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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


EDIMILSON DE ALMEIDA PEREIRA

 

 

Nasceu em Juiz de Fora, Minas Gerais, Brasil, em 1963. Licenciado em Letras e especializado em literatura portuguesa. Professor de literatura na Universidade Federal de Juiz de Fora, é mestre em literatura e em ciência da religião e doutor em comunicação e cultura. Estreou em 1985 e  publicou quase duas dezenas de livros. Sua obra poética foi reunida em quatro volumes em 2003, incluindo: Zé Osório Blues (2002); Lugares Ares (2003); Casa da Palavra (2003); e As Coisas Arcas (2003).  Traduzido a vários idiomas. 

Veja mais poemas do autor no portal do Carlos Machado Poesia.Net:

http://www.algumapoesia.com.br/poesia2/poesianet114.htm

 

 

CANDOMBE

 

Põe o ombro na lua,

Mas levanta forte

que Zambi arrepia o sol.

 

Os velhos desfiam os dedos

e o tempo se assusta: “Auê,

quem vive tanto é de mistério”.

 

“Não, que o quê?— respondem.

Põe o ombro aqui, candonga

mas dobra forte

que Zambi engole o sol.

 

Uê, morde por dentro

cobra dormindo faz a cova.

 

Uê, quem sabe desses meninos

é Zambi que engole o sol

é Zambi que mata o sol.

 

 

MISSA CONGA

 

Para que deuses se reza

quando o corpo aprendeu

         toda linguagem do mundo?

 

Onde se deitam os olhos

quando o altar dos antigos

         ainda se esconde?

 

Para que deuses se reza

quando as palavras se velam

         para invocar os nomes?

 

Por que não entregar a vida

ao deus com olhos de plumas

         que vive no fundo dos tempos?

 

 

DANÇARINA

 

         a Lena Machado

 

 

Às vezes percebo

demora nos movimentos.

 

Flores me transportam

para lugares há

quanto não sei demolidos.

 

(Crimes não deixam

vítimas).

 

Meu corpo se insinua:

não recuso danças,

nunca.

 

 

NOMES

 

Um amigo se chama

De Onde Venho.

Outro se conhece

como Para Onde Vou.

 

O tempo se esgota

para um.

Para outro apenas

se alonga.

 

De Onde Venho sabe

o que aconteceu.

Para Onde Vou

o que não adivinhamos.

 

Quando um morre outro

o contempla.

 

 

SUDIKA MBAMBI

 

Quem é Sudika Mbambi

um pé no céu

outro no ventre.

 

Seu cajado de pedra

risca na terra.

Seu cajado de estrelas

nada pode vencê-lo.

 

Sudika Mbambi quem é

o seu cajade de antílope.

 

 

OBRA

 

O rei quer um corpo de ferro

com sangue nas veias.

 

Walukaga ouve a sentença

treme em suas pernas.

 

Para criar o absurdo

deseja matéria impossível.

 

O rei encolhe os ombros:

não pode atender o pedido.

 

Walukaga ganha consolo

deita o rei no espanto.

 

        

         Corpo Vivido (1991)

 

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O CORPO

Ainda está lá, apesar dos anos. De um lado a outro, desvia-se das pedras, toca as margens cada vez mais humano. A roupa se desfaz, os sapatos, o que havia nos bolsos. Nada restou, mas o corpo flutua alheio a chuva, ao vento, à vingança. Há muito nos povoa, suas rugas não pertencem ao tempo de seu sacrifício. São de agora, nos interrogam. Que fazer desse corpo que não sabemos de onde veio e se instalou em nós?


SÍLABA

Outra língua alicia o palato, não se quer instrumento de suicídio. Não pode ser engolida para selar o desejo. É para uso desobediente, sendo mais livre quanto mais nos pertence. A essa língua não se veda o devaneio, uma vez afiada a vida e tudo que se queira. Não está na boca e nela se arvora. Testa o sentido, duvida de si mesma. Vai ao baile, está nua ao meio-dia.Não é língua do suplício nem do vexame, desenrola os signos e se pronuncia.


AULA

Fala de vendedor ambulante
é signo em rotação. A gente
lança no ar o que tem de ser
dito e colhe — nem sempre —
o fruto de algo vendido.
Repetimos as falas aceitas
para garantir a venda, mas
o risco do improviso é o que
há. Três por dois, duas por
uma — essa sintaxe apraz.
A gente lança no ar. Se der
ritmo ganhamos a feira, se
não, fazemos fina de baile.


ESCARIAÇÕES

Paredes em branco, portas
janelas azuis.  Fila de casas
com orgulhos enfileirados.
Uma ordem dentro da outra.
Quartos, metade quartos.
Searas, enfim, para a cisma
do criador. Nada insinua
ruptura. A chuva não frisou
o branco, o mar se conteve.
Receios, arrastaram os que
esperavam, a mobília não.
O suor de antes não legou
a mensagem do sacrifício.
Esse, aninhando no corpo,
também se dilui, só a astúcia
abre sulcos sob o retrato. 

 

Extraídos da antologia OIRO DE MINAS a nova poesia das GERAIS. Seleção de Prisca Agustoni.  S. l.: Pasárgada; Ardósia, 2007. 

 

 

 

 

 

TEXTOS EN ESPAÑOL

 

Extraídos de

ANTOLOGÍA DE LA POESÍA BRASILEÑA

Org. de Xosé Lois García

Santiago de Compostela: Edicions Laiovento, 2001

ISBN 84-8487-001-4

 

CANDOMBE

 

Pon el hombro en la luna.

Pero levanta fuerte

que Zambi estremece el sol.

 

Los viejos deshilan los dedos

y el tiempo se asusta: “Auê,

quien vive tanto es un misterio”.

 

“No, qué” — responden.

Pon un hombre aquí, candonga

pero sujeta fuerte

que Zambi engulle el sol.

 

Uê, muerde por dentro

la cobra durmiendo hace la cueva.

 

Uê, quien sabe de esos niños

es Zambi que engulle el sol

es Zambi que mata el sol.

 

MISA CONGA

 

¿Para qué dioses se reza

cuando el cuerpo aprendió

         todos los lenguajes del mundo?

 

¿Donde se acuestan los ojos

cuando el altar de los antiguos

         aun se esconde?

 

¿Para qué dioses se reza

cuando las palabras se ocultan

         para invocar los nombres?

 

¿Por qué no entregar la vida

al diós con ojos de plumas

         que vive en el fondo de los tiempos?

 

 

DANZARINA

         a Lena Machado

 

A veces observo

retraso en los movimientos.

 

Me transportan flores

hacia lugares hace

mucho demolidos.

 

(Crímenes no dejan

víctimas).

 

Mi cuerpo se insinua:

no rehuzo danzas

nunca.  

 

NOMBRES

Un amigo se llama

De Dónde Vengo.

utro se conoce

como Para Dónde Voy.

 

El tiempo se agota

para uno.

Para el outro apenas

se alarga.

 

De Dónde Vengo sabe

lo que pasó.

Para Dónde Voy

lo que no adivinamos.

 

Cuando uno muere outro

lo contempla.

 

SUDIKA MBAMBI

Quién es Sudika Mbambi

um pie en el cielo

outro en el vientre.

 

Su cayado de piedra

raya la tierra.

Su cayado de estrellas

nada puede vencerlo.

 

Sudika Mbambi quién es

y su cayado de antílope.

 

 

OBRA

 

El Rey quiere un cuerpo de hierro

con sangre en las venas.

 

Walukaga escucha la sentencia

tiemblan sus piernas.

 

Para crear el absurdo

desea matéria imposible.

 

El Rey se encoje de hombros:

no puede atender el pedido.

 

Walukaga se consuela

acuerda al rey en el espanto.

 

        

         Corpo Vivido (1991)

 

Página publicada em janeiro de 2008, ampliada e republicada em novembro de 2008.




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