Fonte: ABL
GUILHERME DE ALMEIDA
(1890- 1960)
Guilherme de Andrade e Almeida (Campinas, 24 de julho de 1890 — São Paulo, 11 de julho de 1969) foi advogado, jornalista, crítico de cinema, poeta, ensaísta e tradutor brasileiro. Entre outras realizações, foi o responsável pela divulgação do poemeto japonês haikai no Brasil. 11 de julho de 1969.
Foi casado com Belkis(Baby) Barroso de Almeida, cuja união gerou um filho, Guy Sérgio Haroldo Estevão Zózimo Barroso de Almeida, que foi casado com Marina Queirós Aranha de Almeida.
Combatente na Revolução Constitucionalista de 1932. Sua obra maior de amor a São Paulo foi seu poema Nossa Bandeira. Ainda, o poema Moeda paulista.
Foi presidente da Comissão Comemorativa do Quarto Centenário da cidade de São Paulo.
Guilherme de Almeida pertenceu só episodicamente ao movimento de 1922. Não bastasse sua produção poética, suas atitudes comprovam essa afirmação : foi o primeiro "Modernista"a entrar para a Academia Brasileira de Letras (1930). Em 1958, foi coroado o quarto "Príncipe dos Poetas Brasileiros" (depois de Bilac, Alberto de Oliveira e Olegário Mariano).
Encontra-se sepultado no Mausoléu do Soldado Constitucionalista, na capital de São Paulo.
Fonte da biografia (extrato): Wikipedia
TEXTOS EM PORTUGUÊS - / TEXTO EN ESPAÑOL
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Veja também: POEMA VISUQAL de Guilherme de Almeida
Ver também abaixo: HAICAIS
MORMAÇO
Calor. E as ventarolas das palmeiras
e os leques das bananeiras
abanam devagar
inutilmente na luz perpendicular.
Todas as coisas são mais reais, são mais humanas:
não há borboletas azuis nem rolas líricas.
Apenas as taturanas
escorrem quase líquidas
na relva que estala como um esmalte.
E longe uma última romântica
— uma araponga metálica — bate
o bico de bronze na atmosfera timpânica.
XXXII
Quando a chuva cessava e um vento fino
franzia a tarde tímida e lavada,
eu saía a brincar, pela calçada,
nos meus tempos felizes de menino.
Fazia, de papel, toda uma armada;
e, estendendo meu braço pequenino,
eu soltava os barquinhos, sem destino,
ao longo das sarjetas, na enxurrada...
Fiquei moço, e hoje sei, pensando neles,
que não são barcos de ouro os meus ideais:
são feitos de papel como aqueles,
perfeitamente, exatamente iguais...
— Que os meus barquinhos, lá se foram eles!
Foram-se embora e não voltaram mais!
(De Messidor, 1935)
ESSA QUE EU HEI DE AMAR...
Essa que eu hei de amar perdidamente um dia,
será tão loura, e clara, e vagarosas, e bela,
que eu pensarei que é o sol que vem, pela janela,
trazer a luz e calor a esta alma escura e fria.
E, quando ela passar, tudo o que eu não sentia
da vida há de acordar no coração que vela...
E ela irá como o sol, e eu irei atrás dela
como sombra feliz... — Tudo isso eu me dizia,
quando alguém me chamou. Olhei: um velho louro,
e claro, e vagaroso, e belo, na luz de ouro
do poente, me dizia adeus, como um sol triste...
E falou-me de longe: “Eu passei a teu lado,
mas ia tão perdido em teu sonho dourado,
meu pobre sonhador, que nem sequer me viste!”
(De Messidor, 1935)
AMOR, FELICIDADE
Infeliz de quem passa no mundo,
procurando no amor felicidade:
a mais linda ilusão dura um segundo,
e dura a vida inteira uma saudade.
Taça repleta, o amor, no mais profundo
íntimo, esconde a jóia da verdade:
só depois de vazia mostra o fundo,
só depois de embriagar a mocidade...
Ah! quanto namorado descontente,
escutando a palavra confidente
que o coração murmura e a voz diz<
percebe que, afinal, por seu pecado,
tanto lhe falta para ser amado,
quanto lhe basta para ser feliz!
(De Messidor, 1935)
Repuxo
Fuste fino, frio, fútil,
(Debruçam-se as silhuetas longas, lentas, langues,
como colos de cisnes, na água bamba dos tanques...)
alvo, aluado, abrindo no alto
(E as silhuetas flexuosas têm elásticos modos
que flutuam no ar, vagarosos como lótus...)
folhas, brotos, bolas, bolhas,
(E as silhuetas, sobre a esteira áspera de rugas
crespas, desconjuntam-se em curvas ríspidas, bruscas...)
ocos botões, bouquets loucos...
*E o colar de silhuetas esfarela-se em pérolas
pálidas, pondo na água trêmulas auréolas...)
Aos Pés da Cruz
Plorans, ploravit in nocte, et lacrymae ejus in
maxllis ejus; rum est qui consoletur eam ex omnibus
charís ejus...
(Lam.,I,Beth*)
Como um trapo de vida, aos pés da cruz sucumbo.
Soldou-me o amor de fogo as pálpebras de chumbo
para tudo de belo e bom que o mundo encerra,
para toda alegria esparsa sobre a terra.
Os fanados salões, onde a alma dos minuetes
desmaia no silêncio opaco dos tapetes;
e os leitos aromais como as bocas das umas,
quando o sol é um carvão sob as cinzas notumas,
e os jardins onde a terra, em noites misteriosas,
bebe a volúpia do ar pelos lábios das rosas;
e as fontes de cristal sob os bosques sagrados,
onde há frautas na sombra, e há sustos, e há pecados...
Tudo que é belo e bom eu perdi — triste monja!
E tive a lança, tive os cravos, tive a esponja
de sangue, e fel, e tive a coroa de espinhos.
E meus olhos, no entanto, amargos e sozinhos,
náo vêem ninguém chorando ao pé da minha mágoa:
têm sede — e em vão procuram olhos rasos de água...
Ah! se ao menos, ao fim dos meus passos incertos,
eu tivesse por cruz os teus braços abertos!
*A epígrafe é tirada das Lamentações de Jeremias: “Chorou sem cessar durante a noite, e as suas lágrimas correm pelas suas face; não há quem a console entre os seus amados”.
Imagem da folha de rosto da obra
De
Guilherme de Almeida
ACASO
VERSOS DE TODO TEMPO
São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1926.
ALGUÉM PASSOU*
ALGUÉM passou. E a sua sombra,
como um manto que tomba
de um gesto lânguido ficou no meu caminho.
Ora, o sol já se foi e a noite vem devarinho.
E no entanto
a sombra continua,
nítida e nua,
atirada na terra como um manto.
Faz frio.
Corre pelo meu corpo um áspero arrepio...
E um desejo me vem, tímido e louco,
de agasalhar-me um pouco
nesse manto de sombra morna...
Mas alguém
volta na noite pálida:
volta para buscar sua sombra esquecida.
É dia. E, pela estrada melancólica e árida,
vai tremendo de frio a minha vida...
* Atualizamos a ortografia do texto.
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HAICAIS
HAICAI ou HAIKU – poesia japonesa de 17 sílabas em três versos:o primeiro de cinco, o segundo de sete e o terceiro de cinco. Define-se o haicai: anotação poética e sincera de um momento de elite. Transpondo-o para o português, em 1936, o autor acrescentou-lhe a rima, fixando a seguinte fórmula:
— — — — X
— 0 — — — — 0
— — — — X
INTERIOR
Havia uma rosa
no vaso. Veio o ocaso
a hora silenciosa.
BOLHA DE SABÃO
Dirás, quando a vires:
“A bola de vidro rola
debaixo do arco-íris”.
PRESENÇA
Hora sem ninguém.
No manso ondear do balanço
de lona está alguém.
PUZZLE
A vida aos pedaços
nos brilhos destes ladrilhos
dos longos terraços.
HISTÓRIA DE ALGUMAS VIDAS
Noite. Uma silvo no ar.
Ninguém na estação. E o trem
passa sem parar.
O POETA
Caçador de estrelas.
Chorou: seu olhar voltou
com tantas! Vem vê-las.
FILOSOFIA
Lutar? Para quê?
De que vive a rosa? Em que
pensa? Faz o quê?
ROMANCE
E cruzam-se as linhas
no fino tear do destino.
Tuas mãos nas minhas
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TEXTO EN ESPAÑOL
Traducción de Renato de Mendonça
GUILHERME DE ALMEIDA
(1890- 1960)
Poeta, traductor y periodista. Nació en Campinas, Estado de São Paulo, em 1890. Abogado, sin ejercer la profesión, sino la de periodista. Empieza su producción poéticos en Le marco del parnasianismo simbolista (de transición entre las dos escuelas) y luego abraza el modernismo brasileño, con domínio de la forma y técnica poéticas.
RAZA
(fragmentos)
Nosotros. Blanco-verde-negro:
simplicidades-indolencias-supersticiones.
El cuarto del huésped y la posada — la hamaca y el cigarrillo de paja —
el San Benito y las apariciones.
Nosotros. El clán estanciero. Sombra densa de los manglares en el suelo;
nítido recortarse de los plataneros en el aire;
hamacas fláccidas suspendidas en la terraza de las haciendas,
com acordeones que narran leyendas a la luz de la luna;
amas de casa diligentes haciendo la merienda — pastelillos, dulces —,
altos mástiles de San Juan;
y la vaca Estrella, el perro Jolí, la yegua Sultana; y el bajo, el alazán, el berrendo,
el tordillo — espantadizos —; y,a la luz pura de las mañanas límpias,
litigantes echando humo y discutiendo, correa en mano, servidumbres y parcelas;
cosechas pendienes, caballadas, heladas, caminos perdederos, invernadas;
y las carretas de bueyes gimiendo, y los batentes tosiendo, y las azadas tropezando
al desherbar las tierras de labor;
y la tierra tostada, la tierra torrezmo, la tierra achicharrada en el horno
crepuscular de las fogatas
para ver renacer simétriico de los cafetales, en alejandrinos alienados en las cabezas
parnasianas de las colinas peinadas com lendrera...
estancias de todos los santos; letanías agrícolas salmodiadas por las ruedas
de las tartanas
con toldos al viento, restralar de látigos, perras gordas a los golfillos, chirriar
somnoliento de destatalados portones
y galopas por los senderos de la paramera y el retamar hasta subir a lo alto;
y, de las ruinas del viejo caserío de barro y adobes, la ciudad que surje blanca
de cales como una aparición.
Y ahí, en las tardes pintadas del color rosa de los baúles ingenuos — azul celeste,
rosa y verde mar —, la procesión.
La procesión! ¡Raza procesional! ¡San Buen Jesús de Pirapora! ¡Nuestra Señora
de la Aparecida!
Vendedoras ambulantes con tableros, vírgenes, ángeles, hermanos romeros,
promesas, milagros, subida y bajada
por calvarios de tierra roja, donde la iglesia agazapada se arrodilla crucificada
entre dos farolas;
ladrones de besos en las esquinas, donde viven las muchachas morenas,
detrás de las celosías bajo los aleros de los caserones,
con azulejos y florones de loza, siempre vivas en los jardines y jazmineros
em los pabellones,
conchas y caracolas en las cascadas tristes que cantan coplas en las
veladas brasileñas...
Huertas del arrabal — casa de tierra amasada, casas agachadas bajo
la sombra apacible de los pomares en flor,
y abriéndose al bochorno, tras los portones de hierro com perros y
leones de cemento, claraboyas de vidrios de colores...
Guitarras en los cerros mulatos — machichas, toses, pitos y aguardientes
a la luz de los velones;
cohetes, cervezas electorales — la protesta indolente — y el soñar
com la loteria em las noches inquietas...
(De Raza, 1925)
De
9 POETAS DEL BRASIIL
una antología de Enrique Bustamante y Ballivian.
Lima: Centro de Estudios Brasileños, 1978
109 p.
TARDE
Tarde gran tarde
verdadera
sin estrella vespertina ni ponientes color de ojeras
ni Angelus ni juritis pero con palmeras
donde nunca canto ningún sabiá.
Tarde auténtica en que hay
apenas el calor, la humareda pesada
y el estruendo hueco de los troncos verdes en la quemada grande,
teatral
como un crepúsculo artificial.
NOCTURNO
Los últimos vientos del dia
sacuden las ramas como una horda holgazana
de malhechores sutiles errantes
al acaso.
Y la noche monstruosa cae
de los árboles como un fruto de sombra
pesado y blando que se achata sobre la tierra.
HUMORISMO
Sosiego dócil de la tarde.
Um sol cansado
pasa por su rostro sudado
una nubecita blanca como un pañuelo
para enjugar las primeras estrellas.
Silencio.
Y el sol va caminando sobre los montes tranquilos,
va dormitando. Y de repente
tropieza y cae redondamente
bajo el pateo de los sapos y la silbatina de los grillos.
Página publicada em dezembro de 2008; ampliada e republicada em janeiro de 2011
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