HENRIQUE MARQUES SAMYN
Poeta nascido no Rio de Janeiro em 1980.
Possui graduação em Filosofia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2002), mestrado em Psicologia Social pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2005) e mestrado em Filosofia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2004). Cursa atualmente o doutorado em Literatura Comparada, pesquisando a poética medieval médio-latina e galego-portuguesa. É também escritor e ensaísta, tendo poesias e textos críticos publicados no Brasil e no exterior.
Obra poética: “Poemário do desterro” (2005-6) e “Amadas pelos deuses” (tradução de dois poemas da poetisa galega Helena Villar Janeiro, publicadas na revista eletrônica Máquina do mundo).
“Uma poesia perfeitamente madura, pessoal, uma dessas raras estréias em poesia na qual o poeta não segue com completa naturalidade o “estilo da época” as modas, os maneirismos, e isso, diga-se de passagem, na forma e no fundo”.
Alexei Bueno
Descobri Henrique Marques Samyn no rodapé de uma página web, traduzido ao castelhano, debaixo de camadas de textos. Assim é a web, mas ele emergiu por sua singularidade com poemas sobre figuras tradicionais do Carnaval – tema paradoxalmente pouco explorado entre nós... Quem diria?! Henrique é uma feliz exceção, fugindo do óbvio e do clichê, mas sem medo da tradição e dos recursos literários à antiga, que atualiza com mestria. Os poemas revelam pesquisa, sem descambarem para o documental; em que desfilam figuras populares sem folclorismo. E o autor surpreende por ser tão jovem, por abordar os temas sem ranço e saudosismo. Antonio Miranda
Blog do autor: http://littere.blogspot.com
TEXTOS EM PORTUGUÊS / TEXTOS EN ESPAÑOL
CENAS DO CARNAVAL CARIOCA
(Do livro: Poemário do desterro
(Rio de Janeiro, 2006), da seção titulada
“Uma história do Carnaval”.
I. A volta da Colombina
E a menina renascia. Apaixonada
e ofegante, se entregava aos mascarados
que beijava, com volúpia indisfarçada,
e nos beijos se embebia, e nos abraços,
como se antes nunca houvesse sido amada —
mas havia. Não por poucos. E a menina
que o macio seio dava aos seus devassos,
renascia na Avenida. E sem receios,
dos desejos, noutra, aos poucos, se erigia:
ao sentir que era, por tantos, desejada,
renascia —mas não mais como menina:
da folia deste e doutros carnavais,
renascia, apaixonada, a Colombina.
II. Na calçada, o Pierrô colheu a rosa...
Na calçada, o Pierrô colheu a rosa
que chovia, em muitas pétalas desfeita.
Na varanda, ria a airosa Colombina
que sorrindo, soberana, o contemplava:
a que encanta o Pierrô, como nenhuma
encantou, fosse mulher, dama ou menina.
Para as pétalas, nas mãos fez quente leito
Pierrô, que agora as fita, embevecido,
mais altivo que o mais nobre cavaleiro,
qual se fosse, de rainha, um serviçal.
Fecha as mãos e leva ao peito. Comovido,
põe-se a recitar à amada um madrigal —
e não vê que um beijo lança a Colombina
ao funâmbulo Arlequim, que dobra a esquina.
III. A Morte do Pierrô
Da tinta branca, o que restou? Silente,
inerte e ausente, o Pierrô, caído —
corpo calado, sem rumor ou grito —,
entre confetes jaz, alvo e olvidado.
Enquanto isso, numa outra Avenida,
o vinho seco a escorrer no seio,
desnuda e ébria,
ri a Colombina...
CLEMENTINA
Clementina entrou no bar esbaforida
procurando por Antônio, que saíra
há bem pouco, junto a uma mulher da vida.
Atirou-se pelo chão, desesperada,
Clementina. Uma garrafa de bebida
fez de sua companheira; e a madrugada
a mulher assim varou. Nascendo o dia,
despertou em casa alheia, de ressaca,
nua, na cama do Pedro (o da Maria,
que é amante do Carlinhos – o “Cachaça”).
AS MENINAS
As meninas que se esbaldam,
encantadas, pelas ruas,
de tão castas, andam nuas;
de tão belas, vivem fartas.
Diabólicas, mastigam
as manhãs dilaceradas:
estas ninfas invejadas
pelos sóis. E assim, aos gritos,
rompem, com ferais risadas,
os jardins, as ruas, tudo:
aos seus pés, o mundo, mudo,
se desfaz... devassas fadas!
SEGUNDO CANTO DE AMOR
És mar bravio. És mundo, imensidão,
em meu deserto, és luz do sol a pino;
és música que encanta. E este menino
a ti pertence; e em ti, é coisa pouca,
não mais do que um vestígio do que outrora
um homem se chamou. E nele, agora,
há apenas uma turva e doce espera
por ti. E por teu corpo. E por tua alam:
Senhora, só teu beijo embebe e acalma
este homem que por ele implora, louco,
e tanto que seu canto é fraco e rouco.
CANTIGA DE AMIGO III
Meu amigo é feito uma ave
que meu corpo sobrevoa
e me canta sem cessar.
Meu amigo é feito um tigre
que me rasga, me maltrata,
cala os meus cálidos gritos.
Meu amigo é feito um rio
que, sem margens, corre solto,
e, quando quer, me naufraga.
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TEXTOS EN ESPAÑOL
Traducción de Helena Villar Janeiro
TRES ESCENAS DEL CARNAVAL CARIOCA
I. La vuelta de Colombina
La muchacha renacía. Apasionada,
entregándose a las máscaras, lasciva,
y besándolas sensual sin antifaz,
se embebía en tantos besos y abrazos,
como si jamás hubiera sido amada,
y lo había, no por pocos. Y la chica
que a los hombres ofrecía suaves senos,
renacía en la Avenida. Descarada,
ya se convertía en otra, poco a poco:
y, por los enmascarados deseada,
renacía, ya no como doncella:
de la juerga de ese y de otros carnavales,
renacía, apasionada, Colombina.
II. En la calle, Pierrot cogió la rosa...
En la calle, Pierrot cogió la rosa
llovida ya deshecha en muchos pétalos.
Se reía muy graciosa Colombina
contemplándolo soberbia en el balcón —
la que hechiza a Pierrot, como jamás
logró alguna mujer, dama o doncella.
Pierrot pronto hizo un lecho con sus manos
para llenar con los pétalos, amante,
orgulloso cual un noble caballero
que fuera servidor de Colombina.
Se lo llevó al pecho, enternecido,
y empieza a recitarle un madrigal —
sin ver que Colombina, en el balcón,
mira a Arlequín, que llega por la esquina.
III. La muerte de Pierrot
¿Que permanece de la tinta blanca?
Ausente, Pierrot queda tumbado —
el cuerpo quieto, sin rumor, sin grito —
entre confeti yace albo y olvidado.
En tanto, lejos, en otra Avenida,
con el vino regándole los senos,
ebria y desnuda,
ríe Colombina...
Los tres poemas pertenecen a la segunda sección del libro Poemário do
desterro (Rio de Janeiro, 2006), titulada “Uma história do Carnaval”.
Fuente: http://www.letralia.com |