MOACIR DE ALMEIDA
(1901?-1924)
Poeta verdadeiramente precoce, escreveu os primeiros versos ao nove anos de idade, e teve vida breve, falecendo aos vinte e três anos, de uma grave hipertrofia cardíaca. Autor de um livro único, mas definitivo, dos melhores de seu tempo.
Considerado um poeta “reencarnacionista” pelos espiritistas, como poesia espírita, por causa do poema “À Angústia”, embora possa ser apenas uma licenciosidade poética.
“Sua arte era vertical e atirava-se sempre para o alto, não compreendendo o rasteiro, o horizontal. AGRIPPINO GRIECO
“A poesia de Moacir de Almeida possui um sentido vertiginoso de infinito.” JAMIL AOLMANSUR HADAD
Foi a vida atormentada de Moacir de Almeida que o fez grande entre os maiores de seu tempo.” OLEGARIO MARIANO
“Foi um poeta de visões universais e de preocupações sociais.” MURILO ARAUJO
De
GRITOS BÁRBAROS
e Outros Poemas
AMARGURA
Ah! não ser compreendido é a tortura do Artista!
Ofegante, rompendo os joelhos pelas fragas,
Vê, debalde, fulgir, nas nuvens de ametista,
A miragem do ideal, entre as estrelas magas...
Arqueja; o vendaval de angústias que o contrista
Vem-lhe aos olhos sangrar em tristezas pressagas...
Alça a vista: arde o céu tão longe! Baixa a vista:
Tão longe os corações a rolar como as vagas!
E ele, que tem o azul preso no crânio aflito,
Abre em astros de sangue a noite dos abrolhos,
Ergue constelações de rimas no infinito...
Soluça de aflição no deserto profundo,
Tendo os astros no olhar e a noite sobre os olhos,
Tendo os mundos nas mãos sem nada ter no Mundo!...
Á ANGÚSTIA
Sinto-te em mim como um vampiro... Sinto
Tua asa a fremir em meus olhos profundos:
— Persegue-me através do labirinto
De outras encarnações e de outros mundos.
Vejo-te na espiral rubra do Instinto,
Entre os meus gritos de tormento, oriundos
De ti, que passas no meu sonho extinto,
Como, no oceano, os ventos iracundos...
E, nas noites de angústia, em que se alarga,
— Mancha de sangue — a minha sombra amarga,
Entre os prantos de fel de que te nutres,
Tu, anjo, esmagas, em funéreas chispas,
Meu crânio em tuas mãos, que, uivando, crispas,
Negras, como dois trágicos abutres!
INVOCAÇÃO À MINHA DOR
Não arranques o lenho de tortura
Dos teus ombros... Estende, dos espaços,
As duas vias-lácteas dos teus braços,
Iluminando a minha vida obscura.
Vejo na própria luz teus roxos traços...
Teu beijo me avermelha a fronte impura...
Mas quanto mais vacilo de amargura.
Mais os astros rebentam dos meus passos!
Dor fecunda! Jamais, da angústia imensa
Afastes o esplendor em minha vista...
Tombe o amor! Tombe a glória! Tombe a crença!
E, agonizante e mudo, ao sol profundo,
Eu despedace o coração de artista
Numa aurora de versos sobre o mundo!
PRECE
Deus dos que sofrem! Deus dos que, sentindo
O travo amargo das angústias, vão
Enchendo o mundo de um clamor infindo,
Rebentando num grito o coração.
Deus dos fortes, que vivem repetindo
A tragédia do Cáucaso, e os que são
— Cristos crucificados sobre o Pindo —
Aureolados de sangue e de ilusão.
Deus! Se, no horror deste sofrer medonho,
Hei de vencer, por fim, na ânsia divina,
Bendigo a dor, bendigo o meu sofrer,
Bendigo o sonho que me arrasta ao sonho,
Tendo todos os astros na retina
E todos os abismos no meu ser!
ÁRVORE NEGRA
Árvore de um país de tempestades,
Nas cordilheiras trágicas da Vida,
Tenho as raízes entre a rocha, a erguida
A fronte às nuvens das imensidades...
Rangem meus ramos negros, à investida
Das procelas de torvas claridades,
Quando, ó Destino, os céus em luz invades,
E ardo num luar de sangue submergida...
E, ao beijo dos relâmpagos, estendo
Os braços nus, em comoções violentas,
Vendo as folhas rolar no espaço horrendo,
Sem uma asa em meus galhos sofredores,
Sem um riso de flor, porque as tormentas
Passam despedaçando as minhas flores...
TABOR
Vertigem deslumbrante! Astros, quimeras,
Em transfigurações vertiginosas,
Tudo ascende o Tambor de sombras e eras,
Onde a carne que tomba ergue-se em rosas.
O Himalaia foi sol; noutras esferas,
Os seios de Hero foram nebulosas;
E as mãos de Victor Hugo, em primaveras,
Foram as asas de um condor, gloriosas...
Minha lágrima ardeu num raio aflito;
Meus olhos, cheios de visões supremas,
Foram lavas; e, ao beijo do infinito,
Meu coração foi rocha: e, ansiando em gemas,
Ainda hoje é rocha... É o Cáucaso maldito
Onde se estorce o Prometeu dos poemas!
DOMADORA DO OCEANO
Eis a teus pés o oceano... É teu o oceano!
Deusa do mar, teu vulto aclara os mares,
esguio como um cíato romano,
nervoso como a chama dos altares...
A alma das vagas, no ímpeto vesano,
ajoelha ante os teus olhos estelares...
Eis a teus pés o oceano... É teu o oceano!
Cobre-o do verde sol dos teus olhares !
Sou o oceano... És a aurora! Eis-me de joelhos,
ainda ferido nos tufões adversos,
lacerado em relâmpagos vermelhos!
Sou teu, divina! E, em meus gritos medonhos,
lanço a teus pés a espuma de meus versos
e as pérolas de fogo de meus sonhos!
NÔMADE
Triste e exausto, arrastei-me por sombrias
terras de angústia, aos astros e às tormentas,
tendo nos olhos as visões violentas
de crucificações e de agonias.
Vales da morte, solidões nevoentas
do tédio, abismos de paixões doentias,
manchei de sangue; e fiz, das pedras frias.
brotar estrelas em caudais sangrentas.
Nômade das paixões desesperadas,
enchi de sonhos todas as estradas.
E o amor que todos têm - visão serena.
que a vida de outros faz florir em chama
-só pude ouvi-lo em bocas de gangrena,
só pude tê-lo em corações de lama...
DESESPERAÇÃO DE CINZAS
No martírio das minhas esperanças,
tive raivas, blasfêmias, desvarios...
E ergui meus braços, hirtos como lanças,
contra os astros sonâmbulos e frios.
Porque jamais os sóis, em noites mansas,
rasgassem luz nos meus fatais transvios,
abri-me em ódios e desesperanças,
como um vulcão se abre em clarões bravios.
E — cratera de anátemas e assombros —
tudo queimei em brasas de tormentos...
E, hoje, que o amor despenha em lama e escombros.
- contra as constelações, a escurecê-las,
arrojo as cinzas do meu tédio aos ventos
e a fumaça dos sonhos às estrelas...
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