EDIMILSON DE ALMEIDA PEREIRA
Nasceu em Juiz de Fora, Minas Gerais, Brasil, em 1963. Licenciado em Letras e especializado em literatura portuguesa. Professor de literatura na Universidade Federal de Juiz de Fora, é mestre em literatura e em ciência da religião e doutor em comunicação e cultura. Estreou em 1985 e publicou quase duas dezenas de livros. Sua obra poética foi reunida em quatro volumes em 2003, incluindo: Zé Osório Blues (2002); Lugares Ares (2003); Casa da Palavra (2003); e As Coisas Arcas (2003). Traduzido a vários idiomas.
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CANDOMBE
Põe o ombro na lua,
Mas levanta forte
que Zambi arrepia o sol.
Os velhos desfiam os dedos
e o tempo se assusta: “Auê,
quem vive tanto é de mistério”.
“Não, que o quê?— respondem.
Põe o ombro aqui, candonga
mas dobra forte
que Zambi engole o sol.
Uê, morde por dentro
cobra dormindo faz a cova.
Uê, quem sabe desses meninos
é Zambi que engole o sol
é Zambi que mata o sol.
MISSA CONGA
Para que deuses se reza
quando o corpo aprendeu
toda linguagem do mundo?
Onde se deitam os olhos
quando o altar dos antigos
ainda se esconde?
Para que deuses se reza
quando as palavras se velam
para invocar os nomes?
Por que não entregar a vida
ao deus com olhos de plumas
que vive no fundo dos tempos?
DANÇARINA
a Lena Machado
Às vezes percebo
demora nos movimentos.
Flores me transportam
para lugares há
quanto não sei demolidos.
(Crimes não deixam
vítimas).
Meu corpo se insinua:
não recuso danças,
nunca.
NOMES
Um amigo se chama
De Onde Venho.
Outro se conhece
como Para Onde Vou.
O tempo se esgota
para um.
Para outro apenas
se alonga.
De Onde Venho sabe
o que aconteceu.
Para Onde Vou
o que não adivinhamos.
Quando um morre outro
o contempla.
SUDIKA MBAMBI
Quem é Sudika Mbambi
um pé no céu
outro no ventre.
Seu cajado de pedra
risca na terra.
Seu cajado de estrelas
nada pode vencê-lo.
Sudika Mbambi quem é
o seu cajade de antílope.
OBRA
O rei quer um corpo de ferro
com sangue nas veias.
Walukaga ouve a sentença
treme em suas pernas.
Para criar o absurdo
deseja matéria impossível.
O rei encolhe os ombros:
não pode atender o pedido.
Walukaga ganha consolo
deita o rei no espanto.
Corpo Vivido (1991)
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O CORPO
Ainda está lá, apesar dos anos. De um lado a outro, desvia-se das pedras, toca as margens cada vez mais humano. A roupa se desfaz, os sapatos, o que havia nos bolsos. Nada restou, mas o corpo flutua alheio a chuva, ao vento, à vingança. Há muito nos povoa, suas rugas não pertencem ao tempo de seu sacrifício. São de agora, nos interrogam. Que fazer desse corpo que não sabemos de onde veio e se instalou em nós?
SÍLABA
Outra língua alicia o palato, não se quer instrumento de suicídio. Não pode ser engolida para selar o desejo. É para uso desobediente, sendo mais livre quanto mais nos pertence. A essa língua não se veda o devaneio, uma vez afiada a vida e tudo que se queira. Não está na boca e nela se arvora. Testa o sentido, duvida de si mesma. Vai ao baile, está nua ao meio-dia.Não é língua do suplício nem do vexame, desenrola os signos e se pronuncia.
AULA
Fala de vendedor ambulante
é signo em rotação. A gente
lança no ar o que tem de ser
dito e colhe — nem sempre —
o fruto de algo vendido.
Repetimos as falas aceitas
para garantir a venda, mas
o risco do improviso é o que
há. Três por dois, duas por
uma — essa sintaxe apraz.
A gente lança no ar. Se der
ritmo ganhamos a feira, se
não, fazemos fina de baile.
ESCARIAÇÕES
Paredes em branco, portas
janelas azuis. Fila de casas
com orgulhos enfileirados.
Uma ordem dentro da outra.
Quartos, metade quartos.
Searas, enfim, para a cisma
do criador. Nada insinua
ruptura. A chuva não frisou
o branco, o mar se conteve.
Receios, arrastaram os que
esperavam, a mobília não.
O suor de antes não legou
a mensagem do sacrifício.
Esse, aninhando no corpo,
também se dilui, só a astúcia
abre sulcos sob o retrato.
Extraídos da antologia OIRO DE MINAS a nova poesia das GERAIS. Seleção de Prisca Agustoni. S. l.: Pasárgada; Ardósia, 2007.
TEXTOS EN ESPAÑOL
Extraídos de
ANTOLOGÍA DE LA POESÍA BRASILEÑA
Org. de Xosé Lois García
Santiago de Compostela: Edicions Laiovento, 2001
ISBN 84-8487-001-4
CANDOMBE
Pon el hombro en la luna.
Pero levanta fuerte
que Zambi estremece el sol.
Los viejos deshilan los dedos
y el tiempo se asusta: “Auê,
quien vive tanto es un misterio”.
“No, qué” — responden.
Pon un hombre aquí, candonga
pero sujeta fuerte
que Zambi engulle el sol.
Uê, muerde por dentro
la cobra durmiendo hace la cueva.
Uê, quien sabe de esos niños
es Zambi que engulle el sol
es Zambi que mata el sol.
MISA CONGA
¿Para qué dioses se reza
cuando el cuerpo aprendió
todos los lenguajes del mundo?
¿Donde se acuestan los ojos
cuando el altar de los antiguos
aun se esconde?
¿Para qué dioses se reza
cuando las palabras se ocultan
para invocar los nombres?
¿Por qué no entregar la vida
al diós con ojos de plumas
que vive en el fondo de los tiempos?
DANZARINA
a Lena Machado
A veces observo
retraso en los movimientos.
Me transportan flores
hacia lugares hace
mucho demolidos.
(Crímenes no dejan
víctimas).
Mi cuerpo se insinua:
no rehuzo danzas
nunca.
NOMBRES
Un amigo se llama
De Dónde Vengo.
utro se conoce
como Para Dónde Voy.
El tiempo se agota
para uno.
Para el outro apenas
se alarga.
De Dónde Vengo sabe
lo que pasó.
Para Dónde Voy
lo que no adivinamos.
Cuando uno muere outro
lo contempla.
SUDIKA MBAMBI
Quién es Sudika Mbambi
um pie en el cielo
outro en el vientre.
Su cayado de piedra
raya la tierra.
Su cayado de estrellas
nada puede vencerlo.
Sudika Mbambi quién es
y su cayado de antílope.
OBRA
El Rey quiere un cuerpo de hierro
con sangre en las venas.
Walukaga escucha la sentencia
tiemblan sus piernas.
Para crear el absurdo
desea matéria imposible.
El Rey se encoje de hombros:
no puede atender el pedido.
Walukaga se consuela
acuerda al rey en el espanto.
Corpo Vivido (1991)
Página publicada em janeiro de 2008, ampliada e republicada em novembro de 2008. |