CLÁUDIO MANUEL DA COSTA
(1729-1789)
Nasceu na Vila do Ribeirão do Carmo, em Mariana, Minas Gerais, Brasil e faleceu em Vila Rica [Ouro Preto] na mesma região. Estudou no Colégio dos Jesuítas, no Rio de Janeiro RJ, entre 1744 e 1749. Graduou-se em Direito Canônico na Universidade de Coimbra (Portugal), em 1753. De volta ao Brasil, passou a viver em Ouro Preto e Mariana MG, trabalhando como funcionário do governo colonial.
Seu livro de poesia Obras (1978), é considerado o marco inicial do Arcadismo no Brasil. Participou da Inconfidência Mineira, movimento pela independência da colônia de Portugal, sendo preso e morto na prisão. Cultivou a poesia pastoril, bucólica, de influência neoclássica, mas onde, segundo os estudiosos, já se nota uma consciência nacional.
TEXTOS EM PORTUGUÊS / TEXTOS EN ESPAÑOL
Leia a posteridade, ó pátria Rio,
Em meus versos teu nome celebrado,
Por que vejas uma hora despertado
O sono vil do esquecimento frio:
Não vês nas tuas margens o. sombrio,
Fresco assento de um álamo capado;
Não vês Ninfa cantar, pastar o gado
Na tarde clara da calmoso estio.
Turvo banhando as pálidas areias
Nas porções do riquíssimo tesouro
O vasto campo da ambição recreias.
Que de seus raios o Planeta louro,
Enriquecendo o influxo. em tuas veias,
Quanto em chamas fecunda, brota em ouro.
Não vês, Nise, este vento desabrido,
Que arranca os duros troncos? Não vês. esta,
Que vem cobrindo o Céu, sombra funesta,
Entre o horror de um relâmpago incendido?
Não vês a cada instante o ar partido
Dessas linhas de fogo? Tudo cresta,
Tudo consome, tudo arrasa e infesta
O raio a cada instante despedido.
Ah! não temas o estrago que ameaça
A tormenta fatal, que o Céu destina.
Vejas mais feia, mais cruel desgraça;
Rasga o meu peito, já que és tão ferina;
Verás a tempestade, que em mim passa;
Conhecerás, então, o que é ruína.
A cada instante, Amor, a cada instante
No duvidoso mar de meu cuidado
Sinto de novo um mal, e desmaiado
Entrego aos ventos a esperança errante.
Por entre a sombra fúnebre e distante,
Rompe o vulto do alívio mal formado;
Ora mais claramente debuxado,
Ora mais frágil, ora mais constante.
Corre o desejo ao vê-Ia descoberto;
Logo aos olhos mais longe se afigura,
O que se imaginava muito perto.
Faz-se parcial da dita a desventura
Porque nem permanece o dano certo,
Nem a glória tampouco está segura.
Destes penhascos fez a natureza
O berço, em que nasci; oh quem cuidara,
Que entre penhas tão duras se criara
Uma alma terna, um peito sem dureza!
Amor, que vence os Tigres, por empresa
Tomou logo render-me; ele declara
Contra o meu coração guerra, tão rara,
Que não me foi bastante a fortaleza.
Por mais que eu mesmo conhecesse o dano,
A que dava ocasião minha brandura,
Nunca pude fugir ao cego engano:
Vós, que ostentais a condição mais dura,
Temei, penhas, temei; que Amor tirano,
Onde há mais resistência, mais se apura.
Lise
Pescad ores da Mondego,
Que girais par essa praia,
Se vós enganais o peixe,
Também Lise vos engana.
Vós ambos sois pescadores;
Mas com diferença tanta,
Vos ao peixe armais com redes,
Ela cós olhos vos arma.
Vós rompeis o mar undoso,
Para assegurar a caça;
Ela aqui no porto espera,
Para lograr a filada.
Vós dissimulais o enredo,
Fingindo no anzol a traça;
Ela vos expõe patentes
As redes, com que vos mata.
Vós perdeis a noite e dia,
Em contínua vigilância;
Ela em um só breve instante
Consegue a presa mais alta.
Guardai-vos pois, Pescadores,
Dos olhos dessa tirana;
Que para troféus de Lise
Despojos de Alcemo. bastam.
Enquanto as ondas ligeiras
Desta corrente tão clara
Inundarem mansamente
Estes álamos que banham,
Eu espero que a memória
O conserve nestas águas,
Por padrão dos desenganos,
Por triunfo de uma ingrata.
E na frondosa ribeira
Deste rio, triste a alma
Girará sempre, avisando
Quem lhe soube ser tão falsa.
Nise
Não vejas, Nise amada,
A tua gentileza
No cristal dessa fonte. Ela te engana,
Pois retrata o suave,
E encobre o rigoroso. Os olhos belos
Volta, volta a meu peito:
Verás, tirana, em mil pedaços feito
Gemer um coração: verás uma alma
Ansiosa suspirar: verás um rosto
Cheio de penas, cheio de desgosto.
Observa bem, contempla
Toda a mísera estampa. Retratada
Em uma cópia viva
Verás distinta e pura,
Nise cruel, a tua formosura.
Não te engane, ó bela Nise,
O cristal da fonte amena;
Que essa fonte é mui serena,
E mui brando esse cristal.
Se assim como vês teu rosto,
Viras, Nise, os seus efeitos,
Pode ser que em nossos peitos
O tormento fosse igual.
Extraído de POESÍA BRASILEÑA COLONIAL. Traducción y prólogo de Ricardo Silva-Santisteban. Lima: Centro de Estudios Brasileños, 1985. 117 p. (Tierra Brasileña. Poesía 23)
TEXTOS EN ESPAÑOL
Traducción de Ricardo Silva-Santisteban
Lega a la posteridad, oh patrio Río,
en mis versos tu nombre celebrado,
porque veas un hora despertado
el sueño torpe del olvido frio:
no ves en tus riberas el umbrío
fresco asiento de un álamo acopado;
no ves Ninfa cantar, pastar ganado
en la diáfana tarde del estío.
Turbio bañando pálidas arenas,
en partes del riquísimo tesoro
la vastedad de la ambición estrenas.
Que de sus rayos el Planeta de oro,
el flujo enriqueciendo de tus venas,
cuanto en llamas fecunda, brota en oro.
¿No ves, Nise, este viento desabrido,
que arranca duros troncos? ¿No ves esta
sombra que cubre el Cielo tan funesta,
entre horror de un relámpago encendido?
¿No ves acaso el aire ya partido
de esos hilos de fuego? Todo resta,
consume todo, todo arrasa e infesta
el rayo a cada instante despedido.
No temas el estrago que amenaza
la tormenta fatal que el cielo atina,
más horrenda verás, más cruel la brasa;
rasga mi pecho, si eres tan ferina;
verás la tempestad que en mí se abrasa;
conocerás, entonces, lo que es ruina .
A cada instante, Amor, a cada instante
en el mar suspicaz de mi cuidado
siento de nuevo un mal, y desmayado
doy aIos vientos la esperanza errante.
Entre la sombra fúnebre y distante,
faz rompe del alivio mal formado;
ora más claramente dibujado,
ora más frágil, ora más constante.
Corre el anhelo al verlo descubierto;
luego a los ojos lejos configura,
lo que se imaginaba ya muy cierto.
Mancilla lo feliz la desventura
porque no permanece el daño cierto,
ni la gloria tampoco está segura.
Destos peñascos la naturaleza
cuna hizo en que nací; !oh, quién cuidara,
que entre peñas tan duras se criara
un alma tierna, un pecho sin dureza!
Amor que vence tigres, por empresa
tomó luego rendirme; él declara
contra mi corazón guerra tan rara,
que no me fue asaz la fortaleza.
Por más que yo mismo supiese el daño
al que daba ocasión con mi blandura,
nunca pude huir del ciego engano:
vos que ostentáis la condición más dura,
temed, peñas, temed; que Amor tirano,
donde hay más resistencia más se apura.
Lise
Pescadores del Mondego,
que vagáis por esa playa,
si engañáis vos a los peces,
Lise también os engaña.
Pues ambos sois pescadores;
mas con diferencia tanta,
si cazáis peces con redes,
con los ojos ella os caza.
Vos rompéis el mar undoso,
asegurando la caza;
ella os espera en el puerto,
para lograr la ganancia.
Disimulais el enredo,
fingiendo con la carnada;
los expone ella visibles
en las redes con que os mata.
Noche y día habéis perdido,
en continua vigilancia;
ella sólo en breve instante
pesca la presa más alta.
Guardaos, pues, pescadores,
del mirar de esa tirana;
que para botín de Lise
despojos de Alcemo bastan.
Mientras las ligeras ondas
desta corriente tan clara
inunden tan mansamente
estos álamos que bañan,
espero que la memoria
lo conserve en estas aguas,
por patrón de desengaños,
por el triunfo de una ingrata.
Y en la frondosa ribera deste rio,
triste el alma vagará siempre,
avisando quién le supo ser tan falsa.
Nise
No veas, Nise amada,
tu bella gentileza
del agua en el cristal. Ella te engana,
pues retrata lo suave,
y encubre lo glacial. Los bellos ojos
vuelve, vuelve a mi pecho:
verás, cruel, en mil pedazos hecho
gemir un corazón: verás un alma
ansiosa suspirar: verás un rostro
lleno de penas, lleno de disgusto.
Observa bien, contempla
toda la triste estampa. Retratada
en una copia viva
verás distinta y pura,
cruel Nise, tu hermosura.
No te engane, oh bella Nise,
el cristal de fuente amena;
que esa fuente es muy serena,
y muy blando ese cristal.
Si así como ves tu rostro,
vieras, Nise, sus efectos,
puede ser que en nuestros pechos
el tormento fuese igual.
Extraído de POESÍA BRASILEÑA COLONIAL. Traducción y prólogo de Ricardo Silva-Santisteban. Lima: Centro de Estudios Brasileños, 1985. 117 p. (Tierra Brasileña. Poesía 23)
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