Advogado, fez estudos de filosofia em Paris com os mestres Merleau-Ponty e Bachelard, foi editor de revistas, organizou os célebres volumes da serie Violão de Rua, interrompida pelos militares, foi editor de poesia na editora Civilização Brasileira, etc, etc, etc., no Rio de Janeiro, onde nasceu. Sua voz chegou até à espaçonave Myr, em órbita terrestre, homenageando Gagarin, o primeiro astronauta, em português, com tradução simultânea em russo...
NOTURNO
Quero dormir
o sono sem mitos, um sono longo como o da pedra
que não sonha à beira do caminho
Quero a forma das chamas congeladas
ou das sombras mudas
em que a Noite morre como um bicho escuro
sob o Olhar dos doidos
Não quero mais as grades
nem a luz sem sangue desta cidade!
Quero marijuana, ópio, cocaína
o despertar sem tempo,
mas tão sem tempo como aquela rua que termina num ponto
feito para a minha poesia dançar
vitoriosamente a morte de Deus.
1948
TRÊS APONTAMENTOS NOTURNOS
I
Eis-me aqui crucificado novamente nesta janela escura
que se dissolve
ao som de uma canção qualquer
entre as mil janelas claras de tantos edifícios.
É noite, eu sempre soube que era noite
mas nunca soube tanto como agora.
II
Absorto, dentro da noite eu pensava a própria noite.
Fiz-me coisa, coisa me fizeram; aceitei-me sem saber
onde encontrar o porquê de mim no vasto maquinário.
Perdi-me. Entre sapos e estrelas me perdi
e fui-me escurecendo aos poucos, como um bicho que apodrece.
Se levei a vida para o glabro rendez-vous dos metafísicos,
engordurei-a de espasmos sem parentes; e a fiz tão só
como um cacto no deserto em que só os ratos passeiam
ou como esse luar que naufragou no olhar do louco.
Absorto, dentro da noite eu pensava a própria noite.
III
Morres, todas as vezes
em que o mundo é simplificado como a lâmina de uma faca
que não cortou laranja ou boi, mas continuou terrivelmente faca
nas dobras de um casaco ou pensamento.
1959
Submersos mundos
na desolada areia
sonham distâncias.
E em gesto verde afloram
ao descampado,
na aventura noturna
e sempre oculta
de violentar a terra.
E se quedam atentos
ao redondo silêncio
que envolve a angústia
dos ventos sem morada,
a perquirir estrelas
e horizontes.
Enfim, amor e noite
geram o instante;
e a luz breve de um dia
outonece caminhos
na desolada areia
aos homens que acamparam.
É a terra intacta?!
(Na sombra virgem,
nas mãos, ou nos celeiros,
com sutis trajes
os frutos apodrecem.)
1951-1953
Revenir serai t une chute
écrasante.
Paul Éluard
I
Se em cada porto,longe, o verde alfombra
uma esperança, uma salgada brisa
para os pesados barcos sobre a sombra
toda feita de nadas, imprecisa
(mas devorando o peixe e o ar e o homem),
alastro as rubras aves do incorpóreo
pelo dorso desnudo de uma tarde
(que é esta parte de mim que eu vou queimando)
e insisto em que eles partam, vou deixando-os
acompanhados desta dor acesa
levar o aviso dos meus olhos, mar
e mar afora ... Mas eu fico. E finco
na sombra irreversivelmente minha
a permanência - ciclo e madureza
dos troncos regravados pela chuva,
dos troncos que se cumprem sempre os mesmos,
imóveis, simplesmente se cumprindo
sob um pórtico de nuvens giratórias ...
II
Destino. Que é o destino? Que fazer
contra estas sombras íntimas, tão minhas
como o tecido esquivo de mim próprio
preso em meus ossos, latejando um ser
de asas de sal mordendo um chão de ópio?
Ah, destino, oxalá não haja enganos
quando chegar nas pontas dessa teia
de gastos gestos lentos costurados
com o arame triste desses muitos anos!
Quando parar, no tempo, esta alma cheia
de escolhas acabadas, rosa quieta
a desmanchar-se em desenhados ventos,
ah, vida, não me vença a noite alerta
atrás do abismo
e que os abismos incendeia:
deixa eu colher no rosto um rosto certo
do tempo irreversível, som de areia
que já foi casa ou ponte, e não deserto ...
1959
=====================================================
De
CANTO PARA AS TRANSFORMAÇÕES DO HOMEM
(1964)
- MEU PAI, O QUE É A LIBERDADE?
(fragmento)
A mão limpa, o copo d´água
na mesa qual num altar
aberto ao homem que passa
como vento verde do mar.
E o alto simples de amar
o amigo, o vinho, o silêncio
da mulher olhando a tarde
— laranja cortada ao meio,
tremor de barco que parte,
esto de crina sem freio.
(...)
A liberdade, meu filho,
é coisa louca que assusta:
visão terrível (que luta!)
da vida contra o destino
traçado de ponta a ponta
como já contada conta
pelo som dos altos sinos.
(...)
ENREDO
(fragmento)
I
Onde se destrói o mundo em que vivo
aí estou.
Onde há destruição, aí se define o meu caminho.
Onde os deuses se desmoronam é que apareço
sem rosto
atrás de suas formas feitas de noite e de medo.
Onde se morre, onde se nasce.
Onde se morre é que eu renasço.
(...)
“É inútil querer para o Homem
e o seu sonho a dar longas voltas
ou a inventar estradas no cárcere,
o seu sonho mais essencial
a demolir, a enferrujar
metais de qualquer ditadura.”
Estes versos fazem parte de um livro-poema – CANTO PARA AS TRANSFORMAÇÕES DO HOMEM (Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1964) escrito (certamente) nos dias duros do Golpe Militar de 1964 (em verdade, em maio do mesmo ano) e publicado com dedicatória a Ênio Silveira (o editor), Moacyr Werneck de Castro e Miguel Arrais, figuras logo perseguidas pelo novo regime vigente. Tem ilustrações de Poty e hoje é peça almejada por colecionadores.