FERNANDO FÁBIO FIORESE FURTADO
Nasceu em Pirapitinga (Minas Gerais) em 1963. Formado em comunicação pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Na Universidade Federal do Rio desenvolveu sua tese de doutorado sobre “A comunicação poética entre o símbolo e o simulacro”. Faz parte do conselho editorial de várias revistas.
TEXTOS EM PORTUGUÊS / TEXTOS EN ESPAÑOL
MANHÃ
na claridade do pátio
nada se move.
apenas o mármore das colunas
duela com o vento.
todo o solo prenuncia a queda
a palavra que fenda a manhã.
emigrado da sombra
me entrego ao desgaste do vento.
ah o azul
o azul me desampara.
DANAÇÃO
Bom mesmo
Era morar num lugar de nome bonito
— Nossa Senhora dos Remédios,
São Tomé das Letras,
Dores do Turvo —
cultivar violetas e samambaias
e fazer do itinerário dos peixes
minha mística.
E não
ficar polindo os ossos do mito.
MULHER DORMINDO
apenas a alma dorme
o corpo insone
trabalha
os minérios do sono
sustenta o pânico
o naufrágio
na penumbra
fogo e relva
os músculos dançam
debruçados sobre o nada
os olhos não
os olhos sonham
a sombra da alma
— e sobrevivem
ao dilúvio.
Y QUISERA DESCARNAR AS MÁSCARAS
(A SIBILA)
E quisera descarnar as máscaras
do mistério que, mesmo sob esporas,
resiste, e me desafia a existir
quando o desamparo me desposa.
Mas tudo que desvelo são desertos.
Não há fuga, habito as distâncias.
O silêncio urge e me desperta
para o inventário de suas lanças.
Eis o cacto, a serpente e a pedra.
Toda brutalidade se avizinha,
em meus lábios nenhum deus vocifera.
Aqui, tudo que digo é diferente,
a palavra circula sob o turvo
e, como antes da queda, esplende.
Ossário do Mito (1990)
BAÚ DE OSSOS
zelo de guardar miudezas
reter o tempo
em dentes-de-leite
mechas de cabelo
retratos sem data
como a dizer:
memória
eis a história
do zero
ARTE POÉTICA
porque de todos os livros sei
apenas o silêncio
porque o número não calcula
a idade que tínhamos
quando o medo chegou
porque o espelho oferece seus avessos
porque imolamos a infância na palavra
a palavra que nada gera
nem se destrói
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AVÓ DEPOIS DE MORTA
A avó ainda rega o canteiro
onde mirraram os brinquedos.
Mesmo morta ainda
ralha com a tempestade
que escondeu os meninos
em outra idade.
VICENTIM, REPARADOR DE LIVROS
Fui muitos antes.
Desta pequena queda,
um corpo oblíquo espera
mapa ou sentença.
Da história me desfaço,
rascunhando uma rosa
nos obituários.
Erratas também recolho
com mãos que desconheço:
a linhagem do homem
ninguém sabe.
A limpo e a luto passo
livros, desertos, cidades
— os hóspedes
em frases demudados.
E posso mudar em verbo
até a última paisagem.
CAPRFICHOS BIBLIOGRÁFICOS
Livro só existe no plural.
De modo que não há como abrir
um único, sem com isso outro,
e assim acionar a espiral
que, par em par, outros abrirá;
o mesmo que mão a dentro do bolso
surpreendesse outro e, nesse um, outro
bolsos em seqüências infinitas,
à semelhança de uma dízima;
e em cada qual houvesse chaves
de cofres há muito saqueados,
de gavetas que nenhuma abre,
da cidade depois dos bárbaros,
porque chegamos sempre tarde.
Como dissera versos antes,
para o livro chegamos tarde,
cedo demais para o não-livro;
na estante um espelho inimigo,
esse olhar só possível quando
o silêncio entre amantes queda,
e o mínimo rumor é tanto
que, no corpo, o corpo analfabeta.
Livro é como, em outros, a morte
se abre para ensaio ou trégua;
livro é mapa, mesmo conforme,
onde o território desconcerta;
é quando não há enigma algum
—nem termo, início ou promessa.
Extraídos da antologia OIRO DE MINAS a nova poesia das GERAIS. Seleção de Prisca Agustoni. S. l.: Pasárgada; Ardósia, 2007.
TEXTOS EN ESPAÑOL
Extraídos de la
ANTOLOGÍA DE LA POESÍA BRASILEÑA
Org. Trad. de Xosé Lois García
Santiago de Compostela: Edicións Laiovento, 2001.
MAÑANA
en la claridad del patio
nada se mueve.
apenas el mármol de las columnas
lucha con el viento.
todo el suelo anuncia la caída
la palabra hiende la mañana.
de la sombra emigrado
me entrego al desaste del viento.
ah, el azul
el azul me desampara.
MALDICIÓN
Bueno mismo
era vivir en un lugar
—Nossa Senhora dos Remedios,
São Tomé das Letras,
Dores do Turvo —
cultivar violetas y helechos
y hacer del itinerário de los peces
mi mística.
Y no
quedar puliendo los huesos del mito.
MUJER DURMIENDO
apenas el alma duerme
el cuerpo insomne
trabaja
los minerales del sueño
sustenta el pânico
el naufragio
en la penumbra
fuego y hierba
los músculos bailan
apoyados en la nada
los ojos no
los ojos sueñan
a la sombra del alma
y sobreviven
al diluvio.
Y QUISIERA DEHUESAR LAS MÁSCARAS
(LA SIBILA)
Y quisiera deshuesar las máscaras
del misterio que, bajo las esporas,
resiste, y me desafía a existir
cuando el desamparo me desposa.
Pero todo lo que desvelo son desiertos.
No hay fuga, habito las distancias.
El silencio urge y me despierta
para el inventario de sus lanzas.
He ahí el cactus, la serpiente y la piedra.
Toda brutalidad se aproxima,
en mis labios ningún dios vocifera.
Aquí, todo lo que digo es diferente,
la palabra circula bajo la confusión
y, como antes del declive, resplandece.
Ossário do Mito (1990)
Página publicada em janeiro de 2008 |