EMBARCADO EM SECO
Embarcado,
emborcado
- embarcadiço
sediço no beco -,
no muro viço,
entre muros viço.
Quando seco,
o sol ameaça
abrir-me em túnel
sem saída.
Mas a vida
- ave de aço –
vara o funil.
E continuo
contínuo barco
no verso onde zarpo
e fico ao largo
- embora seco.
PEIXE-VOADOR
Alo-me, embora em remos
de bote – meu peixe
voador. Apesar de galé
com amarras em terra,
lá vou eu, aos pulos e tombos,
aquático bailarino maluco,
subindo, caindo, subindo,
funâmbulo peixe de circo,
fugindo em vão à função.
De tanto pulo, encalho
e na areia sucumbo
entre piche e refugos.
E não existe fuga.
Apodrecidas escamas
- ainda há pouco asas –
já lixo de urubu.
Engolido, sou devolvido ao ar.
POÉTICA
Nas quatro paredes do meu quarto
crucificado no crepúsculo
em trêmulos reflexos nos muros,
o mar sorri
um sorriso enigmático e oblíquo.
O MIGRANTE
Emigrante e imigrante de mim mesmo,
sem passaporte sigo nos mares e ares.
Não me atrapalha o mundo e seus lindes,
e cruzo qualquer pátria clandestino.
Limites impressos em códigos e mapas
não são fronteiras, não, para um poeta.
Inferno é o mundo máximo. O resto,
pegadas vãs – pó e pó, barro no barro.
Vou e volto dentro do eu-planeta,
ao sopro do poema – vento no velame
do barco da carne. O corpo voa!
Não me detém o mundo: suas alfândegas,
feitas de mofo, o vento as leva
- enquanto chego e parto a qualquer hora.
SETE AUTO-RETRATOS
I
Delicadas escamas
de finíssima platina
recobrem minha guelras
roxas.
Cota de malha de lua
nesta arena rubra.
II
Cada copa de árvore
é um balão verde
na mão de um morto
menino
- menino oculto
nas raízes.
III
A nuvem é meu talismã,
minha tatuagem,
minha única ruga,
minha fotografia azul
de tuareg.
IV
De cada veia cortada
jorram rosas,
rosas brancas, azuis, amarelas, malvas
- nunca rubras.
As rosas escarlates,
essas uivam ocultas
nas vísceras...
petisco do abutre.
V
Minha elegante roupa burocrática,
meu terno
é um vil disfarce medieval
de servo.
A gravata,
fútil corda de enforcado
fauno.
VI
O turbante é real:
Príncipe do Nepal
meditando nos píncaros
do Tibé
o vazio das trombetas,
o cadáver anatômico
dos cavalos e das bailarinas
o sepulcro de seda amarela
do vale no outono.
VII
Não fosse a ração de azul
o areal seria total,
total a sede
nestas andanças
nas areias e areias
do convívio.
Meu absinto é o sol.
SONATA CREPUSCULAR SEM VENTO
Olhando-se num espelho de prata,
o vento está parado. Sua face é halo.
Seu som, hálito do silêncio.
Tudo flutua, flauta em penumbra,
alta, alada, alva garça
que volta devagar à árvore
oculta na distância e na sombra.
Bóia na água, na terra e no ar
uma vaga lembrança violácea
e áurea, lenço de adeus do sol.
Na água plácida, um barco
parece levitar, peixe num aquário.
A GRANDE LUA
A luz não se acaba. Porque a lua
antrebrilha num crepúsculo sem nexo.
Será lua ou uma flauta que imobiliza
e apascenta a luz no céu carnal?
Até as águas salgadas hipnotiza.
Não rimo sua face de sacerdotisa
com vaticínio, nem paz, nem martírio.
O luar é um estátua de hidrargírio
e tem um olho de mitológico animal.
Zarpa, nave, passa a barra!
Maldição, maldição é a amarra!
Escuto os coros sacros do crepúsculo,
e não me apraz movimentar um músculo:
tenho medo da lua e sua garra.
O MARINHEIRO
Corpo.
O corpo ignoto.
Sempre novo.
O corpo é mar.
Navegante
e cartógrafo
avanço, descubro
e tomo posse
de um corpo
em nome
do meu corpo.
Recorto as costas,
os braços, as baías,
apalpo as praias.
Tudo anseia ver
a vela.
Todo corpo é mar,
é ar, é terra.
Viaja-lo.
Marujo,
viajar o corpo
é ofício,
é recreio.
Vê-lo,
amá-lo,
mapeá-lo
- esse o roteiro.
Corpo:
terramareamr!
Visto, amado, mapeado
o corpo,
levantar âncora!
Prossigo,
perseguindo
nas ondas do corpo
outro corpo,
o corpo.
PRAIA DE BÚZIOS
Dos búzios restam fantasmas que murmuram
no marulho da orla.
Era ainda mais mansa esta praia,
suave a linha d´água
no papel branco, areia lisa.
Era limpa.
Não havia ossos de sereias.
Nem caricaturas magras de biquíni.
Foi antes dos veranistas.
Foi antes mesmo da existência das traineiras.
Nesta praia só restaram relíquias
- pó dourado que se soltou das escamas
das deusas.
Mar,
rompe os restos dos quebrados búzios!
Para que haja silêncio.
ESTATUTO
Um severo estatuto
preside esta procura:
dizer o sol e o luto
em carne e ossatura.
Poluto ou impoluto,
água do poço ou da altura,
a flor do canto não dura
sem o caroço do fruto.
O HIPOGRIFO
Este é o animal da minha sina,
mais que Pégaso minha montaria:
cascos de vento, garras de agonia.
Seu bico recurvo me examina.
Em seu dorso nada me alivia.
Do Alto sua gula me desvia.
Seu galope na terra me alucina.
Este animal é toda a minha sina.
Ele me devora, ele me recria.
ANTES DE TEMPESTADE
O mar, uma lâmina fria.
Todos o pensavam manso,
todos o pensavam frio...
O mar, lâmina dura,
de aço.
O mar, num ácido escuro
se consumia.
O POETA
Movendo-se em vida submarina,
soletrando palavras submarinas,
o poeta – esqualo e esquadro –
lúcido e feroz, busca o auto-quadro.
Sua meta é o fundo. O mundo
é a morte sob mil formas. Por isso
ele próprio se transforma, insubmisso.
Nas gestações do retrato,
nenhum trato com assombrações,
nem pacto com neblinas.
Turvo por si, o núcleo
-submarino – quer antenas, tato
concreto. Nada de penas. Peixe,
cria barbatana e um corpo em feixe.
Para o mar
não lhe servem asas de voar.
Busca o íntimo fato. O adro claro
ofusca o cego respirar. Seu templo, gruta
segregada como concha, cresce como fruta
em torno da semente do seu faro
sem ar. A superfície é um luxo
e pode ser nefasto, se o bruxo
tardar no mergulho. O repasto geral
- a beleza, o calor e a luz do natural –
assassina, indiferente, seu orgulho.
Lúcido e feroz, seu dente mina
o corpo do que existe. Dói. Insiste.
Sem loucura. Corrói e se corrói
para não ruir:
reconstruir sempre a sua procura.
CREPÚSCULO
Andorinhas viram a parda luz
pelo avesso, num giro tão veloz
que reluz na tarde, fulcro em vôo.
Álacre, seu pio. Triste, minha voz
anoitecida
- gesto mudo que eu meço e não desfiro.
Aves, minha vida se reduz...
CANÇONETA
Somos o leito de um rio, |