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PAULO MENDES CAMPOS
Nasceu em Belo Horizonte em 1992 e faleceu 1991. Poeta e cronista, dos mais notáveis das letras brasileiras. Merece ser relido sempre pelas novas gerações pela qualidade de seus textos. Aqui vai apenas uma pequena mas significativa mostra de seu enorme talento: dois poemas escolhidos de seu livro Testamento do Brasil e O Domingo Azul do Mar , publicado pela Editora do Autor, em 1996, no Rio de Janeiro.
SENTIMENTO DO TEMPO
Os sapatos envelheceram depois de usados Mas fui por mim mesmo aos mesmos descampados E as borboletas pousavam nos dedos de meus pés. As coisas estavam mortas, muito mortas, Mas a vida tem outras portas, muitas portas. Na terra, três ossos repousavam Mas há imagens que não podia explicar: me ultrapassavam. As lágrimas correndo podiam incomodar Mas ninguém sabe dizer por que deve passar Como um afogado entre as correntes do mar. Ninguém sabe dizer por que o eco embrulha a voz Quando somos crianças e ele corre atrás de nós. Fizeram muitas vezes minha fotografia Mas meus pais não souberam impedir Que o sorriso se mudasse em zombaria Sempre foi assim: vejo um quarto escuro Onde só existe a cal de um muro. Costumo ver nos guindastes do porto O esqueleto funesto de outro mundo morto Mas não sei ver coisas mais simples como a água. Fugi e encontrei a cruz do assassinado Mas quando voltei, como se não houvesse voltado, Comecei a ler um livro e nunca mais tive descanso. Meus pássaros caíam sem sentidos. No olhar do gato passavam muitas horas Mas não entendia o tempo àquele tempo como agora. Não sabia que o tempo cava na face Um caminho escuro, onde a formiga passe Lutando com a folha. O tempo é meu disfarce.
O MORTO
Por que celeste transtorno tarda-me o cosmo do sangue o óleo grosso do morto?
Por que ver pelo meu olho? Por que usar o meu corpo? Se eu sou vivo e ele morto?
Por que pacto inconsentido (ou miserável acordo) Aninhou-se em mim o morto?
Que prazer mais decomposto faz do meu peito intermédio do peito ausente do morto?
Por que a tara do morto é inserir sua pele entre o meu e o outro corpo.
Se for do gosto do morto o que como com desgosto come o morto em minha boca.
Que secreto desacordo! ser apenas o entreposto de um corpo vivo e outro morto!
Ele é que é cheio, eu sou oco.
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