AMOR
Outr'ora eu te buscava na confiança
De achar em ti, Amor, o bem superno,
E o jovem coração, todo esperança,
Por que te cria um deus, julgou-te eterno.
Mas, de mudança andar para mudança,
De um inferno rolar para outro inferno,
Descrente acreditei que tudo alcança
Quem te pode evitar, veneno interno.
Hoje, que empós do Ideal, de tal maneira,
Que mais parece célere corrida,
Vou na insânia infeliz desta canseira,
Eu te olho e te abençôo agradecida,
Como a ilusão melhor, mais verdadeira,
Entre as fugazes ilusões da vida ...
PARÁFRASE DE UM PENSAMENTO DE TSÁO CHANG LIANG
Noite amena, aproxima-te quietinha,
Vem a meu quarto ouvir o meu pedido:
Estou triste, calada anda a voz minha,
Não há canto que agrade a meu ouvido.
Noite serena, outr'ora, alegre, eu vinha
Implorar-te que o ouro mais polido
Das estrelas que, em véus, teu seio aninha,
Jorrasses no meu verso comovido.
Hoje, noite querida, eu não te imploro
O sono de meus olhos, nem te exoro
Dar repouso sereno aos meus cansaços.
Peço-te apenas isso: O' noite! Escuta!
— Sossega o coração que sofre e luta
Adormece-o, cantando nos teus braços!
PANTEISMO
Vem abrir para o sol os teus olhos contentes
Diante da natureza e, em profano ritual,
Alma! às árvores conta a estranha ânsia que sentes
Em cada ondulação de cada vegetal!
Onde um rumor de vento entre as folhas pressentes,
Ouves um coração que te segreda e é tal
A alta repercussão dessas forças latentes,
Que vês na árvore um templo e na folha um missal.
Talvez, há muito tempo, em séculos distantes,
Por capricho de um deus foste árvore; de então
Guardaste a compreensão dos galhos soluçantes...
E de transmigração para transmigração,
No teu sangue ainda flui, em átomos errantes,
A angústia vegetal que há no teu coração ...
INTERROGAClÓN
No sé de onde me viene esa amargura
Que me subyuga, sorprende y me castiga,
Que ignoto lazo, al sufrimiento liga,
Mi alma pobre, que subir procura.
Sígueme paso a paso la senda dura,
La tristeza invernal, extraña y antigua
Que a su lado hiéreme, la desventura
Y me conforta también serena y amiga.
¿Por qué padezco, si no amo? Siento
Del dolor, el peso, que no hay quien venza,
Que trayendo el corazón exento.
Trazo mis ojos al infinito; los inmersos,
Ah! como duele el tedio, de quién piensa
Es el estraño sufrir de quién hace versos.