Canto 15 DESMEMÓRIA Não sabemos se os mortos (ainda) governam os vivos; país sem heróis -amnésico- não freqüenta os cemitérios embora invoque espíritos errantes.
Canto 16 MARE CLAUSUM “A América e o Brasil foram apenas “achados” nas datas oficialmente comemoradas, pois seus verdadeiros descobridores, cumprindo o juramento feito, tiveram o cuidado de não revelá-los”. FERNANDO PINTO CABRAL IO Tratado de Tordesilhas (a 7 de julho de 1494) dividia ilhas e terras ainda por descobrir ou já descobertas... (Antes e depois!!!...) entre os católicos e apostólicos reis de Espanha e Portugal. Nada mal. O Papa Alexandre VI deixava de fora das conquistas os hereges protestantes. Pois, pois. Existem tantas versões e revisões... Haveria um outro acordo, secreto para interpretações mais seguras? Afinal, quem descobriu a América? Espanha ou Portugal? Para mim, tanto faz... II. S.F.Z. Era Colombo genovês, catalão ou português?! A resposta, se houver, não me garante o pão e o feijão no fim do mês... A história é controversa podemos mudar de conversa... Para o poeta interessa mais a pergunta do que a resposta esta posta ao historiador... Se eu tivesse que (ou pudesse) escolher o nome do Redescobridor da América ficaria com o meio-judeu - helenista, cosmógrafo, hebraísta – SALVADOR FERNANDES ZARCO filho bastardo do Infante Dom Fernando de Portugal. Cristão-novo espião português, tido por genovês a serviço dos Reis de Espanha!!! Habituado a se chamar - uma confusão tamanha!!!- Cristovao Colombo Cristovam Colom (Cristóforo Colombo) Crhistofom Colom Christofon Colom Cristóbal Colón em grafias e regalias palacianas. Nunca jamais assinava o próprio nome... Usava sigla e monograma pra autenticar cartas a reis aos amigos e aos filhos... O monograma, decifrado combinava as letras S, F., Z... Salvador Fernandes Zarco. III. OVO ERECTUS Salvador Fernando Zarco era capaz de convencer almirantes por ser culto e experimentado marujo salvo a nado de batalhas ousado e, sendo fidalgo, de chegar à presença de reis e poderosos - o que um tecelão genovês que nem a língua pátria sabia certamente não conseguiria.... Ele vendeu a hipótese convincente - com a obviedade de um ovo – de ir ao Oriente pela rota do Ocidente (mas, em vez da Índia, chegou ao novo mundo...) [Sempre a serviço do rei de Portugal...] Às terras descobertas dava denominações encobertas... Nomes portugueses, com certeza... Na Spaniola, onde aportou, encontrou nativos “brancos como em Espanha” e que já conheciam as caravelas... IV DESPISTAMENTOS À primeira ilha encontrada deu o nome de Salvador - supostamente dedicada a Cristo...- mas Salvador era o próprio nome - certamente – de Cristovam... À segunda denominou Fernandina - homenagem ao Rei Fernando, de Castela? – mas Fernando era o próprio pai ... À terceira deu o nome de Isabela - para honrar a rainha Isabel? – mas Isabel Zarco era a sua mãe... A quarta recebeu o nome de Juana - homenagem a Dom João II seu primo e cunhado e seu verdadeiro soberano? Por ser tão óbvio, no seu Diário mudou o nome para Cuba - sua terra natal, no Beja. Posteriormente, mudou definitivamente para Longa, com cuidados... Spaniola era a Península ibérica e não apenas o nome de España... Spaniola, um diminutivo, bem podia referir-se a Portugal... Alfa e Omega – já existentes em Portugal eram também símbolos hebraicos... Belém, Assumpción, Buena Vista tinham ascendências lusitanas... Por pouco não colocou Nova Belém... E até Brazil – porto da Spaniola... Brazil era já, então uma das ilhas dos Açores!!! E que dizer de Curaçao - ou Curação, pelo fato de curar ali os marinheiros vitimados pela maldição do escorbuto... Faro, Galera, Graciosa Morón, San Jorge, San Luiz San Nicolas, Santarém, Guinchos. Deu apenas nomes portugueses - disfarçados – a toda a toponímia... V ENIGMA Que projeto realmente perseguia? Se realmente queria cristianizar os indianos por que não levava missionários em sua tripulação?! Perseguia o intento de encontrar povos hebreus desterrados? [Já então havia referências a índios circuncidados e com nomes hebraicos...] Por que levava um intérprete hebreu a bordo? Teria dado o nome de América em homenagem a Américo Vespucci? Pouco provável, sendo Salvador (ou Cristóvão...) seu superior... Mas havia uma tribo visitada em 1502, que ele reportou... – Americ ou Amerique... – em seu regresso. Zarco, vulgo Colombo, passou oito dias em Portugal antes de regressar à Espanha... Estranha ousadia... Visitou e relatou ao Rei D. João II sua viagem às Índias Ocidentais... O soberano português, depois considera-o “especial amigo” em carta enviada a Sevilha. Que amigo descobre um continente para o inimigo ou concorrente?! Canto 17 O VERDADEIRO ACHAMENTO ? Ano Santo de1500. Eram quatro caravelas como as de Cristóvão Colombo em demanda de Cathay e de Cipango das especiarias do Oriente. Mapas incertos, rotas imprecisas. “Nasceu uma terrível tempestade de ondas e turbilhões de vento”... vagalhões ciclópeos, ventos uivantes depois de cruzarem o Equador, a Estrela Polar e seus desígnios tenebrosos. Mare-magnum. Vicente Yánez Pinzón capitão da Coroa de Castela descobre as praias desertas depois dos embates do mar. Costa alta e verdejante mar adiante com seus contrafortes azuis, depois das águas turvas em alta mar... Aonde chegaram os marinheiros errantes? Aquém ou além das Tordesilhas? A que paragens desconcertantes? A Pernambuco ou, antes, ao Ceará ou quem sabe ao Amapá? Nem havia Pernambuco, nem lugar algum por reconhecer, eram terras de nomimar. “Santa Maria de la Consolación” foi nome de batismo das terras por conquistar ao norte do Cabo Orange ou seria na Ponta do Mucuripe quem sabe no Cabo de Santo Agostinho... Apenas pegadas na areia e fogueiras à distância. Sobreveio o enfrentamento entre nativos (potiguares?) e espanhóis; diz-se que eram os da terra ferozes e arredios ou que resistiram “com grandíssimo ímpeto” ao arresto e ao seqüestro... Singrando mares costa avante enxergaram um monte “vermelho bico de cisne mergulhado no oceano” depois de rezarem por seus mortos. Mais adiante, aportariam “às terras felizes pela fertilidade do solo” habitadas por “gente mansa e sociável mas pouco úteis” por não ostentarem riquezas... Encontraram as águas que adoçavam o mar aberto região de Marantiabal -o futuro Amazonas, do Orellana– que Pinzón denominou Santa María de la Dulce Mar. Àquelas praias remotas àquelas vastidões desconhecidas àquelas muralhas verdes coroadas àqueles estuários mansos-ermos chegaram as naus do achamento e do encantamento. O fim do episódio ou o começo, se se quer, foi a coleta de aves, de animais e de plantas (embora almejassem o Eldorado) e a escravidão dos gentios -“povos nus, mansos e pacíficos”- que chega aos nossos dias. Canto 18 MARES NUNCA DANTES... Até onde chegaram os descobrimentos portugueses desde a Escola de Sagres em tempos do Infante Dom Henrique? Que sigilo encobria périplos e circunavegações daquelas viagens exploradoras sob o signo da Ordem de Cristo? Teriam os portugueses DIOGO DE TEIVE e PEDRO VASQUES - conforme o testemunho insuspeito de Fernando Colón - filho do Cristóbal Colón!!! – chegado às terras americanas em 1452, quarenta anos antes do Descobrimento?! Seja verdade ou fantasia - apesar das provas documentais – O Tratado de Tordesilhas negociado, favorecia Portugal... Garantia a navegação exclusiva no litoral africano para as Índias... (às verdadeiras, por suposto...) Seria a história invertida? Portugal teria descoberto a América e os espanhóis o Brasil? Ou estaria o Brasil nas rotas dos descobrimentos portugueses (secretos) que o Tratado de Tordesilhas viria depois legitimar? Em que versão acreditar? Então, Cabral viria apenas confirmar o que já era sabido... (e “se tinha mais que simples indícios”...) o que já estava garantido... “Um fato perfeitamente voluntário” assevera Fidelino de Figueiredo. Teria vindo “descobrir” apenas para completar a encenação? [Afinal, o Tratado de Tordesilhas reservara para Portugal aquela área desconhecida.. E a defenderam com tanta artimanha na partilha com a Espanha... Portugal levou para a barganha cartógrafos experimentados enquanto a Espanha mandara letrados e clérigos emplumados...] Surpreendente a naturalidade com que o escrivão da frota participou ao Rei: nenhuma palavra sequer de espanto a resplandecer o regozijo pela inesperada fortuna... confirma Pedro Calmon. A carta de Caminha não demonstra nenhum espanto... Que encanto teria mudado a rota de quem conhecia os caminhos? Era apenas um álibi, um lorota para enganar os vizinhos? Canto 19 HOUVEMOS VISTA DE TERRA Reiteramos: nenhum espanto naquele santo dia em que divisaram sargaços e o pedaço saliente de um continente (possivelmente) redescoberto: acharam um território previsto e (já) concedido no Tratado de Tordesilhas. Nenhum assombro no discurso de Caminha ao seu rei Dom Manuel -apenas um desvio de percurso até àquele rio em sua embocadura como quem toma posse ou lavra escritura do que já era seu. Em vez de Descobrimento apenas o documento de posse e seu sacramento em missa campal e início de povoamento para “cuidar da salvação” daquela gente de Santa Cruz ou Pindorama. Pura formalidade pois a verdadeira finalidade era a rota das especiarias: às Índias destino final da viagem de Pedro Álvares Cabral. Canto 20 OS PRIMEIROS DEGREDADOS Afonso Ribeiro, mancebo desafortunado foi o primeiro degredado entre o gentio da terra para “saber de seu viver e maneira” mas é mais de uma vez rejeitado... Mas ficaram em terra nova dois condenados e dois grumetes foragidos de quem não mais se ouviu falar. Somos todos descendentes desses pobres desgraçados? Seriam meus/nossos retroparentes? De que genealogias emergiram? Que erro, que crime cometeram - sacrilégio, perversão – para sofrerem tal desterro? E os grumetes preferiram o paraíso? Canto 21 DEGREDADOS Desertores, degredados, náufragos e outros homens abandonados deambulando pelas trilhas litorâneas personagens solitários, marginais povoadores sem alternativa traficantes. Por onde andou Caramuru? O que fazia João Ramalho suposto fundador da Paulicéia pelos desertos da Cananéia? A que senhores serviam? Teriam sido polígamos, acaso traidores de duas pátrias escravagistas, incréus, cruéis? Aleixo Garcia atravessou (mesmo?) o continente em busca de riquezas dos incas altiplanos? Havia mesmo planos ou eram sonhos, delírios nas Entradas e Bandeiras? E o sangue/seiva daqueles aventureiros? Os primeiros brasileiros (ou seus pais) na mestiçagem fundadora de nossa identidade. Hexa, penta tetra-avós de nossos avós paternos? Canto 22 NUDEZ E CATEQUESE “tomam tantas mulheres quantas querem” AMÉRICO VESPUCIO IAs matas eram nuas e nuas as praias e as serras. Puras, limpas, inocentes. Nuas as índias e suas crias. Não havia pecado nem vergonhas e maldades no despir e exibir corpos e intimidades. IIÍmpias, impuras, indecentes!! O pecado aportou com os religiosos e seus preceitos morbosos gerando preconceitos. Homens vestidos, armados, suados, fedidos, considerando lúbricos aqueles corpos limpos, lavados e dourados pela liberdade. Logo ultrajados, possuídos e escravizados enquanto se discutia a tese - res-nullis: uma coisa e não uma pessoa - de serem ou não humanos, se se podia humanizá-los pela catequese. Canto 23
INVENÇÃO DO BRASIL Nu e pintado a jenipapo com tatuagens e por alegorias Martim Soares Moreno simboliza a Invenção do Brasil. Deixado para aprender a língua e familiarizar-se com os costumes o jovem é logo assimilado e regride à condição da barbárie: - esta a versão do colonizador. Protegido de Jacaúna, cacique potiguar acompanhado de dois soldados estabelece uma fortaleza no Ceará; pela procriação e miscigenação dá início a uma nova civilização: - esta a visão de José de Alencar. Martim “barbariza-se” para “civilizar” no dizer analítico de Ítalo Barbieri: vira personagem do nativismo romântico em Iracema, uma lenda cearense (a virgem dos lábios de mel) na fundação do Romance brasileiro: e aqui faz parte do Cordel. Canto 24 POVOAMENTO E CRUZAMENTO RACIAL Viver com muitas mulheres - brancas, negras, índias – podiam os bandeirantes os senhores-de-engenho os militares e – por que não? – ainda que por exceção também os clérigos em seu ardoroso empenho de prazer e povoar. Pois a terra era vasta e vazia e havia que multiplicar e garantir a serventia. Uma poligamia enrustida (de linhagens mozárabes ou de origens tupiniquins correndo nas veias) culturalmente consentida como moeda corrente. Uma poligamia dividida entre o refúgio social da casa-grande e o subterfúgio da senzala. Mulatos, cafuzos, mamelucos numa multiplicação sincrética e geomética avançando e povoando sesmarias. Havia naqueles cruzamentos inter-raciais de classes sociais distantes; naquela fornicação descarada protegida pelos estamentos; naqueles coitos sem os devidos sacramentos um pacto de silêncio e de não reconhecimento. Filho de branco com negra o que era: era negro. Filho de branco com índia o que era: era índio e virava propriedade. E podia o dono vender ou esconder sob o manto protetor sem nenhum espanto ou pudor, a prole. Até mesmo tê-los como filhos adotivos e educá-los ou domesticá-los como servos sem nenhum embaraço. Tudo podia ser naquela bastardia que a lei protegia pela omissão e que a religião ignorava quando nada podia fazer. O resultado já sabemos: a morenidade de uma meta-raça - base de toda diversidade de nossa unidade racial origem de nosso sincretismo e a capacidade final de nossa santidade sem nenhuma beatitude. Canto 25 A AMPULHETA “só o trabalho livre” (...) “satisfaria os anseios de colonização do Brasil”. OSCAR CANSTATT (1871) Dois Brasis contrastavam na hora da Independência - um, ao norte, aristocrático mantendo privilégios coloniais e a escravatura - outro, mais pobre,no sul aberto ao trabalho livre pela imigração. Que impedia, então acabar com a escravidão a exemplo das repúblicas vizinhas?! Coloca-se a culpa na Monarquia... Quem tinha escravos e benesses eram os membros do Parlamento (desde então e desde sempre...). Qual a razão do contraste que levaria ao desastre da inversão da ampulheta da História? Canto 26 O DUETO MONÁRQUICO Ele, um garanhão católico libertino e mandão, industrioso e mesmo cruel. Ela, luterana inconformada em terras de ousadias consentidas e de tantas degenerações acobertadas. Ele, liberal (ou amoral?) em seus excessos e caprichos. Ela, infensa aos mexericos e indefesa nos constrangimentos. Unidos em matrimônio numa aliança |