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JORGE WANDERLEY
(1938-1999)
Um admirável poeta. Um grande tradutor. Um pernambucano erudito, como muitos de sua terra prodigiosa de história e de letras. Doutor em Letras e mestre em poesia... Seus livros continuam sendo lidos com interesse de descoberta e fascínio.
Dados pessoais e mais poemas de autor estão num verdadeiro relicário:
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TEMA DA ROSA - l
Parecia uma rosa madrugando
Aquela rosa ali, naquele dia.
Era quando em redor amanhecia,
Porém sem Lugar-Onde ou Tempo-Quando,
Estava eterna e eterna parecia.
Não se sabia a luz que a estava olhando,
Ou se ela olhava a luz desabrochando,
Nem se era dela que esta luz surgia.
Nada movia em torno, mas da haste
Parecia vibrar, tensa e nervosa,
A onda de um acorde num segundo
Sonhando em rubro e alheio a seu engaste,
Que era a história das rosas numa rosa,
A rosa em si, dentro de si, no mundo.
PREFÁCIO
Que força move a mão que escreve?
Que moveu no passado
a mão dos outros?
Outra maior, disseram: - de Deus.
Maior, como a idéia do sopro divino,
da proteção contra a morte.
— Mas o que move a mão do descrente?
Que põe nela a garça,
a borboleta,
o veneno refinado?
— Algo que não se sabe, mas que é dentro.
Que não sendo vontade, quer.
E não sendo desejo, voa.
EPITÁFIO
Chegar já foi a partida.
De onde estive até nascer.
Viver só custou a vida.
Não custa nada morrer.
HOMENAGEM A FERNANDO PESSOA
Sou uma máquina de me ferirem
Os que aromáticos passam normais.
Eu sou dos Sebastiões que vocês virem
O das flechas católicas - jamais
O Sebastião de Alcácer-e-Quibir em
Batalhas de sanguíneos portugais.
Fui barco, sim e amei até ruírem
Por terra os mares que não sonho mais.
Toda a Mensagem, que me dessedenta,
Deixei num pergaminho que fratura
Os versos e as palavras, meus arcanos.
Desde a Tabacaria à nevoenta
Ode Marítima, que eu quis futura,
Tudo se apaga quanto errei nos anos.
NA VÉSPERA
Porque o cansaço tem ruas de sono
Conseguirás agora adormecer.
Tudo anda mal nas coisas que abandonas;
Em solo ingrato a noite vai descer.
Que traga a paz imensa que ambicionas,
Sem sonho algum; para não conceber
Meias-vidas sem rumo onde és o dono
Do que não queres, de insano poder.
Que a lida agora interrompida, amarga,
Possa passar a um outro espaço-tempo,
E volte nova dos frios astrais.
Que esqueça longo o peso, a dor, a carga,
O mal que te contempla e que contemplas.
Se assim não, que não acordes mais.
LEAR
Meu receio é nenhum e é imenso,
Nenhum reino doei às minhas filhas,
Nem reino tive
E não teria filhas se reinasse.
Teria vinhos ácidos na mesa
E um cão feroz que um dia me matasse
Para galgar a minha realeza.
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