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CORA CORALINA
(1889-1995)
((188-1985)
Cora Coralina, batizada Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, é um dos grandes patrimônios culturais de Goiás. Sua obra tardia, impõe-se por sua singeleza e autenticidade, na figura confessional de Aninha, em testemunhos de vívida e emocionante prosa poética: transumante de uma exemplaridade altruísta e otimista. Sofrida pelos preconceitos de seu tempo, pelas limitações de sua existência, cultivou um saudosismo sem pieguismo, certa de que os tempos atuais “são infinitamente melhores”, em sua crença na contemporaneidade e no futuro, não obstante as mazelas que soube apontar e denunciar.
Estive com ela, em sua casa da ponte, na altiva Villa-Boa de Goyaz, uma única e inesquecível oportunidade, no final da década de 70, época em que prestava serviços às bibliotecas da Universidade Federal de Goiás. Por certo, foi minha amiga escritora e bibliotecária Marietta Telles Machado quem me cedeu os primeiros textos da poet(is)a e facilitou o meu encontro com ela. De lá para cá, Cora Coralina mereceu as honras de primeira-dama da poesia, em Goiás no restante do Brasil, desde que Carlos Drummond de Andrade atestou o seu indiscutível talento. Por sorte, ainda em vida.
ANTONIO MIRANDA
“Mergulhar na obra de Cora, Aninha, a Mulher Guerreira, a Rapsoda, a Cigarra Cantadeira e Formiga Diligente (...) é uma lírica, telúrica e emocionante aventura: é um evocar de dados, lembranças, referências às nossas raízes e, acima de tudo, esplêndida imagem de uma vida forte e sabiamente vivida e muito bem expressa na sua palavra poética”. MARIETTA TELLES MACHADO
TEXTOS EM PORTUGUÊS // TEXTOS EN ESPAÑOL
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CORALINA CORAÇÃO DO BRASIL
Museu da Língua Portuguesa. Curadoria Julia Peregrino,
texto de Kátia da Costa Bezerra.
São Paulo 29 de setembro a 13 de dezembro de 2009.
Catálogo de exposição.
São Paulo: Museu da Língua Portuguesa, 2009. 80 p.
Descobrimos um exemplar exposto deste catálogo no estande da Fundação Biblioteca Nacional na última Bienal do Livro do Ceará, 2010, mas não estava à venda. Agora nos chega este volume enviado pela Casa das Rosas, pelo que muito agradecemos. É um documento digno de quem cultiva e preserva a memória da melhor poesia brasileira, além de reconhecer-se a qualidade da produção e edição.
Eu sou a velha
mais bonita de Goiás.
Namoro a lua.
Me dou bem
com o rio Vermelho.
Tenho segredo
com os morros
que não é de adivinhá.
(Se "Não conte pra ninguém". Meu livro de cordel)
Sou raiz, e vou caminhando
sobre as minhas raízes tribais.
Velhas jardineiras do passado ...
Condutores e cobradores, vós me levastes de mistura
com os pequenos e iletrados, pobres e remendados ...
Destes-me o nível dos humildes em tantas lições de vida.
Passante das estradas rodageiras, boiadeiros e comissários,
aqui fala a velha rapsoda.
Escuto na distância o sonido augusto do berrante que marca
o compasso das manadas que vão pelas estradas.
O mugido, o berro, o chamado da querência, a aguada,
o barreiro salitrado, a solta, o curral, a porteira,
a tronqueira, o cocho, o moirão, a salga, o ferro de marcar,
rubro, esbraseado. A castração impiedosa.
Eu sou a gleba e nada mais pretendo ser.
Mulher primária, roceira, operária, afeita à cozinha,
ao curral, ao coalho, ao barreleiro, ao tacho.
Seguro sempre nas mãos cansadas a velha candeia
de azeite veletudinária e vitalícia do passado.
Viajei nas velhas e valentes jardineiras
do interior roceiro, suas estradas de terra,
lameiros e atoleiros, seus heróicos e anônimos condutores
e cobradores, práticos, sabidos daqueles motores desgastados,
molas e lataria rangentes.
Santos milagreiros eram eles. Onde estarão?
Viajei de par com os humildes que tanto me ensinaram.
Viajantes das velhas jardineiras, meus vizinhos
das estradas viaje iras ...
Meus trabalhadores: Manoel Rosa, José Dias, Paulo, Manoel,
João, Mato Grosso, plantadores e enxadeiros, meus vizinhos sitiantes,
onde andarão eles?
Andradina, Castilho, J aboticabal, comissários e boiadeiros, tangerinos,
esta página é toda de vocês.
Fala de longe a velha rapsoda.
Quando eu era menina
bem pequena,
em nossa casa,
certos dias da semana
se fazia um bolo,
assado na panela
com um testo de borralho em cima.
Era um bolo econômico,
como tudo, antigamente.
Pesado, grosso, pastoso.
(Por sinal que muito ruim.)
Eu era menina em crescimento.
Gulosa,
abria os olhos para aquele bolo
que me parecia tão bom
e tão gostoso.
A gente mandona lá de casa
cortava aquele bolo
com importância.
Com atenção. Seriamente.
Eu presente.
Com vontade de comer o bolo todo.
Era só olhos e boca e desejo
daquele bolo inteiro.
Minha irmã mais velha
governava. Regrava.
Me dava uma fatia,
tão fina, tão delgada ...
E fatias iguais às outras manas.
E que ninguém pedisse mais!
E o bolo inteiro,
quase intangível,
se guardava bem guardado,
com cuidado,
num armário alto, fechado,
impossível.
Era aquilo, uma coisa de respeito
Não pra ser comido
assim, sem mais nem menos.
Destinava-se às visitas da noite,
certas ou imprevistas.
Detestadas da meninada.
Criança, no meu tempo de criança,
não valia mesmo nada.
A gente grande da casa,
usava e abusava
de pretensos direitos
de educação.
Por dá-cá-aquela-palha
ralhos e beliscão.
Palmatória e chineladas
não faltavam.
Quando não,
sentada no canto de castigo
fazendo trancinhas
amarrando abrolhos.
"Tomando propósito".
Expressão muito corrente e pedagógica.
Aquela gente antiga,
passadiça, era assim:
severa, ralhadeira.
Não poupava as crianças.
— Valha-me Deus!...
As visitas ...
Como eram queridas,
recebidas, estimadas,
conceituadas, agradadas!
Era gente superenjoada.
Solene, empertigada.
De velhas conversas
que davam sono.
Antigüidades ...
A té os nomes, que não se percam:
Dona Aninha com Seu Quinquim.
Dona Milécia, sempre às voltas
com receitas de bolo, assuntos
de licores e pudins.
D. Benedita com sua filha Lili.
D. Benedita-alta, magrinha.
Lili-baixota, gordinha.
Puxava de uma perna e fazia croché.
E, diziam dela línguas viperinas:
"— Lili, é a bengala de D. Benedita".
Mestra Quina, D. Luisalves,
Saninha de Bili, Sá Mônica.
Gente do Cônego Padre Pio.
D. Joaquina Amâncio ...
Dessa então me lembro bem.
Era amiga do peito de minha bisavó.
Aparecia em nossa casa
quando o relógico dos frades
tinha já marcado 9 horas
e a corneta do quartel, tocado silêncio.
E só se ia quando o galo cantava.
O pessoal da casa,
como era de bom-tom,
se revezava fazendo sala.
Rendidos de sono, davam o fora.
No fim, só ficava mesmo, firme,
minha bisavó.
D. Joaquina era uma velha
grossa, rombuda, aparatosa.
Esquisita.
Demorona.
Cega de um olho.
Gostava de flores e de vestido novo.
Tinha seu dinheiro de contado.
Grossas contas de ouro
no pescoço.
Anéis pelos dedos.
Bichas nas orelhas.
Pitava na palha.
Cheirava rapé.
E era de Paracatu.
O sobrinho que a acompanhava,
enquanto a tia conversava
contando "causos" infindáveis,
dormia estirado
no banco da varanda.
Eu fazia força de ficar acordada
esperando a descida certa
do bolo
encerrado no armário alto.
E quando este aparecia,
vencida pelo sono já dormia.
E sonhava com o imenso armário
cheio de grandes bolos
ao meu alcance.
De manhã cedo
quando acordava,
estremunhada,
com a boca amarga,
-ai de mim-
via com tristeza,
sobre a mesa:
xícaras sujas de café,
pontas queimadas de cigarro.
O prato vazio, onde esteve o bolo,
e um cheiro enjoado de rapé.
Aquela gente antiga era sábia
e sagaz, dominante.
"Criançada, para dentro,"
quando a gente queria era brincar.
Isto no melhor do pique.
"Já falei que o sereno
da boca da noite faz mal" ...
Como sabiam com tanta segurança
e autoridade?
Eram peritas em classitlcar as frutas:
Quente, fria e reimosa.
Quente, abriam perebas nas pernas, na cabeça,
pelos braços.
Fria, encatarroava, dava bronquite.
Reimosa, trazia macutena.
Meti o peito em Goiás
e canto como ninguém.
Canto as pedras,
canto as águas,
as lavadeiras, também.
Cantei um velho quintal
com murada de pedra.
Cantei um portão alto
com escada caída.
Cantei a casinha velha
de velha pobrezinha.
Cantei colcha furada
estendida no lajedo;
muito sentida,
pedi remendos pra ela.
Cantei mulher da vida
conformando a vida dela.
Cantei ouro enterrado
querendo desenterrá.
Cantei cidade largada.
Cantei burro de cangalha
com lenha despejada.
Cantei vacas pastando
no largo tombado.
Agora vai se acabando
Esta minha versejada.
Boto escoras nos serados
Por aqui vou ficando.
A caminhada ...
Amassando a terra.
Carreando pedras.
Construindo com as mãos
sangrando
a minha vida.
Deserta a longa estrada.
Mortas as mãos viris
que se estendiam às minhas.
Dentro da mata bruta
leiteando imensos vegetais,
cavalgando o negro corcel da febre,
desmontado para sempre.
Passa a falange dos mortos ...
Silêncio! Os namorados dormem.
Os poetas cobriram as liras.
Flutuam véus roxos
no espaço.
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TEXTOS EN ESPAÑOL
CORA CORALINA
Cora Coralina, seudónimo literario de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, nació en la ciudad de Goiás. “Soy más vieja que este siglo”, dijo ella en una nota autobiográfica. Ha publicado O Cântico da Volta (1959), Poema dos Becos de Goiás e Estórias Mais (1965), Meu Livro de Cordel (1976) y Estórias da Casa Velha da Ponte (1976). Poetisa trashumante, uno de los nombres imprescindibles de la literatura brasileña contemporánea, Cora Coralina da la impresión de ser, ante todo, la autora de um extenso poema cuyo discurso no se interrumpe de título a título, antes bien encuentra em éstos sus pausas obligadas, sus dosis de estímulo, adquiriendo así, en lo que no es sino um todo, esa poderosa coherencia de canto, de monólogo recôndito. Una unidad que está dada por la insistente requisitoria que
Cora Coralina lanza sobre el rostro de la condición humana, hasta hacer de las preguntas transcendentales de la existência como un leitmotiv de su poesía. Una poesía que se busca a si misma y que por su misma virtualidad encuentra su punto de partida em el ser y no ser espacial, temporal, musical.
TRADUCCIÓN Y NOTA INTRODUCTORIA DE
ADOVALDO FERNANDES SAMPAIO
DE LAS PIEDRAS
Recogí todas las piedras
que vinieron sobre mí.
Levanté una escalera muy alta
y en lo alto subí.
Tejí un tapiz floreado
y en el sueño me perdí.
Una estrada,
un techo,
una casa,
un compañero.
Todo de piedra.
Entre piedras
creció mi poesía.
Mi vida...
Quebrando piedras
y plantando flores.
Entre piedras que me abrumaban
levante la piedra ruda
de mis versos.
HUMILDAD
Señor, haced que yo acepte
Mi pobreza tal como siempre fue.
Que yo no sienta lo que no tengo.
No lamente lo que podría tener
y se perdió por caminos equivocados
y nunca más volvió.
Dad, Señor, que mi humildad
sea como la lluvia deseada
cayendo mansa,
longa noche oscura,
en una tierra sedienta
y en un tejado viejo.
Que yo pueda agraderos
mi cama estrecha,
mis cositas pobres,
mi casa de tierra,
piedras y tablas recompuestas.
y tener siempre un haz de leña
bajo mi fogón de tapia
y encender, yo mismo,
el fuego alegre de mi casa
en la mañana de un nuevo día que empieza.
(De Meu Livro de Cordel, 1976)
Extraído de la obra
VOCES FEMENINAS DE LA POESÍA BRASILEÑA
Goiânia: Editora Oriente, s.d.
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Traducción de
ANA MARÍA PATRONE
(extraídos de KRATOS – Revista Cultural de Nuestra América,
Primavera 2008 – No.2 – 2008 (Perú)
Vengo del siglo pasado
y llevo conmigo todas las edades.
Pertenezco a uma generación
puente, entre los libertadores
de esclavos y el trabajador libre.
Entre una monarquía
caída uma república
que se instalaba.
SABER VIVIR
No sé... si la vida es corta
o demasiado larga para nosotros
pero sé que nada de lo que vivimos
tiene sentido si no tocamos el corazon de las personas.
Muchas veces basta ser
regazo que acoge,
brazo que envuelve,
palabra que conforta,
silencio que respeta,
alegría que contagie,
lágrima que corre,
mirada que acaricia,
deseo que sacie,
amor que motiva.
Y eso no es cosa de otro mundo
es lo que da sentido a la vida.
Y lo que haces con Ella
que no sea ni corta
ni demasiado larga,
pero que sea intensa,
verdadera, pura... mientras dura.
ANITA Y SUS PIEDRAS
No te dejes destruir...
Acopia nuevas piedras
y construye nuevos poemas
recrea tu vida, siempre, siempre.
Remueve las piedras y siembra rosas de rostros dulces.
Recomienza.
Haz de tu vida mezquina
un poema
y viviras en el corazon de los jóvenes
y en la memoria de las generaciones que han de venir.
Sé fontana para ser usada por todos los sedientos.
Toma tu parte
ven a estas páginas
y no obstruyas su uso
a los que tienen sed.
MARCAS
Traduccion: Janet Botti
Tiempo
sin fecha, asientos
entrada - salida
bandera
rincón
letras sueltas
Luna santa
llora suavemente
Libertad
vasto huerto pulsa
viento fuerte
vierte cuentos, leyendas
— entierro de oro.
El sol entremece
los viejos muros.
Manos esclavas
sombras negras
Senzala*
Melancolia
vivienda
injusticia, triste, envejecida
masoquismo — aflicción
Nací
hice
puerta – ventana
raíces profundasl
Cabalgué piedras
en su corazon inmortal
pobre
veste - blanca
río Rojo
Volvi
vieja Casa del Puente
de agua cristalina
sed azul
pasado - origen
cantico ancestral.
* Alojamiento para esclavos.
MI EPITAFIO
Muerta... seré árbol,
seré tronco, seré selva
con muchas raíces
enlazadas en la piedras de mis versos
y com las cuerdas que brotan de una lira.
Página republicada em maio de 2008; republicada em setembro de 2009
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