ALBERTO DA COSTA E SILVA
Nació en São Paulo em 1931. Es diplomático de carrera y, como tal, há desempenado diversos cargos em Lisboa, Caracas, Washington, Madrid, Lagos, República Popular de Benin, Portugal...
Pertenece a uma generación de amplio registro, la de 1950, en que figuran, entre otros, Mario Faustino, Ferreira Gullar, Walmir Ayala. Entre sus libros de poemas destacamos: O Parque (1953), O Tecelão (1962), Alberto da Costa e Silva carda, fia, dobra e tece (1962), Livro de Linhagem (1966), As linhas da Mãos (1979) e A Roupa no Estandal, o Muro, os Pombos (1981).
Membro da Academia Brasileira de Letras. Filho do grande poeta Da Costa e Silva.
Agradecimento: trabalhei no Consulado do Brasil em Caracas, no final da década de 70 do século passado, na biblioteca como bolsista, e o responsável pela nossa representação diplomática era justamente Alberto da Costa, figura humana extraordinária com que convivi e de quem aprendi muito. Graças a ele, rodei no mimeógrafo do consulado uma edição artesanal, com trabalhos de um artista plástico, alguns exemplares de meu poemário “Versos Itinerantes. Amazônia”, distribuídos entre amigos e enviados aos Centros de Estudos Brasileiros.
Antonio Miranda
TEXTOS EM PORTUGUÊS / TEXTOS EN ESPAÑOL
Traducciones de Carlos Germán Belli
Flumen, fluminis
Ouçamos o fluir deste curso de rio entre velhos muros imóveis de fadiga
não apenas meras lajes limitadas e cinzentas
mas pedras tristes e calmas
entre as quais escorre o límpido silêncio
da água que flui sobre a nudez
pura da morte
em nenhuma outra fonte, o cansaço
de ser manhã quando a noite se debruça
sobre nós, sofreremos
pois tão estranhos seremos ao murmúrio
de suas águas veladas
à música que nada anuncia a não ser primaveras
como agora, sôfregos, nos reclinamos
sobre o líquido móvel deste rio que leva
para o mar distante e irrevelado
estas formas maduras e tranqüilas
este sopro perfeito
daquilo que foi apenas o fugidio e precário pó.
A despedida da morte
Falo de mim porque bem sei que a vida
lava o meu rosto com o suor dos outros,
que também sou, pois sou tudo o que posto
ao meu redor se cala, e é pedra, ou, água,
cicia apenas —O teu tempo é a trava
que te impede de ter a calma clara
do chão de lajes que o sol recobre,
este esperar por tudo que não corre,
nem pára e nem se apressa, e é só estado,
e nem sequer murmura:—O que te trazem
é o riso e o lamento, o ser amado
e o roçar cada dia a tua morte,
que não repõe em ti o, sem passado,
ficar no teu escuro, pois herdaste
e legas um sussurro, um som de passos,
uma sombra, um olhar sobre a paisagem,
memória, cálcio, húmus, eis que o mundo
nada rejeita, sendo pobre e triste
no esplendor que nos dá. A madrugada.
Soneto
Uma ausência de mim por mim se afirma.
E, partindo de mim, na sombra sobre
chão que não foi meu, na relva simples
outro ser que sonhei se deita e cisma.
Sonhei-o ou me sonhei? Sonhou-me o outro
— e o mundo a circundar-me, o ar, as flores,
os bichos sob o sol, a chuva e tudo-
ou foi o sonho dos demais que sonho?
A epiderme da vida me vestiu,
ou breve imaginar de um ócio inútil
ergueu da sombra a minha carne, ou sou
um casulo de tempo, o centro e o sopro
da cisma do outro ser que de mim fala
e que, sonhando o mundo, em mim se acaba.
Imitação de Botticelli
Como a luz numa caixa de laranjas,
ou a chuva sobre a mesa de verduras no mercado,
desce a manhã neste jardim, descalça,
e as flores que traz, na involuntária beleza,
parecem, contra seu corpo de verão enfunado,
musgo, limo, ferrugem, as feridas que os pássaros
abrem na casca lisa e perfeita de um fruto.
Soneto a Vermeer
De luto, a minha avó costura à máquina,
e gira um cata-vento em plena sala.
Vejo seu rosto, sombra que a janela
corrompe contra um pátio amarelado
de sol e de mosaicos. Sobre a mesa,
a tesoura, um esquadro, alguns retalhos
e a imóvel solidão. A minha avó,
com os seus olhos azuis, o tempo acalma.
A minha avó é jovem, mansa e apenas
a limpidez de tudo. Sonho vê-la
no seu vestido negro, a gola branca
contra o corpo de cão, negro, da máquina:
a roda, de perfil, parece imóvel
e a vida não se exila na beleza.
TEXTOS EN ESPAÑOL
Traducciones de Carlos Germán Belli
FIumen, fluminis
Escuchemos el fluir de este curso de río
entre viejos muros inmóviles de fatiga
ni siquiera meras lajas limitadas y cenicientas
sino piedras tristes y tranquilas
entre las que se escurre el límpido silencio
del agua que fluye sobre la desnudez
pura de la muerte
en njnguna otra fuente, el cansancio
de ser mañana cuando la noche se inclina
sobre nosotros, sufriremos
pues tan extravíos seremos el murmurio
de sus aguas veladas
a la música que nada anuncia que no sean primaveras
como ahora, anhelantes, nos reclinamos
sobre el líquido móvil de este río que lleva
hacia el mar distante e ignorado
estas formas maduras y tranquilas
este soplo perfecto
de eso que fue apenas el huidizo y precario polvo
La despedida de la muerte
Hablo de mí porque sé que la vida
lava mi faz con sudor de los otros,
que también soy, pues todo aquello soy
que alrededor se calla, y piedra o agua
murmura apenas: —Tu tiempo es la traba
que te impide tener la calma clara
del suelo de lajas que el sol recubre,
este esperar por todo lo que no corre,
ni para ni apura, y sólo es estado,
y ni aún murmura: —Lo que te traen
es la risa y el lamento, el ser amado
y el rozar cada día tu morir,
que no repone en ti el, sin pasado,
yacer en tu oscuro, pues heredaste
y legas susurro, ruido de pasos,
una sombra, un contemplar el paisaje,
memoria, caldo, humus, y he aquí que el mundo
nada rechaza, siendo pobre y triste
en el lustre que nos da. La madrugada.
Soneto
Una ausencia de mí por mí se afirma.
Y, partiendo de mí, en la sombra sobre
el suelo no mío, en el césped simple
el otro ser que soné se echa y sueña.
¿Lo soñé o me soñé? Me soñó el otro
—y el mundo que me circunda, aire, flores,
las bichos bajo el sol, la lluvia y todo-
o fue el sueno de los demás que sueño?
Me vistió la epidermis de la vida,
o breve imaginar de un ocio inútil
se irguió de la sombra a mi carne, o soy
un capullo de tiempo, centro y soplo
del otro ser absorto que de mí habla
y que, sanando el mundo, en mí se acaba.
Imitación de Botticelli
Como la luz en una caja de naranjas,
- la lluvia sobre la mesa de verduras en el mercado,
desciende la mañana en este jardín, descalza,
y las flores que, trae, en la involuntaria belleza,
parecen, contra su cuerpo de verano hinchado,
musgo, limo, herrumbre, las heridas que los pájaros
abren en la corteza lisa y perfecta de un fruto.
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