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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

FERNANDO FÁBIO FIORESE FURTADO

 

 

Nasceu em Pirapitinga (Minas Gerais) em 1963. Formado em comunicação pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Na Universidade Federal do Rio desenvolveu sua tese de doutorado sobre “A comunicação poética entre o símbolo e o simulacro”. Faz parte do conselho editorial de várias revistas.

 

 

TEXTOS EM PORTUGUÊS   /    TEXTOS EN ESPAÑOL

 

 

MANHÃ

 

na claridade do pátio

nada se move.

 

apenas o mármore das colunas

duela com o vento.

 

todo o solo prenuncia a queda

a palavra que fenda a manhã.

 

emigrado da sombra

me entrego ao desgaste do vento.

 

ah o azul

o azul me desampara.

 

 

DANAÇÃO

 

         Bom mesmo

Era morar num lugar de nome bonito

— Nossa Senhora dos Remédios,

São Tomé das Letras,

Dores do Turvo —

cultivar violetas e samambaias

e fazer do itinerário dos peixes

minha mística.

                            E não

ficar polindo os ossos do mito.

 

 

MULHER DORMINDO

 

apenas a alma dorme

o corpo insone

                   trabalha

os minérios do sono

                   sustenta o pânico

o naufrágio

na penumbra

                   fogo e relva

os músculos dançam

debruçados sobre o nada

 

os olhos não

os olhos sonham

         a sombra da alma

— e sobrevivem

                   ao dilúvio.

 

 

Y QUISERA DESCARNAR AS MÁSCARAS

(A SIBILA)

 

E quisera descarnar as máscaras

do mistério que, mesmo sob esporas,

resiste, e me desafia a existir

quando o desamparo me desposa.

 

Mas tudo que desvelo são desertos.

Não há fuga, habito as distâncias.

O silêncio urge e me desperta

para o inventário de suas lanças.

 

Eis o cacto, a serpente e a pedra.

Toda brutalidade se avizinha,

em meus lábios nenhum deus vocifera.

 

Aqui, tudo que digo é diferente,

a palavra circula sob o turvo

e, como antes da queda, esplende.

 

 

                   Ossário do Mito (1990)

 

 

BAÚ DE OSSOS

 

zelo de guardar miudezas

reter o tempo

em dentes-de-leite

mechas de cabelo

retratos sem data

como a dizer:

memória

eis a história

do zero

 

 

ARTE POÉTICA

 

porque de todos os livros sei
apenas o silêncio
porque o número não calcula
a idade que tínhamos
quando o medo chegou
porque o espelho oferece seus avessos
porque imolamos a infância na palavra
a palavra que nada gera
nem se destrói
 
 

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AVÓ DEPOIS DE MORTA

A avó ainda rega o canteiro
onde mirraram os brinquedos.

Mesmo morta ainda
ralha com a tempestade
que escondeu os meninos
em outra idade.


VICENTIM, REPARADOR DE LIVROS

Fui muitos antes.

Desta pequena queda,
um corpo oblíquo espera
mapa ou sentença.

Da história me desfaço,
rascunhando uma rosa
nos obituários.

Erratas também recolho
com mãos que desconheço:
a linhagem do homem
ninguém sabe.

A limpo e a luto passo
livros, desertos, cidades
— os hóspedes
em frases demudados.

E posso mudar em verbo
até a última paisagem.

 

CAPRFICHOS BIBLIOGRÁFICOS

Livro só existe no plural.
De modo que não há como abrir
um único, sem com isso outro,
e assim acionar a espiral
que, par em par, outros abrirá;
o mesmo que mão a dentro do bolso
surpreendesse outro e, nesse um, outro
bolsos em seqüências infinitas,
à semelhança de uma dízima;
e em cada qual houvesse chaves
de cofres há muito saqueados,
de gavetas que nenhuma abre,
da cidade depois dos bárbaros,
porque chegamos sempre tarde.

Como dissera versos antes,
para o livro chegamos tarde,
cedo demais para o não-livro;
na estante um espelho inimigo,
esse olhar só possível quando
o silêncio entre amantes queda,
e o mínimo rumor é tanto
que, no corpo, o corpo analfabeta.
Livro é como, em outros, a morte
se abre para ensaio ou trégua;
livro é mapa, mesmo conforme,
onde o território desconcerta;
é quando não há enigma algum
—nem termo, início ou promessa.


Extraídos da antologia OIRO DE MINAS a nova poesia das GERAIS. Seleção de Prisca Agustoni.  S. l.: Pasárgada; Ardósia, 2007. 

 

 

 

TEXTOS EN ESPAÑOL

Extraídos de la
ANTOLOGÍA DE LA POESÍA BRASILEÑA
Org. Trad. de Xosé Lois García
Santiago de Compostela: Edicións Laiovento, 2001.

 

MAÑANA

en la claridad del patio

nada se mueve.

 

apenas el mármol de las columnas

lucha con el viento.

 

todo el suelo anuncia la caída

la palabra hiende la mañana.

 

de la sombra emigrado

me entrego al desaste del viento.

 

ah, el azul

el azul me desampara.

 

 

MALDICIÓN

 

         Bueno mismo

era vivir en un lugar

—Nossa Senhora dos Remedios,

São Tomé das Letras,

Dores do Turvo —

cultivar violetas y helechos

y hacer del itinerário de los peces

mi mística.

                            Y no

quedar puliendo los huesos del mito.

 

 

MUJER DURMIENDO

 

apenas el alma duerme

el cuerpo insomne

                   trabaja

los minerales del sueño

                   sustenta el pânico

el naufragio

en la penumbra

                   fuego y hierba

los músculos bailan

apoyados en la nada

 

los ojos no

los ojos sueñan

         a la sombra del alma

 y sobreviven

                   al diluvio.

 

 

Y QUISIERA DEHUESAR LAS MÁSCARAS

(LA SIBILA)

 

Y quisiera deshuesar las máscaras

del misterio que, bajo las esporas,

resiste, y me desafía a existir

cuando el desamparo me desposa.

 

Pero todo lo que desvelo son desiertos.

No hay fuga, habito las distancias.

El silencio urge y me despierta

para el inventario de sus lanzas.

 

He ahí el cactus, la serpiente y la piedra.

Toda brutalidad se aproxima,

en mis labios ningún dios vocifera.

 

Aquí, todo lo que digo es diferente,

la palabra circula bajo la confusión

y, como antes del declive, resplandece.

 

                  

                   Ossário do Mito (1990)

 

Página publicada em janeiro de 2008


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