Parte III:

DE ANIMA MUNDI

 

 

Canto 52 -   A Língua

Canto 53 -   Raças e Cores

Canto 54 -   Raízes do Brasil

Canto 55 -   Pernambucanidade

Canto 56 –   O Fator de União Nacional

Canto 57 -   Casa-Grande

Canto 58 -   Pátria Mãe Gentil

Canto 59 -   O Homem Cordial Revisitado

Canto 60 -   Da/De Formação

Canto 61 -   Data Venia

Canto 62 -   Do Sangue e da Terra

Canto 63 -   Brasilidades

Canto 64 -   Antes de tudo um forte?!

Canto 65 -   Mobilidade Social

Canto 66 -   Minorias

Canto 67 -   Por que me ufano

Canto 68 -   O Boi

Canto 69 -   Boi-Brasil

Canto 70 -   Carnavais

Canto 71 -   O Bode Santo

Canto 72 -   O Corpo Santo

Canto 73 -   Arte Barroca

Canto 74 -   Bordados e Labirintos

Canto 75 -   Com Menotti del Picchia

Canto 76 -   Os Pilotis

Canto 77 -   Havia

Canto 78 -   Tupy or not Tupy

Canto 79 -   Antropofagias

Canto 80 -   Verdades Oficiais

Canto 81 -   Prá não dizer que não falei

Canto 82 -   País de/do Futuro

Canto 83 -   Brasil no Microscópio

Canto 84 -   Teleologismos (Súmula)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



 

 

Canto 52

A LÍNGUA

      

      

           “Última flor do Lácio, inculta e bela,

            És, a um tempo, esplendor e sepultura”.

                                        OLAVO BILAC

 

São muitas as línguas do Brasil

— línguas próprias e línguas transplantadas.

 

As próprias, plantadas nas florestas

como raízes profundas de povos

confinados, esquecidos de suas origens:

quase autóctones

quase endêmicas.

 

São muitas as línguas do Brasil

(mesmo não sendo oficiais)

todas climatizadas, tropicalizadas

transformadas pela luz e pelas cores

miscigenadas, com ressábios

de todos os quadrantes e sextantes

(do local e do oriental)

— línguas tatuadas na imensa geografia

por entradas e bandeiras, sesmarias,

pela evangelização e pela escravidão,

pelas várzeas e montanhas, rios

a jusante, pelos sertões e praias

dos chegantes.

 

Língua mestiça, híbrida

— até mesmo castiça

e nunca, mesmo que se queira

(nunca!) a derradeira flor do Lácio.

 

O Português como base de enxertias

como substrato em recomposição,

um suporte, um veículo

de comunicação e comunhão;

sujeita a todas as injunções

e influências vivas

transfronteiras.

 

Na sua diversidade,

nas suas falas e acentos,

nos seus sotaques e polissemias

regionais, é aglutinadora

e, por seu efeito contraditório,

unificadora e pangeográfica.

 

A língua é a pátria brasileira.

 

A geografia do Brasil é a língua

expandida e assentada

ampliando e demarcando

fronteiras.

 

Sotaques chiados, arrastados

sincopados,

falares e dizeres

que comem sons, sílabas, significados

que confundem

mas que se lê nas entrelinhas

se entende nas intenções

nas cadências e malemolências,

gesticulações, arcaísmos,

gírias renovadoras,

estrangeirismos enraizados,

neologismos criativos, sofisticados

nas segundas intenções

nas ausências e permanências

em transfigurações semânticas

e rupturas gramaticais

nas transgressões ortográficas

lexicais.

 

Uma língua com muitas bocas

muitos dentes

antropofágica

antropocêntrica

antropológica

língua com fome, com resíduos

corrosiva

reciclada

aberta e inconclusa

indicionarizável

com acentos demais

que é mais falada do que lida

que é mais ouvida do que escrita

que é ensimesmada e circunscrita.

 

A língua é a pátria que a gente

leva a todo lugar

como identidade

familiar, como um canto de pássaro

de arribação

fazendo reconhecimentos.

 

Não tem sexo nem tem cor

nem idade apesar de tudo isso

e muito mais

— que iguala os desiguais

ou, por antítese, desnivela

porque a língua tem classes

e níveis sociais.

 

Pátria interior, de diálogos silentes

ou de discursos eloqüentes.

 

Também escrevo de ouvido

pelo eco das palavras interiores

reverberando significados e ritmos

inteligíveis.

 

Sentindo a força das palavras

na gradação dos sentimentos

pelas nuanças do pensamento

que me fala e me constrói.

 

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Canto 53

 

RAÇAS E CORES
 

 

No Brasil, Senhor, não há raças

há cores, tonalidades

 

todos os matizes

numa hierarquia de cores, de classes

 

— preconceito, sim

(em casa, velado na rua)

segregação, nem tanto —

 

no processo de embranquecimento.

 

Raça, só dos animais inferiores.

 

Uma mestiçagem devoradora

— cruzamentos

até ao infinito.

 

Uma nova etnia

fundindo ressentimentos

— da escravatura

— dos desterros

— das imigrações

em que se aprende

a dormir em rede,

a despir-se,

em que o dendê e a pimenta

não são mais privilégio de índios e africanos.

 

A luta é entre o arcáico

e o moderno

entre o patriarcal

e o comunitário porque

negros, índios e mestiços

continuam pobres.

 

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Canto 54 

RAÍZES DO BRASIL


 

     “Somos... uns desterrados em nossa terra”.

              SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA

 

Nossas raízes são aéreas, expostas

como chagas lamurientas,

como pragas deletérias,

matérias superpostas.

 

Raízes epífitas

de vegetais transplantados

ou talvez parasitas

implantados em pau-brasil

e seringueiras

ou em quase-eternas aroeiras.

 

Aventureiros buscando o ouro

fácil: não vieram trabalhar

— que o mourejar é de mouro...

querendo extrair do solo excessivo

benefício sem maior sacrifício.

 

Ocupando terras virgens

(queimando-as, poluindo-as)

numa ação predatória

imune de responsabilidades;

numa extração destruidora

(impune!) de minerais finitos.

 

Busca-se um emprego nulo

já que o chulo trabalho

é para o escravo

(ainda que assalariado):

“o ócio importa mais

que o negócio”.

 

Não deve haver patriotismo

em semelhante empresa,

embora haja ufanismo

combinado — sem surpresa —

com um certo pessimismo.

 

Em se plantando, tudo dá.

ou daria, num futurismo

(Brasil, país do futuro

dizia Stephan Sweig)

que contraria (ou adia)

o nosso assumido positivismo.

 

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Canto 55 

PERNAMBUCANIDADE
 

 

   “Não hei de pedir pedindo, senão protestando e argumentando,

       pois esta é a licença e liberdade que tem quem não pede favor

      senão justiça.” Pe. Antônio Vieira

 

I
 

Um modo de ser, de inconformação

e rebeldia – a pernambucanidade.

 

Nascida da luta contra o flamengo

em que o vencido é depois reverenciado:

 

a Mauritssadt dos armadores das Índias Ocidentais

dos casarões debruçados sobre os canais aquáticos.

 

Maurício de Nassau redivivo e totemizado

entrando no ser altivo do pernambucano.

 

No outeiro de Olinda, aquartelados

os revoltosos e os catequisadores.

 

A alma sedenta, sediça, insaciável

na ânsia de justiça e liberdade.

 

Um estado-maior que se espraia

por sertões e mares fronteiriços.

 

Numa regionalidade mais ampla

e sobranceira, universal e brasileira.

 

 

II
 

Do provincianismo de Gilberto Freyre conseguimos

enxergar e interpretar a própria nacionalidade.

 

Diz-se que a unidade brasileira nasceu

e firmou-se nas batalhas dos Guararapes.

 

Ou na Guerra dos Mascates, dos alfaiates,

das lutas sociais de um povo antes de ser nação.

 

Gente guerreira  — as três raças irmanadas —

plantaram sementes de revoluções libertárias.

 

Revolução Republicana de l817

Confederação do Equador de 1824.

 

Tantas outras, heróicas, idealistas, liberais

 — as revoltas populares, levantes, protestos.

 

História e revolução estão gravadas nos azulejos

e nas paredes e nas pontes e igrejas do Recife.

 

Espírito de rebelião aceso, polemista, panfletário!

Frei Caneca, o abolicionista Nabuco, o insurgente Julião.

 

 

III
 

Sertão adentro, dos canaviais à caatinga

Pernambuco é estirão da mata ao agreste.

 

Cabra-da-peste xerófito e também atávico

no seu degredo de morte e vida severina.

 

De outras guerras, romarias e cangaços

nas trilhas cáusticas dos tantos retirantes.

 

Imprecações, blasfêmias, queixas, heresias

nas procissões silenciosas de povos errantes.

 

Nas fantasias salvadoristas dos cordéis

nas profecias apocalípticas, enredos medievais.

 

Um certo fatalismo de acentos telúricos

e um libelo pela ingratidão de Deus.

 

Conseqüente, o sermão do padre Antônio Vieira

é vidente, combativo, irreverente, comandante:

 

“Tão presumido venho de vossa misericórdia, Deus

meu, que ainda que nós somos os pecadores,

 

vós haveis de ser o arrependido”.  Vieira

ensandecido, cobra a conversão e a remissão

 

divinas.

 

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Canto 56

 

O FATOR DE UNIÃO NACIONAL

 
      “E fizeram filhos nas senhoras e nas escravas”.
 OSWALD DE ANDRADE

 

Gilberto Freyre garante

com farta e firme documentação

que a unidade brasileira se deu

antes pela religião

que pela língua.

 

Pode ser.

Ou não.

 

Se pelo número de igrejas:

a nação mais católica...

Pela catequese e reduções de índios

e escravos. Cristãos-novos, conversões.

Pelo exclusivismo religioso

pela Santa Inquisição.

 

Nem tanto pela devoção.

 

Uma relação promíscua com o santo

familiar, a quem se pedia tanto

e se punia e blasfemava

quando nada acontecia...

 

Santos afogados, emborcados, enterrados...

 

Escapulários e figas-de-guiné

— um certo ou incerto fetichismo

(animismo e até animalismo)

mesclado ao culto de Deus

e nossa paixão pelo Encarnado

num sincretismo de terreiro

e pajelança.

 

Se estamos de passagem

para onde é que vamos?

Melhor perguntar, de onde

viemos. Esse messianismo

sem Deus: injustiça na terra

como no Céu.

 

O que uniu o Brasil foi

o misticismo ou a mestiçagem?

 

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Canto 57

 

CASA-GRANDE
 

 

    “onde melhor se exprimiu o caráter brasileiro”.

                                  GILBERTO FREYRE

 

Lembranças atávicas, ancestros

de que viemos (desmemórias)

por gerações e degenerações

sofremos — inglória —

perdida história

que não vivemos.

 

A casa impávida erguida

como fortaleza sobranceira

como claustro, protegida

da devassa, da senzala

em que se extravasa

o senhor feudal

transfigurado e libertino.

 

Um gosto de mando

de um despótico prazer

de possuir e usufruir

— origem de todo nepostismo

e de qualquer coronelismo.

 

Os bisavós na parede,

bisonhos, emoldurados

em relicários, com santos

e escapulários.

 

Cidadela mais importante

que a capela – seu prolongamento.

 

Parentela, agregados, serventias

pelos engenhos-de-cana

pelos cafezais enobrecidos

pelo tabaco curtido

o senhor e sua sesmaria

da mãe-índia – gentia – cunhã,

de negra possuída e grávida,

de terra escrava e cultivada

na manhã de nossa origem.

 

Os mortos enterrados no pátio

no adro da capela

prantos mantos encantados

nos quartos das virgens

infensas aos pecados.

 

Agora, séculos passados, são

mansões avarandadas

ainda patriarcais

detrás de grades graves

amuralhadas, senhoriais.

 

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Canto  58

 

PÁTRIA MÃE GENTIL
 

 

I
 

A nossa tão propalada

— decantada em prosa e verso –

cordialidade

de onde vem?

 

Quem primeiro observou

tão controverso entendimento

e registrou tão ínclito dom?
 

 

II
 

Pedro Álvares Cabral encantou-se

com a hospitalidade dos naturais

da terra nova;

Jean de Lévy considerou-os cordiais

(os tupinambás)

 por viverem em paz

(não obstante o canibalismo...).

 

A cordialidade certamente

vem da terra dadivosa

(bastante)

suficiente para alimentar aquela gente

e torná-la feliz:

um povo errante

migrando sempre para “sentir-se melhor”

porque a terra era livre

da propriedade.

 

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Canto 59

 

O HOMEM CORDIAL REVISITADO
 

 

       “Não existe, entre o círculo familiar

            e o Estado, uma gradação

            mas antes uma descontinuidade

            e até uma oposição”.

                     SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA

 

 

Um mito, ou um hito.

 

Não sei de onde vem

ou quem disseminou

a aleivosia

melhor seria

uma crendice

e não uma constatação.

 

Sei não. Sei lá!

 

Valores apregoados

— a generosidade, a hospitalidade

um caráter benévolo —

de onde vêm?

— talvez da casa

e não da sociedade

e na cidade se diluem.

 

Cordialidade sem formalismo

nada ritual e sem convencionalismo

— ou seria visceral

sem a polidez do japonês

e a fleuma estéril britânica

oposta à vulcânica expressividade

mediterrânea.

 

Estar sempre “muito obrigado”.

 

Fazendo “reverência prolongada

ante um superior” até conquistar-lhe

a deferência

como haveríamos de supor

na intimidade.

 

Porque amamos as referências

particularizantes,

os privilégios

e os jeitinhos,

a espontaneidade.

 

Isso: cultivamos os diminutivos

como forma de carinho

e familiaridade

no nosso projeto de aproximação

com as pessoas

e com o objeto.

 

Uma certa promiscuidade

de relacionamento.

 

Um comportamento

complacente, levado

à conformidade. Tudo bem...

 

Preferimos o nome de batismo

ao sobrenome de família,

sobressaindo o indivíduo:

Fernando Henrique

e nunca o Cardoso ubíquo

e até mesmo o apelido:

Lula, Chico, Zé.

 

Amizade como condição

de convivência e mesmo

dos negócios.

 

Ter adversários

mas, inimigos, jamais.

 

Gente de pouca devoção

nada solene, avessa ao cerimonial

(quebrando hierarquias e protocolos)

pouco dada ao fanatismo

e sem maiores convicções.

 

Avessa ao culto da autoridade

e dos heróis nacionais,

infensa ao idolatrismo,

mas apegada ao bacharelismo

e ao “você-sabe-com-quem-está-falando”

nas relações sociais.

 

Ínclitos praticantes da miscigenação

transcendendo as barreiras raciais

sem, contudo, superá-las.

 

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Canto 60

 

DA/DE FORMAÇÃO
 

 

               “fundamento da boa ordem baseada na natural

                e necessária desigualdade entre os homens”

                   Istvám Jancsó e João Paulo G. Pimenta

 

Onde o Brasil? Pergunta Drummond

no estranhamento mineiro do poeta

— mais que gauche, um desigual.

 

Somos iguais na desigualdade

— ludovicenses, pernambucanos, paulistas-

povos ligados à coroa

antes que à nação.

 

Onde o Brasil, se aqui estamos

antes de sermos:

nosso pertencimento

vem de povos circunscritos

mas sem lugar para os nativismos

e independentismos.

 

De onde viemos? O que somos?

Responde Ab´Sáber: paleoíndios

nômades ameríndios

— de alóctones a autóctones

 

arqueologias, genealogias milenárias

pelas eliminações étnicas trágicas,

por miscigenações infinitas

 

todos os estoques raciais do mundo:

mongolóides, caucásicos, negróides.

 

Dos tupi-guaranis aos europeus

transplantados, degradados

no confronto incontornável

e pela assimilação

inconsútil.

 

“Que me quer o Brasil que me persegue?”

— pergunta Gregório de Mattos Guerra

vendo reinóis e colonos promíscuos

procriando-se

interracializando-se

desde o Achamento

da terra nova:

entre o conquistador

e o gentio.

 

E recorde-se:

“os mamelucos são a pior casta

de gente de todo o Brasil”

(Relatório Cearense à Coroa, 1724).

 

Gente de “qualidade de sangue

desconhecida”

bastardos, não bastasse

“a grande liberdade

com que vivem”.

 

E “que não se tome e recebão

para Religiosos pessoa

que tenha raça de mestiço”

no Mosteiro de São Bento

(Bahia, 1602).

 

Terra de papagaios

 

dos brancos quase negros

dos negros quase brancos

 

mulatos insolentes

desejando ser fidalgos

 

e onde

“todo aquele que he branco de cor

entende estar fora da esfera vulgar”

arremata Loreto Couto (1757).

 

Trabalho é coisa de negros.

 

Para o espanto

de Thomas Lindley (1805)

ao ver o criado conversando com o seu senhor

de igual para igual

discutindo suas ordens

sendo “aceito pelo senhor”

e “essa atitude se estende aos mulatos

e até aos negros”...

 

“Comum povo livre e não sujeito”

conclui Fernão Lopes

numa formação de raras rupturas

e confrontos.

 

Essa arraia-miúda rediviva

esta “gente [remanescente]

da terra braziliense de naszão“

— as pátrias são as províncias

a Nação, a Monarquia —

recebe a Corte e depois a Independência

sem “qualquer merecimento”.

 

E chegamos ao paroxismo:

“É da maior necessidade ir acabando

tanta heterogeneidade”, e

“combinar sabiamente tantos elementos

discordes e contrários

e em amalgamar tantos metais diversos

para que saia um Todo homogêneo e compacto”

(José Bonifácio de Andrada e Silva)

mesmo que num contexto escravagista

já que somos iguais, mas diferenciados.

 

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Canto 61

 

DATA VENIA
 

 

discursos empolados

numa eloqüência vazia

 

palavras edulcoradas,

verborréia filigramática

 

uma solene oratória

de retórica burocrática

 

de uma superioridade anelar

bacharelesca e autárquica

 

de onde sobrevém o papelório

de quem aspira ao cartório

 

resolvendo tudo por decreto

(ou por medida provisória)

 

pela lei enviesada e torta

eivada de circunlóquios

 

fazendo tábua rasa de tudo

— de tudo que é precedente

 

para ir ao “finalmente”

de uma certa descontinuidade.

 

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Canto 62

 

DO SANGUE E DA TERRA

 

        “O brasileiro  mostra espiritual e animicamente

               a frondosidade da flora brasileira”.

                        CONDE DE KEYSERLING

 

O Conde de Keyserling via no brasileiro

um ser magnânimo,

frondoso e vicejante como a flora circundante

carecendo de rudeza

mesmo em sua rusticidade.

 

O Conde de Keyserling

percebeu e interpretou

a contradição e a polarização

— contrários em comunhão? — 

de nosso positivismo

(anímico e antimetafísico)

com o nosso saudosismo

e um certo romantismo...

num morrer e renascer

ruminante e conseqüente.

 

Nunca seríamos mesquinhos

nem limitados.

Teríamos sempre um encanto,

um verniz...

 

Nossa geografia é ampla

e sem ameaça

— razão da estabilidade da raça

na conformidade das misturas.

 

Um ambiente afrodisíaco

propício ao acasalamento

livrou-nos de preconceitos

[além de certos preceitos

mais sociais que raciais...

(mesmo sem pasteurizar-nos

e sim, amalgamar-nos?)]

na aceitação da terra

e de seu povoamento.

 

O Conde de Keyserling via

na junção de negros, índios,

brancos numa europeização definitiva...

 

O Brasil seria cada vez mais branco

ainda que no arco-íris de sua mutação.

 

(O francês estranha um oriental

falando português...

mas o nissei e o sansei

não sei se sentem alguma diferença.

 

Quem melhor entendeu

a condição do brasileiro

foi a imigração ianque

ao carimbar o passaporte

do negro e do oriental brasileiro:

— todos são latinos.)

 

O Conde de Keyserling

estranhou o sentido de justiça

do povo brasileiro:

avançado, vanguardista

no Direito Internacional

mas – paradoxal!!!- mais

na percepção da forma do direito

do que no sentimento de justiça.

 

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Canto 63 

BRASILIDADES

 

I
 

O povo da terra é de mui variada

textura e feitura,

de todas as alturas e conformidades

— impossível dizer de que raça são

senão que compõem misturas

e composturas variegadas,

híbridas, cruzadas.

 

Bonitas, as mulheres

(e também os homens)

algo mestiças

mesmo as que parecem brancas

ou negras ou amarelas

porque algo as identifica

na diversidade.

 

 

II
 

No porto da Bahia, os sorrisos são largos

e os movimentos dançantes

como palmeiras flamejantes,

são hospitaleiros, alegres, comunicativos

menos tímidos que os de África

(parece que vieram de lá,

mas aqui é que miscigenaram)

e andam seminus.

 

A arquitetura antiga é de um barroco

tardio, com adornos de cajus em vez de uvas

talhados gracilmente em pedras e madeiras.

São tantas as igrejas  e seus estilos

mas andam vazias

mais gente há nas escadarias, nos átrios

nas proximidades do que dentro delas

e praticam alguma forma

de sincretismo religioso

(que a gente da terra nem percebe)

sem maiores conflitos.

 

A ocupação batava dos séculos 16 e 17

resume-se a uma fortaleza de pedra

e a uns olhos acaramelados

a umas mechas douradas

de alguns descendentes

(mas eles não sabem disso).

 

Fácil é ver as raízes ultramarinas

portuguesas e africanas

na indumentária, na culinária

nos costumes indígenas

mas tudo entrelaçado

e devidamente aclimatado.
 

 

III
 

Em Pernambuco todos são holandeses

mesmo os negros e os mamelucos

se não na pele, no orgulho

e na postura intelectual.

 

No outeiro de Olinda os sinos rompem os séculos

de sua colonização

enquanto em Recife –— a Veneza americana —

continuam os mascates, os mouros

e toda a gente de pele de cobre e azinhavre

como caranguejos no mangue.

 

Mais que o mar que é detido pelos arrecifes

impressiona o mar dos canaviais estendidos

devorando toda terra plana ou ondulada

até as bordas do agreste.
 

 

IV
 

Só a caatinga cinza e espinhenta

detém a cana e seu latifúndio

expandindo-se em miséria e insolação

na direção das Alagoas, do Sergipe

da Bahia e Paraíba

na direção do São Francisco

e depois delas

até às entranhas do Ceará

e mesmo no Piauí.

 

De comum, a seca e o bode,

a pele curtida pelo sol inclemente,

a fome e a crença nos elementos,

o mandacarú.

 

Por aqui andaram Antônio Conselheiro

o padre Cícero Romão e o famigerado Lampião

a Coluna Prestes

 

O sertanejo é antes de tudo um forte

(garante Euclides da Cunha)

comendo raízes e bebendo do sereno escasso.

 

Retirantes, esmoleres e pedintes,  vaqueiros de gibão,

penitentes, romeiros, vendedores ambulantes,

poetas errantes, religiosos, repentistas.
 

 

V
 

O sebastianismo continua vivo

no pensamento figurado

oposto ao pensamento letrado

do litoral.

 

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Canto 64

 

ANTES DE TUDO UM FORTE?!

 

Euclides da Cunha achava o mestiço

“um decaído”, “um mutilado”

que reúne o pior de duas raças...

“sem a energia física dos ascendentes selvagens,

sem a altitude intelectual dos ancestrais superiores”!!!

 

Nunca a melhor qualidade dos dois!

 

“Feridos pela fatalidade das leis biológicas”,

condenados à degeneração

e à inferioridade...

 

Incapaz de solidarizar-se

com qualquer de suas origens.

Sem a capacidade abstrata

com “uma moralidade rudimentar”.

 

Para ele, o mestiço é um intruso

“dispensivo e dissolvente”

“sem caracteres próprios”

com tendência à regressão

“às raízes matrizes”

daí sua instabilidade...

 

O mulato despreza o negro

e tenta embranquecer-se...

O mameluco faz-se bandeirante

e vai dizimar os índios...

 

Para ele, “são invioláveis as leis

do desenvolvimento das espécies”

e a parte “superior” do mestiço

tende a restaurar-se...

 

E completa, inexorável, sua razão:

Quando “a raça forte não destrói pelas armas,

esmaga-a pela civilização”...

 

Salva-se da degeneração, o sertanejo

— que “é um retrógrado, não é um degenerado”

de uma raça cruzada que surge autônoma

e de algum modo original

adaptada ao meio

e capaz de alcançar a vida civilizada...

 

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Canto 65 

MOBILIDADE SOCIAL

 

os brancos das casas-grandes

e os negros das senzalas

 

os brancos dos sobrados

e os mulatos dos mocambos

 

os brancos dos palacetes

e os caboclos das palafitas

 

os brancos dos edifícios

e os mestiços das favelas