KORI BOLIVIA
(KORI YAANE BOLIVIA CARRASCO DORADO)
Filha do pintor boliviano Jorge Carrasco Núñez del Prado e da psicopedagoga Julia Dorado Llosa, nasceu em La Paz (Bolívia) em 22 de agosto de 1949. Chegou a Brasília em 1976 tornando-se também brasileira.
É licenciada em Letras, possui pós-graduações em Língua e Literatura espanholas, Tradução português-espanhol e espanhol-português. Tem Mestrado em Literatura Brasileira e em língua e Cultura Espanholas, tendo estudado na Bolívia, no Brasil e na Espanha. Trabalhou como professora de português e de espanhol na Universidade de Brasília, lecionou espanhol no Instituto Rio Branco (Academia Diplomática do Brasil - MRE) e em outras instituições brasileiras.
Sempre inquieta, aos três anos de idade foi premiada pela Prefeitura de La Paz por seu quadro “Mi papá y yo” no Concurso de pintura infantil, foi aluna do Conservatório de Música, foi membro do Teatro Experimental Universitário (TEU-UMSA) e do Teatro da Aliança Francesa na mesma cidade. É membro fundador da União Boliviana de Escritores onde foi secretária de Promoção e Difusão da Nova Literatura (1975) e é membro da Sociedad Boliviana de Escritores. É membro da União Brasileira de Escritores, da Associação Nacional de Escritores e do Sindicato de Escritores do Distrito Federal. Foi Presidente da Associação de Professores de Espanhol do Distrito Federal (1993-1996 e 2006-2008) e ocupa a cadeira XXXVII da Academia de Letras do Brasil.
Livros: Um grito Callado. La Paz-Bolivia, Editorial del Estado 1981; Espuma de los días La Paz – Bolivia, Editorial del Estado 1982; Poemas en cuatro tiempos Brasília-DF, Editora Thesaurus, 1994 e Despeinando sueños Brasília-DF, Editora Thesaurus, 1997; La Rosa dormida (livro inédito); O orvalho de tua voz (livro inédito, próxima publicação) – O indianismo na poesia de Jesus Lara e de Raul Bopp (ensaio-inédito); El texto literário (más que todo poético) em la clase de ElE (inédito); Tradução literária: trabalho difícil, porém gratificante (inédito).
Está presente em várias antologias de poesia e de crônicas de Brasília e da Índia, como também no Dicionário de Escritores de Brasília e na História da Literatura Brasiliense. Traduziu poemas do espanhol para o português e vice-versa de maneira individual e coletiva com outros poetas brasilienses, e realizou várias conferências sobre literatura, tradução e língua espanhola. Escreve tanto em espanhol como em português.
“Os invito a entrar en el mundo secreto de Kori Bolivia, una poeta casi mística en un mundo deshumanizado” (Pedro Shimose - Madrid, 2006)
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KORI BOLIVIA cumpre sua trajetória de poeta com um lirismo que é mais nosso do que dela. Ela encarna uma condição humana que é vertida na linguagem da contensão mas sem limites, ou seja, sua capacidade de ser uma e múltipla, de expressar brechtianamente pelo outro que, no entender de Mário de Andrade (“sou trezentos”) está em nós. Explicando melhor: é contida, sem excessos verbais, mas sua voz ecoa além da linearidade do texto, por alcançar-nos no que temos de comum e universal.
Acompanho a caminhada dela entre nós. Veio da Bolívia, vive conosco em Brasília e conseguiu falar a nossa língua melhor do que nós, sem sotaque, cristalina como a voz que soa nos Andes na cimeira do mundo. E sua poesia verte nas línguas que domina, pois a língua é a forma de nossa expressão e a poesia é a fôrma em que ela consegue representar-nos, enquanto expressa os próprios sentimentos e visões do mundo. Mundo mundo vasto mundo... já dizia Drummond de Andrade. Mas cabe reconhecer uma certa estranheza dela, alguma nostalgia, um certo sentimento contido. “Um labirinto de sonhos despertos”, “solidão irredutível”, “em íntimo sofrimento”. “Infinita voz, infinita”. Vê-la sempre sorrindo, com uma delicadeza “exquisita” no sentido de cordial, no original castelhano, não configura sua angústia existencial, que é também nossa. Como são nossos, agora, os versos de “O orvalho de tua voz”, referindo a nós.
Antonio Miranda
POEMAS EM PORTUGUÊS - EN ESPAÑOL
Quisiera
Quisiera desatar la noche de tus cabellos,
contemplar en tu mirada
la estrella de la vida.
Reposar en tus manos
mi fatigada sombra.
Quisiera sentir el galopar de la aurora
escuchando el sollozo de campanas desconocidas.
Presenciar, el último suspiro de una rosa roja.
(La Paz, 19-06-71, do livro Un grito callado)
¡ Duele!
Duele mi pueblo hambriento,
el niño con su faz descolorida.
Duele escuchar el viento
solitario de la patria empobrecida.
Esa carcajada misteriosa
hija de la muerte.
(La Paz, 24-10-74, do livro Espuma de los días)
Dói
Dói meu povo faminto,
a criança de rosto descolorido.
Dói escutar o vento
solitário da pátria empobrecida.
Essa gargalhada misteriosa
filha da morte.
(Tradução de Anderson Braga Horta)
Pescador de sueños
Oh, pescador,
descuelga tus redes,
deja que los sueños sigan
navegando;
que naveguen
por la tarde y la noche,
por el día frío,
por la vida y el cuchillo.
Deja a la soledad
salpicando su vestido
entre hombres
y nombres
humedecidos de rocío.
Pescador de sueños,
escucha el mensaje de la altura,
prepara tu lágrima
y guisa el amor
mezclado con espuma.
-Sólo una entraña de plata
sentirá el olor del martirio-
(Brasilia, 1977 – Poemas en cuatro tiempos)
Duele el mundo
Bolivia me duele en la garganta
como me duele el mundo
en esta hora ingrata.
Son voces estridentes,
son fuegos que retumban,
son llantos de madres e hijos,
son ríos rojos de fantasmas.
Y me duele Bolivia en los ojos
como duele el mundo
cautivo de espanto…
(Do livro Despeinando sueños)
Libertad
La libertad es viento
que sopla sin rumbo
jugueteando con hojas
verdes y amarillas,
meciendo lilas,
despeinando sueños,
desatando piedras.
Libertad es el bostezo
sinvergüenza de un niño
en el colegio
frente a un libro abierto.
Libertad
son alas que van y vienen,
son pétalos que se abren,
son piececitos que corren
como el río sin parar
para pensar de dónde
vino el polvo
de los muebles viejos.
Libertad es una puerta
y la luz que por ella se filtra
como el gorjeo del día.
Libertad es todo
lo que eres, lo que soy,
…Libertad es vida…
(1990, do livro Despeinando sueños)
O orvalho de tua voz
Se for noite
e os ventos calados
permanecerem à borda do mundo,
tecerei castelos de sonhos
no pêndulo do tempo.
Se for noite
e as mãos na pálpebra fechada
buscarem castelos e rodopios de sol,
colherei a madrugada
bebendo o orvalho de tua voz.
(Do livro inédito O orvalho de tua voz)
Página publicada em agosto de 2010
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