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Canto 52
A LÍNGUA
“Última
flor do Lácio, inculta e bela,
És, a
um tempo, esplendor e sepultura”.
OLAVO BILAC
São muitas as
línguas do Brasil
— línguas
próprias e línguas transplantadas.
As próprias,
plantadas nas florestas
como raízes
profundas de povos
confinados,
esquecidos de suas origens:
quase autóctones
quase endêmicas.
São muitas as
línguas do Brasil
(mesmo não sendo
oficiais)
todas
climatizadas, tropicalizadas
transformadas
pela luz e pelas cores
miscigenadas, com
ressábios
de todos os
quadrantes e sextantes
(do local e do
oriental)
— línguas
tatuadas na imensa geografia
por entradas e
bandeiras, sesmarias,
pela
evangelização e pela escravidão,
pelas várzeas e
montanhas, rios
a jusante, pelos
sertões e praias
dos chegantes.
Língua mestiça,
híbrida
— até mesmo
castiça
e nunca, mesmo
que se queira
(nunca!) a
derradeira flor do Lácio.
O Português como
base de enxertias
como substrato em
recomposição,
um suporte, um
veículo
de comunicação e
comunhão;
sujeita a todas
as injunções
e influências
vivas
transfronteiras.
Na sua
diversidade,
nas suas falas e
acentos,
nos seus sotaques
e polissemias
regionais, é
aglutinadora
e, por seu efeito
contraditório,
unificadora e
pangeográfica.
A língua é a
pátria brasileira.
A geografia do
Brasil é a língua
expandida e
assentada
ampliando e
demarcando
fronteiras.
Sotaques chiados,
arrastados
sincopados,
falares e dizeres
que comem sons,
sílabas, significados
que confundem
mas que se lê nas
entrelinhas
se entende nas
intenções
nas cadências e
malemolências,
gesticulações,
arcaísmos,
gírias
renovadoras,
estrangeirismos
enraizados,
neologismos
criativos, sofisticados
nas segundas
intenções
nas ausências e
permanências
em
transfigurações semânticas
e rupturas
gramaticais
nas transgressões
ortográficas
lexicais.
Uma língua com
muitas bocas
muitos dentes
antropofágica
antropocêntrica
antropológica
língua com fome,
com resíduos
corrosiva
reciclada
aberta e
inconclusa
indicionarizável
com acentos
demais
que é mais falada
do que lida
que é mais ouvida
do que escrita
que é ensimesmada
e circunscrita.
A língua é a
pátria que a gente
leva a todo lugar
como identidade
familiar, como um
canto de pássaro
de arribação
fazendo
reconhecimentos.
Não tem sexo nem
tem cor
nem idade apesar
de tudo isso
e muito mais
— que iguala os
desiguais
ou, por antítese,
desnivela
porque a língua
tem classes
e níveis sociais.
Pátria interior,
de diálogos silentes
ou de discursos
eloqüentes.
Também escrevo de
ouvido
pelo eco das
palavras interiores
reverberando
significados e ritmos
inteligíveis.
Sentindo a força
das palavras
na gradação dos
sentimentos
pelas nuanças do
pensamento
que me fala e me
constrói.
Canto 53
RAÇAS E CORES
No Brasil,
Senhor, não há raças
há cores,
tonalidades
todos os matizes
numa hierarquia
de cores, de classes
— preconceito,
sim
(em casa, velado
na rua)
segregação, nem
tanto —
no processo de
embranquecimento.
Raça, só dos
animais inferiores.
Uma mestiçagem
devoradora
— cruzamentos
até ao infinito.
Uma nova etnia
fundindo
ressentimentos
— da escravatura
— dos desterros
— das imigrações
em que se aprende
a dormir em rede,
a despir-se,
em que o dendê e
a pimenta
não são mais
privilégio de índios e africanos.
A luta é entre o
arcáico
e o moderno
entre o
patriarcal
e o comunitário
porque
negros, índios e
mestiços
continuam pobres.
Canto 54
RAÍZES DO BRASIL
“Somos...
uns desterrados em nossa terra”.
SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA
Nossas raízes
são aéreas, expostas
como chagas
lamurientas,
como pragas
deletérias,
matérias
superpostas.
Raízes epífitas
de vegetais
transplantados
ou talvez
parasitas
implantados em
pau-brasil
e seringueiras
ou em
quase-eternas aroeiras.
Aventureiros
buscando o ouro
fácil: não vieram
trabalhar
— que o mourejar
é de mouro...
querendo extrair
do solo excessivo
benefício sem
maior sacrifício.
Ocupando terras
virgens
(queimando-as,
poluindo-as)
numa ação
predatória
imune de
responsabilidades;
numa extração
destruidora
(impune!) de
minerais finitos.
Busca-se um
emprego nulo
já que o chulo
trabalho
é para o escravo
(ainda que
assalariado):
“o ócio importa
mais
que o negócio”.
Não deve
haver patriotismo
em semelhante
empresa,
embora haja
ufanismo
combinado — sem
surpresa —
com um certo
pessimismo.
Em se plantando,
tudo dá.
ou daria, num
futurismo
(Brasil, país do
futuro
dizia Stephan
Sweig)
que contraria (ou
adia)
o nosso assumido
positivismo.
Canto 55
PERNAMBUCANIDADE
“Não hei de
pedir pedindo, senão protestando e argumentando,
pois esta
é a licença e liberdade que tem quem não pede favor
senão
justiça.” Pe.
Antônio Vieira
I
Um modo de
ser, de inconformação
e rebeldia – a
pernambucanidade.
Nascida da luta
contra o flamengo
em que o vencido
é depois reverenciado:
a Mauritssadt dos
armadores das Índias Ocidentais
dos casarões
debruçados sobre os canais aquáticos.
Maurício de
Nassau redivivo e totemizado
entrando no ser
altivo do pernambucano.
No outeiro de
Olinda, aquartelados
os revoltosos e
os catequisadores.
A alma sedenta,
sediça, insaciável
na ânsia de
justiça e liberdade.
Um estado-maior
que se espraia
por sertões e
mares fronteiriços.
Numa
regionalidade mais ampla
e sobranceira,
universal e brasileira.
II
Do
provincianismo de Gilberto Freyre conseguimos
enxergar e
interpretar a própria nacionalidade.
Diz-se que a
unidade brasileira nasceu
e firmou-se nas
batalhas dos Guararapes.
Ou na Guerra dos
Mascates, dos alfaiates,
das lutas sociais
de um povo antes de ser nação.
Gente guerreira
— as três raças irmanadas —
plantaram
sementes de revoluções libertárias.
Revolução
Republicana de l817
Confederação do
Equador de 1824.
Tantas outras,
heróicas, idealistas, liberais
— as revoltas
populares, levantes, protestos.
História e
revolução estão gravadas nos azulejos
e nas paredes e
nas pontes e igrejas do Recife.
Espírito de
rebelião aceso, polemista, panfletário!
Frei Caneca, o
abolicionista Nabuco, o insurgente Julião.
III
Sertão
adentro, dos canaviais à caatinga
Pernambuco é
estirão da mata ao agreste.
Cabra-da-peste
xerófito e também atávico
no seu degredo de
morte e vida severina.
De outras
guerras, romarias e cangaços
nas trilhas
cáusticas dos tantos retirantes.
Imprecações,
blasfêmias, queixas, heresias
nas procissões
silenciosas de povos errantes.
Nas fantasias
salvadoristas dos cordéis
nas profecias
apocalípticas, enredos medievais.
Um certo
fatalismo de acentos telúricos
e um libelo pela
ingratidão de Deus.
Conseqüente, o
sermão do padre Antônio Vieira
é vidente,
combativo, irreverente, comandante:
“Tão
presumido venho de vossa misericórdia, Deus
meu, que ainda
que nós somos os pecadores,
vós haveis de ser
o arrependido”.
Vieira
ensandecido,
cobra a conversão e a remissão
divinas.
Canto 56
O FATOR DE UNIÃO NACIONAL
“E fizeram filhos nas senhoras e nas escravas”.
OSWALD DE ANDRADE
Gilberto Freyre
garante
com farta e firme
documentação
que a unidade
brasileira se deu
antes pela
religião
que pela língua.
Pode ser.
Ou não.
Se pelo número de
igrejas:
a nação mais
católica...
Pela catequese e
reduções de índios
e escravos.
Cristãos-novos, conversões.
Pelo exclusivismo
religioso
pela Santa
Inquisição.
Nem tanto pela
devoção.
Uma relação
promíscua com o santo
familiar, a quem
se pedia tanto
e se punia e
blasfemava
quando nada
acontecia...
Santos afogados,
emborcados, enterrados...
Escapulários e
figas-de-guiné
— um certo ou
incerto fetichismo
(animismo e até
animalismo)
mesclado ao culto
de Deus
e nossa paixão
pelo Encarnado
num sincretismo
de terreiro
e pajelança.
Se estamos de
passagem
para onde é que
vamos?
Melhor perguntar,
de onde
viemos. Esse
messianismo
sem Deus:
injustiça na terra
como no Céu.
O que uniu o
Brasil foi
o misticismo ou a
mestiçagem?
Canto 57
CASA-GRANDE
“onde melhor
se exprimiu o caráter brasileiro”.
GILBERTO FREYRE
Lembranças atávicas, ancestros
de que viemos (desmemórias)
por gerações e
degenerações
sofremos —
inglória —
perdida história
que não vivemos.
A casa impávida
erguida
como fortaleza
sobranceira
como claustro,
protegida
da devassa, da
senzala
em que se
extravasa
o senhor feudal
transfigurado e
libertino.
Um gosto de mando
de um despótico
prazer
de possuir e
usufruir
— origem de todo
nepostismo
e de qualquer
coronelismo.
Os bisavós na
parede,
bisonhos,
emoldurados
em relicários,
com santos
e escapulários.
Cidadela mais
importante
que a capela –
seu prolongamento.
Parentela,
agregados, serventias
pelos
engenhos-de-cana
pelos cafezais
enobrecidos
pelo tabaco
curtido
o senhor e sua
sesmaria
da mãe-índia –
gentia – cunhã,
de negra possuída
e grávida,
de terra escrava
e cultivada
na manhã de nossa
origem.
Os mortos
enterrados no pátio
no adro da capela
prantos mantos
encantados
nos quartos das
virgens
infensas aos
pecados.
Agora, séculos
passados, são
mansões
avarandadas
ainda patriarcais
detrás de grades
graves
amuralhadas,
senhoriais.
Canto 58
PÁTRIA MÃE GENTIL
I
A nossa tão
propalada
— decantada em
prosa e verso –
cordialidade
de onde vem?
Quem primeiro
observou
tão controverso
entendimento
e registrou tão
ínclito dom?
II
Pedro Álvares
Cabral encantou-se
com a
hospitalidade dos naturais
da terra nova;
Jean de Lévy
considerou-os cordiais
(os tupinambás)
por viverem em
paz
(não obstante o
canibalismo...).
A cordialidade
certamente
vem da terra
dadivosa
(bastante)
suficiente para
alimentar aquela gente
e torná-la feliz:
um povo errante
migrando sempre
para “sentir-se melhor”
porque a terra
era livre
da propriedade.
Canto 59
O
HOMEM CORDIAL REVISITADO
“Não
existe, entre o círculo familiar
e o
Estado, uma gradação
mas
antes uma descontinuidade
e até
uma oposição”.
SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA
Um mito, ou um
hito.
Não sei de onde
vem
ou quem
disseminou
a aleivosia
melhor seria
uma crendice
e não uma
constatação.
Sei não. Sei lá!
Valores
apregoados
— a generosidade,
a hospitalidade
um caráter
benévolo —
de onde vêm?
— talvez da casa
e não da
sociedade
e na cidade se
diluem.
Cordialidade sem
formalismo
nada ritual e sem
convencionalismo
— ou seria
visceral
sem a polidez do
japonês
e a fleuma
estéril britânica
oposta à
vulcânica expressividade
mediterrânea.
Estar sempre
“muito obrigado”.
Fazendo
“reverência prolongada
ante um superior”
até
conquistar-lhe
a deferência
como haveríamos
de supor
na intimidade.
Porque amamos as
referências
particularizantes,
os privilégios
e os jeitinhos,
a espontaneidade.
Isso: cultivamos
os diminutivos
como forma de
carinho
e familiaridade
no nosso projeto
de aproximação
com as pessoas
e com o objeto.
Uma certa
promiscuidade
de
relacionamento.
Um comportamento
complacente,
levado
à conformidade.
Tudo bem...
Preferimos o nome
de batismo
ao sobrenome de
família,
sobressaindo o
indivíduo:
Fernando Henrique
e nunca o Cardoso
ubíquo
e até mesmo o
apelido:
Lula, Chico, Zé.
Amizade como
condição
de convivência e
mesmo
dos negócios.
Ter adversários
mas, inimigos,
jamais.
Gente de pouca
devoção
nada solene,
avessa ao cerimonial
(quebrando
hierarquias e protocolos)
pouco dada ao
fanatismo
e sem maiores
convicções.
Avessa ao culto
da autoridade
e dos heróis
nacionais,
infensa ao
idolatrismo,
mas apegada ao
bacharelismo
e ao
“você-sabe-com-quem-está-falando”
nas relações
sociais.
Ínclitos
praticantes da miscigenação
transcendendo as
barreiras raciais
sem, contudo,
superá-las.
Canto 60
DA/DE
FORMAÇÃO
“fundamento da boa ordem baseada na natural
e
necessária desigualdade entre os homens”
Istvám Jancsó e João Paulo G. Pimenta
Onde o Brasil?
Pergunta Drummond
no estranhamento
mineiro do poeta
— mais que
gauche, um desigual.
Somos iguais na
desigualdade
— ludovicenses,
pernambucanos, paulistas-
povos ligados à
coroa
antes que à
nação.
Onde o Brasil,
se aqui estamos
antes de
sermos:
nosso
pertencimento
vem de povos
circunscritos
mas sem lugar
para os nativismos
e
independentismos.
De onde viemos?
O que somos?
Responde
Ab´Sáber: paleoíndios
nômades
ameríndios
— de alóctones a
autóctones
arqueologias,
genealogias milenárias
pelas eliminações
étnicas trágicas,
por miscigenações
infinitas
todos os estoques
raciais do mundo:
mongolóides,
caucásicos, negróides.
Dos tupi-guaranis
aos europeus
transplantados,
degradados
no confronto
incontornável
e pela
assimilação
inconsútil.
“Que me quer
o Brasil que me persegue?”
— pergunta
Gregório de Mattos Guerra
vendo reinóis e
colonos promíscuos
procriando-se
interracializando-se
desde o Achamento
da terra nova:
entre o
conquistador
e o gentio.
E recorde-se:
“os mamelucos são
a pior casta
de gente de todo
o Brasil”
(Relatório
Cearense à Coroa, 1724).
Gente de
“qualidade de sangue
desconhecida”
bastardos, não
bastasse
“a grande
liberdade
com que vivem”.
E “que não se
tome e recebão
para Religiosos
pessoa
que tenha raça de
mestiço”
no Mosteiro de
São Bento
(Bahia, 1602).
Terra de
papagaios
dos brancos quase
negros
dos negros quase
brancos
mulatos
insolentes
desejando ser
fidalgos
e onde
“todo aquele que
he branco de cor
entende estar
fora da esfera vulgar”
arremata Loreto
Couto (1757).
Trabalho é coisa
de negros.
Para o espanto
de Thomas Lindley
(1805)
ao ver o criado
conversando com o seu senhor
de igual para
igual
discutindo suas
ordens
sendo “aceito
pelo senhor”
e “essa
atitude se estende aos mulatos
e até aos
negros”...
“Comum povo livre
e não sujeito”
conclui Fernão
Lopes
numa formação de
raras rupturas
e confrontos.
Essa arraia-miúda
rediviva
esta “gente
[remanescente]
da terra
braziliense de naszão“
— as pátrias são
as províncias
a Nação, a
Monarquia —
recebe a Corte e
depois a Independência
sem “qualquer
merecimento”.
E chegamos ao
paroxismo:
“É da maior
necessidade ir acabando
tanta
heterogeneidade”,
e
“combinar
sabiamente tantos elementos
discordes e
contrários
e em amalgamar
tantos metais diversos
para que saia um
Todo homogêneo e compacto”
(José Bonifácio
de Andrada e Silva)
mesmo que num
contexto escravagista
já que somos
iguais, mas diferenciados.
Canto 61
DATA VENIA
discursos empolados
numa eloqüência
vazia
palavras
edulcoradas,
verborréia
filigramática
uma solene
oratória
de retórica
burocrática
de uma
superioridade anelar
bacharelesca e
autárquica
de onde sobrevém
o papelório
de quem aspira ao
cartório
resolvendo tudo
por decreto
(ou por medida
provisória)
pela lei
enviesada e torta
eivada de
circunlóquios
fazendo tábua
rasa de tudo
— de tudo que é
precedente
para ir ao
“finalmente”
de uma certa
descontinuidade.
Canto 62
DO SANGUE E DA TERRA
“O
brasileiro mostra espiritual e animicamente
a
frondosidade da flora brasileira”.
CONDE DE KEYSERLING
O Conde de
Keyserling via no brasileiro
um ser magnânimo,
frondoso e
vicejante como a flora circundante
carecendo de
rudeza
mesmo em sua
rusticidade.
O Conde de
Keyserling
percebeu e
interpretou
a contradição e a
polarização
— contrários em
comunhão? —
de nosso
positivismo
(anímico e
antimetafísico)
com o nosso
saudosismo
e um certo
romantismo...
num morrer e
renascer
ruminante e
conseqüente.
Nunca seríamos
mesquinhos
nem limitados.
Teríamos sempre
um encanto,
um verniz...
Nossa geografia é
ampla
e sem ameaça
— razão da
estabilidade da raça
na conformidade
das misturas.
Um ambiente
afrodisíaco
propício ao
acasalamento
livrou-nos de
preconceitos
[além de certos
preceitos
mais sociais que
raciais...
(mesmo sem
pasteurizar-nos
e sim,
amalgamar-nos?)]
na aceitação da
terra
e de seu
povoamento.
O Conde de
Keyserling via
na junção de
negros, índios,
brancos numa
europeização definitiva...
O Brasil seria
cada vez mais branco
ainda que no
arco-íris de sua mutação.
(O francês
estranha um oriental
falando
português...
mas o nissei e o
sansei
não sei se sentem
alguma diferença.
Quem melhor
entendeu
a condição do
brasileiro
foi a imigração
ianque
ao carimbar o
passaporte
do negro e do
oriental brasileiro:
— todos são
latinos.)
O Conde de
Keyserling
estranhou o
sentido de justiça
do povo
brasileiro:
avançado,
vanguardista
no Direito
Internacional
mas –
paradoxal!!!- mais
na percepção da
forma do direito
do que no
sentimento de justiça.
Canto
63
BRASILIDADES
I
O povo da
terra é de mui variada
textura e
feitura,
de todas as
alturas e conformidades
— impossível
dizer de que raça são
senão que compõem
misturas
e composturas
variegadas,
híbridas,
cruzadas.
Bonitas, as
mulheres
(e também os
homens)
algo mestiças
mesmo as que
parecem brancas
ou negras ou
amarelas
porque algo as
identifica
na diversidade.
II
No porto da
Bahia, os sorrisos são largos
e os movimentos
dançantes
como palmeiras
flamejantes,
são
hospitaleiros, alegres, comunicativos
menos tímidos que
os de África
(parece que
vieram de lá,
mas aqui é que
miscigenaram)
e andam seminus.
A arquitetura
antiga é de um barroco
tardio, com
adornos de cajus em vez de uvas
talhados
gracilmente em pedras e madeiras.
São tantas as
igrejas e seus estilos
mas andam vazias
mais gente há nas
escadarias, nos átrios
nas proximidades
do que dentro delas
e praticam alguma
forma
de sincretismo
religioso
(que a gente da
terra nem percebe)
sem maiores
conflitos.
A ocupação batava
dos séculos 16 e 17
resume-se a uma
fortaleza de pedra
e a uns olhos
acaramelados
a umas mechas
douradas
de alguns
descendentes
(mas eles não
sabem disso).
Fácil é ver as
raízes ultramarinas
portuguesas e
africanas
na indumentária,
na culinária
nos costumes
indígenas
mas tudo
entrelaçado
e devidamente
aclimatado.
III
Em Pernambuco
todos são holandeses
mesmo os negros e
os mamelucos
se não na pele,
no orgulho
e na postura
intelectual.
No outeiro de
Olinda os sinos rompem os séculos
de sua
colonização
enquanto em
Recife –— a Veneza americana —
continuam os
mascates, os mouros
e toda a gente de
pele de cobre e azinhavre
como caranguejos
no mangue.
Mais que o mar
que é detido pelos arrecifes
impressiona o mar
dos canaviais estendidos
devorando toda
terra plana ou ondulada
até as bordas do
agreste.
IV
Só a caatinga
cinza e espinhenta
detém a cana e
seu latifúndio
expandindo-se em
miséria e insolação
na direção das
Alagoas, do Sergipe
da Bahia e
Paraíba
na direção do São
Francisco
e depois delas
até às entranhas
do Ceará
e mesmo no Piauí.
De comum, a seca
e o bode,
a pele curtida
pelo sol inclemente,
a fome e a crença
nos elementos,
o mandacarú.
Por aqui
andaram Antônio Conselheiro
o padre Cícero
Romão e o famigerado Lampião
a Coluna Prestes
O sertanejo é
antes de tudo um forte
(garante Euclides
da Cunha)
comendo raízes e
bebendo do sereno escasso.
Retirantes,
esmoleres e pedintes, vaqueiros de gibão,
penitentes,
romeiros, vendedores ambulantes,
poetas errantes,
religiosos, repentistas.
V
O
sebastianismo continua vivo
no pensamento
figurado
oposto ao
pensamento letrado
do litoral.
Canto 64
ANTES DE TUDO UM
FORTE?!
Euclides da Cunha
achava o mestiço
“um decaído”, “um
mutilado”
que reúne o pior
de duas raças...
“sem a energia
física dos ascendentes selvagens,
sem a altitude
intelectual dos ancestrais superiores”!!!
Nunca a melhor
qualidade dos dois!
“Feridos pela
fatalidade das leis biológicas”,
condenados à
degeneração
e à
inferioridade...
Incapaz de
solidarizar-se
com qualquer de
suas origens.
Sem a capacidade
abstrata
com “uma
moralidade rudimentar”.
Para ele, o
mestiço é um intruso
“dispensivo e
dissolvente”
“sem caracteres
próprios”
com tendência à
regressão
“às raízes
matrizes”
daí sua
instabilidade...
O mulato despreza
o negro
e tenta
embranquecer-se...
O mameluco faz-se
bandeirante
e vai dizimar os
índios...
Para ele, “são
invioláveis as leis
do
desenvolvimento das espécies”
e a parte
“superior” do mestiço
tende a
restaurar-se...
E completa,
inexorável, sua razão:
Quando “a raça
forte não destrói pelas armas,
esmaga-a pela
civilização”...
Salva-se da
degeneração, o sertanejo
— que “é um
retrógrado, não é um degenerado”
de uma raça
cruzada que surge autônoma
e de algum modo
original
adaptada ao meio
e capaz de
alcançar a vida civilizada...
Canto 65
MOBILIDADE SOCIAL
os brancos das
casas-grandes
e os negros das
senzalas
os brancos dos
sobrados
e os mulatos dos
mocambos
os brancos dos
palacetes
e os caboclos das
palafitas
os brancos dos
edifícios
e os mestiços das
favelas
|