Foto: Pedro Stephan, 2006
HORÁCIO COSTA
Nascido em São Paulo em 1954. Formado em Arquitetura e Urbanismo pela USP (1978). M.A. pela New York University (83); PhD pela Yale University (94). Professor Titular da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM) até 2001. Desde então, Professor-Doutor na FFLCH-USP.
Seus livros de poesia são: 28 poemas 6 Contos (1981); Satori (1989); O Livro dos Fracta (90); O Menino e o Travesseiro (1993 e 2003) The Very Short Stories (1991); Quadragésimo (1996); Fracta - Antologia Poética (2004); 28 Poemas 6 Contos 25 anos (2006). Seu próximo livro, Ciclópico Olho, será publicado proximamente. Quase todos eles foram ou estão sendo publicados em espanhol. Também foi traduzido ao inglês, francês, catalão, búlgaro, romeno e macedônio. Tem mais de 60 artigos publicados em revistas acadêmicas e suas principais obras críticas são José Saramago, o período formativo e Mar Abierto: ensayos de literatura brasileña, portuguesa e hispanoamericana. Traduziu ao português a poesia de Elizabeth Bishop, Octavio Paz, José Gorostiza, Xavier Villaurrutia e Blanca Varela.
Organizou dois eventos internacionais de poesia em São Paulo e foi parte do júri de prêmio internacionais no México e na Venezuela. Atualmente, preside a ABEh (Associação Brasileira de Estudos da Homocultura).
See also: TEXTS IN ENGLISH
De
COSTA, Horácio. Ciclópico olho. São Paulo: Annablume, 2011. 120 p. (Selo Demônio Negro) Desenho gráfico e capa dura, revestida de tecido: Vanderley Mendonça. formato 16x23,5 cm. ISBN 978-85-63198-19-8 autografado Reúne poemas escritos (com uma única exceção) de 1996 a 2004); período de restabelecimento no Brasil. O livro Ravenalas (2008) é posterior. Col. A.M. (EE)
A FRONTEIRA DO DIZER
a Haroldo de Campos, in memoríam
- Conecta com isso.
E é uma pedra.
- Conecta com isso.
É terra.
- Conecta com isso.
É nuvem. Tem forma de dragão.
- Conecta com isso.
É onda. Tem forma de onda.
- Conecta com isso.
É chip. Parece Shangri-lah.
Não é sílica. Nem silêncio. Nem palavra.
Conecta com isso.
STRUGA, MACEDÔNIA, 27 VIII 03
TIRE TUDO DA PAISAGEM
a Milos Sovak, in memoriam
Tire tudo da paisagem,
o serpenteante rio de águas cristalinas,
a neve ocasional, os rebanhos
de branquíssimas ovelhas
que se escondem detrás
das bétulas e das coníferas,
tire as porteiras que dividem
os campos de aveia e de centeio,
tire as velhas casas de pedra
da paisagem,
tire os bulbos de narciso,
os bulbos de lírio, de íris,
os telhados, as chaminés, os pedregulhos,
pouco a pouco tire tudo da paisagem:
a irritante torre medieval,
a capela tardo-gótica,
os retábulos de têmpera sobre madeira,
as rimas, as baladas líricas,
a cozinha típica, os sapatos:
descalce a paisagem,
veja-a sem subterfúgios,
nua, reduzida, descalça.
Ainda assim, nota bem,
algo permanece
entre aquela paisagem
e a de agora:
o pio dos corvos,
o agouro dos corvos,
aquele martelar de gritos negros,
sobrevive, voa entre
a paisagem de ontem
e a que lês, queridíssimo
leitor. Não há como
tirar os corvos
deste poema.
SAN DIEGO, LA CRECENTA: 7 VII 98
De
Horácio Costa
Ravenalas: poemas 2004-2008. 2a. ed.
São Paulo: Selo Demônio Negro, 2009.
145 p. capa dura ISBN 978-85-9039339-9
ORFISMO
Não sei se não é melhor
Ficar assim
Tudo tão imaginário
Com um único CD tocando
E depois o silêncio
Não sei não é assim
O melhor
A palmeira respondeu à
Voz
Tornou-se ereta
Quando debulhei a ária
SP 25 VII 05
SOL
É como se eu tivesse laborado
A vida inteira para ter direito
A esta manhã; nenhuma igual
A ela, ninguém igual a mim.
SP 6 VIII 05
ANIVERSÁRIOS
Vinte Anos Depois é um romance de Alexandre Dumas
duas décadas não são nada
é a média de vida do homem primitivo do escravo romano
é a idade de um cão muito muito velho
é a média de glória de um artista maior
o tempo sem celulite de uma cortesã
o lapso de procriação depois do casamento
quatro ou cinco mandatos políticos o auge de um Império
vinte anos levou a Constantino reformar Bizâncio
vinte anos fizeram a fortuna de Frick Morgan e Du Pont
vinte anos entre a apresentação no Templo e a crucificação
vinte anos é a matéria dos memorialistas
vinte anos e o povo se cansa da Revolução
vinte anos depois Odette está casada e Mareei morto
a roda o computador pessoal a moda das perucas brancas se
popularizam em não mais de vinte anos
Quéfren e Miquerinos construíram suas pirâmides em vinte
curtos anos
vinte anos depois o cadáver está frio olvidadíssimo
vinte anos de exercício e o êxtase desce ao asceta
nada nada são duas décadas vinte vezes nada
a ponte nova entre aqui e ali está congestionada hoje
a então chamada ponte do futuro já não serve mais
agora quando estás nela também estás aqui
tinhas o cabelo solto tinhas a rédea solta
soltas tinhas as palavras
há vinte anos
entre aqui e ali
(Poema introdutório de QUADRAGÉSIMO. São Paulo: Ateliê Editorial, 1999. A primeira edição do livro saiu no México, em 1996, pela Editorial Aldus).
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CAIXA DE ÁGUA AZUL
Entre a ramagem da árvore desconhecida,
Caducifólia, nem de Jessé ou genealógica,
Um volume azul sobre uma laje, caixa de água
De polietileno ou poliuretano.
Notação distante na paisagem urbana,
Obsedante recordação no agora-agora,
Calle Río Poo 108, Colonia Cuauhtémoc,
Suites Parioli, México, Capital.
O mar, não. O mar, não. O mar, não. O mar, não.
Um exagero de zéfiros, então: o expresso
Descia a serra em Simcas-Chambord tangerina,
Rumo à baía divisada entre montanhas:
Ao longe, o porto e as torres, guindastes e praias;
Ao pé a pantanosa terra, como espaguete, úmida.
O talento da oitava real quereríamos,
O seu sempre imarcessível horizonte.
Nele seguia a senhora duas vezes por ano,
Qual a ordem das vogais, dos ritos identitários,
às vilegiaturas; se lhe encolhera
o mundo à mínima possível transumância.
Para lá da paisagem, a sós uiva o engenho,
Aquilo que em linguagem transforma a língua.
A árvore que se agita em eterno lenho
Enraíza no presente o espectro que mingua.
Ia a senhora, olhos de pomba, um único anel
De coral; cruzou-se a morte entre ela e o poema.
O mar, não. Caixa de água azul entre prédios alheios.
Este o horizonte, marchetado em fragmentos,
Reduzido a um puzzle no qual o montador
A si se vê como uma das peças faltantes.
O agora não sabe o que diz: memoria vincitrix.
Desce uma vez mais o expresso a estrada de Santos.
MexCy9/10IX00
NA MESA DE CABECEIRA
Para Maria Aparecida Santilli
Na mesa de cabeceira,
Um exemplar da edição d’Os Lusíadas
Daquele velho professor secundário do Porto,
Remember, abundantemente comentada,
E um guia do Estado de Chiapas
Elaborado depois do EZLN, portanto
Tão preocupado em descrever as fachadas barrocas
De San Cristóbal de Las Casas como
Em falar das tribos coloridas &
Perseguidas.
Que mundos se juntam em quarenta centímetros quadrados,
O velho Camões sofrendo talvez pela vizinhança
Insuspeitada –mais distante hoje Chiapas de Calecute
Que há quinhentos anos.
Mas quem junta os objetos sou eu,
Quem lê estes livros simultaneamente
É este nômade dado
À teatralização do mínimo.
Talvez deste encontro fora do acaso
Não possa originar-se boa poesia.
Nas estantes convivem em ordem alfabética
O Mein Kampf e o Manifesto,
Um tratado sobre botânica com um sobre os amigos,
A loucura de Aliosha e as práticas de Santa Teresinha de Lisieux:
A contigüidade bibliográfica
Prevê terremotos para quem pára e reflete
Ao ler a lombada dos livros.
Mas neste hotel não há estantes:
Há uma espécie de mesa de cabeceira
Que testemunha como se babelizam e se lambuzam –
Haverá bacanal mais surpreendente a esta hora da noite?-
Os protegidos de Las Casas e o bardo lusitano
2x1 (“n˜ua mão a pena e noutra a lança”).
No caracol do ouvido distingo
O ritmo que executam
Em sua vital promiscuidade –
Dançando não sobre a cabeça de um alfinete de prata
Mas sobre um criado mudo.
MexCy 17IX00
AUTO-RETRATO NUM ESPELHO DE HOTEL
Nu, toalha nenhuma amarrada estrategicamente
Na cintura, a barba enrolada em cachinhos não
Mas desenhada como a de Prince, primeiro
Role-model,
Incide a luz como tem que ser: da direita inferior
E difunde-se para quem me vê como uma aparição
Poderosa, um Andrea Doria overweighted
Pintado por Bronzino não
Mas visto através da lente
De uma Diane Arbus
Compassiva.
“Ventripotent”, aprendi quando não tinha pança,
Na Aliança Francesa; logo depois os burgueses
De Hals me ensinaram que pode-se parecer bêbado
E próspero. Mas a minha cor
Raramente transparece a rosácea
Que floresce na derme holandesa:
Sou da tez, da consistência
Do Bacchino malato de Caravaggio,
Da dúbia cor dos romanos
Do Sodoma.
Um corpo que fora bem torneado
Pensa-se Tritão, ostras e mariscos
Pendurando-se pelo torso, por ti
Surpreendido face ao espelho.
Pensa-se Tritão, vê-se Netuno:
Nada melhor do que a tênue
Asa da mitologia
Para encobrir
A cor, o tempo, a pança.
(escrito no Sanborn’s Del Ángel, MexCy 19IX00)
A RÃ
Sim, naquele volet gauche
Da visão terrível do El Bosco
Lá nas Janelas Verdes,
Bem sobre o Mar da Palha
Sim, em Lisboa,
Ulissipona, Lixbona,
Lá vive extirpada do Paraíso
(No volet droit)
E num delírio de deslugar
Sem topografia nem imaginário
Mas com epistemé epistemé,
Lá, enfim, vestida de batráquio,
De meio ostra também
Ou pró-dinossáuria
Só que com as asas arrancadas
E inda por cima com pelezinha
Cor-de-rosa e clorofila,
As penas rasuradas
Por um profissional da imagem,
Com a boca que vc conhece,
Baconiana sim,
Bem baconiana,
Sem cérebro,
Estricnina,
A-que-volta-sempre,
A-mais-presente-que-aspirina,
A-pós-impoluta,
A-da-abadia,
A-do-puteiro,
A-que-diz-que-disse,
A linguaruda,
Densa de glossolalia,
Deusa da glossolalia,
A Rão.
Também vive na equação comum,
Fractal.
Às vezes me visita.
De tamancos. Sempre de tamancos.
Depois de comer muito alho,
Muito alho sempre.
E bafeja:
Às vezes retenho caligrama,
Se não os esqueço
Ou sublimo.
A Rão não me quer
E nem a ti
Nem a si
Nem ninguém.
Quando visita
Esqueço o linóleo abacate,
Os pés da menininha,
O formulário.
E desisto
Da água.
Creio que
Isto lhe faz gosto:
Mantém-me com a boca seca
E sem beber
E quando lhe lambo
Os flancos orvalhados
A Rão retorce-se de gozo.
(no Hospital Universitário; SP 6 VIII 02)
MANJAR BRANCO
Escrevo um poema depois
De ter escrito um poema sobre
Uma paisagem. Isto é mais manjado
Do que manjar branco, ou que o era
Nos idos não de março, nenhum
Júlio César que não o toxicômano
Semi-suicida filho do marceneiro,
Nenhum cônsul procônsul princeps
De Roma nenhuma, nos idos não de março
Mas de março de 1964, ano da morte de meu pai
E da Redentora.
Auto-ungida, veio redimir-nos de nós mesmos,
Os ingovernáveis de memória curta
Ou de longa memória, os ingovernáveis
Que sempre nos paralisamos diante
De uma sobremesa tremulantemente
Branca, com ameixas em conservas
Como calda, ou diante de conclaves
Que tais, que pizza imitam
Fi-gu-ra-ti-va-men-te.
Conto as sílabas, os anos que se passaram
Daquele revolucionário manjar, e eis-me
En-ve-lhe-cen-do diante de tais culinárias
Grandezas.
Oferecem-me “dobrada à moda”,
À moda tripeira, como ao Álvaro de Campos:
Numa civilização na qual tem tal predominância
O trato intestinal, que há-de
Esperar-se?
Ouvi o teu fado, José Dirceu,
Bem ouvi-o.
E houve na oitiva a memória de um
Jovem explorado (eu)
De boa índole (eu)
Quase “desaparecido” (eu)
Devido às tuas veleidades e de Ana Corbisier,
De terroristas que com identidades falsas
Abusaram da nossa hospitalidade,
Minha e da Sônia, lá por 1975:
De salva-pátrias glutão
E grande consumidor:
Indicam-no as tuas gordas bochechas
Cevadas por manjares brancos
E muitas, muitas caldas de ameixas.
Não havia os que te saciassem, certo?
Nenhum açúcar mais potente
Do que o poder que experimentaste.
E que, previsivelmente para mim, feriste de morte.
Deixa-nos com gosto amargo na boca
E azia no trato.
E lambo os meus beiços no poema.
Rio de Janeiro, 24 VI 05
De
SATORI
(Poemas)
São Paulo: Iluminuras, 1989
DA LEITURA
O luxo do esquecimento e a necessidade da memória lutam,
se anulam, amam-se gerações afora. Vem o teu corpo,
penetra-me, logo me abandona. Vejo tornar-me
alternadamente eu e outro, apenas eu, apenas outro, o outro e
eu. Neste trânsito nos igualamos os dois, sempre famintos e
súbito satisfeitos a cada minuto, ou cada movimento. Não há
memória que não preveja esquecimento. Nele, sólidos,
carregam-se os fatos que medram no Tempo. Teus olhos
percorrem-me e me interrompem. Parte, inconcluso,
permeado deste meu moto, significando moinhos de vento.
Pois que a leitura não se completa nunca, deixo agora de
estar aqui. Assobia-me meu começo, que já reside em ti.
Nova Iorque, 1981
ESCRITO ÀS SEIS DA MANHÃ
entre vegetação e céu
às seis da manhã em ponto
dão voltas sobre si mesmos
os quatro vasos de avenca
suspensos sobre um abismo
planetas desconhecidos
flutuam no além-momento
herdeiros de Assurbanipal
herdeiros do Führer louco
um fio os ata à árvore
amantes da gravidade
são como a História inteira
são vida em estado puro
dão voltas, cai um império
dão voltas, o mundo é pouco
às seis da manhã em ponto
suspensos sobre um abismo
(um fio os ata à árvore)
dão voltas sobre si mesmos
os quatro vasos de avenca
EXCRITO NA AULA DE JACQUES DERRIDA
Vamos.
Conversemos com a eternidade
deste espaço em branco.
Nenhum Mallarmé rompe a linha
da língua da página
que flui como uma norma.
Deixemos pro futuro um ambiente
no papel fechado:
janelas neogóticas, alunos novoingleses,
um “mot” neolatino que habita
novas traduções em expansão.
O filósofo disserta infindavelmente
proliferando intenções. O som da voz
bate e reverbera nos cristais
e encontra seu limite nos bordes deste
plano. Coscruza o branco.
Lá fora uma cidade quase dorme depois
da chuva. A alteridade é percebê-la
em stillness, enquanto avança a noite
e se corrompem as palavras.
POEMA
para Eduardo Milán
meus olhos estão secos como o verão
minha sede água nenhuma amortece
um caminho sem retorno ou horizontes
dá sobre si voltas
e desaparece
a terra fabrica sombras sem ar
mineraliza o ar desertos sem pressa
a areia que o vento subtrai da rocha
multiplica o tempo de essência leve
rodamoinho
forma da eternidade
moldeia meu corpo entre as escarpas
sou como o vaso atravessado pelo sol
em mãos do ceramista
se me sustentas
sou pedra em suspensão
se me desejas
de instante prenhe entre céu e gravidade
pedra me torno lavada desde adentro
iluminada em torno ao eixo em rotação
eu sou planeta explodido em si mesmo
cal e zero vida e nada ser total
se me revelas
forma expandida
mesmeriza minha voz em movimento
pó de escritura
dança helicoidal
tenho presente a imagen da imagem
[breve
um caminho sem retorno ou horizontes
dá sobre si voltas
e desaparece
HORÁCIO COSTA
José Horácio de Almeida Nascimento Costa nació en São Paulo en 1954. Estudió arquitectura y urbanismo. Vivió muchos años en Estados Unidos y México, desempeñándose como profesor universitário. Publicó 28 poemas/6 contos (1981), o livro dos fracta (1990; también editado en castellano en México, 1990), El niño y la almohada (bilíngüe, 1994) y Quadragésimo (México, 1996; Brasil, 1999). [Traducciones de R.J., revisadas por H.C.J]
TEXTOS EM ESPAÑOL
CAJA DE AGUA AZUL
Entre el ramaje del árbol desconocido,
Caducifolio, ni de Jessé ni genealógico,
Un volumen azul sobre una losa, caja de água
De polietileno o poliuretano.
Notación distante en el paisaje urbano,
Obsedante recordación en el ahora-ahora,
Calle Río Poo 108, Colonia Cuauhtémoc,
Suites Parioli, México, Capital.
El mar, no. El mar, no. El mar, no. El mar, no.
Un exagero de zéfiros, entonces: el expreso
Bajaba la Sierra en Simcas-Chambord tangerina,
Rumbo a la bahía divisada entre montañas:
A lo lejos, el puerto y las torres, grúas y playas;
Al pie la pantanosa tierra, como espaguete húmeda.
El talento de la octava real quisiéramos,
Su siempre inmarcesible horizonte.
En el seguía la señora dos veces por año,
Cual el orden de las vocales, de los ritos identitarios,
A las vilegiaturas; se le había encogido
El mundo a la mínima posible trashumación.
Más allá del paisaje, a solas aúlla el ingenio,
Aquello que en lenguaje transforma la lengua.
El árbol que se agita en eterno leño
Arraiga en el presente el espectro que mengua.
Iba la señora, ojos de paloma, un único anillo
De coral: se cruzó la muerte entre ella y el poema.
El mar, no. Caja de agua azul entre predios ajenos.
Este el horizonte, marchetado en fragmentos,
Reducido a un puzzle en el que el montador
A si se ve como una de las piezas que faltan.
El ahora no sabe qué dice: memoria vincitrix.
Baja una vez más el expreso la carretera de Santos.
EN LA MESILLA DE NOCHE
A Maria Aparecida Santilli
En la mesilla de noche,
Un ejemplar de la edición de Os Lusíadas
De aquel viejo profesor secundario de Oporto,
Remember, abundantemente comentada
Y un guía del estado de Chiapas
Elaborado después del EZLN, por tanto
Tan preocupado en describir las fachadas barrocas
De San Cristóbal de Las Casas como
En hablar de las tribus coloridas &
Perseguidas.
Que mundos se juntan en cuarenta centímetros cuadrados,
El viejo Camões sufriendo quizá por la vecindad
Insospechada (Chiapas
No es Melinde ni Calecut).
Pero quien junta a los objetos soy yo,
Quien lee estos libros simultáneamente
Es este nómada dado
A la teatralización de lo mínimo.
Tal vez de este encuentro fuera del azar
No pueda surgir buena poesía.
En las estanterías conviven en orden alfabético
El Mein Kampf y el Manifiesto,
Un tratado sobre botánica y uno sobre la amistad,
La locura de Aliosha y el êxtasis de Santa Teresa de Lisieux:
La contigüedad bibliográfica
Prevee terremotos para quien se detiene y reflexiona
Mirando el lomo de los libros.
Pero en este hotel no hay estantes:
Hay una especie de mesilla de noche
Que atestigua cómo se babelizan y se relamen –
¿Habrá bacanal más sorprendente?-
Los protegidos de Las Casas y el bardo lusitano
2x1 (“n˜ua mão a pena e noutra a lança”).
En el caracol del oído distinguo
El ritmo que ejecutan
En su vital promiscuidad –
Bailando no sobre la cabeza de un alfiler de plata
Mas sobre una mesilla de noche.
AUTORRETRATO EN UN ESPEJO DE HOTEL
Desnudo, toalla ninguna amarrada estratégicamente
En la cintura, la barba enrollada en caracolitos no
Sino dibujada como la de Prince, primer
Role-model,
Incide la luz como tiene que ser: de la derecha inferior
Y se difunde para quien me ve como una aparición
Poderosa, un Andrea Doria overweighted
Pintado por Bronzino no
Mas visto a través de los lentes
De una Diana Arbus
Compasiva.
“Ventripotent”, aprendi cuando no tenía panza
En la Alianza Francesa; luego después los burgueses
De Hals me enseñaron que se puede parecer borracho
Y próspero. Pero mi color
Raramente transparece la rosácea
Que florece en la derme holandesa:
Soy de la tez, de la consistencia
Del Bacchino Malato de Caravaggio,
Del dudoso color de los romanos
Del Sodoma.
Un cuerpo que fuera bien torneado
Se piensa Tritón, ostras y mariscos
Congándosele por el torso, por ti
Sorprendido frente al espejo.
Se piensa Tritón, se ve Neptuno:
Nada mejor que la ténue
Ala de la mitología
Para encubrir
El color, el tiempo, la panza.
LA RANO
Sí, en aquel volet gauche
De la visión terrible del Bosco
Allá en las Janelas Verdes,
Sobre el Mar de Paja,
Sí, en Lisboa,
Ulisipona, Lixbona,
Allá vive sustraída del paraíso
(En el volet droit)
Y en un delirio de deslugar
Sin topografía ni imaginario
Mas con epistemé epistemé,
Allá, en fin, vestida de batracio,
También de medio ostra
O pro-dinosauria,
Sólo que con las alas arrancadas
Y más aún con pielecita
Color de rosa y clorofila,
Las plumas rasuradas
Por un profesional de la imagen,
Con la boca que Ud. conoce,
Baconiana sí,
Bien baconiana,
Sin cerebro,
Estricnina,
La-que-regresa-siempre,
La-más-presente-que-la-aspirina,
La-post-impoluta,
La-de-la-abadía,
La-del-burdel,
La-que-dijo-que-dice,
La lenguaraz,
Densa de glosolalia,
Diosa de la glosolalia,
La Rano.
También vive en la ecuación común,
Fractal.
A veces me visita.
En zuecos. Siempre en zuecos.
Después de comer mucho ajo,
Mucho ajo siempre.
Y exhala:
A veces me quedan caligramas,
Si no los olvido
O los sublimo.
La Rano no me quiere
Ni a tí
Ni a sí
Ni a nadie.
Cuando me visita
Se me borra el mosaico aguacate,
Los pies de la niñita,
El formulario.
Y desisto
Del agua.
Creo que
Eso le da gusto:
Me mantiene con la boca reseca
Y sin beber
Y cuando le lamo
Sus flancos rociados
La rano se retuerce de gozo.
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Extraído de la revista
tsé=tsé
7/8 otoño 200
Buenos Aires, Argentina
POEMA
mis ojos están secos como el verano
mi sed agua ninguna amortigua
un camino sin retorno u horizontes
da vueltas sobre sí
y desaparece
la tierra fabrica sombras sina ire
mineraliza el aire desiertos sin prisa
la arena que el viento sustrae de la roca
multiplica ele tiempo de esencia leve
remolino
forma de la eternidad
moldea mi cuerpo entre las escarpas
soy como el vaso atravesado por el sol
en manos del ceramista
si me sustentas
soy piedra en suspensión
si me deseas
de instante preñado entre cielo y gravedad
piedra me torno lavada desde adentro
iluminada en torno al aje en rotación
yo soy planeta estallado en sí mismo
cal y cero vida y nada ser total
si me revelas
forma expandida
mesmeriza mi voz en movimiento
polvo de escritura
danza helicoidal
tendo presente la imagen de la imagen
[breve
un camino si retorno u horizontes
da vueltas sobre si
y desaparece
Página ampliada e republicada em janeiro de 2009.
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