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BANDEIRA TRIBUZI
José Tribuzi Pinheiro Gomes, nascido em São Luis do Maranhão. Viveu e estudou em Portugal até 1946. Obras: Alguma existência (1947), Rosa da Esperança (1950), Safra (1960), Sonetos (1962), Pele & Osso (1970). Suas Poesias Completas saíram em1979, pela Livraria e Editora Cátedra/INL, com prefácio de Josué Montello. Foi um modernizador, um agitador cultural, influenciando toda uma geração de poetas ludovicences.
ITINERÁRIO DO CORPO A Afonso Felix de Sousa
I O pequeno lugar predestinado: cama – lençóis, colchão e travesseiro: objetos banais pousados sobre a armação de madeira para dois.
Pequeno apartamento de cidade! Pequenos corpos e cansados despem-se, despem roupas, sapatos, conveniências à pequenina luz que afaga as coisas.
Estão nus, lado a lado, sobre o leito e se entrelaçam para desafogo de raivas, lutas, ilusões, sentidos.
Talvez não saibam por que assim se prendem, Já cantam sino pelo novo filho!
II Entre o campo de neve a vida fende-se barbaramente, para dar passagem à colheita que vem sem estações: bicho da terra que se chama homem.
Nove meses guardado e construído com silêncio, carne, sangue e esperança, ei-lo que rasga o ovo e se apresenta disforme, placentário, precioso.
Ela está como o campo após a ceifa. De seus peitos já mana o claro líquido onde a vida se côa como um filtro.
Olha o pequeno corpo que se deita a seu lado, entre o sonho e a realidade, e, brandamente, diz apenas: - Filho!
III Infância triste, tempo de castigos e doces ilusões mas sem brinquedo que teus olhos encontram nas vitrines e tua débil mão jamais alcança.
Porém o corpo vai rompendo elástico pesar do tempo amargo em que floriste. Teus olhos já se pousam sobre a vida embora ignorando-lhe a inocência.
Assim, surgindo vens dos alimentos, cuidados e remédios e o alicerce da sapiência que são letra e número.
Assim te formas resumido corpo que será de homem e continuará brincando em nova trágica maneira.
IV Resides entre o sonho e coisas ásperas, a confusão do trágico e a rosa, a escola, o emprego, o livro clandestino, a refeição modesta, o sono limitado.
Teu corpo é apenas máquina de sexo e coração: toda a razão de ser está na amada, amada inconsistente: olhos, cabelos, seios, agressivos
somente, mas tu a colocas lá bem no centro do mundo e lhe declamas baladas, vossos corpos se aproximam.
Entre comícios, agressões, revoltas, pressa, atenção, estudo, devaneio, estás defronte ao mundo e interrogas.
V A resposta és tu mesmo: corpo de homem, o sentimento e pensamento de homem, passo seguro de homem, ombros de homem, boca, face, palavra e gestos de homem.
O que sabes do mundo! Gestos mágicos te multiplicam ao calor dos corpos. Uma coragem funda, o olhar sábio, avanças com o tempo e o constróis.
A noite existe – não a das carícias, de sono leve, corpos repousando – noite pesando sobre cada coisa.
Avanças bloqueado pela Noite (há muitos, muitos corpos avançando) e teus passos vão dar na madrugada.
VI És fogo que se apaga lentamente. Folhas que vão tombando despem a árvore. Árvore a quem a seiva foi faltando, tua missão se acaba e envelheces.
Teus olhos já cansados de aprender formas, gestos e a grande cor do mundo. Tua boca já cansada de alimentos, de beijos, de palavras, de protesto.
Outros vêm substituir tua coragem com novos braços para a mesma luta, e passos fortes para o mesmo fim.
Tua hora vem chegando necessária. O corpo se dissipa. Tua passagem não terá vermes para devorá-la.
CONCLUSÃO PARA CONSOLO
Bicho da terra estás apenas morto. Já a terra de que és bicho te recobre e uma pequena flor acena, leve, um pequenino adeus sobre teu túmulo.
Tua mulher jamais esquecerá tua sólida figura. Nem teus filhos que em si a reproduzem e prosseguem tua presença em gestos e palavras.
O tempo que rompeu teu rude corpo como inverno passando sobre o campo, não cortou a semente indispensável.
Ele mesmo será propício à nova árvore forte que sustém o mundo e reverdece o chão da vida mágica.
Lamentação do quase ex-príncipe
e, consequentemente, sou aquele para quem tudo que de novo venha recorda o anterior que mais amava.
Sou filho do ruído das palavras de que abusava para, sem sentido, me ver de cores vivas revestido. Não ter lugar real facilitava
o meu estar entre diversas forças, neutro. Menos a idéia que o proveito exerci. Filho do tempo e inculpável,
sempre exaltei gratuitas circunstâncias. Não sei se me defendo, se me odeio, se iludo o meu saber-me e odiar-me.
PAISAGEM
Eis aqui um cão e defronte um homem: ambos o pão da fome comem. Olha o cão a vida triste das pedras (coitado do cão que não pasta ervas) e por fim já morde o osso das trevas.
Olha a vida o homem com saudade amarga. Os olhos do homem já não olham nada. Só, em seus ouvidos de carne fanada, teimam os latidos da morte e do nada.
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