Home
Sobre Antonio Miranda
Currículo Lattes
Grupo Renovación
Cuatro Tablas
Terra Brasilis
Em Destaque
Textos en Español
Xulio Formoso
Livro de Visitas
Colaboradores
Links Temáticos
Indique esta página
Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



ZILA MAMEDE
(1928-1985) 

 

Nasceu na Paraíba mas está mais ligada às letras e à cultura do Rio Grande do Norte, onde viveu a maior parte de sua vida e onde o mar a levou para sempre. O poema Elegia, incluído na presente seleção, é como um prenúncio de seu destino.  Formada em biblioteconomia, tendo exercido cargos de importância no Instituto Nacional do Livro (em Brasília) e como diretora da Biblioteca Central da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Seus principais livros: Rosa de Pedra (1953), Salinas (1958), O Arado (1959), Exercício da Palavra (1975), A Herança (1984) e Navegos (Poesia reunida 1953-1978).  Poeta sutil, elegante, de um lirismo contido e introvertido, de solidão e paixão mas também, não raras vezes, com um fundo social relativo às temáticas do sertão nordestino. Drummond tinha-a entre suas predileções.

 

BILHAR

       a Ludi e Oswaldo Lamartine

 

Na medida exata

em que a noite corre

não fico: me ausento

como quem morre

 

Entre lousa e livro

- único disfarce

que concedo ao tempo =

mudo-me a face

 

que, no entanto, vária,

inábil, reprimida,

perde-se no encontro

tátil da vida

 

Bola sete em rude

pano de bilhar

marco meu sem rumo

jogo-de-amar.

 

 

PROCISSÃO  


Quando vem a procissão

no seu passo de perdão,

 

Alcaide, comendador

dominam povo e andor

 

Cada grupo de irmandade

empunhando uma verdade:

 

A das Filhas-de-Maria

virgindade em romaria

 

Do SSmo Sacramento

vermelha de emproamento

 

Do Senhor Jesus dos Passos

roxo em santos e devassos

 

Irmãs da Ordem Terceira

terço em mãos de camareiras

 

Os meninos da Cruzada

fome na barriga inchada

 

A Banda da Prefeitura

solo e soldo de amargura

 

Estandartes, confrarias

escondem velhacarias

 

O Santo vai carregado

pelos donos do mercado

 

E o povo segue inocente

descalço, nu, paciente:

 

- A compacta multidão

carente de Deus e pão.

 
 

A PONTE

 

Salto esculpido

sobre o vão

do espaço

em chão

de pedra e de aço

onde não

permaneço

                   - passo.

 

 

ARADO


Arado cultivadeira

rompe veios, morde chão

Ai uns olhos afiados

rasgando meu coração.

 

Arado dentes enxadas

Lavancando capoeiras

Mil prometimentos, juras

Faladas, reverdadeiras?

 

Arado ara picoteira

sega relha amanhamento,

me desata desse amor

ternura torturamento.

 

 

ELEGIA

 

Não retornei aos caminhos

que me trouxeram do mar.

Sinto-me brancos desertos

onde as dunas me abrasando

tarjam meus olhos de sal

dum pranto nunca chorado,

dum terror que nunca vi.

 

Vivo hoje areias ardentes

sonhando praias perdidas

com levianos marujos

brincando de se afogar,

com rochedos e enseadas

sentindo afagos do mar.

 

Tudo perdi no retorno,

tudo ficou lá no mar:

arrancaram-me das ondas

onde nasci a vagar,

desmancharam meus caminhos

- os inventados no mar:

depois, secaram meus braços

para eu não mais velejar.

 

Meus pensamentos de espumas,

meus peixes e meu luar,

de tudo fui despojada

(até das fúrias do mar)

porque já não sou areias,

areias soltas de mar.

Transformaram-me em desertos,

ouço meus dedos gritando

vejo-me rouca de sede

das leves águas do mar.

 

Nem descubro mais caminhos,

já nem sei também remar:

morreram meus marinheiros,

minha alma, deixei no mar.

 

Pudessem meus olhos vagos

ser ostras, rochas, luar,

ficariam como as algas

morando sempre no mar.

 

Que amargura em ser desertos!

Meu rosto a queimar, queimar,

Meus olhos se desmanchando

- roubados foram do mar.

No infinito me consumo:

acaba-se o pensamento.

No navegante que fui

sinto a vida se calar.

 

Meus antigos horizontes,

navios meus destroçados,

meus mares de navegar,

levai-me desses desertos,

deitai-me nas ondas mansas,

plantai meu corpo no mar.

Lá, viverei como as brisas.

Lá, serei pura como o ar.

Nunca serei nessas terras,

Que só existo no mar.

 

 

 

VOLTAR À PÁGINA BRASIL SEMPRE Topo da Página

 

 

 
 
 
Home Poetas de A a Z Indique este site Sobre A. Miranda Contato
counter create hit
Envie mensagem a webmaster@antoniomiranda.com.br sobre este site da Web.
Copyright © 2004 Antonio Miranda
 
Click aqui Click aqui Click aqui Click aqui Click aqui Click aqui Click aqui Click aqui Click aqui Click aqui Home Contato Página de música