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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

WALMIR AYALA

 

Walmir Félix Solano Ayala

(Porto Alegre RS, 1933 - Rio de Janeiro RJ, 1991) 

Quando vivia no Rio de Janeiro, em minha juventude, encontrava-me com Walmir Ayala em eventos culturais da cidade, principalmente nos vernissages das gelerias de arte de Copacabana. Lia as críticas dele assiduamente. E seus poemas, de vez em quando, na imprensa literária. Não chegamos a ser amigos, infelizmente. Eu fui para a Venezuela e ele para o céu, como dizem. Agora eu volto a ele, através de sua poesia e compartilho minha admiração com os leitores. Ele merece.  A.M.

TEXTOS EM PORTUGUÊS / TEXTOS EN ESPAÑOL

A MINHA MORTE SÃO AS COISAS 

A minha morte são as coisas

e não poder retê-las,

é a matéria que existe

e resiste

à minha sorte,

como as estrelas.

 

A minha morte é a manhã

que se estende claríssima

sem temor, é este amor

de só desesperança,

como um clamor.

 

A minha morte é esta voz

por que a garganta enseia

e não sabe,

ela cabe

inteira nos meus olhos

que a lágrima incendeia.

 

Sobretudo é

esta vontade

 de chorar e ir chorando

como uma única pergunta

sem remédio:

                      até quando?  

 

CRER 

Creio em mim. Creio em ti. Deus, onde mora?

Na vontade de crer que me consente

humano e ardente.

No meu repouso em ti, que me alimenta.

No que vejo e recebo, nesta vara

florida num deserto, em meu maná

de agora e de jamais. Saber-me hoje

tão digno do tempo que me mata

é arder-me em Deus, e este saber me basta. 

 

ISTO É TUDO 

As urnas estão fechadas,

os corações estão mudos,

mas o amor paira e condena —

isto é tudo.

 

As mãos vão entrelaçadas,

o olhar é sereno e agudo,

e o amor é mais do que as almas —

isto é tudo.

 

A lágrima quase aponta,

O desejo é um breve escudo,

e o amor é quase nada —

isto é tudo.


PENHOR

Quanto pode valer um pássaro

de canto puro e goela solta

que gosta de carícia e se espreguiça

como qualquer amado amante?

 

O dono levou-o à penhora

por trinta e oito mil

cruzeiros. Diz

que vale o dobro.

 

Avaliado, não dá mais do que mil e quinhentos

diz o causídico do banco, e chama de brincadeira

esta causa de tão pessoal alcance.

 

Falando por seu advogado

o dono do pássaro diz

que o assunto é muito sério

e pede mesmo que o pássaro

seja tratado com carinho

pois cantando e recebendo amor

é que se prova valioso.

 

Neste poema, atentem, a palavra é tão banal,

mas o miolo é pura

poesia.

Difícil é contar como canta o pássaro.

Aí é que seríamos sublimes.

 

 

ARTE POÉTICA

 

Na adolescência eu queria escrever poemas eternos.

Poemas que não envelhecessem.

Aspirava os pensamentos abstratos, as idéias transcendentes,

jogava palavras como anzóis atrás de uma baleia azul.

Eu queria a estação permanente dos fatos,

aquela zona de mistério que transforma os acontecimentos

em reflexos cíclicos

de uma realidade essência.

Eu desprezava a transitoriedade, dava-me engulhos o trivial,

pousava meu dente na polpa indizível da transcendência.

 

Hoje eu pouso o coração da poesia na bandeja das coisas que passam,

eu sei que, como todas as civilizações,

a nossa tem um fim,

e já durou demais.

Eu sinto o cheiro de seu sangue congelado,

adivinho o pus acumulado sob sua pele túrgida.

Sei que seremos de repente uma sobrevivência arqueológica.

Porisso não ambiciono mais, para o meu poema, esta imaginária

duração,

esta idade virtual com pés de efêmero tato.

Não desejo para o gênero humano poemas capazes de sobreviver

à sua legítima história,

mergulho no cotidiano com um alívio e uma surpresa que me renovam

a vida.

 

Não quero mais fazer poemas que não sejam tributo do instante,

quero tocar o perecível e segurar entre os dedos sua respiração

oscilante. Faço poemas transitórios e fugazes.

 

Os poemas eternos eu deixo para a vida eterna.

 

 

Extraídos do livro Estado de Choque; a poesia de Walmir Ayala. São Paulo: Galeria Parnaso; Massao Ohno Editores, 1980.  s.p.;

 

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De

ÁGUAS COMO ESPADAS

São Paulo:  LR Editores, 1983

 

 

A CAÇA

 

Os caçadores de homens varam a noite com seus olhos de punhal.

Levam os punhos cerrados cerrados e um desejo ardente de agressão.

Irmãos dos delinqüentes eles vasculham os ninhos poluídos

e esmagam com os saltos das botas as ninhadas perplexas.

 

Os caçadores e sua caça estão sobrepostos como camadas contíguas

de uma mesma era de terror.

 

 

ROTA

 

Quem elabora estas inúteis palavras

com que as coisas se ataviam,

e são indagações, gritos, silêncios

reticentes?

 

                   Quem,

me pergunta agora sobre a hora

que eu não quis habitar de qualquer signo,

infladas do nada do vento?

                   Direção

cujo gosto apenas eu percebo:

silenciosamente recortado,

recrio o labirinto.

 

 

PASSEIO

 

Passeio com meu filho pelo mundo

e é pouco para amá-lo este percurso.

Toco seus olhos de cristal escuro

e ele me vê robô, cavalo, urso.

Ele me vê raiz, me desafia,

briga e ama num elo conseqüente

com tudo os que é real, e me anuncia.

 

Passeio com meu filho à luz do di,

e a luz fecunda a noite que nos une

num sonho latejante de silêncio.

Concentro-me de amá-lo com a urna

guarda a alucinação de seu perfume,

e penso, piso a terra, restituo

em dom de amar a amarga antecedência

do filho que eu não fui e que construo.

 



TEXTOS EM ESPAÑOL

 

WALMIR AYALA

Trad. Pilar Gómez Bedate

 

 

MI MUERTE SON LAS COSAS 

Mi muerte son las cosas

y no poder asirlas,

la materia que existe

y resiste

a mi suerte,

como las estrellas.

 

Mi muerte es la mañana

que se extiende clarísima

sin temor, y este amor

de mi desesperanza

sola, como un clamor.

 

Mi muerte es esta voz

que la garganta ansía

y no cabe,

entera cabe

en estos ojos míos

que la lágrima incendia.

 

Sobre todo es

este deseo

de llorar e ir llorando

con una única pregunta:

                                      ¿hasta cuándo?  

 

CREER 

Creo en mí. Creo en ti. Dios, ¿dónde vive?

En el afán de fe que me consiente

humano y ardiente.

En mi reposo en ti, que me alimenta,

en lo que veo y tomo, en esta vara

florida en un desierto, en mi maná

de ahora y de por siempre. Este hoy saberme

merecedor del tiempo que me mata

es abrasarme en Dios, y esta saber me basta.   

 

ESTO ES TODO 

Las urnas están cerradas,

los corazones están mudos,

peor el amor paira y condena:

esto es todo.

 

Las manos van entrelazadas,

la mirada es serena y aguda,

y el amor es más que las almas:

esto es todo.

 

La lágrima casi apunta,

el deseo es un breve escudo,

y el amor es casi nada:

esto es todo.

 

Extraídos de la REVISTA DE CULTURA BRASILEÑA, Tomo IV, septiembre 1965, número 4, p. 312-321. Edición de la Embajada de Brasil en Madrid, España.


 

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