GLAUCO MATTOSO
Pedro José Ferreira da Silva, conhecido como Glauco Mattoso, nasceu em São Paulo em 1951. O pseudônimo Glauco Mattoso vem da palavra glaucoma, causa de sua deficiência visual há muitos anos. Mattoso seria uma referência ao poeta satírico barroco Gregório de Mattoso, seu alterego poético.
Cursou biblioteconomia (na Escola de Sociologia e Política de São
Paulo) e letras vernáculas (na USP), ainda nos anos 70 participou, entre os chamados "poetas marginais", da resistência cultural à ditadura militar, época em que, residindo temporariamente no Rio, editou o fanzine poético-panfletário JORNAL DOBRABIL (trocadilho com o JORNAL DO BRASIL e com o formato dobrável do folheto satírico) e começou a colaborar em diversos órgãos da imprensa alternativa, como LAMPIÃO (tablóide gay) e PASQUIM (tablóide humorístico), além de periódicos literários como o SUPLEMENTO DA TRIBUNA e as revistas ESCRITA, INÉDITOS e FICÇÃO.
Durante a década de 80 e o início dos 90 continuou militando no
periodismo contracultural, desde a HQ (gibis CHICLETE COM BANANA,
TRALHA, MIL PERIGOS) até a música (revistas SOMTRÊS, TOP ROCK), além de colaborar na grande imprensa (crítica literária no JORNAL DA TARDE,
ensaios na STATUS e na AROUND), e publicou vários volumes de poesia e
prosa.
Livros de poesia: Línguas de papa (1982); Memórias de um pueteiro (1982); Limeiriques & outros dediques glauquianos (1982); Centopéia – sonetos nojentos & quejandos (1999); Paulicéia ilhada – sonetos tópicos (1999); Geléia de rococó – sonetos barrocos (1999);Panacéia – sonetos colaterais (2000).
Mattoso retoma a antropofagia do ponto em que Oswald parou. E, ainda, acrescenta um dado novo. Aquele nos explica: "Já que a nossa cultura (individual & coletiva) seria uma devoração alheia, bem que podia haver uma nova devoração dos detritos ou dejetos dessa digestão. Uma reciclagem ou recuperação daquilo que já foi consumido e assimilado". O dado novo: devorar os resíduos, aquilo que ficou à margem, em outras palavras, aquilo que a tradição moderna brasileira não aproveitou. Proposta que Mattoso, singularmente, chamou de coprofagia.
FRANKLIN ALVES
Página oficial do autor: http://glaucomattoso.sites.uol.com.br/
TEXTOS EM PORTUGUÊS / TEXTOS EN ESPAÑOL
POÉTICA NA POLÍTCA
CEM SONETOS PLANFLETÁRIOS
São Paulo: Geração Editorial, 2004.
ISBN 857509109-3
Glauco Mattoso sempre nos surpreende com novos títulos em sua carreira de polígrafo. Poética da Política é de 2004 mas o autor nos envio nesta semana e merece o registro. A capa é emblemática: O Congresso Nacional encimado por uma figura da commedia dell´arte, como a indicar o sentido jocoso, de cantiga de escárnio e mal-dizer . Glauco é sempre agudo, contundente e, no caso presente, compartilha com seu olhar iluminado e perverso os sortilégios e malefícios de nossa política em sonetos de feição clássica e linguagem moderna. A identificação dos personagens poderia trazer para o autor alguns problemas mas, diante de tantos escândalos, o testemunho de Glauco acaba sendo considerado uma licença poética... Aliás, a poesia de crítica e denúncia foi sempre mesmo explítica — lembremo-nos de Gregório de Mattoso, seu ancestral redivivo, que sofreu um duro exílio. Homens público devem estar sujeitos à avaliação popular e ao escárnio quando cometem seus crimes, mas parecem mais inclinados aos discursos protocolares e às crônicas sociais”. ANTONIO MIRANDA, Brasília, 22/6/2007
Governamental
Tamanho nepotismo se constata
nos quadros do governo, que, bem breve,
nenhum parente vivo fora deve
ficar da mordomia e da mamata!
o genro, a nora, a sogra mais ingrata,
cunhados e sobrinhos, quem se atreve
a demiti-los, mesmo quando em greve
declaram-se ou trabalham sem gravata?
Nenhum apaniguado que se preza
aceita cargo abaixo de chefia,
cartilha em que a família toda reza.
Se alguém a falcatrua denuncia,
chamado é de "invejoso", pois lhe pesa
a culpa de ocupar vaga da tia.
Regimental
Trancada a pauta, nada mais se vota,
enquanto novo acordo não costura
comadre com compadre e não se jura
que vale uma palavra mais que a nota.
Da noite para o dia, ninguém nota
o pacto que, na véspera, fervura
causara no Congresso, e a sinecura
retoma o ramerrão e cobra a cota.
Só serve um regimento a quem protela
"devidas providências" ou apressa
"medidas de interesse" da panela.
Se explodem as denúncias, interessa
mostrar serviço e investigar quem zela,
mas sendo alguém da Casa, o caso cessa.
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OUTROS POEMAS
*
Terrorismo com torresmo,
Represália a alho e óleo,
Militante à milanesa,
E tortilha de guerrilha.
Ciranda, cirandinho,
Vamos todos cirandar,
Vamos dar a meia volta,
Volta e meia vamos dar.
Molho pardo de massacre de combate,
Passeata com cassata de mandato,
Gabinetes com tortura ao molho tártaro,
Putsch com ketchup, croquetes de seqüestro.
Salada mista extremista com vinho de Greves,
Trincheiras trinchadas com ilegumes partidos,
Regimes e Dietas à la Magna Carta.
Magna
Che te fa fene!
Valentim, tim, tim,
Valentim, meu bem,
Quem tiver inveja
Faça assim também.
*
O melhor poema não é o des-
classisficado pela crítica, nem
o proibido pela censura, nem
tampouco o desconhecido pelo
público. O melhor poema é o
repudiado pelo autor.
*
“Qual poeta é mais vanguardista,
aquelle que pega um poema
em portuguez e tira todas as
vogaes ou aquelle que pega um
poema em allemão e tira todas
as consoantes? Pra mim é a-
quelle que pegas essas vogaes
e consoantes e tira um poema
que não pode ser lido em português nem em alemão”.
Soneto 49
Versátil
A crítica que tenho recebido
é quanto ao tema, não quanto ao formato:
"O Glauco trata só de pé e sapato,
ainda que use o molde mais subido."
Respondo antes de tudo por Cupido:
comigo ele jamais teve contato.
Além do mais, não vou deixar barato
que assunto algum me seja proibido.
Sou cego mas eclético, e versejo
acerca de problemas tão diversos
que nem forró, barroco e sertanejo.
De grandes e pequenos universos
é feito o pé que cheiro, beijo e vejo:
A Ele presto conta dos meus versos.
Soneto 73
Obsessivo
O gosto pelo pé ficou mais forte
depois que as trevas foram preenchendo
o fundo do meu olho, neste horrendo
martírio, mais agônico que a morte.
Agora nem desejo a mesma sorte
que alguns outros mortais prosseguem tendo
de conviver a dois, e só me entendo
servindo a qualquer sola de suporte.
Só penso nisso, em sonho ou acordado.
Masturbo-me na tímida ilusão
de amanhecer debaixo dum solado.
Aquele que em rosto dá o pisão
é sempre um tipo mal-acostumado,
e nunca a projeção duma paixão.
Soneto 26
Lírico
Dizem que o amor é cego e a carne é fraca,
mas só amei alguém quando enxergava.
Hoje a cegueira queima como lava
e o coração resiste a qualquer faca.
Ontem tesão, agora sóressaca.
Foi-se a paixão que fez minh'alma escrava.
Se inda me queixo dessa zica brava,
sou caçoado e passo por babaca.
Nem tudo está perdido: resta o cheiro
que invade-me as narinas quando passo
na porta do vizinho sapateiro.
Vá lá: o papel que faço é de palhaço.
O olfato é meu recurso derradeiro
e o cheiro do fetiche o único laço.
TEXTOS EN ESPAÑOL
Poemas traducidos por Mario Cámara y Luciana di Leone,
Sonetos traducidos por Cristian De Nápoli
*
Terrorismo con turrón
Represalia ai "alho e oleo"*
Militante a la milanesa
y tortilla de guerrilla.
Ciranda**, cirandita,
vamos todos a cirandar;
vamos a dar media vuelta,
vuelta y media vamos a dar.
Salsa parda de masacre de combate,
caminata con casata de mandato,
salas de tortura a la salsa tártara,
putsch con ketchup, croquetas de secuestro.
El anillo que me diste
era vidrio y se quebró;
el amor que me tenías
era poco y se acabó.
Ensalada mixta extremista con vino de Huelgas,
trincheras trinchadas con ilegumbres*** partidos
Comicio con comino, caudillo de vainilla.
Regímenes y Dietas a la Magna Carta,
Magna
Che te fa bene.
Valentín, tim, tim,
Valentín, mi bien,
quien tuviera envidia
que haga así también.
1 Al ajo y al aceite.
2 Danza de calle infantil, de origen portugués.
3 En portugués ilegumes es un juego de palabras entre ilegal y verduras. Se refiere a la prohibición de la vida política durante la dictadura que gobernó Brasil entre 1964 y 1984.
*
EI mejor poema no es el des-
calificado por la crítica, ni
el prohibido por la censura,
ni tampoco el desconocido por
el público. EI mejor poema es el
repudiado por el autor.
*
"?Qué poeta es más vanguardista,
aquel que toma un poema
en portugués y saca todas las
vocales o aquel que toma un
poema en alemán y saca todas
las consonantes? Para mí es
quien toma vocales y consonantes y saca un poema
que no puede ser leído ni en portugués ni en alemán."
Soneto 49
Versátil
Las críticas que siempre he recibido
son todas sobre el tema, no el formato:
"Mattoso habla de pies o de zapatos
aunque siga un modelo enaltecido ".
Respondo en primer término a Cupido
(y aclaro: con él no tuve trato).
Por lo demás, si hay orden no la acato:
no hay tema para mí que esté prohibido.
Soy ciego pero ecléctico, y compongo
acerca de problemas tan diversos
que ni la cumbia, el samba o el barroco.
De grandes y pequeños universos
está hecho el pie que huelo, beso y toco:
sólo a Él le rindo cuenta de mis versos.
Soneto 73
Obsessivo
La inclinación al pie se hizo más fuerte
cuando la oscuridad acabó siendo
la base de mis ojos en horrendo
martirio más agudo que la muerte.
Yá no puedo desear la misma suerte
que otros mortales tienen de momento
de convivir de a dos. Yo apenas cuento
sirviendo a cualquier suela de soporte.
No pienso en otra cosa, hasta palmado
me hago la paja en tímida ilusión
de amanecer debajo de un calzado.
Aquel que en pleno rostro el pisotón
ofrece es siempre un tipo malcriado,
nunca la proyección de una pasión.
Soneto 26
Lírico
De Amor dicen "es ciego”': carne, "es torpe ".
Yo sólo pude amar cuando miraba.
Hoy la ceguera quema como lava
y el corazón resiste cualquier golpe.
Tesón de ayer, resaca de esta noche.
Se fue el amor que tuvo a mi alma esclava
Y si suelto esta pena que me acaba
se burlan y me tratan de fantoche.
No todo está perdido: algo olfateo,
algo entra en mis narinas cuando paso
por la puerta del viejo zapatero.
A ver... ¿qué papel hago? De payaso.
Mi olfato, mi recurso postrimero
y el tufo del fetiche, único lazo.
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