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Sobre Antonio Miranda
 
 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A 3a. tiragem deste panfleto de cordel livre, de 2000 exemplares, lançada pela Thesaurus Editora,  foi amplamente distribuída durante a XXII Feira do Livro de Brasília, em 2004. Saiu também uma edição especial, para amigos e colecionadores. Existem duas versões em castelhano, por Sofia Vivo e outra por Ricardo Ruiz (usada esta para as duas edições da Eloisa Cartonera, em Buenos Aires, 2006 e durante a Bienal de Arte de São Paulo). Em seguida veio a edição artesanal da editora Dulcineia Catadora (São Paulo, 2007).

 

Depois é que aparece o filme "Tropa de Elite", em 2007, desmistificando o mundo do tráfico de drogas e a ação da polícia, revelando a falta de políticas públicas para combater o crime organizado. Mostra a corrupção no aparelho repressivo e a conivência dos políticos. "Tropa de Elite 2" reencarna a figura do (promovido) coronel Nascimento, anti-herói nacional.

Novos bandidos aparecem, mas não ofuscam a figura de Fernandinho Beira-Mar que, durante as invasões às favelas do Cruzeiro e do Complexo do Alemão, em novembro de 2010, reaparece numa tatuagem no braço de um jovem aprendiz de bandido capturado pela polícia.

 

É hora de re(ler) São Fernando Beira-Mar.

 

 

 

 

SÃO FERNANDO BEIRA-MAR

 

 

I

O ruído fervilhoso de mil celulares

como bocas cariadas blasfemando,

orelhas aguçadas, sirenes soando,

chamadas alucinadas no âmago

da noite interrompida, aquelas vozes

todas, aqueles anúncios espalhafatosos, 

imagens tortuosas nos painéis

eletrônicos, carros passando distraídos 

com senhores circunspectos, calados,

sinos de igrejas invisíveis, queixosos, 

parafusos obstinados, pregos, vozes

indignadas anunciando o fim dos tempos.

Crianças com armas na mão. 

 

Abandonados por Deus! Dilacerados,

pensamentos errantes, incredulidades.

 

Terroristas tramam seqüestros 

de celebridades, para o regozijo

do homem da mídia enquanto

traficantes violam containers

e médicos amputam sepultos, 

padres rezam missas solenes, 

lêem homilias dominicais, 

saem bugigangas chinesas de caixas, 

voltam a crucificar Jesus, serram-no

ao meio, exibido na TV, para servir

de exemplo e admiração.

 

Iras, arrependimentos, imprecações. 

 

Assaltos, rezas, sobressaltos, 

ruas desertas, ferrolhos, grades, 

trancas, alarmes, circuitos

monitorados, escutas telefônicas.

 

 

II

Aquela bala perdida tinha um sentido;

aqueles mortos calcinados riam de nós;

policiais encapuzados sitiam quarteirões

abandonados, desovam cadáveres, 

torturam, atiram em qualquer direção. 

 

Parece que é um vídeo-clip ou um game, 

coisa pelo estilo. Ninguém sabe ao certo.

 

O ministro da justiça elabora plano

para a polícia federal – se possível –

atingir o nível das organizações

criminosas e pede outras providências: 

armas tão poderosas quanto as

que ostentam os contrabandistas. 

 

Plano mirabolante mas verossímil,

Hiperrealismo alucinante: fantasia

sangrenta, fútil, absurda, violenta, 

bela e terrível como no cinema.  

 

Dá-se então o toque de recolher.

Um bandido é morto

outro é empossado.

Fecha-se o comércio

metralha-se um posto policial 

abre-se um túnel mas 

o preso sai pela porta da frente. 

 

 

III

Oh náusea, oh nojo!

 

Sangue mais que sangue, 

vômito mais que vômito.

O senhor delegado reclama a sua parte.

 

Fezes mais que fezes!

 

O senhor deputado rende a sua homenagem. 

 

As covas revelam os seus segredos

os lixos desbordam e as fossas abertas

mostram os seus mortos putrefactos. 

 

O senhor vigário

o líder comunitário

o dirigente sindical.

 

As nuvens seguem indiferentes

as chuvas caem ácidas

os valões transbordam águas estagnadas

os pântanos poluídos pestilentes. 

 

Anjos raivosos estupram monjas 

e drag-queens eufóricos comemoram

o carnaval fora de época. 

 

Reivindicam-se terras públicas

enquanto deputados retóricos

aumentam os impostos e

os próprios salários.

 

Estandartes exi bem São Fernando

de camiseta e bermuda

na procissão dos deserdados.

Por isso é feriado, dia santo.

 

 

IV

 

Há luzes e gritos e algazarra

na cela dos condenados.

Chegam pizzas on delivery

Maconha on demand

mulheres, mulheres, mulheres

a escória em festa celebra.

 

Tem a lei vigente

mas que não cola

tem a lei do cão 

que predomina

leis que derrogam leis

e leis que se auto-defenestram.

 

São Fernando Beira-Mar 

também dita suas leis,

com força de lei.

 

O bandido obedece

o comerciante obedece

o policial obedece

parece que o ministro 

quer usar o modelo

numa medida-provisória.

 

O ministro quer saber 

se a lei emana do povo
ou de alguma divindade. 

 

 

V

Desce do céu, vem da selva, sobe o morro 

uma saraivada de balas, fogos de artifício

anuncia sua chegada.

Urubus velando vítimas anônimas

cadáveres insepultos

moleques aprendizes correm desenfreados

olheiros

meninas de seios rijos

celebram desejos no strip do baile funk

(quadris exultantes, febris).

 

Que coreografia!

Como é belo o pavor dos inimigos!

 

São Fernando aparece entre batedores festivos

rajadas de metralhadoras

barba de guerrilheiro, ícone vivo, poderoso

sem limites

desafiando a morte, justiceiro, vingador.

 

Viril.  

Preso, é maior ainda o seu poder. 

Celas sem paredes
celulares, advogados
além das grades, dos muros, das leis.
Onipotente.

 

Um cérebro público, exposto, radiante

um gênio além do bem e do mal. 

 

Um sorriso de triunfo, de escárnio.

 

Fé inútil na justiça

religiões subservientes

juizes de aluguel.

 

Preso, está em toda parte. 

A Organização é o paradigma do novo ministro.

  

São Fernando abre caminhos a fogo

seqüestra, mata, vinga enquanto arrecada

e distribui riquezas.

 

Um herói, um santo

um ídolo.

 

Os jornalistas elegeram-no

os policiais o protegem

os políticos servem-no.

 

Há um São Fernando em cada igreja

Um Fernandinho em cada beco. 

 

Na mais remota prisão de segurança máxim

está um sósia, um clone.

 

O ministro tem-no como assessor

especial 

quer equiparar a polícia

à organização dele

equiparar seus efetivos (?!)

aos dele.

 

A isso chamamos joint-venture,

parceria.

 


VI

É a gosma ulcerante, a saliva viscosa,

é o escarro ácido, o catarro curtido.

 

O ministro compra novas viaturas

e há suspeita de super-faturamento.

 

É o caminho viciado, a norma paralisante, 

é a lei invocada para deter a própria lei.

 

O ministro forma um grupo de trabalho

para discutir matéria já decidida.

 

É o subterfúgio, o sub-reptício, o simulacro,

é a procrastinação, o ato falho, arrepio da lei.

 

Comissões de inquérito, auditorias surdas

e mudas, grupos-tarefa, consultorias. 

O ministro pode ser substituído

está com prazo de validade vencido.

 

 

VII

 

O ministro tem uma cauda de pavão,

o santo tem um falo grandiloqüente. 

 

Na audiência pública

o ministro manifestou indignação

chorou sobre os corpos de policiais mortos

beijou as viúvas com certo asco e enfado

e declarou medidas para

quer dizer, garantiu que

depois de asseverar

de ouvir os

de citar alíneas e verbetes de dicionário.

 

Garantiu uma trégua com os bandidos

para os dias de carnaval.

 

A greve do sistema judiciário

não afeta o

muito menos o

a menos que.

 

Falta verba mas há vontade política.

Espírito de corpo

espírito de quê?     

 

O ministro posou nu para o noticiário

e garantiu transparência nas investigações. 

No mais, apenas confabulações.

Ele continua ministro 

e há estatísticas que provam

que os seqüestros diminuíram

mas aumentaram a produtividade.

 

O sistema bancário saiu fortalecido

incorporando seguradoras

e sistemas de segurança.

 

Fernando está desaparecido do noticiário

está na masmorra, ou está em Miami 

está dirigindo seus negócios na favela

na selva colombiana, pagando propinas

coletando contribuições para as eleições. 

 

(Um juiz escondeu as fitas daquele inquérito

e ameaça os figurões do governo).

 

Fernando perdeu a fé na democracia.

 

Eu perdi o respeito pela poesia. 

 

 

 

ANTONIO MIRANDA

poesiaiberoamerica@hotmail.com

 

 

 


 

 

 
 
 
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