|
MOACYR FÉLIX
Para Moacyr, “qualquer poema é político”. Escreveu versos combativos, discursivos, longos, persuasivos. “De que adiantou?”, ele indagava. Muito, certamente. Moacyr Félix de Oliveira marcou o seu tempo, com a veemência e a clarividência de um poeta comprometido, engajado nas lutas ideológicas e literárias da segunda metade do século passado. Advogado, fez estudos de filosofia em Paris com os mestres Merleau-Ponty e Bachelard, foi editor de revistas, organizou os célebres volumes da serie Violão de Rua, interrompida pelos militares, foi editor de poesia na editora Civilização Brasileira, etc, etc, etc., no Rio de Janeiro, onde nasceu. Sua voz chegou até à espaçonave Myr, em órbita terrestre, homenageando Gagarin, o primeiro astronauta, em português, com tradução simultânea em russo... Antonio Miranda
NOTURNO
o sono sem mitos, um sono longo como o da pedra que não sonha à beira do caminho
Quero a forma das chamas congeladas ou das sombras mudas em que a Noite morre como um bicho escuro sob o Olhar dos doidos Não quero mais as grades nem a luz sem sangue desta cidade!
Quero marijuana, ópio, cocaína o despertar sem tempo, mas tão sem tempo como aquela rua que termina num ponto feito para a minha poesia dançar vitoriosamente a morte de Deus.
1948 TRÊS APONTAMENTOS NOTURNOS
Eis-me aqui crucificado novamente nesta janela escura que se dissolve ao som de uma canção qualquer entre as mil janelas claras de tantos edifícios. É noite, eu sempre soube que era noite mas nunca soube tanto como agora.
II
Absorto, dentro da noite eu pensava a própria noite.
Fiz-me coisa, coisa me fizeram; aceitei-me sem saber onde encontrar o porquê de mim no vasto maquinário.
Perdi-me. Entre sapos e estrelas me perdi e fui-me escurecendo aos poucos, como um bicho que apodrece.
Se levei a vida para o glabro rendez-vous dos metafísicos, engordurei-a de espasmos sem parentes; e a fiz tão só como um cacto no deserto em que só os ratos passeiam ou como esse luar que naufragou no olhar do louco.
Absorto, dentro da noite eu pensava a própria noite.
III
Morres, todas as vezes em que o mundo é simplificado como a lâmina de uma faca que não cortou laranja ou boi, mas continuou terrivelmente faca nas dobras de um casaco ou pensamento.
1959 LABOR ARTIS
Submersos mundos na desolada areia
sonham distâncias. E em gesto verde afloram ao descampado, na aventura noturna e sempre oculta de violentar a terra.
E se quedam atentos ao redondo silêncio que envolve a angústia dos ventos sem morada, a perquirir estrelas e horizontes.
Enfim, amor e noite geram o instante; e a luz breve de um dia outonece caminhos na desolada areia aos homens que acamparam.
É a terra intacta?! (Na sombra virgem, nas mãos, ou nos celeiros, com sutis trajes os frutos apodrecem.) 1951-1953
DOIS POEMAS DO HOMEM E SUA ESCOLHA Revenir serai t une chute Paul Éluard
I Se em cada porto,longe, o verde alfombra uma esperança, uma salgada brisa para os pesados barcos sobre a sombra toda feita de nadas, imprecisa (mas devorando o peixe e o ar e o homem), alastro as rubras aves do incorpóreo pelo dorso desnudo de uma tarde (que é esta parte de mim que eu vou queimando) e insisto em que eles partam, vou deixando-os acompanhados desta dor acesa levar o aviso dos meus olhos, mar e mar afora ... Mas eu fico. E finco na sombra irreversivelmente minha a permanência - ciclo e madureza dos troncos regravados pela chuva, dos troncos que se cumprem sempre os mesmos, imóveis, simplesmente se cumprindo sob um pórtico de nuvens giratórias ...
II Destino. Que é o destino? Que fazer contra estas sombras íntimas, tão minhas como o tecido esquivo de mim próprio preso em meus ossos, latejando um ser de asas de sal mordendo um chão de ópio? Ah, destino, oxalá não haja enganos quando chegar nas pontas dessa teia de gastos gestos lentos costurados com o arame triste desses muitos anos!
Quando parar, no tempo, esta alma cheia de escolhas acabadas, rosa quieta a desmanchar-se em desenhados ventos, ah, vida, não me vença a noite alerta atrás do abismo e que os abismos incendeia: deixa eu colher no rosto um rosto certo do tempo irreversível, som de areia que já foi casa ou ponte, e não deserto ...
1959
|
|||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
|
||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||