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Cruz e Sousa

em Português   y Español

 Florianópolis, 24.11.1861 – 19.3. 1898. Obras: Broquéis, Faróis, Últimos Sonetos. Simbolista, Roger Bastide o coloca ao lado de Mallarmé e Stefan George.

 

Para as E

ANTÍFONA

 

Ó Formas alvas, brancas, Formas claras

De luares, de neves, de neblinas!...

Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas...

Incensos dos turíbulos das aras...

 

Formas do Amor, constelarmente puras,

De Virgens e de Santas vaporosas...

Brilhos errantes, mádidas frescuras

E dolências de lírios e de rosas...

 

Indefiníveis músicas supremas,

Harmonias da Cor e do Perfume...

Horas do Ocaso, trêmulas, extremas,

Réquiem do Sol que a Dor da Luz resume...

 

Visões, salmos e cânticos serenos,

Surdinas de órgãos flébeis, soluçantes...

Dormências de volúpicos venenos

Sutis e suaves, mórbidos, radiantes...

 

Infinitos espíritos dispersos,

Inefáveis, edênicos, aéreos,

Fecundai o Mistério destes versos

Com a chama ideal de todos os mistérios.

 

Do Sonho as mais azuis diafaneidades

Que fuljam, que na Estrofe se levantem

E as emoções, todas as castidades

Da alma do Verso, pelos versos cantem.

 

Que o pólen de ouro dos mais finos astros

Fecunde e inflame a rima clara e ardente...

Que brilhe a correção dos alabastros

Sonoramente, luminosamente.

 

Forças originais, essência, graça

De carnes de mulher, delicadezas...

Todo esse eflúvio que por ondas passa

Do Éter nas róseas e áureas correntezas...

 

Cristais diluídos de clarões alacres,

Desejos, vibrações, ânsias, alentos,

Fulvas vitórias, triunfamentos acres,

Os mais estranhos estremecimentos...

 

Flores negras do tédio e flores vagas

De amores vãos, tantálicos, doentios...

Fundas vermelhidões de velhas chagas

Em sangue, abertas, escorrendo em rios...

 

Tudo! vivo e nervoso e quente e forte,

Nos turbilhões quiméricos do Sonho,

Passe, cantando, ante o perfil medonho

E o tropel cabalístico da Morte...

 

 

ANTÍFONA

Traducido por Anderson Braga Horta y José Jeronymo Rivera

 

¡Oh Formas albas, blancas, Formas claras

De lunas y de nieves y neblinas!...

Oh Formas vagas, fluidas, cristalinas...

Incienso de turíbulo en las aras...

 

Formas de Amor constelarmente puras

De Vírgenes y Santas vaporosas...

Brillos errantes, húmedas frescuras

Y dolencias de lirios y de rosas...

 

Indefinibles músicas supremas,

Armonías del Color y del Perfume...

Horas de Ocaso, trémulas, extremas,

Réquiem del Sol que su Dolor resume...

 

Visiones, salmos, cánticos serenos,

Órganos en sordinas sollozantes...

Delicias de letárgicos venenos

Sutiles, suaves, mórbidos, radiantes...

 

Infinitos espíritus dispersos,

Inefables, edénicos, aéreos,

Sembrad en el Misterio de estos versos

La llama ideal de todos los misterios.

 

Que del Sueño la azul diafanidad

Esplenda, que en la Estrofa se levante

Y la emoción, toda la castidad

Del ser del Verso, por los versos cante.

 

Del polen de oro de los finos astros

Fecúndese la rima clara, ardiente...

Brille el esmero de los alabastros

Sonoramente, luminosamente.

 

La fuerza original, esencia y gracia

De carnes de mujer, delicadezas...

Ese efluvio que surca el Éter hacia

Las áureas, róseas, célicas dehesas...

 

Cristales fluidos reluciendo alacres,

Deseos, vibración, ansias, alientos,

Flavas victorias, triunfamientos acres,

Los más extraños estremecimientos...

 

Flores negras del tedio y flores vagas

De amores enfermizos y vacíos...

Honda rubicundez de viejas llagas

En sangre, abiertas, escurriendo en ríos...

 

¡Todo! vivo y nervioso, ardiente y fuerte,

En las nubes quiméricas del Sueño,

Pase, cantando, ante el terrible ceño

Y el tropel misterioso de la Muerte...

 


 

MONJA

 

Ó Lua, Lua triste, amargurada,

Fantasma de brancuras vaporosas,

A tua nívea luz ciliciada

Faz murchecer e congelar as rosas.

 

Nas floridas searas ondulosas,

Cuja folhagem brilha fosforeada,

Passam sombras angélicas, nivosas,

Lua, Monja da cela constelada.

 

Filtros dormentes dão aos lagos quietos,

Ao mar, ao campo, os sonhos mais secretos,

Que vão pelo ar, noctâmbulos, pairando...

 

Então, ó Monja branca dos espaços,

Parece que abres para mim os braços,

Fria, de joelhos, trêmula, rezando... 

 

 

MONJA
Traducido por Anderson Braga Horta

 

Oh, Luna, Luna triste, atormentada,

Fantasma de blancuras vaporosas,

Bajo tu nívea luz martirizada

Marchítanse y congélanse las rosas.

 

En las floridas mieses sinüosas,

En que brilla fosfórica enramada,

Pasan sombras angélicas, nivosas,

Oh, Monja de la azul celda estrellada.

 

Inspiran filtros en los lagos quietos,

Campos, mares, los sueños más secretos,

En los aires, noctámbulos, flotando...

 

Entonces, Monja blanca, abres tus brazos,

Desde tu soledad, sobre mis pasos,

Fría, postrada, trémula, rezando...

 


 

 

CAMINHO DA GLÓRIA

 

Este caminho é cor-de-rosa e é de ouro,

Estranhos roseirais nele florescem,

Folhas augustas, nobres reverdecem

De acanto, mirto e sempiterno louro.

 

Neste caminho encontra-se o tesouro

Pelo qual tantas almas estremecem;

É por aqui que tantas almas descem

Ao divino e fremente sorvedouro.

 

É por aqui que passam meditando,

Que cruzam, descem, trêmulos, sonhando,

Neste celeste, límpido caminho

 

Os seres virginais que vêm da Terra,

Ensangüentados da tremenda guerra,

Embebedados do sinistro vinho.

 

 

CAMINO DE LA GLORIA

Traducido por Anderson Braga Horta

 

Es un camino róseo, áureo, sonoro

Do rosales insólitos florecen,

Hojas augustas, nobles reverdecen

De sempiterno lauro y acanto de oro.

 

En esta vía encuéntrase el tesoro

Por el cual tantas almas estremecen;

Van por aquí las almas que enaltecen

El divino y temblante abismo, en coro.

 

Es por aquí que pasan meditando,

Que vagan, bajan, trémulos, soñando,

En este etéreo, límpido camino

 

Los seres virginales de la Tierra,

Ensangrentados de la cruda guerra,

Emborrachados del siniestro vino.

 


 

 

VIDA OBSCURA

 

Ninguém sentiu o teu espasmo obscuro,

Ó ser humilde entre os humildes seres,

Embriagado, tonto dos prazeres,

O mundo para ti foi negro e duro.

 

Atravessaste no silêncio escuro

A vida presa a trágicos deveres

E chegaste ao saber de altos saberes

Tornando-te mais simples e mais puro.

 

Ninguém te viu o sentimento inquieto,

Magoado, oculto e aterrador, secreto,

Que o coração te apunhalou no mundo.

 

Mas eu que sempre te segui os passos

Sei que cruz infernal prendeu-te os braços

E o teu suspiro como foi profundo!

 

 

VIDA OBSCURA

 Traducido por Anderson Braga Horta

 

A nadie le tocó tu espasmo obscuro,

¡Oh! humilde entre los más humildes seres,

Embriagado, loco de placeres,

El mundo para ti fue negro y duro.

 

Atravesaste, en el silencio oscuro,

La vida presa a trágicos deberes

Y llegaste al saber de altos saberes

Haciéndote más simple, al fin más puro.

 

Nadie te ha visto el sentimiento inquieto,

Doliente, oculto, aterrador, secreto,

Que el corazón te apuñaló en el mundo.

 

¡Mas yo que siempre te seguí los pasos

Sé qué cruz infernal prendió tus brazos

Y tu suspiro cómo fue profundo!

 




        CÁRCERE DAS ALMAS

Ah! Toda alma num cárcere anda presa,

Soluçando nas trevas, entre as grades

Do calabouço olhando imensidades,

Mares, estrelas, tardes, natureza.

 

Tudo se veste de uma igual grandeza

Quando a alma entre grilhões as liberdades

Sonha e, sonhando, as imortalidades

Rasga no etéreo Espaço da Pureza.

 

Ó almas presas, mudas e fechadas

Nas prisões colossais e abandonadas,

Da Dor no calabouço, atroz, funéreo!

 

Nesses silêncios solitários, graves,

Que chaveiro do Céu possui as chaves

Para abrir-vos as portas do Mistério?!

 

 

CÁRCEL DE LAS ALMAS

Traducido por Anderson Braga Horta

 

¡Ah! Toda alma en su cárcel anda presa,

Sollozando en tinieblas y ansiedades,

De su prisión mirando inmensidades,

Tardes, estrellas, mar, naturaleza.

 

Todo se viste de una igual grandeza

Cuando el alma, en cadenas, libertades

Sueña y, así, rasga inmortalidades

En el Espacio azul de la Pureza.

 

¡Oh, almas presas, mudas y cerradas

En calabozo atroz, y abandonadas

Del Dolor en el báratro funéreo!

 

En los silencios solitarios, graves,

¿¡Qué llavero del Cielo posee llaves

Para abriros las puertas del Misterio?!

 


 

ÊXTASE BÚDICO

 

Abre-me os braços, Solidão profunda,

Reverência do céu, solenidade

Dos astros, tenebrosa majestade,

Ó planetária comunhão fecunda!

 

Óleo da noite, sacrossanto, inunda

Todo o meu ser, dá-me essa castidade,

As azuis florescências da saudade,

Graça das Graças imortais oriunda!

 

As estrelas cativas no teu seio

Dão-me um tocante e fugitivo enleio,

Embalam-me na luz consoladora!

 

Abre-me os braços, Solidão radiante,

Funda, fenomenal e soluçante,

Larga e búdica Noite redentora!

 

 

ÉXTASIS BÚDICO
Traducido por Anderson Braga Horta

 

¡Ábreme el seno, Soledad profunda,

Atención celestial, solemnidad

De los astros, obscura majestad,

Oh, planetaria comunión fecunda!

 

¡Ungüento santo de la noche, inunda

Todo mi ser, dame esa castidad,

La florescencia azul de la beldad

De las Gracias olímpicas oriunda!

 

¡Las estrellas cautivas en tu seno

Tráenme un éxtasis fugaz y ameno,

Acúnanme en la luz consoladora!

 

¡Abre tu seno, Soledad radiante,

Honda, fenomenal y sollozante,

Ancha y búdica Noche redentora!

 


 

   

ASSIM SEJA!

 

Fecha os olhos e morre calmamente!

Morre sereno do Dever cumprido!

Nem o mais leve, nem um só gemido

Traia, sequer, o teu Sentir latente.

 

Morre com a alma leal, clarividente,

Da Crença errando no Vergel florido

E o Pensamento pelos céus brandido

Como um gládio soberbo e refulgente.

 

Vai abrindo sacrário por sacrário,

Do teu Sonho no templo imaginário,

Na hora glacial da negra Morte imensa...

 

Morre com o teu Dever! Na alta confiança

De quem triunfou e sabe que descansa

Desdenhando de toda a Recompensa!

 

 

¡ASÍ SEA!

Traducido por Anderson Braga Horta

 

¡Cierra tus ojos, muere calmamente!

¡Muere sereno del Deber cumplido!

Ni el más leve, ni un único gemido

Traicione, al menos, tu Sentir latente.

 

Muere, el alma leal, clarividente,

De la Creencia en el Vergel florido

Y el Pensamiento para el cielo erguido

Como espada soberbia y refulgente.

 

Vete, abriendo sagrario tras sagrario,

De tu Sueño en el templo imaginario,

En la hora fría de la Muerte inmensa...

 

¡Muere con tu Deber! ¡Con la confianza

De quien triunfó y sabe que descansa,

Desdeñoso de toda Recompensa!

 


 

 

SORRISO INTERIOR

 

O ser que é ser e que jamais vacila

Nas guerras imortais entra sem susto,

Leva consigo esse brasão augusto

Do grande amor, da nobre fé tranqüila.

 

Os abismos carnais da triste argila

Ele os vence sem ânsias e sem custo...

Fica sereno, num sorriso justo,

Enquanto tudo em derredor oscila.

 

Ondas interiores de grandeza

Dão-lhe essa glória em frente à Natureza,

Esse esplendor, todo esse largo eflúvio.

 

O ser que é ser transforma tudo em flores...

E para ironizar as próprias dores

Canta por entre as águas do Dilúvio!

 

 

SONRISA INTERIOR

Traducido por Anderson Braga Horta


El ser que es ser y que jamás vacila

En la guerra inmortal entra sin susto;

Lleva con él ese blasón augusto

Del grande amor y noble fe tranquila.

 

Los abismos carnales —¡triste argila!—

Él los vence sin ansias, como un justo...

Queda sereno, a sonreír, a gusto,

Mientras alrededor el mundo oscila.

 

Olas interiores de grandeza

Le dan, triunfando a la Naturaleza,

Ese esplendor, todo ese largo efluvio.

 

El ser que es ser transforma todo en flores...

Y para ironizar a sus dolores

¡Canta sobre las aguas del Diluvio!

 

 

 

 

 

 

SIDERAÇÕES

 

          Cruz e Sruz e Sousaousa

 

Para as Estrelas de cristais gelados

as ânsias e os desejos vão subindo,

galgando azuis e siderais noivados,

de nuvens brancas a amplidão vestindo...

 

Num cortejo de cânticos alados

os arcanjos, as cítaras ferindo,

passam, das vestes nos troféus prateados,

as asas de ouro finamente abrindo...

 

Dos etéreos turíbulos de neve

claro incenso aromai, límpido e leve,

ondas nevoentas de Visões levanta...

 

CRUZ E SOUSA.   Broquéis.  São Paulo, Edusp. 1994.  126 p.  12,5x18,5 cm.   Ensaio introdutório de Ivan Teixeira.  Projeto gráfico e capa (dura): Marina Mayumi Watanabe.  ISBN 85-314-0183-6 Edição comemorativa dos 100 anos de “Broquéis”.  

CRUZ E SOUSA.   Broquéis.  São Paulo, Edusp. 1994.  126 p.  12,5x18,5 s canta...

 

 

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