Habrá bacanal más sorprendente?-

Los protegidos de Las  Casas y el bardo lusitano

2x1 (“n˜ua mão a pena e noutra a lança”).

En el caracol del oído distinguo

El ritmo que ejecutan

En su vital promiscuidad –

Bailando no sobre la cabeza de un alfiler de plata

Mas sobre una mesilla de noche.

 

 

AUTORRETRATO EN UN ESPEJO DE HOTEL

 

Desnudo, toalla ninguna amarrada estratégicamente

En la cintura, la barba enrollada en caracolitos no

Sino dibujada como la de Prince, primer

Role-model,

Incide la luz como tiene que ser: de la derecha inferior

Y se difunde para quien me ve como una aparición

Poderosa, un Andrea Doria overweighted

Pintado por Bronzino no

Mas visto a través de los lentes

De una Diana Arbus

Compasiva.

“Ventripotent”, aprendi cuando no tenía panza

En la Alianza Francesa; luego después los burgueses

De Hals me enseñaron que se puede parecer borracho

Y próspero. Pero mi color

Raramente transparece la rosácea

Que florece en la derme holandesa:

Soy de la tez, de la consistencia

Del Bacchino Malato de Caravaggio,

Del dudoso color de los romanos

Del Sodoma.

Un cuerpo que fuera bien torneado

Se piensa Tritón, ostras y mariscos

Congándosele por el torso, por ti

Sorprendido frente al espejo.

Se piensa Tritón, se ve Neptuno:

Nada mejor que la ténue

Ala de la mitología

Para encubrir

El color, el tiempo, la panza.

 

 

LA RANO

 

Sí, en aquel volet gauche

De la visión terrible del Bosco

Allá en las Janelas Verdes,

Sobre el Mar de Paja,

Sí, en Lisboa,

Ulisipona, Lixbona,

Allá vive sustraída del paraíso

(En el volet droit)

Y en un delirio de deslugar

Sin topografía ni imaginario

Mas con epistemé epistemé,

Allá, en fin, vestida de batracio,

También de medio ostra

O pro-dinosauria,

Sólo que con las alas arrancadas

Y más aún con pielecita

Color de rosa y clorofila,

Las plumas rasuradas

Por un profesional de la imagen,

Con la boca que Ud. conoce,

Baconiana sí,

Bien baconiana,

Sin cerebro,

Estricnina,

La-que-regresa-siempre,

La-más-presente-que-la-aspirina,

La-post-impoluta,

La-de-la-abadía,

La-del-burdel,

La-que-dijo-que-dice,

La lenguaraz,

Densa de glosolalia,

Diosa de la glosolalia,

La Rano.

También vive en la ecuación común,

Fractal.

 

A veces me visita.

En zuecos. Siempre en zuecos.

Después de comer mucho ajo,

Mucho ajo siempre.

Y exhala:

A veces me quedan caligramas,

Si no los olvido

O los sublimo.

 

La Rano no me quiere

Ni a tí

         Ni a sí

Ni a nadie.

         Cuando me visita

Se me borra el mosaico aguacate,

Los pies de la niñita,

El formulario.

                   Y desisto

Del agua.

         Creo que

Eso le da gusto:

Me mantiene con la boca reseca

Y sin beber

Y cuando le lamo

Sus flancos rociados

La rano se retuerce de gozo.

 

 

=========================================================

 

 

Extraído de la revista

tsé=tsé
7/8 otoño 200
Buenos Aires, Argentina

 

 


POEMA       

 

 

mis ojos están secos como el verano

mi sed agua ninguna amortigua

 

un camino sin retorno u horizontes

da vueltas sobre sí

                            y desaparece

 

la tierra fabrica sombras sina ire

mineraliza el aire desiertos sin prisa

 

la arena que el viento sustrae de la roca

multiplica ele tiempo  de esencia leve

 

remolino

                forma de la eternidad

moldea mi cuerpo entre las escarpas

 

soy como el vaso atravesado por el sol

en manos del ceramista

                                   si me sustentas

 

soy piedra en suspensión

                                      si me deseas

de instante preñado entre cielo y gravedad

 

piedra me torno lavada desde adentro

iluminada en torno al aje en rotación

 

yo soy planeta estallado en sí mismo

cal y cero    vida y nada      ser total

si me revelas

                   forma expandida

mesmeriza mi voz en movimiento

 

 

polvo de escritura

                            danza helicoidal

tendo presente la imagen de la imagen

                                               [breve

 

un camino si retorno u horizontes

da vueltas sobre si

                            y desaparece



 

 

Página ampliada e republicada em janeiro de 2009.




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