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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 




(Fotos de Juvenildo Barbosa Moreira)

FERNANDO MENDES VIANNA
(1933-2006)

Nasceu no Rio de Janeiro. Poeta e tradutor de poesia. Estreou em 1958 com Marinheiro no Tempo e Construção no Caos (Rio de Janeiro, ed. Simões). Seguiram-se A Chave e a Pedra (Rio de Janeiro: São José, 1960), Proclamação do Barro (Rio de Janeiro: José Álvaro, 1964). O Silfo-Hipogrifo (Rio de Janeiro: José Olylmpio/ MEC) mereceu o Prêmio Literário do INL de 1972, na categoria de inéditos; Embarcado em Seco (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira/MEC, 1978); Marinheiro no Tempo: antologia (Brasília: Thesaurus, 1986) – Prêmio Literário Nacional do INL na categoria obra bublicada); Ah, Último Paraiso (Zaragoza, 1998); Antologia Pessoal (Brasília: Thesaurus, 2001); A Rosa Anfractuosa (Brasília: Thesaurus, 2004). Traduziu Quevedo e os clássicos espanhóis em geral assim também Victor Hugo.

 

Fernando Mendes Vianna faleceu subitamente, deixando-nos fisicamente, dia 10 de setembro de  2006. Recebo de Anderson Braga Horta os derradeiros versos do grande poeta amigo nosso... de despedida, de libertação. Escolho este como homenagem e preito de saudade:

 

 

EXÉQUIAS

 

EXIT. FUI.

ENFIM, FUI-ME.

REINTEGREI-ME NO FLUME

DE LUME – A ETERNIDADE.

 

ENFIM O FIM DA BUSCA

DA DIFERENÇA ENTRE

MENTIRA E VERDADE.

TUDO AGORA É ETERNIDADE.

 

TEL QUEL, ENFIN, L’ETERNITÉ

EN LUI MÊME LE CHANGE.

 

NEM HUMANO, NEM DEMÔNIO

NEM UM SONHO DE ANJO.

 

PLENITUDE TOTAL,

SEM BEM , NEM MAL.

ENFIM A PLENITUDE

DO HOMEM-ANIMAL.

 

DE VOLTA À MINHA

VERDADEIRA CONDIÇÃO

DE ELEMENTO ÍGNEO

DO INDÍGNO

SIGNO TERRÁQUEO.

 

ALELUIA! ALELUIA!

NÃO ETERNO

DE MALA E CUIA!

 

(09 de agosto de 2006)  

Em Português:                                  En Español


EMBARCADO EM SECO

 

Embarcado,

emborcado

- embarcadiço

sediço no beco -,

no muro viço,

entre muros viço.

 

Quando seco,

o sol ameaça

abrir-me em túnel

sem saída.

Mas a vida

- ave de aço –

vara o funil.

 

E continuo

contínuo barco

no verso onde zarpo

e fico ao largo

- embora seco.

 

PEIXE-VOADOR

 

Alo-me, embora em remos

de bote – meu peixe

voador. Apesar de galé

com amarras em terra,

lá vou eu, aos pulos e tombos,

aquático bailarino maluco,

subindo, caindo, subindo,

funâmbulo peixe de circo,

fugindo em vão à função.

De tanto pulo, encalho

e na areia sucumbo

entre piche e refugos.

E não existe fuga.

Apodrecidas escamas

- ainda há pouco asas –

já lixo de urubu.

Engolido, sou devolvido ao ar.

 

 

POÉTICA

 

Nas quatro paredes do meu quarto

               crucificado no crepúsculo

em trêmulos reflexos nos muros,

               o mar sorri

um sorriso enigmático e oblíquo.

 

 

O MIGRANTE

 

Emigrante e imigrante de mim mesmo,

sem passaporte sigo nos mares e ares.

Não me atrapalha o mundo e seus lindes,

e cruzo qualquer pátria clandestino.

 

Limites impressos em códigos e mapas

não são fronteiras, não, para um poeta.

Inferno é o mundo máximo. O resto,

pegadas vãs – pó e pó, barro no barro.

 

Vou e volto dentro do eu-planeta,

ao sopro do poema – vento no velame

do barco da carne. O corpo voa!

 

Não me detém o mundo: suas alfândegas,

feitas de mofo, o vento as leva

- enquanto chego e parto a qualquer hora.
 

   

SETE AUTO-RETRATOS

 

I

Delicadas escamas

de finíssima platina

recobrem minha guelras

                       roxas.

Cota de malha de lua

nesta arena rubra.

 

II

Cada copa de árvore

é um balão verde

na mão de um morto

              menino

- menino oculto

nas raízes.

 

III

A nuvem é meu talismã,

               minha tatuagem,

minha única ruga,

minha fotografia azul

                de tuareg.

 

IV

De cada veia cortada

jorram rosas,

rosas brancas, azuis, amarelas, malvas

- nunca rubras.

As rosas escarlates,

essas uivam ocultas

nas vísceras...

petisco do abutre.

 

V

Minha elegante roupa burocrática,

                 meu terno

é um vil disfarce medieval

                 de servo.

                 A gravata,

fútil corda de enforcado

                 fauno.

 

VI

O turbante é real:

Príncipe do Nepal

meditando nos píncaros

              do Tibé

o vazio das trombetas,

o cadáver anatômico

dos cavalos e das bailarinas

o sepulcro de seda amarela

 

              do vale no outono.

 

VII

Não fosse a ração de azul

              o areal seria total,

total a sede

nestas andanças

nas areias e areias

do convívio.

 

Meu absinto é o sol.

 

 

SONATA CREPUSCULAR SEM VENTO

 

Olhando-se num espelho de prata,

o vento está parado. Sua face é halo.

Seu som, hálito do silêncio.

Tudo flutua, flauta em penumbra,

alta, alada, alva garça

que volta devagar à árvore

oculta na distância e na sombra.

Bóia na água, na terra e no ar

uma vaga lembrança violácea

e áurea, lenço de adeus do sol.

Na água plácida, um barco

parece levitar, peixe num aquário.

 

 

A GRANDE LUA

 

A luz não se acaba. Porque a lua

antrebrilha num crepúsculo sem nexo.

 

Será lua ou uma flauta que imobiliza

e apascenta a luz no céu carnal?

 

Até as águas salgadas hipnotiza.

 

Não rimo sua face de sacerdotisa

com vaticínio, nem paz, nem martírio.

 

O luar é um estátua de hidrargírio

e tem um olho de mitológico animal.

 

Zarpa, nave, passa a barra!

Maldição, maldição é a amarra!

 

Escuto os coros sacros do crepúsculo,

e não me apraz movimentar um músculo:

 

tenho medo da lua e sua garra.

 

 

O MARINHEIRO

 

Corpo.

O corpo ignoto.

Sempre novo.

O corpo é mar.

 

Navegante

e cartógrafo

avanço, descubro

e tomo posse

de um corpo

em nome

do meu corpo.

 

Recorto as costas,

os braços, as baías,

apalpo as praias.

Tudo anseia ver

a vela.

 

Todo corpo é mar,

é ar, é terra.

Viaja-lo.

 

Marujo,

viajar o corpo

é ofício,

é recreio.

 

Vê-lo,

amá-lo,

mapeá-lo

- esse o roteiro.

 

Corpo:

terramareamr!

 

Visto, amado, mapeado

o corpo,

levantar âncora!

 

Prossigo,

perseguindo

nas ondas do corpo

outro corpo,

o corpo.

 

 

PRAIA DE BÚZIOS

 

Dos búzios restam fantasmas que murmuram

no marulho da orla.

 

Era ainda mais mansa esta praia,

suave a linha d´água

no papel branco, areia lisa.

Era limpa.

Não havia ossos de sereias.

Nem caricaturas magras de biquíni.

 

Foi antes dos veranistas.

Foi antes mesmo da existência das traineiras.

 

Nesta praia só restaram relíquias

- pó dourado que se soltou das escamas

                das deusas.

 

Mar,

rompe os restos dos quebrados búzios!

Para que haja silêncio.  

 

 

ESTATUTO

 

Um severo estatuto

preside esta procura:

dizer o sol e o luto

em carne e ossatura.

 

Poluto ou impoluto,

água do poço ou da altura,

a flor do canto não dura

sem o caroço do fruto.

 

   

O HIPOGRIFO

 

Este é o animal da minha sina,

mais que Pégaso minha montaria:

cascos de vento, garras de agonia.

 

Seu bico recurvo me examina.

Em seu dorso nada me alivia.

Do Alto sua gula me desvia.

Seu galope na terra me alucina.

 

Este animal é toda a minha sina.

Ele me devora, ele me recria.

 

 

ANTES DE TEMPESTADE

 

O mar, uma lâmina fria.

 

Todos o pensavam manso,

todos o pensavam frio...

 

O mar, lâmina dura,

de aço.

 

O mar, num ácido escuro

se consumia.

 

 

O POETA

 

Movendo-se em vida submarina,

soletrando palavras submarinas,

o poeta – esqualo e esquadro –

lúcido e feroz, busca o auto-quadro.

 

 

Sua meta é o fundo. O mundo

é a morte sob mil formas. Por isso

ele próprio se transforma, insubmisso.

 

Nas gestações do retrato,

nenhum trato com assombrações,

nem pacto com neblinas.

Turvo por si, o núcleo

-submarino – quer antenas, tato

concreto. Nada de penas. Peixe,

cria barbatana e um corpo em feixe.

Para o mar

não lhe servem asas de voar.

 

Busca o íntimo fato. O adro claro

ofusca o cego respirar. Seu templo, gruta

segregada como concha, cresce como fruta

em torno da semente do seu faro

sem ar. A superfície é um luxo

e pode ser nefasto, se o bruxo

tardar no mergulho. O repasto geral

- a beleza, o calor e a luz do natural –

assassina, indiferente, seu orgulho.

 

Lúcido e feroz, seu dente mina

o corpo do que existe.  Dói. Insiste.

Sem loucura. Corrói e se corrói

para não ruir:

reconstruir sempre a sua procura.

 

 

CREPÚSCULO

 

Andorinhas viram a parda luz

pelo avesso, num giro tão veloz

que reluz na tarde, fulcro em vôo.

 

Álacre, seu pio.  Triste, minha voz

anoitecida

- gesto mudo que eu meço e não desfiro.

 

Aves, minha vida se reduz...

 

 

CANÇONETA

 

Somos o leito de um rio,