o terceiro jardim
para Romero
Não era primeiro nem segundo
dividia seus caminhos entre as rodas de patins
e o peito de um jovem pombo.
A Foto Fatal registrou a cena
da juventude a meio
entre paixões e ódios
que no jardim cavavam seus canteiros.
Futuro e mar em frente pareciam mansos,
coniventes.
Não foram ... mas embarcamos neles para sempre.
No terceiro jardim ficou o sonho
repetido agora a cada noite nos lençóis da cama
entre espumas marinhas e sargaços.
O Recife já morto e sufocado
na leveza desta areia e desta aragem,
na promessa da volta a esta praia.
Da Boa Viagem.
Corpo
O corpo é para estar deitado,
nesta redoma espessa que é a cama.
Aqui se encontra a vera forma
de quem ama.
Não dá para estar em pé, mas cercado
pelo dossel invisível
da sombra de um outro corpo,
que o cobre, imperceptível.
Este é o corpo ideal,
horizontal e vazio,
mas pleno do mais sagrado
veneno,
em prazer transfigurado.
Amor líquido
Um amor líquido me tantaliza.
Sua presença sólida me paralisa.
Escorre de meus dedos, é chumbo quente,
queima,
e deixa para sempre a marca
do ausente.
Amor líquido II
Um amor líquido escorre por meus dedos,
penetra em meu corpo lentamente,
e vai
até a fonte do meu bem.
Um amor chacal me prende em suas patas,
com garras afiadas rasga a fonte do meu mal.
Com ele atinjo meu prazer total.
Visitantes
Os visitantes do outono têm humores chuvosos.
Cinzentos me procuram e se instalam em minha cama.
Sinto meus pés molhados, meu coração encharcado,
mas contente.
Os visitantes do outono são gentis e falam baixo.
Não querem incomodar, mas incomodam.
Chegam muito lentamente e permanecem.
Por tempo indeterminado.
Quando o outono acabar vou conhecer o inverno
e seus hóspedes gelados.
Sempre mais úmidos, talvez mais ternos,
mas nunca quentes, como os dos verões passados.
Visitantes que hoje dormem
encantados.