|
WALY SALOMÃO Baiano de Jequié, Wally esteve ligado aos Tropicalistas Caetano Velloso, Torquato Neto, Gilberto Gil, Gal Costa mas não se considerava do grupo.
O primeiro livro de poemas, Me segura que eu vou dar um troço, foi lançado em 1971. Os poemas presentes no livro de estréia foram escritos durante a temporada na prisão. Outros livros do autor: Gigolô de Bibelôs, Surrupiador de Souvenirs, Algaravias, Lábia e Tarifa de Embarque, e a coletânea O Mel do Melhor.
Além de poeta, Waly Salomão também era letrista e produtor cultural. Muito irreverente, declamava poemas em programa da TVE e participava de filmes. Como letrista, colaborou com muitos artistas, como Caetano Veloso (Talismã), Lulu Santos (Assaltaram a Gramática, sucesso com os Paralamas do Sucesso), Adriana Calcanhotto (Pista de Dança), entre outros.
Era muito divertido e sagaz. Estive com ele pouco antes de sua morte, quando ocupava um cargo de direção no Ministério da Cultura do Ministro Gilberto Gil e discutíamos projetos de divulgação do livro e da leitura. Na oportunidade escreveu uma dedicatória num de seus livros em que me chamava de “caótico neoconcreto”... A partir daí assumi a minha oximoridade... Antonio Miranda
NOSSO AMOR RIDÍCULO SE ENQUADRA NA MOLDURA DOS SÉCULOS SUGO ESPIRAIS DAS NUVENS DE CIGARRO QUE FUMO SOFRO BAFORADAS-CARAMUJO POR ENTRE VOLUTAS DO UNIVERSO EU, PEQUENINO GRÃO DE AREIA-POETA, PLASMO RIMA ALITERAÇÃO METÁFORA OXIMORO VERSO PASTO PALAVRA: QUINQUILHARIA NINHARIA PALÁCIO DO NENHURES Ó CASTELO DE VENTO PASTEL DE BRISA MONTE DE GANGA BRUTA ESTUÁRIO DE BUGINGANGA NONADA EM CONFRONTO COM MANADAS MIRÍADES D´ESTRELAS ESPOUCADAS SOBRE OS SETE DIFERENTES MARES QUE SETE ESPELHOS SÃO PARA ALGUM MAR ABSOLUTO (ROMA E BAALBECK E BAGDAD E BABILÔNIA E BABEL SIDERAL) E É NOSSO AMOR TÃO DIMINUTO LAMPEJO DE SEGUNDO RELÂMPAGO DISSOLUTO FILETE DUM RIO MINÚSCULO MICROSCÓPIO LEITO AMOR .....................................................NOSSO SÉCULO: BURACO NEGRO SORVEDOURO DE VULTO AROMA LUZ BAGAÇOS DE ROLHA BOLHA BORRA PORRA PÓ BEBO VINHO PRECIOSO COM MOSQUITOS DENTRO MURIÇOCA MARUIM POTÓ
(de Gigolô de bibelôs) ARS POÉTICA /OPERAÇÃO LIMPEZA
Assi me tem repartido extremos, que não entendo... (Sá de Miranda)
I- SAUDADE é uma palavra Da língua portuguesa A cujo enxurro Sou sempre avesso SAUDADE é uma palavra A ser banida Do uso corrente Da expressão coloquial Da assembléia constituinte Do dicionário Da onomástica Do epistolário Da inscrição tumular Da carta geográfica Da canção popular Da fantasmática do corpo Do mapa da afeição Da praia do poema Pra não depositar Aluvião Aqui nesta ribeira.
II- Súbito Sub-reptícia sucurijuba A reprimida resplandece Se meta-formoseia Se mata O q parecia pau de braúna Quiçá pedra de breu Quiçá pedra de breu CINTILA Re-nova cobra rompe o ovo Da casca velha SIBILA
III- SAUDADE é uma palavra O sol da idade e o sal das lágrima
(da Revista Imã)
UM BODE IMUNDO IRROMPE (ÍGNEA FLECHA? DARDO EM FOGO? BÓLIDE NO LUSCO-FUSCO?) EM MÓRBIDA TROPELIA EM DESABRIDA CORRERIA E PERANTE MINHA PESSOA A FERA ESTACA JÁ DENTRO DE MIM SE ESMERA NUM ENRODILHADO TORCIDO E IGNOTO JOGO MALABAR. PRAIA FÉERIE COOPER JOGGING CORPO AO SOL TORSO AO MAR; MINHA PORÇÃO NA PARTILHA: LYCOPODIUM TÉDIO PORRE TOSSE TORPOR HOMEOPÁTICO E PLUVIOSO HORROR.
Nas nossas ruas, ao anoitecer.
(De Armarinho de miudezas)
Por que a poesia tem que se confinar às paredes de dentro da vulva do poema? Por que proibir à poesia estourar os limites do grelo da greta da gruta e se espraiar em pleno grude além da grade do sol nascido quadrado?
Por que a poesia tem que se sustentar de pé, cartesiana milícia enfileirada, obediente filha da pauta?
Por que a poesia não pode ficar de quatro e se agachar e se esgueirar para gozar -CARPE DIEM!- fora da zona da página?
Por que a poesia de rabo preso sem poder se operar e, operada, polimórfica e perversa, não poder travestir-se com os clitóris e os balangandãs da lira?
(Líbia) AMANTE DA ALGAZARRA
Não sou eu quem dá coices ferradurados no ar. É esta estranha criatura que fez de mim seu encosto. É ela!! Todo mundo sabe, sou um lisa flor de pessoa, Sem espinho de roseira nem áspera lixa de folha de figueira.
Esta amante da balbúrdia cavalga encostada ao meu sóbrio ombro. Vixe!! Enquanto caminha a pé, pedestre – peregrino atônito até a morte. Sem motivo nenhum de pranto ou angústia rouca ou desalento: Não sou eu quem dá coices ferradurados no ar. É esta estranha criatura que fez de mim seu encosto E se apossou do estojo de minha figura e dela expeliu o estofo.
Quem corre desabrida Sem ceder a concha do ouvido A ninguém que dela discorde É esta Selvagem sombra acavalada que faz versos como quem morde.
(De Tarifa de Embarque)
|
|||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
|
||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||