Fonte: http://www.rao.unibanco.com.br
/Anteriores/2002/por/vid/index.asp.htm
ANTONIO FERNANDO DE FRANCESCHI
Nasceu em Pirassununga, interior de Estado de São Paulo. Graduado em Filosofia, editor dos Cadernos de Literatura Brasileira do Instituto Moreira Salles.
Tive o prazer de conhecer o poeta recentemente, em seminário do Comitê Gestor da Internet (São Paulo, 2007) em que discutimos questões relacionadas com conteúdos na Internet e a identidade cultural. Ou seja, além da poesia, temos em comum o interesse por questões relacionadas com os sistemas de informação e sua relação com a cultura. Antonio Miranda
Obra poética: Tarde revelada (1985); Caminho das águas (1987), Sal (1989), A olho nu (1993).
SÍLEX
face angular
que cavo a talho
esta em que me mudo
reiterado
cópia provável de mim
no mudo rosto
e abrasado golpe
que desfecho:
minha antes não fosse
a dor
e a mão crispada
que desce
fere
e me desvela pedra
CIRCO MÁXIMO
Leões incontidos
tangenciam os varais
sou a carne exposta
no festim impuro
promessas de meu ventre
em seus dentes duros
no sangue imolado
de rompidas veias
me parto hóstia fendida
me derramo na areia
eu matéria consentida
desta rude ceia
POETÁRIO
Alma: a que se tem, aristotélica ou platônica, incescapavelmente,
como queria Coleridge.
Buril: (des)razão instrumental, hiato entre intenção e ato.
Corpo¨incondicionalidade, invólucro ad extremum.
Diktat: ter uma única, estrita, regra: jamais furtar-se ao mistério.
Eu: por que não?
Falso: se se enreda no real é para sua e dele maior verossilhança.
Gosma: imantação líquida, seiva, intervalo entre estados.
Homem: radiação, ser em mundanidade, enigma.
Istmo: contínuo interrupto.
Jamais: se repetido já não é.
Lira: a que troquei pela experiência e a vida, a que ainda me embota.
Maré: eco lunar.
Nuvem: água furtada, mulher.
Oblíquo: vertigem do plano.
Poesia: o dom.
Que: a pedra no caminho, glória e miséria da prosa, praga da poesia.
Retorno: se curvo o movimento, é eterno.
Sol: luz, solus.
Tudo: o ominosamente radical.
Uva: morder a polpa tenra como Baco fazia.
Verde: cápsula de líquen, paixão da Flora.
Xis: o que não se mostra, quase sempre, nas questões.
Zebra: tresmalhado Eqüus.
SÍTIO DO CAMINHO
águas sulcando fendas
seixos polidos
e galhos hirtos pelo chão
resvalados nas vertentes
esparso leque das graminhas
sob as frondes
verde espessura
aflorações
vertigens e serpentes
e mais além
o mistério intocado
das nascentes
ALGO
há algo feito e acabado
que desmente a teoria
algo livre das aduanas
que flota justo e medido
no lírio das cumeeiras
algo subtraídos das ganas
que se preserva intocado
algo entre as unhas
pelo tecido lunar
que te desconcerta e redime
algo certo algo errado
como inteiro domicílio
uns restos no copo
e a ressaca da volta
algo que é também soberba
e te ilumina
algo que não pode ser recuperado
por simples razão
teus mitos
como um quarto fechado
algo vertido na lâmina
que por descuido a corrói
algo sem gume nem corte
mas cujo toque dói
DESENHOS DE OBSERVACÃO
(excerto)
X
enfim o olhar
afasto da janela
nem tudo nela
é novo
lá fora o mundo
passa
e a fecho
como um ovo:
altero todo um Ser
pois que me movo
Fonte dos poemas:
RECANTO DAS POESIAS: http://br.geocities.com/jerusalem_13/antoniofernando.html
AZOUGUE 10 ANOS, org. Sergio Cohn. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2004. ISBN 85-88338-38-6
Um volume com as entrevistas realizadas com poetas e escritores, reveladoras da atividade criativa e de suas visões sobre a própria obra. Excelente!
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RETRATO X
sob pálpebras celebrado tenso ato
ao que se cria é puro vão: hiato
que sem recato é me tecer versado
o vezo duro por rima pobre alinhavado
e assim em vasto ardor já me desato
e ao tardo naufragar que é meu retrato:
sequer sem parecer a cópia ao copiado
sequer vestido o traço com cuidado
e atento sempre aos dois vou comparando
um ao que sou: outro ao que de mim me digo
um ao que pinto: outro ao que tanto maldigo
e nos cotejos inteirados vão se somando
a sombra que é só treva augusta e vem comigo
e o duplo meu em luz que acolhe e dá abrigo
CRONOS
não vejo e arde
não sei e é
tarde
De A Olho Nu. São Paulo: Companhia das Letras, 1993
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RICERCARE
a cada sucessiva
onda
opõe-se a pedra
ao mar
que colhe dela
com seu revés
exíguo efeito
mas de tal modo
infindo
renovado
que após eras
de inteireza
a dura rocha
cede
e torna assim
enfim desfeita
à branca areia
que é seu pó
FAMINE
me nutro desta fome arcana
que morde duro sempre mais
na funda veia onde rapino
pedaços de paixão desatinada
em que me ponho ardente a teu serviço
e desta sede que te pede fonte
aberta e clara ao pé de mim:
insaciada
VENAS
“The blood jet is poetry.”
YLVIA PLATH
no extreme ponto
o talho doce: o corte
susto ligeiro
o leve sopro: a morte
Extraídos de CAMINHO DAS ÁGUAS. São Paulo: Brasiliense, 1987
Página ampliada e republicada em março de 2008
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