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ZILA MAMEDE
Nasceu na Paraíba mas está mais ligada às letras e à cultura do Rio Grande do Norte, onde viveu a maior parte de sua vida e onde o mar a levou para sempre. O poema Elegia, incluído na presente seleção, é como um prenúncio de seu destino. Formada em biblioteconomia, tendo exercido cargos de importância no Instituto Nacional do Livro (em Brasília) e como diretora da Biblioteca Central da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Seus principais livros: Rosa de Pedra (1953), Salinas (1958), O Arado (1959), Exercício da Palavra (1975), A Herança (1984) e Navegos (Poesia reunida 1953-1978). Poeta sutil, elegante, de um lirismo contido e introvertido, de solidão e paixão mas também, não raras vezes, com um fundo social relativo às temáticas do sertão nordestino. Drummond tinha-a entre suas predileções.
BILHAR a Ludi e Oswaldo Lamartine
Na medida exata em que a noite corre não fico: me ausento como quem morre
Entre lousa e livro - único disfarce que concedo ao tempo = mudo-me a face
que, no entanto, vária, inábil, reprimida, perde-se no encontro tátil da vida
Bola sete em rude pano de bilhar marco meu sem rumo jogo-de-amar.
PROCISSÃO
no seu passo de perdão,
Alcaide, comendador dominam povo e andor
Cada grupo de irmandade empunhando uma verdade:
A das Filhas-de-Maria virgindade em romaria
Do SSmo Sacramento vermelha de emproamento
Do Senhor Jesus dos Passos roxo em santos e devassos
Irmãs da Ordem Terceira terço em mãos de camareiras
Os meninos da Cruzada fome na barriga inchada
A Banda da Prefeitura solo e soldo de amargura
Estandartes, confrarias escondem velhacarias
O Santo vai carregado pelos donos do mercado
E o povo segue inocente descalço, nu, paciente:
- A compacta multidão carente de Deus e pão. A PONTE
Salto esculpido sobre o vão do espaço em chão de pedra e de aço onde não permaneço - passo.
ARADO
rompe veios, morde chão Ai uns olhos afiados rasgando meu coração.
Arado dentes enxadas Lavancando capoeiras Mil prometimentos, juras Faladas, reverdadeiras?
Arado ara picoteira sega relha amanhamento, me desata desse amor ternura torturamento.
ELEGIA
Não retornei aos caminhos que me trouxeram do mar. Sinto-me brancos desertos onde as dunas me abrasando tarjam meus olhos de sal dum pranto nunca chorado, dum terror que nunca vi.
Vivo hoje areias ardentes sonhando praias perdidas com levianos marujos brincando de se afogar, com rochedos e enseadas sentindo afagos do mar.
Tudo perdi no retorno, tudo ficou lá no mar: arrancaram-me das ondas onde nasci a vagar, desmancharam meus caminhos - os inventados no mar: depois, secaram meus braços para eu não mais velejar.
Meus pensamentos de espumas, meus peixes e meu luar, de tudo fui despojada (até das fúrias do mar) porque já não sou areias, areias soltas de mar. Transformaram-me em desertos, ouço meus dedos gritando vejo-me rouca de sede das leves águas do mar.
Nem descubro mais caminhos, já nem sei também remar: morreram meus marinheiros, minha alma, deixei no mar.
Pudessem meus olhos vagos ser ostras, rochas, luar, ficariam como as algas morando sempre no mar.
Que amargura em ser desertos! Meu rosto a queimar, queimar, Meus olhos se desmanchando - roubados foram do mar. No infinito me consumo: acaba-se o pensamento. No navegante que fui sinto a vida se calar.
Meus antigos horizontes, navios meus destroçados, meus mares de navegar, levai-me desses desertos, deitai-me nas ondas mansas, plantai meu corpo no mar. Lá, viverei como as brisas. Lá, serei pura como o ar. Nunca serei nessas terras, Que só existo no mar.
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