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LOBIVAR MATOS
Poeta quase desconhecido mas em fase de redescobrimento e estudo em seu estado de origem – o Mato Grosso do Sul, foi um fenômeno. Escreveu seus livros Areôtare e Sarobá, antes dos 20 anos de idade, na vanguarda de nosso Modernismo. É possível ver nele as influências de Manuel Bandeira e de Raul Bopp mas sua lavra é muito original. Usa o coloquialismo brasileiro com naturalidade. Seu versilibrismo é original, com acentuada cor telúrica, regional, às vezes de forma ingênua, mas militante pela denúncia das mazelas e das precariedades da vida das populações ribeirinhas na zona fronteiriça de Corumbá. Observação importante: mantivemos a ortografia original de suas obras.
Antonio Miranda
NATUREZA MORTA
Os trilhos velhos estão sendo trocados por trilhos novos.
E os bondes enfileirados andam devagar. Os passageiros estão inquietos. Alguns não se conformam e descem apressados, praguejando. Outros procuram distração nas entrelinhas dos jornais.
Meus olhos grudaram nos gestos fortes dos homens feios, e eu, intimamente, justifico, achei natural o atraso dos bondes e a troca dos trilhos velhos... ESMOLA
É verdade – me disse o moço sujo da esquina – quando menino, toda vez que tropeçava e caía sempre encontrava alguém para me levantar.
- Levanta, batuta, para cair outra vez!
Agora, que sou farrapo de homem, que queria ser homem, que já tropecei por este mundo a fóra, que já cansei de ficar no chão, não encontro ninguem que me tire da sargeta. Pelo contrario, parece, ninguem me quer ver de pé. Passam e jogam níqueis no meu chapéu furado.
Esses idiotas pensam que me fazem bem, que pagam uma prestação do céu, e que a esmola que me atiram, humilhados e humilhantes, me serve para alguma coisa.
- Idiotas! Imbecis! Criminosos!
Na sala enorme e colorida do meu cerebro, lembranças vagas de mulheres vivas dansam numa ginga mole. bamas, sambas e cateretês.
Aquelas máquinas continuarão a ceifar corpos robustos? Aqueles mil braços erguidos continuarão a produzir e a definhar? nunca entre em igreja. Sento-me num banco de praça, na boquinha da noite, e fico namorando os desgraçados encolhidos na escadaria da igreja. tá com o diabo no couro e não provoca, não, cabra safado, porque do contrario vai haver banzé de cuia, forrobodó.
Em casa a negra velha tá fula de raiva, já andou dando sopapos no marido, espremendo os moleques e xingando a vizinha, que não lhe quer emprestar um pires de farinha.
Não mexe com o negro, não, negrada. Ele está acuado e não quer prosa, não.
Negro entra no boliche, pede fiado um “mata-bicho” e senta na calçada, cuspindo:
- Porcaria de vida...
Extraídos da obra Sarobá; poemas. Rio de Janeiro: Minha Livraria Editora, 1936. 98 p.
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