a Ludi e Oswaldo Lamartine
Na medida exata
em que a noite corre
não fico: me ausento
como quem morre
Entre lousa e livro
- único disfarce
que concedo ao tempo =
mudo-me a face
que, no entanto, vária,
inábil, reprimida,
perde-se no encontro
tátil da vida
Bola sete em rude
pano de bilhar
marco meu sem rumo
jogo-de-amar.
Quando vem a procissão
no seu passo de perdão,
Alcaide, comendador
dominam povo e andor
Cada grupo de irmandade
empunhando uma verdade:
A das Filhas-de-Maria
virgindade em romaria
Do SSmo Sacramento
vermelha de emproamento
Do Senhor Jesus dos Passos
roxo em santos e devassos
Irmãs da Ordem Terceira
terço em mãos de camareiras
Os meninos da Cruzada
fome na barriga inchada
A Banda da Prefeitura
solo e soldo de amargura
Estandartes, confrarias
escondem velhacarias
O Santo vai carregado
pelos donos do mercado
E o povo segue inocente
descalço, nu, paciente:
- A compacta multidão
carente de Deus e pão.
Salto esculpido
sobre o vão
do espaço
em chão
de pedra e de aço
onde não
permaneço
- passo.
Arado cultivadeira
rompe veios, morde chão
Ai uns olhos afiados
rasgando meu coração.
Arado dentes enxadas
Lavancando capoeiras
Mil prometimentos, juras
Faladas, reverdadeiras?
Arado ara picoteira
sega relha amanhamento,
me desata desse amor
ternura torturamento.
Não retornei aos caminhos
que me trouxeram do mar.
Sinto-me brancos desertos
onde as dunas me abrasando
tarjam meus olhos de sal
dum pranto nunca chorado,
dum terror que nunca vi.
Vivo hoje areias ardentes
sonhando praias perdidas
com levianos marujos
brincando de se afogar,
com rochedos e enseadas
sentindo afagos do mar.
Tudo perdi no retorno,
tudo ficou lá no mar:
arrancaram-me das ondas
onde nasci a vagar,
desmancharam meus caminhos
- os inventados no mar:
depois, secaram meus braços
para eu não mais velejar.
Meus pensamentos de espumas,
meus peixes e meu luar,
de tudo fui despojada
(até das fúrias do mar)
porque já não sou areias,
areias soltas de mar.
Transformaram-me em desertos,
ouço meus dedos gritando
vejo-me rouca de sede
das leves águas do mar.
Nem descubro mais caminhos,
já nem sei também remar:
morreram meus marinheiros,
minha alma, deixei no mar.
Pudessem meus olhos vagos
ser ostras, rochas, luar,
ficariam como as algas
morando sempre no mar.
Que amargura em ser desertos!
Meu rosto a queimar, queimar,
Meus olhos se desmanchando
- roubados foram do mar.
No infinito me consumo:
acaba-se o pensamento.
No navegante que fui
sinto a vida se calar.
Meus antigos horizontes,
navios meus destroçados,
meus mares de navegar,
levai-me desses desertos,
deitai-me nas ondas mansas,
plantai meu corpo no mar.
Lá, viverei como as brisas.
Lá, serei pura como o ar.
Nunca serei nessas terras,
Que só existo no mar.
MARCHA PARA O JUMENTO PASSARINHO
Passarinheiro
que invoou
Passaligeiro
que não bicou
Você apenas
tão jumentinho
milpradiou
a Pedradágua
lajeslisando
da Corujinha
pró Corredor.
Passacaminho
de caçuás
com resedás
se engravidou.
Passariinho
que não tem ninho
despassará?
Passadotempo
aguassecou
E passarinho
desruminando
não mais lajeiro
passarinhou.
(O Arado)
Rua (TRAIRI)
Nos cubos desse sal que me encarcera
(Pedras, silêncios, picaretas, luas,
anoitecidos braços na paisagem)
a duna antiga faz-se pavimento.
Meu chão se muda em novos alicerces,
sob as pedreiras rasgam-se meus passos;
e a velha grama (pasto de lirismos)
afoga-se nos sulcos das enxadas,
nas ânsias do caminho vertical.
Ao sono das areias abandonam-
se nesta rua vívidos fantasmas
De seus rios meninos que descalços
apascentavam lamas e enxurradas.
Meu chão de agora: a rua está calçada.
(O Arado)