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MACHADO DE ASSIS
(1839-1908)
Joaquim Maria Machado de Assis nasce a 21 de junho de 1839 na cidade do Rio de Janeiro. Autor dos mais notáveis romances escritos em língua portuguesa no Brasil, entre as quais se destacam os clássicos A mão e a luva, Dom Casmurro, Memorial de Aires, Memória Póstuma de Brás Cubas e Quincas Borba. Suas Poesias Completas saem em 1901.
MUSA CONSOLATRIX
Que a mão do tempo e o hálito dos homens
Murchem a flor das ilusões da vida,
Musa consoladora,
É no teu seio amigo e sossegado
Que o poeta respira o suave sono.
Não há, não há contigo,
Nem dor aguda, nem sombrios ermos;
Da tua voz os namorados cantos
Enchem, povoam tudo
De íntima paz, de vida e de conforto.
Ante esta voz que as dores adormece,
E muda o agudo espinho em flor cheirosa,
Que vales tu, desilusão dos homens?
Tu que podes, ó tempo?
A alma triste do poeta sobrenada
À enchente das angústias,
E. afrontando o rugido da tormenta,
Passa cantando, alcíone divina.
Musa consoladora,
Quando da minha fronte de mancebo
A última ilusão cair, bem como
Folha amarela e seca
Que ao chão atira a viração do outono,
Ah! No teu seio amigo
Acolhe-me, — e haverá minha alma aflita,
Em vez de algumas ilusões que teve,
A paz,o último bem, último e puro!
O DESFECHO
Prometeu sacudiu os braços manietados
E súplice pediu a eterna compaixão,
Ao ver o desfilar dos séculos que vão
Pausadamente, como um dobre de finados.
Mais dez, mais cem, mais mil e mais um bilião,
Uns cingidos de luz, outros ensangüentados ...
Súbito, sacudindo as asas de tufão,
Fita-lhe a águia em cima os olhos espantados.
Pela primeira vez a víscera do herói,
Que a imensa ave do céu perpetuamente rói,
Deixou de renascer às raivas que a consomem.
Uma invisível mão as cadeias dilui;
Frio, inerte, ao abismo um corpo morto rui;
Acabar o suplício e acabara o homem.
UMA CRIATURA
Sei de uma criatura antiga e formidável,
Que a si mesma devora os membros e as entranhas
Com a sofreguidão da fome insaciável.
Habita juntamente os vales e as montanhas;
E no mar, que se rasga, à maneira de abismo,
Espreguiça-se toda em convulsões estranhas.
Traz impresso na fronte o obscuro despotismo;
Cada olhar que despede, acerbo e mavioso,
Parece uma expansão de amor e de egoísmo.
Friamente contempla o desespero e o gozo,
Gosta do colibri, como gosta do verme,
E cinge ao coração o belo e o monstruoso.
Para ela o chacal é, como a rola, inerme;
E caminha na terra imperturbável, como
Pelo vasto areal um vasto paquiderme.
Na árvore que rebenta o seu primeiro gomo
Vem a folha, que lento e lento se desdobra,
Depois a flor, depois o suspirado pomo.
Pois essa criatura está em toda a obra:
Cresta o seio da flor e corrompe-lhe o fruto;
E é nesse destruir que as suas forças dobra.
Ama de igual amor o poluto e o impoluto;
Começa e recomeça uma perpétua lida,
E sorrindo obedece ao divino estatuto.
Tu dirás que é a Morte; eu direi que é a Vida.
SABINA
Sabina era mucama da fazenda;
Vinte anos tinha; e na província toda
Não havia mestiça mais à moda
Com suas roupas de cambraia e renda.
Cativa, não entrava na senzala,
Nem tinha mãos para o trabalho rude;
Desabrochava-lhe a sua juventude
Entre carinhos e afeições de sala.
Era cria da casa. A sinhá moça,
Que com ela brincou sendo menina,
Sobre todas amava esta Sabina,
Com esse ingênuo e puro amor da roça.
Dizem que à noite, a suspirar na cama,
Pensa nela o feitor; dizem que, um dia
Um hóspede que ali passado havia
Pôs um cordão no colo da mucama.
Mas que vale uma jóia no pescoço?
Não pôde haver o coração da bela.
Se alguém lhe acende os olhos de gazela,
É pessoa maior: é o senhor moço.
(...)
Página republicada em março de 2008
Metadados: Poesia negra; Negro na Poesia. Escravatura.
Recomendamos a leitura da obra: ASSIS, MACHADO DE, 1839-1908. MELHORES POEMAS/ MACHADO DE ASSIS; seleção de Alexei Bueno. São Paulo: Global, 2000. 153 p. (Os melhores poemas; 39) com uma excelente introdução do selecionador Alexei Bueno.
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De
Andrey do Amaral
O MÁXIMO E AS MÁXIMAS DE
MACHADO DE ASSIS
Rio de Janeiro: Ciência Moderna, 2008
ISBN 978-85-7393-719-0
A PALMEIRA
Ó palmeira, eu te saúdo,
Ó tronco valente e mudo,
Da natureza expressão!
Aqui te venho ofertar
Triste canto, que soltar
Vai meu triste coração.
Sim, bem triste, que pendida
Tenho a fonte amortecida,
Do pesar acabrunhada!
Sofro os rigores da sorte,
Das desgraças a mais forte
Nessa vida amargurada!
Extraído de: AMARAL, Andrey do. O máximo e as máximas de Machado de Assis (Rio de Janeiro: Ciência Moderna, 2008)
Nota, oficialmente, esta é primeira poesia conhecida de Machado de Assis, de 15 de janeiro de 1855, mas descobriu-se poema anterior do poeta e romancista Machado de Assis, publicado em 1854 em jornal. É o soneto seguinte, sem título:
À Ilma. Sra. D. P. J. A
Quem pode em um momento descrever
Tantas virtudes de que sois dotada
Que fazem dos viventes ser amada
Que mesmo em vida faz de amor morrer!
O gênio que vos faz enobrecer,
Virtude e graças de que sois c’roada;
Vos fazem do esposo ser amada –
(Quanto é doce no mundo tal viver!)
A natureza nessa obra primorosa
Obra que dentre todas mais, brilha
Ostenta-se brilhante e majestosa!
Extraído de: AMARAL, Andrey do. O máximo e as máximas de Machado de Assis (Rio de Janeiro: Ciência Moderna, 2008)
O VERME
Existe uma flor que encerra
Celeste orvalho e perfume.
Plantou-a em fecunda terra
Mão benéfica de um nume.
Um verme asqueroso e feio,
Gerado em lodo mortal,
Busca esta flor virginal
E vai dormir-lhe no seio.
Morde, sangra, rasga e mina,
Suga-lhe a vida e o alento;
A flor o cálix inclina;
As folhas, leva-as o vento,
Depois, me resta o perfume
Nos ares da solidão...
Esta flor é o coração,
Aquele verme o ciúme.
UMA CRIATURA
Sei de uma criatura antiga e formidável,
Que a si mesma devora os membros e as entranhas,
Com a sofreguidão da fome insaciável.
Habita juntamente os vales e as montanhas;
E no mar, que se rasga, à maneira de abismo,
Espreguiça-se toda em convulsões estranhas.
Traz impresso na fronte o obscuro despotismo.
Cada olhar que despede, acerbo e mavioso,
Parece uma expansão de amor e de egoísmo.
Friamente contempla o desespero e o gozo,
Gosta do colibri, como gosta do verme,
E cinge ao coração o belo e o monstruoso.
Para ela o chacal é, como a rola, inerme;
E caminha na terra imperturbável, como
Pelo vasto areal um vasto paquiderme.
Na árvore que rebenta o seu primeiro gomo
Vem a folha, que lento se desdobra,
Depois a flor, depois o suspirado pomo.
Pois essa criatura está em toda obra:
Cresta o seio da flor e corrompe-lhe o fruto;
E é nesse destruir que as forças dobra.
Ama de igual amor o poluto e o impoluto;
Começa e recomeça uma perpétua lida,
E sorrindo obedece ao divino estatuto.
Tu dirás que é a Morte; eu direi que é a vida.
SONETO DE NATAL
Um homem, – era aquela noite amiga,
Noite cristã, berço Nazareno, –
Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lépida cantiga,
Quis transportar ao verso doce e ameno
As sensações da sua idade antiga,
Naquela mesma velha noite amiga,
Noite cristã, berço Nazareno.
Escolheu o soneto... A folha branca
Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,
A pena não acode ao gesto seu.
E, em vão lutando contra o metro adverso,
Só lhe saiu este pequeno verso:
“Mudaria o Natal ou mudei eu?”
J. M. M. Assis
Página ampliada e republicada em setembro de 2008
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