BUENO DE RIVERA
(1911-1982)
Odorico Bueno de Rivera Filho, mais conhecido por Bueno de Rivera (3 de abril de 1911, Santo Antônio do Monte, Minas Gerais—25 de junho de 1982, Belo Horizonte) foi um radialista e poeta surrealista brasileiro.
Obras publicadas: Mundo Submerso (1944); Luz do Pântano (1948); Pasto de Pedra (1971)
“Em sua poesia, Rivera vasculha regiões submersas, indevassáveis, tais como poços, profundidades marítimas, com o intuito de descer às regiões de penumbra do inconsciente. Paralelamente a essa busca pelo subsolo do eu, o autor irá revelar sofrida consciência existencial, sempre desperta ante a realidade fatal da morte”. Alexandre B, em seu blog http://arquipelagodosilencio.blogspot.com
TEXTOS EM PORTUGUÊS / TEXTOS EN ESPAÑOL
OS DESTINOS URBANOS
O tráfego é previamente fixado
e todos os sensatos vivem o seu minuto.
Onde está o louco para um discurso
sobre os acontecimentos futuros?
Ah! se pudesses, dormirias
sob as árvores da praça, sem cuidados,
te banharias em público, comerias
o teu pão na calçada...
Vives no tempo dos relógios. Os teus passos
são contados, tuas horas são rações
minguadas na fome de ser livre.
E impaciente esperas numa esquina
um mágico que te indique
a porta, te mostre a claridade e ordene a fuga!
Onde estão os mágicos?
Dormem.
E o louco dos comícios?
Morto.
Morto o pássaro, o lírio extinto,
calado o mar,
o coração do homem pulsa
sob as pedras.
O POÇO
Amigos, silêncio.
Estou vendo o poço.
No fundo profundo eu me vejo
presente. Não é
cacimba de estrelas. Amigos, é o poço.
Apenas o poço. A vela na lama
como um dedo de fogo.
Ânsia de afogado,
suspiros em bolhas.
O susto no sono.
A sombra descendo sobre os aposentos,
o suor nos espelhos. A sombra
abafando a criança, a sombra fugindo.
A mão pesada sobre a boca torta,
o grito parado no rosto.
O copo d’água em goles trêmulos...
Amigos, silêncio.
Eu vejo o poço.
O vento da hora morta. Os avós sorrindo,
tão meigos sorrindo. E a morte tão viva!
(Minha mãe não esperou a guerra,
não sabe notícias do mundo, não responde).
A tosse acordando os irmãos,
e eu, pela madrugada, carregado nos ombros de meu pai.
ITINERÁRIO DE ÂNGELA
No mapa, meus olhos seguem os teus caminhos abstratos,
rosa dos hemisférios.
Nenhuma aurora anuncia a tua vinda
mas a tua presença é múltipla e real.
Florescem os teus pés em cada porto.
Andas e cresces, flor do enigma,
as pétalas no céu, o caule sobre o mar.
Nasce um lírio no Volga.
Uma criança chora, a estrela desce
meiga, pousa no berço, a criança sorri.
É a filha do rio heróico. Ó barqueiros, cantai!
A madrugada escolar em Káunas. Duas tranças
e a fita como um pássaro voando no retrato.
A neve nos telhados, um rosto na vidraça,
árvores de gelo na distância
e os teus brinquedos nevando na memória...
Cantam junto à lareira as quatro irmãs.
Embarcas na música, docemente viajas,
a face vogando no outro lado do mundo.
Um trem na fronteira.
O tio pálido, as primas chorando, o adeus.
Longe, Mariâmpolis dormindo
e os teus avós rezando na profunda Rússia.
E voas sobre o mar. És pomba, arco-íris,
sinal do céu, rosa boiando, lua
sobre as âncoras, os peixes e os corais.
Salve a imigrante! Ela caminha
pura e serena ao encontro do afogado.
CANTO DO AFOGADO
O que fui, as águas não devolvem.
No sumidouro me perdi.
Os amigos procuram um corpo entre as sarças.
Trazem roupas de banho, redes novas,
escafandros nos bolsos. Eles não sabem
que o afogado sonha entre as anêmonas.
O pássaro entende os caminhos do mar,
o galo da manhã conhece a estrela,
mas vós, amigos, ignorais a face
imóvel sob as águas.
Ó cordeiros da infância,
no olho do peixe está a origem.
Extraídos de: RIVERA, Bueno. Os melhores poemas de Bueno de Rivera. Seleção de Affonso de Romano Sant’Anna. São Paulo: Global: 2003.
TEXTOS EN ESPAÑOL
Traducción de JAIME TELLO
[CUATRO SIGLOS DE POESÍA BRASILEÑA. Centro Abreu e Lima de Estudios Brasileños. Instituto de Altos Estudios de América Latina. Universidad Simón Bolívar. Caracas, 1983]
ELSUEÑO
Inútil cerrar con violencia las puertas.
Vendrá el sueno.
La mano impasible cerrará los párpados,
te marchitarás entonces como un fruto inútil.
El abandono cruzará tus brazos en el pecho,
los dedos encenderán las velas.
Vendrá el gran sueño, soldará tus pies.
Cuando suene la campana del alba,
ya no existirás.
En la bruma se apagarán los teléfonos,
los recados angustiados, las horas marcadas,
los negocios.
El reloj del escritorio se diluirá
en el mundo remoto de los vivos.
El sueño se posará en tu frente
y encenderá un nuevo sueño
en tu profundo olvido.
(Mundo Submerso)
LAS PLAÑIDERAS
Las plañideras oficiales siguen
vuestro entierro imaginario,
depositan flores en el futuro mausoleo.
Están lívidas
y sus ojos de piedra lloran como fuentes.
Se inclinan sobre los lechos. En sus hombros
ruedan los cabellos mortuorios.
Ellas os ofrecen los salmos de la agonía,
escriben vuestros billetes suicidas,
os dan la cerveza fatal, muestran el revólver
en el espejo.
Están junto a vosotros como invitadas
al mismo almuerzo, beben en la misma copa,
confrontan vuestros cronómetros. Son lúcidas.
En el pozo del camino os esperan,
vestidas de crepúsculo.
(Luz do Pântano)
EL GINECÓLOGO
Una flor se extiende
en la toalla aséptica.
Los instrumentos claros
hierven las aguas vivas,
sádicas envolviendo
los rudos utensilios.
Doctor, sus guantes
profanarán la rosa.
Yo le entrego un cuerpo
más puro que la estrella,
un cuerpo que otros hombres
jamás alcanzaron,
ni dedos extraños
tocaron siquiera.
Póngase sus guantes,
que la flor lo espera.
El delantal se agita
como un pájaro extraño
sobre el cuerpo blanco
de la mujer que amo.
La mano impaciente
hiere el pétalo, invade
el ser que es mi ser...
Trémulo de angustia,
quiero salir, no puedo.
Acobardado, inmóvil,
asisto al sacrificio.
Miro en torno, busco
la resignación.
He aquí el fichero azul
repleto de minucias
de vientres violados.
Frascos en silencio,
lirios en un vaso,
una tijera impune.
El algodón volando,
ave del pavor
en el pantano de sangre.
He aqui que la cabeza
serena dei sábio
se posa sobre los senos.
Ausculta.—“¿ Qué dice
el corazón, doctor?"
El me sonríe, escéptico.
De nuevo sumerge
los guantes en lisol.
—“¿ Y el hijo.doctor?"
—“Tu hijo, quién sabe
si jamás vendrá".
Llora entre mis brazos
una rosa estéril.
(Luz do Pântano)
ELEGIA DE LOS MUERTOS DEL SIGLO
Piadosos muertos,
sacrificados para que viviésemos,
nosotros, los ahogados, os saludamos.
Algas y cabellos, espíritu y manos
aletean un adiós.
Muertos, і adiós!
i Cómo sangra en el corazón la palabra soldado!
No son más los cuarteles,
son los símbolos marchando,
la ciudad marchando entre el
crepúsculo y la aurora.
Muertos del crepúsculo, muertos del catorce,
inútilmente muertos.
Muertos del cuarenta, marchan vuestros hijos...
Muertos de la aurora, ¿qué será de nosotros?
(Luz do Pântano)
Página publicada em fevereiro de 2009
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