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AUGUSTO FREDERICO SCHMIDT
(1906-1965)
Nasceu e viveu grande parte de sua vida no Rio de Janeiro, tendo iniciado seus estudos na Suíça e vivido um período em São Paulo, no auge do Modernismo sem, no entanto, deixar-se entusiasmar muito pelos manifestos e vanguardismos. Foi, em certo sentido, um pragmático, um homem de negócios de grande sucesso e político de notoriedade. Um paradoxo, considerando seu espírito mais sentimental e religioso, seu sentimento lírico e misterioso, de excelência e profundidade. Obras: Canto do Brasileiro (1928), Cantos do Liberto A. F. S. (1929), Pássaro Cego (1930), Desaparição da Amada (1931), Mar Desconhecido (1942), Fonte Invisível (1949) e Caminho do Frio (1964), além de suas Poesias Completas de 1956.
(Página publicada com motivo do Centenário do nascimento do poeta.)
TEXTOS EM PORTUGUÊS / TEXTOS EN ESPAÑOL
TEXTS IN ENGLISH
De
AMOR, CANTO SEGUNDO.
Poemas de Augusto Frederico Schmidt, Cassiano Ricardo,
João Cabral de Melo Neto, Dante Milano, Jorge de Lima, Lêdo Ivo, Mário Quintana,
Murilo Mendes, Paulo Mendes Campos e Péricles Eugênio da Silva Ramos;
desenhos de Augusto Rodrigues.
Rio de Janeiro: Alumbramento, 1976.
18x26cm, caixa e capa solta contendo 7 cadernos; tipos de caixa Garamond;
impressão serigráfica da capa em papel Ingres Cover Fabriano
e texto e ilustrações em papel Ingres-Fabriano.
VEJO A AURORA SURGIR
Vejo a aurora surgir nesses teus olhos
Ainda há pouco tão tristes e sombrios.
Vejo as primeiras luzes matutinas
Nascendo, aos poucos, nos teus grandes olhos!
Vejo a deusa triunfal chegar serena,
Vejo o seu corpo nu, radioso e claro,
Vir crescendo em beleza e suavidade
Nas longínquas paragens dos teus olhos.
E estendo as minhas mãos tristes e pobres
Para tocar a imagem misteriosa
Desse dia que vem, em ti, raiando;
E sinto as minhas mãos, ó doce amada,
Molhadas pelo orvalho que roreja
Do teu olhar de estranhas claridades!
ESTRELA MORTA
Morta a Estrela que um dia, solitária,
Nasceu em céu sem termo.
Morta a Estrela que floriu nos meus olhos.
Morta a Estrela que olhei na noite erma.
Morta a Estrela que dançou diante dos nossos olhos,
A Estrela que descendo acendeu este amor
Morta a Estrela que foi para o meu coração,
Como a neve para os ninhos
Como o pecado para os santos
Como a ausência de Deus para os condenados.
(Canto da Noite, 1934)
POEMA (ERA UM GRANDE PÁSSARO…)
Era um grande pássaro. As asas estavam em cruz, abertas para os céus.
A morte, súbita, o teria precipitado nas areias molhadas.
Estaria de viagem, em demanda de outros céus mais frios!
Era um grande pássaro, que a morte asperamente dominara.
Era um grande e escuro pássaro, que o gelado e repentino vento sufocara.
Chovia na hora em que o contemplei.
Era alguma coisa de trágico,
Tão escuro, e tão misterioso, naquele ermo.
Era alguma coisa de trágico. As asas, que os azuis queimaram,
Pareciam uma cruz aberta no úmido areal.
O grande bico aberto guardava um grito perdido e terrível.
(Estrela Solitária, 1940)
A PARTIDA*
Quero morrer de noite —
As janelas abertas,
Os olhos a fitar a noite infinda.
Quero morrer de noite —
Irei me separando aos poucos,
Me desligando devagar.
A luz das velas moldará meu rosto lívido.
Quero morrer de noite —
As janelas abertas,
Tuas mãos chegarão água aos meus lábios
E meus olhos beberão a luz triste dos teus olhos,
Os que virão, os que ainda não conheço,
Estarão em silêncio,
Os olhos postos em mim.
Quero morrer de noite —
As janelas abertas,
Os olhos a fitar noite infinda.
Aos poucos me verei pequenino de novo, muito pequenino.
O berço se embalará na sombra de uma sala
E na noite, medrosa, uma velha coserá um enorme boneco.
Uma luz vermelha iluminará o dormitório
E passos ressoarão quebrando o silêncio.
Depois na tarde fria um chapéu rolará numa estrada...
Quero morrer esta noite —
As janelas abertas.
Minha alma sairá para longe de tudo, para bem longe de tudo.
E quando todos souberem que já não estou mais
E que nunca mais voltarei,
Haverá um segundo, nos que estão
E nos que virão, de compreensão absoluta.
(De Navio Perdido)
A AUSENTE*
Os que se vão, vão depressa,
Ontem, ainda, sorria na espreguiçadeira.
Ontem dizia adeus, ainda, da janela.
Ontem vestia, ainda, o vestido tão leve cor-de-rosa.
Os que se vão, vão depressa.
Seus olhos grandes e pretos há pouco brilhavam.
Sua voz doce e firme faz pouco ainda falava,
Suas mãos morenas tinham gestos de bênçãos.
No entanto hoje, na festa, ela não estava.
Nem um vestígio dela, sequer,
Decerto sua lembrança nem chegou, como os convidados —
Alguns, quase todos, indiferentes e desconhecidos.
Os que se vão, vão depressa.
Mais depressa que o s pássaros que passam no céu,
Mais depressa que o próprio tempo,
Mais depressa que a bondade dos homens,
Mais depressa que os trens correndo nas noites escuras,
Mais depressa que a estrela fugitiva
Que mal faz um traço no céu.
Os que se vão, vão depressa.
Só no coração do poeta, que é diferente dos outros corações,
Só no coração sempre ferido do poeta
É que não vão depressa os que se vão>
Ontem ainda sorria na espreguiçadeira,
E o seu coração era grande e infeliz.
Hoje, na festa ela não estava, nem a sua lembrança.
Vão depressa, tão depressa os que se vão...
(De Pássaro Cego)
LUCIANA*
As raparigas que dançavam,
Luciana, a pálida, todas
Como frutos apodrecerão
Porque só há um destino
Com muitos caminhos, embora.
Depois outras raparigas é que dançarão.
Luciana passará com o seu sorriso triste,
Suas mãos brancas repousarão —
Porque só há um destino
Com muitos caminhos, embora.
Cada um conhece o seu destino:
Luciana, a pálida, e as outras também,
Todas as raparigas que dançavam —
Cada um traz seu destino no rosto,
No rosto de Luciana e das outras também.
Em breve, todas as figuras mudarão:
Serão outras, tudo terá passado —
Os homens e as mulheres, o salão,
Os móveis — nem lembrança sequer restará.
Luciana terá desaparecido como a poeira da estrada>
Como a poeira, o tempo dispersará a fisionomia de Luciana:
E — atentai bem — Luciana não se repetirá.
Ninguém se repete no tempo. Cada um é diferente.
Cada um existe uma vez só e não é substituído.
Contemplai bem, pois, Luciana, que não se repete.
(De Pássaro Cego)
SONETO AO ADORMECIDO*
Como não te sorrir, ó adormecido,
E como não chorar sobre nós mesmos!
Como não se alegrar ao contemplar-te,
E não entristecer em nós pensando?
Como não perceber que a vida impura
Se conservou de ti distante e ausente
E em nós vingou seus ásperos desejos,
Seus caprichos terríveis e suas mágoas?
Como não te sorrir, morto e inocente
Cansado de brincar, se está liberto
Do destino de ter nosso destino?
Como não alegrar com a tua sorte,
Se nunca hás de chorar sobre ti mesmo,
Sobre a tua inocência e os teus brinquedos?
(De Mar Desconhecido)
*No julgamento de Magaly Trindade Gonçalves, Zélia Thomaz de Aquino e Zina Bellodi Silva, que organizaram a extraordinária “Antologia das antologias: 101 poetas brasileiros “revisitados”” Prefácio de Alfredo Bosi (São Paulo: Musa Editora, 1995. ISBN 85-85653-05-1, estes são os poemas do autor que mais foram incluídos em antologias anteriores, com o cuidado de cotejo dos textos para uma versão definitiva. Recomendamos a obra, hoje acessível em bibliotecas.
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De
Augusto Frederico Schmidt
BABILÔNIA
Rio de Janeiro: Livraria São José, 1959
104 p.
XXX
São enviadas do Mal que me perseguem
E me oferecem prendas e folguedos
Dançam comigo, levam-me sorrindo
Para os abismos louros e sedosos.
Essas mulheres que me telefonam,
Meu sono interrompendo em horas mortas,
E batem na calada à minha porta
Um abrigo em meu leito procurando;
Todo esse arfar de perfumados
Corpos vem da fonte do mal,
E tenta me envolver em sortilégio
Caio em pecado, mas a aurora nasce
E limpa de minha alma a escura mancha
De ter faltado a Deus, que a mim não falta.
LXIV
Saudades do passado já distante
O procuravam, vinham visitá-lo
Trazidas pelas águas da memória,
De sítios quietos do país natal.
Ouvia marulhar as ondas mansas,
E sentia o perfume das roseiras
E jasmineiros dos jardins destruídos
Da ilha em que vivera a juventude.
Sentia arfar de Simoneta o peito,
De volta dos passeios pelas praias,
De bicicleta. E o rosto ardente
E úmido do seu primeiro amor
Tentava tocar com as mãos e os lábios,
Mas sentia envolvê-lo poeira e cinza.
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Uma das mais belas homenagens da Poesia Brasileira prestadas ao poeta latino VIRGÍLIO, segundo Nogueira Moutinho:
SONETO A VIRGÍLIO
Nesta hora em que o mundo em desespero
Busca os fundos e ásperos abismos,
Como é suave consolo às almas tristes
Ouvir a tua voz humana e eterna!
Poeta de alma tão pura e olhar tão doce,
Cantor das almas simples e saudáveis,
Pai de Enéías, o herói piedoso e esquivo,
E dessa Dido, cujo drama ainda
Aos nossos corações tanto enternece.
Cristão antes de Cristo, a quem sentiste
Nas entranhas de um tempo inatingido.
Poeta e cantor da Paz, alma sensível,
Dá-nos do teu Amor as claras lágrimas
Para conforto de tão duras penas.
Extraído de: VIRGÍLIO. Bucólicas. Trad. de Péricles Eugênio da Silva Ramos. São Paulo: Melhoramentos; Brasília: Editora da UnB, 1982. 169 p. ilus.
De
SCHMIDT, Augusto Frederico.
Fonte invisível. Poesia.
Capa de Santa Rosa. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1949. 236 p.
SEBASTIÃO
O coração rolava sobe as lajes,.
A cabeça peluda morava na tarde,
Caía sobre a noite,
Brilhava com um soluço!
Quem falará do pássaro Sebastião
Sem estremecer?
Das suas mãos escuras,
Maceradas pelas tarefas anônimas
Do seu olhar gordo, úmido.
Quem falará do prisioneiro Sebastião,
Da sua fidelidade,
Dos seus soluços —
O ramo de flores humildes
Nas mãos anônimas,
Nas mãos maceradas pelos trabalhos,
Pelas humilhações
E pelas tristezas?
O LÍRIO
Meditavas na morte,
Ou descansavas,
Do mundo, de suas penas
E cuidados?
Eras um lírio,
Um lírio pleno,
Sobre os velhos túmulos.
Eras um lírio,
Esguio e puro.,
A descansar da vida
E seus enganos,
Eras um lírio
Debruçado sobre a escura morte.
TEXTOS EN ESPAÑOL
Traducciones de Anderson Braga Horta, Dámaso Alonso y Ángel Crespo.
ESTRELLA MUERTA
Trad. de Anderson Braga Horta
Muerta la Estrella que un día, solitaria,
Nació en el cielo sin término.
Muerta la Estrella que floreció en mis ojos.
Muerta la Estrella que miré en noche yerma.
Muerta la Estrella que danzó ante nuestros ojos,
La Estrella que bajando encendió este amor.
Muerta la Estrella que fue para mi corazón
Como la nieve para los nidos
Como el pecado para los santos
Como la ausencia de Dios para los condenados.
(Canto da Noite, 1934)
POEMA (ERA UN GRAN PÁJARO)
Trad. de Anderson Braga Horta
Era un gran pájaro. Sus alas estaban en cruz, abiertas hacia los cielos.
La muerte, súbita, lo habría precipitado a las arenas mojadas.
¡Estaba de viaje, procurando cielos más fríos!
Era un gran pájaro, que la muerte ásperamente había dominado.
Era un grande y oscuro pájaro, que el helado y repentino viento había sofocado.
Llovía cuando lo contemplé.
Era una cosa trágica,
Tan oscuro y tan misterioso, en aquel yermo.
Era una cosa trágica. Las alas, que los azules habían quemado,
Parecían una cruz abierta en el húmedo arenal.
Su gran pico abierto guardaba un grito perdido y terrible.
(Estrela Solitária, 1940)
EL ÁRBOL
Trad. de Dámaso Alonso y Ángel Crespo
El alba: en su seno,
Marchito, apagado,
no cantaban pájaros.
Sobre el cuerpo frío
Sí extendió la nieve
Sábana de muertos.
Los ruidos primeros,
Roncos, sofocados,
Quebrar no podían
El silencio enorme,
Que subía lento
De muerte presente,
De muerte palpable,
Como un fruto antiguo.
Y no era la tristeza,
Sino un pasmo inquieto
Que todo invadía.
No cantaban pájaros.
Mas, maduro, alegre,
Cubierto de flores,
Feliz al halago
De los libres vientos,
Solamente el árbol
No participaba
En la fúnebre hora,
Y brincaba loco
Desgreñado y bello,
De rocío húmedo,
Cubierto de flores.
LA TRISTEZA DE LA TARDE
Trad. de Dámaso Alonso y Ángel Crespo
La tristeza de la tarde es leve y alta.
Viene de la ciudad y sube al aire igual que una humareda.
La tristeza de la tarde envuelve los árboles delicados,
Envuelve jardines crepusculares.
La tristeza de la tarde viene de las agonías diarias,
De los niñitos enfermos, de los amantes infelices, de las lágrimas de los pobres.
La tristeza de la tarde viene de las grandes partidas,
De los sollozos de adiós, para los viajes y para las incomprensiones.
Miro la tristeza de la tarde caminar por el espacio.
Invadirá los cuartos de los que van a morir, se arrojará de bruces sobre las cunas,
E iluminará el alma de todos los poetas.
GÉNESIS
Trad. de Dámaso Alonso y Ángel Crespo
La oigo, ciega, avanzar por el mundo secreto
En que reina y domina sin clemencia.
La oigo mover, llegar, entre plantas y flores
Y fríos animales — formas raras.
Las voces que en las aguas se extendían,
Contenidas están y apagadas: silencio
Que la lámina fría de su cuerpo divide,
Verde, terrible, desolado, estéril.
El vacío mirar que devora el abismo
Distingue allá en la faz líquida de lo oscuro
La luz aun n engendrada todavía..
Ella es la esencia de la vida, la indiferente
De cuyo seno brotarán amargos frutos
Condenados al amor, al sueño y a la muerte.
RETRATO
Trad. de Dámaso Alonso y Ángel Crespo
Recordaba un pájaro del mar.
La mirada era aguda,
Un mirar lleno de misterio
De las oscuras distancias.
Un mirar frío y brumoso,
En el que posaba la poesía
De las regiones crueles.
Un mirar grave, serio, atento
A los violentos impulsos.
Recordaba un pájaro del mar.
Los cabellos olían a las flores,
Y plantas sumergidas.
Los cabellos desgreñados
Reflejaban el verde sombrío
De las líquidas planicies.
Recordaba un pájaro del mar.
Los labios cerrados
Eran túmulos en que dormían
Secretos que no se libertarían nunca.
La soledad había moldeado su rostro,
Un rostro en que la sonrisa
Estaba ausente o muerta.
Parecía hecha para durar tanto
Cuanto las aguas amargas
Nacidas para nunca marchitarse.
Parecía un pájaro del mar.
Se desprendía de su naturaleza
Una ardentía salvaje.
Nada pedía y no quería nada
Sino el silencio y la libertad.
MOMENTO
Trad. de Dámaso Alonso y Ángel Crespo
Deseo de no ser héroe ni poeta,
Deseo de no ser sino feliz y en calma.
Deseo de las voluptuosidades castas y sin sombra
De los fines de almuerzo en las casas burguesas.
Deseo manso de los cántaros de agua fresca,
De las flores eternas en los vasos verdes.
Deseo de los hijos que crecen vivos y sorprendentes,
Deseo de vestidos de lino azul de la esposa amada.
¡Oh! no las tentaculares embestidas hacia lo alto
y el tedio de las ciudades sacrificadas.
Deseo de integración en los cotidiano,
Deseo de pasar en silencio, sin brillo,
Y desaparecer en Dios — con poco sufrimiento
Y con la ternura de los que la vida no maltrató.
LA PARTIDA
Trad. de Dámaso Alonso y Ángel Crespo
Quiero morir de noche.
Las ventanas abiertas,
Los ojos contemplando la noche grande.
Quiero morir de noche.
Iré separándome poco a poco.
Desligándome muy despacio.
La luz de las velas moldeará mi rostro lívido.
Quiero morir de noche.
Las ventanas abiertas —
Tus manos pondrán agua en mis labios
Y mis ojos beberán la luz tristes de tus ojos.
Los que vendrán, los aún no conozco,
Estarán en silencio
Puestos en mi los ojos.
Quiero morir de noche.
Las ventanas abiertas —
Los ojos contemplando la noche enorme.
Poco a poco me veré pequeño de nuevo, muy pequeñito.
La cuna se mecerá en la sombra de una sala.
Y en la noche, medrosa, una vieja coserá un gran muñeco.
Una luz roja iluminará el dormitorio.
Y los pasos resonarán quebrando el silencio.
Después, en la tarde fría, un sombrero rodará por una calle.
Quiero morir de noche.
Las ventanas abiertas —
Mi alma saldrá para muy lejos, para muy lejos del todo.
Y cuando todos sepan que ya no estoy
Y que nunca más volveré,
Habrá un segundo, en los que están
Y en los que han de venir, de total comprensión.
Extraídos de la REVISTA DE CULTURA BRASILEÑA. Número 13, Tomo IV, Junio 1965. Editada por la Embajada de Brasil en Madrid, España. |